E não podíamos ter feito escolha melhor. Eu, que cheguei antes de meus amigos em Salvador, aproveitei o primeiro dia para andar pelo Pelourinho e, logo de cara, conversei e fiz amizade com alguns artistas locais que expõem nas dezenas de ateliês localizados ao longo das ruas estreitas do Pelourinho. Jorge Vidanova, um bahiano do interior da Bahia recém mudado para a capital, artista plástico e ator, me convidou para a inauguração do Museu de Cultura Afro de Salvador. Aceitei o convite.
A inauguração do museu afro inseria-se na comemoração da Semana de Cultura do Benin na Bahia, que iria promover uma série de eventos na capital bahiana para estreitar os laços entre o Brasil e o pequeno país africano. Para tanto, houve a exibição de uma série de peças de artistas do Benin, desde fotografias até esculturas em madeira e argila. Era de impressionar a força, ao mesmo tempo rústica e viva, que as peças emanavam. Uma delas, representando a tomada da África pelos colonizadores e a chegada dos escravos ao Brasil, era toda feita de material reciclado, sendo utilizado até mesmo lixo hospitalar, e ocupava todo o espaço de uma das salas do segundo andar do museu.
Durante todo a minha estadia em Salvador presenciei ruídos sobre a questão do negro no Brasil. Houve atos e manifestações na defesa do negro contra o racismo, a matança indiscriminada, a indiferença por parte das autoridades. Era bastante inquietante e confesso que me impressionou a mobilização dos militantes da causa negra na organização dos eventos. Uma jovem de seus vinte e poucos anos, monitora da exposição do Benin no museu afro, parecia um pouco frustrada com a repercussão dos marchas e eventos do dia da consciência negra. "A coisa foi completamente desvirtuada; isso aqui não é pra ser festa, tem que ser político, eu não venho aqui para me divertir" desabafou. E me explicou que em Salvador ocorreriam duas marchas para comemorar o dia da consciência negra, uma no bairro de Campo Grande e outra no bairro da Liberdade. A moça optou pela segunda, afirmando ser esta verdadeiramente representativa da causa negra, questionadora, uma proposta de denúncia e reflexão sobre os problemas que o negro enfrenta hoje no país.
Um pouco mais tarde, em uma festa reggae que fui com os gringos que estavam em meu albergue, outra militante do movimento negro parou para conversar comigo e com minha amiga dinamarquesa. Ela era bastante incisiva em seus argumentos, fazia campanha para um ato a ser realizado no dia seguinte, cujo título era "Mobilização contra o extermínio da juventude negra". Segundo essa moça, morrem por dia em Salvador 11 negros, de 17 a 25 anos de idade. Tentei argumentar que, obviamente, colocando de lado a questão da discriminação racial, a qual concordava com ela, haveria também de ser levado em conta o problema da desigualdade social no Brasil. Ela insistia que não era uma questão social, e sim racial.
Discutimos um pouco, sem no entanto se chegar a lugar algum. Em toda cidade havia outdoors e cartazes com o slogan "há muito mais para ver do que a cor da pele" ao lado de fotos de pessoas negras sorridentes ou com um semblante bastante seguro de si. Foi um contato imediato e muito intenso com uma problemática bastante distante do meu dia a dia em São Paulo. A meu ver, soava absurdo que uma capital aonde a extrema maioria da população é afro-descendente precise, em pleno século 21, organizar uma campanha que reafirme a dignidade negra. Eu, com minha cabeça de turista paulistano, pensava: "Como as pessoas não podem amar e admirar toda a cultura e história e todos que vivem aqui?".

A quantidade de estrangeiros em Salvador foi outra coisa que me impressionou muito. Cheguei a cogitar que há mais gringos em Salvador do que no Rio de Janeiro. Era incrível. Todos os lugares em que você fosse e, principalmente no Pelourinho aonde eu estava, era possível notar pessoas murmurando em diferentes idiomas com suas máquinas fotográficas à tiracolo. Essa foi sem dúvida uma das partes de estar em Salvador que mais me comoveu. A ideologia do mochileiro, de viajar o mundo inteiro sozinho, fazendo amigos, trabalhando aqui e ali, dormindo mal, comendo mal, mas aproveitando para conhecer culturas, com os olhos sempre abertos a construir novos valores e a entender novos modos de vida é simplesmente fascinante. Com muito pouco se constrói muito. E durante os meus passeios de ônibus ou a pé pela cidade eu costumava pensar nos diversos nichos que devem existir em Salvador. A cidade dos batuques, da malemolência e beleza da cultura africana, dos artistas e da arte, da história e do mundo com todas as nacionalidades ali presentes, a cidade do Pelourinho, que eu conheci, talvez não fosse de fato a cidade que outras pessoas conhecem. Ou seja, era intrigante para mim, por conta da intensidade vivida no Pelourinho, como outras pessoas reagiriam, construíriam a imagem da Bahia em suas mentes.

Na noite de sábado, outra faceta da cidade se mostrou presente para mim, ainda mais fortemente. Apesar de todas as advertências, inclusive de meus amigos, que já tinham viajado para Salvador há dois anos, de que haveria muitos mendigos, pedintes, e até mesmo assaltantes na cidade, até então nada disso havia se configurado concretamente para nós. Em Salvador, a desigualdade social é algo que se faz presente o tempo todo. Crianças muito pequenas, adolescentes, adultos, idosos...Há representantes de todas as faixas etárias o tempo todo pedindo esmolas, oferecendo o famoso "presente do bahiano", uma pulseirinha do Senhor do Bonfim supostamente dada de graça, às custas de algum dinheiro ou de outra compra depois, oferecendo todo tipo de serviço, desde massagens e canções na praia, até retratos típicos da cultura bahiana. É algo realmente marcante. Algumas pessoas mais insistentes, no nosso caso, um adolescente de seus dezesseis ou dezessete anos, chegam a perseguir turistas para conseguir algum trocado.
Perguntei a João Junior, um ambulante de 23 anos, que viveu em São Paulo por seis meses, se as coisas haviam melhorado em Salvador nos últimos tempos. "Não mudou nada. É muito difícil sobreviver aqui" disse. João, que trabalha também indicando restaurantes a turistas, havia nos levado em uma pizzaria e, de acordo com o combinado com os donos dos restaurantes, deveria receber 10% de tudo o que seus clientes consumissem. No entanto, segundo o dono da pizzaria, não era possível conceder a João o valor que lhe era de direito, dado que o jovem estava trabalhando do outro lado da rua, e não em frente a sua pizzaria. Fomos conversar com o dono da pizzaria, explicando que, caso não houvessemos encontrado o simpático João, não estaríamos ali em seu restaurante e que, se esse era o combinado, queríamos que João recebesse então o seu pagamento. Negativo. Resolvemos então dar de nossos bolsos a bagatela que o dono do restaurante negou a João: três reais.
Era óbvio que o dono do restaurante, com seus clientes do mundo todo, poderia pagar a João o que lhe devia. Entretanto, a meu ver, a desigualdade social existente em Salvador legitima a exploração do trabalho de maneiras assustadoras. Uma animadora do mesmo restaurante, que vestia-se em trajes coloridos, com uma maquiagem extravagante, me tirou para dançar. Dançamos ao som de samba por algum tempo, era muito engraçado porque a animadora era realmente muito divertida. A música acabou. Agradeci-lhe pela dança e já ia voltar para a mesa de meus amigos quando ela puxou a minha mão e me disse que um retrato com ela me custaria apenas dez reais. "Não, obrigado" lhe respondi calmamente. "OK, faço oito reais para você então!" ela retornou. "Não, obrigado!" disse novamente. "Cinco reais, não se fala mais nisso e você não conta para ninguém!" insistiu. "Uhmm...Não, obrigado, eu já tenho a minha câmera fotográfica" respondi meio sem jeito. Em Salvador, todos os preços são flexíveis. As pessoas nas ruas, os artistas, os prestadores de serviçoes básicos estão literalmente desesperados para vender e sobreviver.
Comer em Salvador é algo muito prazeroso. Há restaurantes, bares e lanchonetes de todos os tipos: desde aqueles extremamente baratos até os caríssimos para o turismo de luxo. Em nosso penúltimo dia, almoçamos em um bar simpatissíssimo, o Bar Zulu, cujo atrativo é a cozinha que traz pratos típicos de boa parte do mundo. Escolhemos dois pratos com curry indiano e um prato à moda angolana, o frango piri-piri. Havia também lentilhas marroquinas, comida típica dinamarquesa e pratos vegetarianos substanciosos. O cenário do restaurante, uma viela sem saída do Pelourinho, me lembrou o filme "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen, por suas cores berrantes, música baixa agradável e uma bela garçonete argentina que, como muitas das pessoas que vivem em Salvador, veio para a cidade para ficar alguns dias, se apaixonou pelo lugar e agora já está em Salvador há seis meses. Para quem gosta de pratos mais apimentados e exóticos, vale a pena conferir um bar e restaurante chamado Sankofa. O dono do restaurante, que leva seu nome, nasceu em Gana e traz para a cidade noites de música africana, MPB e salsa.
Não fomos em muitas praias. Mas não pudemos deixar de ver o por do sol na praia do Porto da Barra, um dos poucos lugares no Brasil em que o sol se põe no mar - e em que as pessoas costumam bater palma quando o sol se põe - e de conferir a praia de Itapuã, eternizada pela canção de Vinícius de Moraes e Toquinho. Fomos também à praia do Flamengo, um pouco mais afastada de Salvador, mas com uma paisagem incrível, uma longa extensão de areia e muitas barracas para se sentar. Essa parece ser uma área mais nobre da cidade.
De volta a São Paulo, olho para trás com saudade. Das rodas de samba e dos batuques do Pelourinho, que não param nunca, dos mochileiros e seu estilo de vida invejável, da cultura africana e sua beleza, do sol da Bahia e de suas praias, das cores berrantes das construções da cidade, dos bahianos e seu sotaque. De toda a efervescência cultural existente na cidade. Quem quiser um pouco de emoção contate o albergue Nega Maluca e fale com o Diego. Você não vai se arrepender.



