terça-feira, 24 de novembro de 2009

Era uma vez em Salvador

Eu e mais três amigos decidimos ir passar o fim de semana, aproveitando o feriado da consciência negra, em Salvador. Nosso esquema de viagem era o tradicional esquema mochileiro. Levamos pouquíssimas bagagens, ficaríamos em um albergue no centro histórico da cidade, o Pelourinho, ansiávamos por encontrar muita gente bacana e sabíamos que não seria possível fazer todos os destinos turísticos. Na verdade, isso não nos preocupava: o que queríamos era conhecer pessoas novas, de Salvador e do mundo, sentir a energia da cidade e sua bagagem histórica e cultural africana. Daí termos escolhido o Pelourinho para ficar.

E não podíamos ter feito escolha melhor. Eu, que cheguei antes de meus amigos em Salvador, aproveitei o primeiro dia para andar pelo Pelourinho e, logo de cara, conversei e fiz amizade com alguns artistas locais que expõem nas dezenas de ateliês localizados ao longo das ruas estreitas do Pelourinho. Jorge Vidanova, um bahiano do interior da Bahia recém mudado para a capital, artista plástico e ator, me convidou para a inauguração do Museu de Cultura Afro de Salvador. Aceitei o convite.



A inauguração do museu afro inseria-se na comemoração da Semana de Cultura do Benin na Bahia, que iria promover uma série de eventos na capital bahiana para estreitar os laços entre o Brasil e o pequeno país africano. Para tanto, houve a exibição de uma série de peças de artistas do Benin, desde fotografias até esculturas em madeira e argila. Era de impressionar a força, ao mesmo tempo rústica e viva, que as peças emanavam. Uma delas, representando a tomada da África pelos colonizadores e a chegada dos escravos ao Brasil, era toda feita de material reciclado, sendo utilizado até mesmo lixo hospitalar, e ocupava todo o espaço de uma das salas do segundo andar do museu.

Durante todo a minha estadia em Salvador presenciei ruídos sobre a questão do negro no Brasil. Houve atos e manifestações na defesa do negro contra o racismo, a matança indiscriminada, a indiferença por parte das autoridades. Era bastante inquietante e confesso que me impressionou a mobilização dos militantes da causa negra na organização dos eventos. Uma jovem de seus vinte e poucos anos, monitora da exposição do Benin no museu afro, parecia um pouco frustrada com a repercussão dos marchas e eventos do dia da consciência negra. "A coisa foi completamente desvirtuada; isso aqui não é pra ser festa, tem que ser político, eu não venho aqui para me divertir" desabafou. E me explicou que em Salvador ocorreriam duas marchas para comemorar o dia da consciência negra, uma no bairro de Campo Grande e outra no bairro da Liberdade. A moça optou pela segunda, afirmando ser esta verdadeiramente representativa da causa negra, questionadora, uma proposta de denúncia e reflexão sobre os problemas que o negro enfrenta hoje no país.



Um pouco mais tarde, em uma festa reggae que fui com os gringos que estavam em meu albergue, outra militante do movimento negro parou para conversar comigo e com minha amiga dinamarquesa. Ela era bastante incisiva em seus argumentos, fazia campanha para um ato a ser realizado no dia seguinte, cujo título era "Mobilização contra o extermínio da juventude negra". Segundo essa moça, morrem por dia em Salvador 11 negros, de 17 a 25 anos de idade. Tentei argumentar que, obviamente, colocando de lado a questão da discriminação racial, a qual concordava com ela, haveria também de ser levado em conta o problema da desigualdade social no Brasil. Ela insistia que não era uma questão social, e sim racial.

Discutimos um pouco, sem no entanto se chegar a lugar algum. Em toda cidade havia outdoors e cartazes com o slogan "há muito mais para ver do que a cor da pele" ao lado de fotos de pessoas negras sorridentes ou com um semblante bastante seguro de si. Foi um contato imediato e muito intenso com uma problemática bastante distante do meu dia a dia em São Paulo. A meu ver, soava absurdo que uma capital aonde a extrema maioria da população é afro-descendente precise, em pleno século 21, organizar uma campanha que reafirme a dignidade negra. Eu, com minha cabeça de turista paulistano, pensava: "Como as pessoas não podem amar e admirar toda a cultura e história e todos que vivem aqui?".




A quantidade de estrangeiros em Salvador foi outra coisa que me impressionou muito. Cheguei a cogitar que há mais gringos em Salvador do que no Rio de Janeiro. Era incrível. Todos os lugares em que você fosse e, principalmente no Pelourinho aonde eu estava, era possível notar pessoas murmurando em diferentes idiomas com suas máquinas fotográficas à tiracolo. Essa foi sem dúvida uma das partes de estar em Salvador que mais me comoveu. A ideologia do mochileiro, de viajar o mundo inteiro sozinho, fazendo amigos, trabalhando aqui e ali, dormindo mal, comendo mal, mas aproveitando para conhecer culturas, com os olhos sempre abertos a construir novos valores e a entender novos modos de vida é simplesmente fascinante. Com muito pouco se constrói muito. E durante os meus passeios de ônibus ou a pé pela cidade eu costumava pensar nos diversos nichos que devem existir em Salvador. A cidade dos batuques, da malemolência e beleza da cultura africana, dos artistas e da arte, da história e do mundo com todas as nacionalidades ali presentes, a cidade do Pelourinho, que eu conheci, talvez não fosse de fato a cidade que outras pessoas conhecem. Ou seja, era intrigante para mim, por conta da intensidade vivida no Pelourinho, como outras pessoas reagiriam, construíriam a imagem da Bahia em suas mentes.



Na noite de sábado, outra faceta da cidade se mostrou presente para mim, ainda mais fortemente. Apesar de todas as advertências, inclusive de meus amigos, que já tinham viajado para Salvador há dois anos, de que haveria muitos mendigos, pedintes, e até mesmo assaltantes na cidade, até então nada disso havia se configurado concretamente para nós. Em Salvador, a desigualdade social é algo que se faz presente o tempo todo. Crianças muito pequenas, adolescentes, adultos, idosos...Há representantes de todas as faixas etárias o tempo todo pedindo esmolas, oferecendo o famoso "presente do bahiano", uma pulseirinha do Senhor do Bonfim supostamente dada de graça, às custas de algum dinheiro ou de outra compra depois, oferecendo todo tipo de serviço, desde massagens e canções na praia, até retratos típicos da cultura bahiana. É algo realmente marcante. Algumas pessoas mais insistentes, no nosso caso, um adolescente de seus dezesseis ou dezessete anos, chegam a perseguir turistas para conseguir algum trocado.

Perguntei a João Junior, um ambulante de 23 anos, que viveu em São Paulo por seis meses, se as coisas haviam melhorado em Salvador nos últimos tempos. "Não mudou nada. É muito difícil sobreviver aqui" disse. João, que trabalha também indicando restaurantes a turistas, havia nos levado em uma pizzaria e, de acordo com o combinado com os donos dos restaurantes, deveria receber 10% de tudo o que seus clientes consumissem. No entanto, segundo o dono da pizzaria, não era possível conceder a João o valor que lhe era de direito, dado que o jovem estava trabalhando do outro lado da rua, e não em frente a sua pizzaria. Fomos conversar com o dono da pizzaria, explicando que, caso não houvessemos encontrado o simpático João, não estaríamos ali em seu restaurante e que, se esse era o combinado, queríamos que João recebesse então o seu pagamento. Negativo. Resolvemos então dar de nossos bolsos a bagatela que o dono do restaurante negou a João: três reais.

Era óbvio que o dono do restaurante, com seus clientes do mundo todo, poderia pagar a João o que lhe devia. Entretanto, a meu ver, a desigualdade social existente em Salvador legitima a exploração do trabalho de maneiras assustadoras. Uma animadora do mesmo restaurante, que vestia-se em trajes coloridos, com uma maquiagem extravagante, me tirou para dançar. Dançamos ao som de samba por algum tempo, era muito engraçado porque a animadora era realmente muito divertida. A música acabou. Agradeci-lhe pela dança e já ia voltar para a mesa de meus amigos quando ela puxou a minha mão e me disse que um retrato com ela me custaria apenas dez reais. "Não, obrigado" lhe respondi calmamente. "OK, faço oito reais para você então!" ela retornou. "Não, obrigado!" disse novamente. "Cinco reais, não se fala mais nisso e você não conta para ninguém!" insistiu. "Uhmm...Não, obrigado, eu já tenho a minha câmera fotográfica" respondi meio sem jeito. Em Salvador, todos os preços são flexíveis. As pessoas nas ruas, os artistas, os prestadores de serviçoes básicos estão literalmente desesperados para vender e sobreviver.



Comer em Salvador é algo muito prazeroso. Há restaurantes, bares e lanchonetes de todos os tipos: desde aqueles extremamente baratos até os caríssimos para o turismo de luxo. Em nosso penúltimo dia, almoçamos em um bar simpatissíssimo, o Bar Zulu, cujo atrativo é a cozinha que traz pratos típicos de boa parte do mundo. Escolhemos dois pratos com curry indiano e um prato à moda angolana, o frango piri-piri. Havia também lentilhas marroquinas, comida típica dinamarquesa e pratos vegetarianos substanciosos. O cenário do restaurante, uma viela sem saída do Pelourinho, me lembrou o filme "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen, por suas cores berrantes, música baixa agradável e uma bela garçonete argentina que, como muitas das pessoas que vivem em Salvador, veio para a cidade para ficar alguns dias, se apaixonou pelo lugar e agora já está em Salvador há seis meses. Para quem gosta de pratos mais apimentados e exóticos, vale a pena conferir um bar e restaurante chamado Sankofa. O dono do restaurante, que leva seu nome, nasceu em Gana e traz para a cidade noites de música africana, MPB e salsa.

Não fomos em muitas praias. Mas não pudemos deixar de ver o por do sol na praia do Porto da Barra, um dos poucos lugares no Brasil em que o sol se põe no mar - e em que as pessoas costumam bater palma quando o sol se põe - e de conferir a praia de Itapuã, eternizada pela canção de Vinícius de Moraes e Toquinho. Fomos também à praia do Flamengo, um pouco mais afastada de Salvador, mas com uma paisagem incrível, uma longa extensão de areia e muitas barracas para se sentar. Essa parece ser uma área mais nobre da cidade.

De volta a São Paulo, olho para trás com saudade. Das rodas de samba e dos batuques do Pelourinho, que não param nunca, dos mochileiros e seu estilo de vida invejável, da cultura africana e sua beleza, do sol da Bahia e de suas praias, das cores berrantes das construções da cidade, dos bahianos e seu sotaque. De toda a efervescência cultural existente na cidade. Quem quiser um pouco de emoção contate o albergue Nega Maluca e fale com o Diego. Você não vai se arrepender.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Menina do século XIX

Era à tarde, estavámos no shopping. Fazia calor e ela trajava jeans. Tinha o cabelo de sempre; sem desafios. Voltávamos ao mesmo lugar de antes: aquele de nossa adolescência entrecortada, de visitas esporádicas, cheias de confissões. Eram ótimas e eram um alívio.

Dessa vez, havíamos crescido. Passaram-se anos, entramos na faculdade, mudamos de cidade. Eu, agora a 600 km, em uma cidade beirando os 20 milhões de habitantes. Ela, a 40 km de casa, com direito à voltas todo o fim de semana. E as mesmas pessoas de sempre, agora grávidas, drogadas, histéricas. Era uma realidade e não a era. Poderia muito bem ser um laboratório antropológico.

Para ela, agora, uma mulher deveria gastar apenas com os seus luxos; aos seus homens pertenciam as contas da casas. O sustento. Transparente como água. Explicitamente. Não se casaria com um homem pobre. O século XIX estava ali e não sabia. O século XIX vencera e corrompera, sequer se fora alguma vez vencido, a última das moicanas.

Era triste e era aceitável. Não haviam muitas possibilidades ali. Mesmo sabendo disso, sempre esperera o contrário...Talvez fosse apenas ingênuo. Talvez houvesse dentro de si uma esperança maior, que ultrapassava a mesquinharia corriqueira e enxergava algo de diferente nas pessoas que de alguma forma o marcavam. Não queria dar-se tanto crédito; era, entretanto, um escape, para poder resistir.

sábado, 14 de novembro de 2009

Coisas a se pensar...

Saiu o resultado das "eleições" para reitor da USP e, por mais que ainda existissem esperanças do esperado não se concretizar, o governador José Serra não deixou por menos em sua escolha, vinte anos depois da última vez em que o primeiro colocado da lista tríplice não foi o escolhido para reitor. João Grandino Rodas, diretor da Faculdade de Direito e segundo colocado, foi o escolhido.

Humilhante, para o primeiro colocado, não ter sido escolhido. Afinal, fica, se ainda é possível, mais do que clara a ingerência governamental dentro dos processos internos da Universidade. A troco de quê existe uma votação para escolhar quem os supostos professores mais "qualificados", membros do papado eleitoral uspiano, vulgo Conselho Universitário (CO), elegem, se no final o resultado de sua opção é ignorado pelo governador de Estado? É no mínimo ridículo...

E como salientou na Folha de S.Paulo de hoje o professor da FFLCH Renato Janine Ribeiro: cria-se um conflito ainda maior dentro da Universidade, que já tem um problema crônico de não representação de funcionários e estudantes nas instâncias deliberativas, o fato do reitor eleito não ter sido sequer o mais votado pelo CO.

Afirma o governador que meramente por motivos curriculares, dada a extensão do currículo de Rodas - em sessenta e quatro anos de vida do candidato, muito mais velho do que seus concorrentes - foi feita a escolha. Entretanto, a afirmação não resiste a uma análise mais profunda dos fatos.

Rodas tem ligações explicítas com a alta cúpula tucana, fez parte da equipe de governo durante o mandato de FHC e conquistou o prestígio do partido com a desocupação relâmpago da Faculdade de Direito em 2007, quando no mesmo dia chamou a PM para retirar estudantes e funcionários do prédio. Também na Folha de S.Paulo de hoje, o primeiro colocado, diretor do Instituto de Física de São Carlos, salientou o fato de que seus esforços para que o governador de São Paulo se interasse de seu projeto para a reitoria foram todos em vão.

Só temos a lamentar: um processo que denominam "eleição" em que são legitimadas as diferenças e a hierarquia entre os membros da Universidade - não só entre professores, funcionários e alunos, mas entre os próprios docentes - e em que os interesses estritos de produção de conhecimento da Universidade são aliados às politicagens do ocupante do cargo de governador da vez. Completamente estapafúrdio, para dizer o mínimo.

PS: e quando utilizam o velho argumento, para não se democratizar a Universidade e a eleição de seu representante máximo, de que, "bom, se é pra votar, que votem todos os contribuintes do Estado, então", tudo se resume a uma simples prerrogativa: se todos pudessem escolher aonde estudar, ou seja, se todos tivessem acesso à USP, poderiam então votar para reitor. Mas como não entram e nem votam, utilizam-se das mazelas do país para evitar que os que conquistaram a chance de estar na USP, participem de sua construção. Ou seja: que todos tenham a chance de escolher aonde estudar e em quem votar, se quiserem, e não que não se democratize uma Universidade, a custa da desculpa esfarrapada respaldada na ausência de chances da maioria.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Coco Avant Chanel



Gabrielle Coco Chanel não precisou de homens. Preferia ser amante a cumprir o papel de coadjuvante atrás da sombra de um marido - no começo do século XX, não eram muitas as opções disponíveis. Coco sabia na medida certa quando sair de cena sem se machucar. Sabia na medida certa o que esperar de alguém. Mais: o que esperar de si mesma.

Conduziu sua vida da amargura da miséria ao auge da fama com a sobriedade de seus modelos, sem deixar-se levar por ilusões que lhe pudessem valer seu prazer e inteligência em posicionar-se e produzir.

É essa mulher a frente de seu tempo, na aparência e na essência, que o filme "Coco antes de Chanel" pretende mostrar. E consegue, mesmo com a fraqueza da esperada perfomance de Audrey Tautou no papel da protagonista.

O título, talvez, indique com clareza o traço mais forte que o longa imprime ao espectador: antes da magnata Chanel, existiu Coco, que enfrentou grandes dificuldades, sofreu, começou do zero, mas sempre brilhou, na profundidade de suas percepções, de seu tino e da convicção em seus valores e ideais.

sábado, 7 de novembro de 2009

Zeitgeist



Zeitgeist ou "espírito do tempo".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

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Duas figuras que vou usar pra um seminário amanhã, de História de Jornalismo. Uma loucura, cara...A primeira é uma das fiéis que participou da famosa "Marcha da família com Deus pela Liberdade", antes do golpe de 64. A segunda é a foto de um grupo de mulheres cujo slogan era: "Vermelho bom, só o batom"...Por aí já é possível entender muita coisa...

Enfim, mulheres servindo de massa de manobra, lutando contra aquilo que exatamente diziam-se a favor. E a religião mais uma vez mostrando sua faceta mais perversa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Das coisas que pensei em escrever

Pensei em escrever tantas coisas durante a semana...

Tudo começou no meu café da manhã quando olhei a capa do jornal. Que cena mais nauseante, humilhante, animalesca, doída.

Chocante.

"Um homem é achado morto em um carrinho de supermercado". Assim.

O sujeito se levanta, bem cedo, se arruma, pega seu dinheirinho contado, vai ao supermercado. Na porta, não dá de cara com a promoção do dia, tipo "lagarto 3,90 o kg!". Ao contrário, dá de cara com um homem, de seus aparentes quase quarenta anos, a julgar pela foto, morto a tiros, dentro de um carrinho de supermercado.

Nas explicações sobre a morte: confronto com traficantes. Saldo de mortos de três policiais militares, três moradores do Morro dos Macacos, local onde os confrontos ocorreram e dezenove suspeitos de envolvimento com o crime. Vitória! Menos policiais mortos do que potenciais criminosos.

Deveremos mediar o sucesso de acordo com os números de mortos de cada lado? Sabe, até quando essa hipocrisia vai durar? Sem mais.

...

Pensei em escrever também sobre comunicações e artes. E os embates que travo dentro de mim ao conviver com esses dois mundos. E com esse espaço que nos separa. Com essa realidade e com essa utopia que nos separa. Às vezes esses dois mundos se cruzam e, aí, sempre é tudo muito estranho. Sinto como se fosse impossível um diálogo de fato. Uma comunhão. Na correria dos encontros, é sempre o que nos separa que se evidencia. Como um rio e suas margens. Esse espaço, esse espaço entre a vivência e o canil, como se todos os jornalistas fossem para a Globo e todos os artistas fossem encenar Brecht. É o que sinto, às vezes. Mas que sei que não é a realidade.

...

Pensei em escrever sobre uma tarde chuvosa, pós uma festa intensa. Sobre andar segurando o guarda-chuva nas ruas molhadas de São Paulo, em seu frio desproposital de outubro. Sobre estar com blusa de lã e adentrar um daqueles prédios antigos, cinza, com piso quase amarelado de manchinhas pretas, com grades verde-escuro e elevador velho. Sobre uma república desorganizada, muitos livros em uma estante, pinturas meio infantis a decorar a sala; copos sujos sobre a mesa. Cadeiras espalhadas, um banheiro estudantil aonde algum tipo de luxo já existira, previsto na forma de uma banheira. Pensei em escrever sobre estar ali, com aquelas pessoas, que certamente posso imaginar daqui uns vinte anos e estar feliz, desde já, por ter feito parte daquilo. Penso em um filme: câmera na mão, muitos cortes rápidos, personagens diversas. É interessante e é agora. É uma espécie de embrião, de nostalgia não vivida, que toma forma. É também, aconchegante e fria, São Paulo.