terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A letter to Tulio

Dear Tulio,

I hope you know I'm copying your friend. This idea is not original - but, as I know you appreciate good initiatives, I might say you'll enjoy this one.

The new year is coming closer and I know the plans you have - even though you don't like planning life - can come true as you wish. That's not only that bullshit everybody will tell you after hugging you at midnight. That's for real.

Let life go as naturally as you can, don't try to predict anything, act as normally as possible - be all smiles and friendly, yes - and keep getting to know the people you like and need to be satisfied. Don't forget your goals, mostly your beliefs and the power people have to change everything at their own surroundings.

Party a lot, watch the greatest films, keep your works up to your neck, your routine as tirely as possible, keep dancing and singing badly. Get disappointed and brokenhearted. Just never stop listening. And getting emotional. Laugh, a lot, please.

Start your french. That's an order!

Try to starting running. Read more than you have been doing lately. Take the pictures you ever wanted. The causes you ever believed. Go to the places you ever fancied.

Be happy!

Yours,
Tulio

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Até quando essa palhaçada vai continuar?

Palhaçada. É assim que encaro o ataque massivo de Israel à Faixa de Gaza que redundou em mais de 300 mortos e sabe-se lá quantos milhares de feridos. Não que seja favorável à atuação do grupo de resistência islâmico Hamas, diga-se de passagem. Após o término do cessar-fogo entre israelenses e palestinos, o Hamas inciou um ataque de foguetes ao sul do território israelense - o que é apontado como o ponta pé incial para o recomeço da guerra.

Mas, como pertinentemente perguntou um dos âncoras da BBC de Londres, para uma autoridade israelense: " o que vocês pretendem com esse bombardeio desproporcional? no passado, há suficientes casos de bombardeios que exemplificam que esse tipo de atitude, além de ser fonte de mais resistência entre os palestinos, matou centenas de civis, destruiu instituições e a infra-estrutura de cidades sem se chegar a qualquer proximidade à paz desejada". A resposta do representante israelense me pareceu completamente estapafúrdia: " Não desejamos acabar com o Hamas e sim mostrar-lhes que existem limites a serem respeitados".

Que espécie de democracia é essa que usa da sua soberania de maneira tão terrorista como aquela que é apontada como tal? Que democracia faz uso da força para atingir seus objetivos? Que dá o troco na mesma moeda, joga o jogo de quem não sabe jogar? Que mata e hasteia sua bendeira no sangue? Quanta balela!

Israel não está nem um pouco interessado em entender a origem dos movimentos de resistência árabes. Como solucioná-los, como se chegar à raíz do problema. Bombardear vem primeiro. Até porque, para se entender a origem de tais movimentos, esbarra-se fundamentalmente na história de Israel. Estado criado em 1948 próximo à Palestina, já em 1949 ocupava 78% da Palestina histórica. Nas regiões ocupadas encontram-se nascentes de rios e zonas de recursos minerais. Limites não eram exatamente prioridades nesse período. Não houve nada que impedisse os israelenses de ampliar seu domínio na região - exceto o financiamento internacional. Israel passa então a existir como nação - de quebra, ainda fortemente amparada militarmente - e a Palestina, esta fica em frangalhos.

Parece bastante coerente: ano passado, o Líbano. Este ano a Palestina. Ano que vem sabe Deus quem. Talvez o Iêmen, que anda atraindo milhares de jovens para a resistência armada contra as ocupações americanas no Afeganistão e no Iraque, como assinala a edição desse mês da revista Le Monde Diplomatique Brasil. Qualquer lugar em que existam movimentos de resistência aos desmandos de Israel. Novamente, sou contrário a qualquer tipo de reivindicação que faça uso da força. Matar é perder a razão. Mas, para se entender o conflito, é necessário chegar ao centro do problema e não continuar aos rodeios para ofuscar o que é nítido.

Qualquer semelhança com o passado não é mera coincidência.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

Aquele era o dia mais quente do ano. No vai e vem da cozinha, os chinelos tilintavam apressados no piso de quadrados esbranquiçados; de dentro do forno, um calor suficiente para ocupar um cômodo inteiro e um odor embriagante anunciavam comida farta e cuidadosamente preparada. O prato do dia, o de sempre: aquela gorda leitoa com abacaxi, que em natais passados causara tanto espanto com seus olhos arregalados na boca de um dos convidados.

Do fundo da casa, sentindo falta do tradicional e sistemático zumbido que os embalava nas quentes noites de sono, e do som distante e sonolento do abre e fecha corriqueiro das portas, rispidamente ajustáveis a seus encaixes, os dois levantaram a cabeça de seus travesseiros e fizeram o primeiro contato com aquele velho ambiente. Pés quentes na gélida ardósia; era Natal.

O mais novo já estava pronto: cabelos desarrumados, uma camiseta regata velha, um short qualquer e os pés descalços. Antes de sair do quarto, pôde ouvir a voz ranheta e resmungona do velho à sala, causando-lhe preguiça. Ficaria no quarto? Poderia fingir dormir mais ou isso causaria incômodo? Saiu. Ela, espreguiçou-se lentamente. Que horas seriam agora? Estaria atrasada para o almoço? Sentiu preguiça de pensar que roupa vestir para conversar com as mulheres. A essa altura, ele já tomara sua decisão: introduzira-se, pegara seu livro e recostara-se no sofá ao lado.

Na sala de TV, os homens lançavam apostas sobre a vida, hipnotizados pelas imagens e pelo primo distante e seu "fraco" por mulheres mais novas. Enquanto isso, nos fundos da casa, ela informava-se sobre noivados, traições, regimes, doenças, separações e outros sem-fim de banalidades alheias. O mundo das celebridades - loiras e saradas - moda e tendências eram, também, assuntos da ordem do dia. Por quantos anos mais será assim?

- Qual é mesmo o nome do namorado daquela garota que estudou com você?

E logo a realidade interrompe seus devaneios. Estaria muito quieta? Deveria opinar ou seria melhor concordar? Quanto tempo ainda para o almoço?

Tudo transcorrera bem durante o almoço e lá estavam eles novamente à beira da piscina. Estatelados na cadeira de sol, as perguntas surgiam lentamente e as respostas, imprecisas e espaçadas, não raro eram interrompidas pela velhota simpática e estridente com suas intervenções pontuais: -Tira o cabelo do rosto, senão fica uma marca branca do sol!

A dúvida era sempre a mesma: o que fariam depois da meia noite? E rapidamente se desanimavam ante as opções. O fundinho de esperança forçosa que encobria a certeza de que nada iriam fazer se esvaia na primeira alternativa, afinal duplas sertanejas em puleiros improvisados já não faziam sentido. Pior, já não lhes despertavam nenhuma atração.

De repente, sentiram-se sós. A casa estava quieta e temeram que, talvez, já estivessem atrasados. O mormaço do final da tarde e o sossego da cozinha anunciavam que os quitutes já estavam devidamente preparados. Era hora do banho e a fila prenunciava os bate-bocas amigáveis e as tensões típicas da noite de Natal. Ela mal deixara o banheiro e ele entrara em seguida. O bafo quente da ducha somado ao espelho embaçado, às roupas e toalhas penduradas, às caixinhas das lentes de contato, desodorantes e maquiagens em cima da pia, sinalizavam toda a preparação que ocorrera ali. Deixou o banheiro ainda de toalha e antes mesmo de entrar no quarto pôde ouvir o chiado do spray de cabelo que há tantos anos segurava os floquinhos de neve da cabeça da velhota. O suadouro característico, ressaltado pelos lábios cor-de-rosa, evidenciavam a ansiedade e a pressa em se aprontar no horário certo. Seu maior medo era atrapalhar o andamento da noite. Era velha e isso, por si só, já lhe causava imensos transtornos.

-Ói, ói, não adianta, não entra! Alarga a tira.

E aos poucos convencia-se de que teria de usar o mesmo e velho sapato dos Natais anteriores, aquele que ficava guardado no armário esperando os dias quentes.

-Vamos, vamos. Ainda não se trocou?! Tá tarde, já tá todo mundo lá, anda!

E assim começa novamente a correria; desta vez em direção às poses fixas em frente da câmera fotográfica. O local das fotos não variava muito, a farra ficava por conta das constantes trocas de posição. Todos prontos, coisas esquecidas recuperadas, era hora de ir.

Portão fechado e dentro da casa restava ainda um habitante em seu descanso. O cachorro, com seu desajeitado corpanzil, parecia representar muito bem o estado de espírito natalino. A boca aberta e as bochechas murchas pelo calor alternavam-se entre escassos momentos de animosidade, que quase sempre acabavam ao final do primeiro passeio no quarteirão, e o constante tédio e enfado, sinalizados pelas patas cruzadas no chão e o olhar cabisbaixo.

Restaria-lhe algum osso destroçado do jantar? A única certeza era o angu com ração do dia seguinte.

Por Tulio e Xenya

domingo, 21 de dezembro de 2008

Uma mulher, um homem, alguns amigos


Elis não se chamava Maria nem Madalena. Ainda assim, era digna de uma canção. Determinada, polêmica, hiperativa, destemida. Vivia entre o bêbado e a equilibrista. Algumas opiniões fortes - não raro desnecessárias - aqui, advertências pertinentes ali. Palpites cheios de gíria. Muita sinceridade, muito ativismo, muita impaciência com um mundo todo beirando o caos. Com razão, diga-se de passagem. Cuidado, as aparências enganam. Não soube tomar seu assento no trem azul e ver a vida passar - ainda bem, estamos agradecidos. Gracias a la vida.

Para bem ou para o mal, uma crítica. Quase um arrastão. Se veio para cantar, como gostava de admitir, de sobra vieram muitos percalços, inimigos, um país em frangalhos e muita bandeira para ser levantada. Conseguiu sua casa no campo, mas não se fez de rogada: desafiou a ditadura, a cultura enlatada que há pouco estava começando a ser imposta goela abaixo, entreguistas mexeriqueiros e jovens guardistas de bi-bi demais e ié-ié-ié, que era o que se pretendia, de menos.

Queria uma relação com a natureza e com os trabalhadores. Pois é. Não fazia parte do mundo das estrelas; seu palco era aquele que estivesse de acordo com seus valores. É, Elis, filha de D.Ercy, nessa transversal do tempo o mundo clama e pede ajuda, se todos fossem igual a você, certamente esse Brasil ousaria mais, o mundo dos artistas seria mais produtivo e Ivete - bom, a Ivete, nem sei se estaria por aí. Viva, bicho do mato com pimenta!


Hoje decidira encarar seus olhos. Aqueles, piscantes e difusos. Penetrantes. Antes, pensava que era prepotência; certa vez, cogitara até mesmo arrogância. Naquela tarde quente, de quase 40º, muita piscina, pele esticada e lombo ardendo, descobrira algumas afinidades com ele - que conhecia desde que nascera. Sempre o teve com muita consideração. E sabia ser esse um sentimento recíproco. Intimidade, nunca conquistara. Muito talvez por culpa sua. Queixava-se disso de vez em quando. Naquela tarde, entretanto, desafiara-se a si mesmo: não ia deixar-se levar pela vergonha, apreensão ou o medo de trocar as palavras, frases e de se intimidar com os habituais gaguejos. Falou. Chutou. Calou-se e respeitou o silêncio que tantas vezes tentara evitar, descontrolando-se. Cresceu e apareceu. Deu certo; dessa vez, aquele era um papo entre adultos.


Saíra para jantar com boas expectativas - não aquelas que estava acostumado a manter durante o período letivo, é claro. Mas outras. Mais sinceras, menos idealizantes e mais tolerantes. Frustrou-se. Mas não de um jeito ruim, que chegasse a incomodar. De um jeito sereno - e é aí que mora o perigo. Falaram asneiras, riram risadas sensíveis, olharam-se e voltaram ao passado demoradas vezes. Tinham sido uma turma feliz. Já não o eram mais. E vida que nos prega peças! Esbravejava. Sentiu saudades de seu mundinho. Tão longe que parece um sonho! Sentiu pena. Pena desses momentos desconexos, desses pensamentos desavisados, dessas pessoas queridas e anestesiadas. Pena de uma cidade tão bonita em um momento tão banal. O negócio é mesmo correr porque há muito espaço para isso - e pernas boas, o que é melhor.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Le Tourbillon


Uma relação amorosa entre três pessoas. Será possível? Desde pequeno, achava que não. Mas agora, depois de assistir a Jules e Jim me pego pensando mais uma vez no quão infinitas são as possibilidades que a vida pode nos oferecer e, ao mesmo tempo, em quão opressores são os padrões culturais e sociais que ditam regras e nos impedem de nos arriscarmos em aventuras, vivências e experiências que sejam maiores do que o que convencionalmente se vê por aí.

Não há respostas fáceis ou óbvias para esse tipo de pergunta. A menos que se viva nos ditames do certo ou errado. E nem é preciso que existam respostas. É preciso, ao contrário, sentir. E viver. E pensar, claro e sempre. O engraçado é constatar que, ao contrário do que se aprende desde pequeno, no decorrer do crescimento e da maturidade, o que surge cada vez mais são uma sequência de novidades, de questionamentos, de oportunidades e de momentos completamente diferentes e alternativos a tudo que se prevê desde muito cedo. Basta manter-se aberto.

Catherine era uma mulher intensa. Forte e frágil, decidida e vulnerável, corajosa e temerosa. Queria viver e amar e dessa combinação óbvia e audaciosa, não cessou em
meter-se em qualquer relação que lhe propiciasse prazer. Anos passados ao lado de Jules, meses ao lado de Jim. Noites ao lado de Albert e outros amantes. Tudo em resposta a seus desejos - sejam eles reais e palpáveis, sejam em resposta a desejos inatingíveis ou meramente para fazer ciúmes a Jim.

Jim, logo no começo classificado como garanhão, no final do filme mais nos parece uma pobre e ciumenta vítima de um amor muito maior do que é capaz de suportar. E é assim que tem de ser, pelo menos para Catherine. Jules, certamente a personagem que se conhecia com maior clareza, não exitou em permanecer ao lado de sua amada Catherine e de sua filha Sabine, mesmo que isso significasse vê-la com outros homens. Queria estar perto de sua amada. Apenas isso.

-A que preço? - eu me pergunto.

É a personagem que mais admiro no filme. Nobre, dedicada, clara. Feliz com suas escolhas. Certamente, foi quem aproveitou melhor todos os momentos passados juntos.

Voltando à pergunta do início do post, é incrível como Jules e Jim consegue traduzir o intraduzível que envolve as relações amorosas. Todo o clima de efemeridade, de consideração convivendo ao lado de mágoas, do que é bem conhecido ao estranhamento do imprevisível, todo esse sentimento de carpe diem é expresso de uma forma sincera, até mesmo ingênua. Um filme lindo, sobre a vida, sobre o amor e, acima de tudo, sobre a profundidade e o sedutor obscuro de todos os sentimentos humanos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Fim de semana, fim de semestre

A sala estava vazia como sempre. O chão, frio e liso, não estava menos do que empoeirado. O final de tarde e o vento gelado vindo da sacada, tão característicos, lhe faziam pensar ainda mais nos momentos que passara ali. Depois de tanto trabalho, era inevitável não se dar à dramas. E olha que eles nem faziam grande parte de sua vida; fora feliz ali, talvez como nunca antes. Olhou em volta: o abajour vermelho, uma prova viva pulsante e estridente de felicidade e lembrança, fitava-o sem vergonha.

O colchão azul, a essa altura já desgastado, precisando de um novo lençól, lhe fez pensar em quantas pessoas já tinham dormido ali. O chão, particularmente, não parecia o mesmo sem os cobertores pós-festas. Era muito mais aconchegante quando cheio de pessoas falantes e sonolentas, frenéticas e bêbadas. Pôde imaginar-se cansado, com as pernas pedindo para serem postas para cima, as roupas pedindo para serem lavadas, o corpo pedindo por um banho e a felicidade e a sensação de plenitude pedindo por uma boa noite de sono; no fim, ficavam conversando até tarde, até que fosse impossível ficar acordado e ir direto de encontro com as responsabilidades do dia seguinte. No fim, o banho ficava para depois - as conversas sinceras tinham preferência - e, não raro, os compromissos também.

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Caia uma garoa fina lá fora. Os prédios, altos e imponentes, espreitavam a pequenez de seu ser dentro de um dos milhares de carros a seu redor. Sentia uma angústia enorme no peito. Não era devido às reclamações do pai, que detestava aquela cidade. A isso já se acostumara. A angústia tinha outras causas; era diferente. Daquelas que não doem, não incomodam, que não se quer perder de vista: a angústia da felicidade. Olhava para fora e pensava no quanto tinha sido feliz ali. Em quantas pessoas fantásticas conhecera, no quanto mudara, quantas idéias o influenciaram, quantas músicas lhe emocionaram, quantos olhares foram perseguidos, quantas risadas lhe fizeram se sentir vivo...O quanto participar daquele mundinho, daquele microcósmos auri-roxo mudara sua vida em tão pouco tempo.

Definitivamente, viera para ficar.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Nostalgia anunciada

Saíra do banho e pegava-se olhando-se no espelho demoradamente. Demorava também a acreditar e a passar a escova nos cabelos ainda úmidos. Momentos alternavam-se em sua cabeça, como cenas de um roteiro que ainda não estava acabado. Orgulhava-se de estar ali. Orgulhava-se de quem se tornara. Orgulhava-se ainda mais, infinitamente e impossivelmente mais, de quem conhecera. De todas essas pessoas que completavam suas horas, seus sorrisos, sua vida inteiramente nova e ao mesmo tempo completamente velha.

Como se já tivesse sonhado com tudo isso, como se já tivesse previsto tudo que vivera em quase um ano há muito tempo atrás e alguém pudesse dar-lhe uma bofetada e traze-lo de volta para a realidade a qualquer minuto. Sonhara, profetizara. Muitas vezes desacreditara. Mas veio a vida e mostrou-lhe o que, no fundo, sempre confiara.

Veio a vida e apresentou-lhe pessoas maravilhosas, que aguentam horas de pé em uma quinta-feira ordinária, em um final de semestre dos mais atropelados, que fazem do pouco muito, que gritam e esperneiam quando uma música boa toca, que fazem declarações de madrugada e planos estratégicos dos mais sinceros possíveis. Veio a vida e rompeu mais uma vez com todas as suas previsões. Vieram bahianos, ribeirão-pretanos, artistas plásticos, mineiros e até campo-grandenses! E claro, os paulistanos. Vieram também os mais maravilhosos RIanos do mundo - sim, porque o mundo é pouco para todo esse Brasil.

E veio também um espelho quebrado que, caindo de uma altura considerável, pôs fim a toda essa nostalgia anunciada. Que venham agora também os próximos quatro anos porque eu decisivamente não posso mais esperar por eles!

domingo, 30 de novembro de 2008

Uma velhinha

Vestia um casaquinho cor-de-rosa claro. As unhas, bem pintadas e grossas, saltavam aos dedos gordos, como pequenas coroinhas que brilhavam enquanto gesticulava. Suas caras e bocas eram características; era dada à caretas. A risada, alta e afável, só não lhe fazia um bem maior do que seus olhos: estes sim eram pequenas pérolas que o oceano tratara de deixar na terra para que os homens pudessem contemplar. Olhava fundo e trazia consigo toda a força impiedosa e hipnotizadora de um olhar preciso. Sabia poder buscá-lo sempre que fosse preciso.

O carinho que sempre sentira por ela era mágico. Tão forte, tão antigo, tão natural. Lágrimas eram capazes de escorrer de seus olhos quando pensava na ausência dela em algum dia. Estava acostumado a chegar ali, naquela mesma rua, naquele mesmo horário, naquela mesma e efêmera frequência, e dar de cara com seus sorrisos. Ali, sempre pronta e disposta a agradá-lo. Faça chuva ou faça sol; joelho doa ou deixe de doer.

Ah, como o tempo passa. Há pouco tempo ainda era pequeno e podia lembrar-se de suas caminhadas, de suas tardes à beira da piscina olhando os passarinhos tomarem água e ouvindo histórias de sua infância. Do tempo de quando era menina.

- Hoje não...Não é mais assim...No meu tempo era, mas hoje não! - dizia enfaticamente todas as vezes, não em tom de lamentação, mais como constatação.

Estava feliz. Gabava-se de ainda morar sozinha, de fazer suas coisinhas, de ser ativa. Ele orgulhava-se tanto disso. Ela devia imaginar. Era um exemplo pálpavel de determinação e força. Ainda que não dissesse tudo aquilo que sentia, procurava demonstrar com sorrisos, agrados ou beijinhos. Se falava mais incisivamente, ela ficava sem graça. Mas gostava, no fundo sabia que gostava muito.

E assim continuavam indo. Os domingos chegavam, a fome era sempre a mesma, a comida até que não variava muito - sempre satisfatória e caprichada. Mas era ela, aquela certeza absoluta e insondável, o que mais o atraia. Aproximar-se de sua porta, sentir o frio do corredor gelado subir-lhe as pernas, tocar a maçaneta com cuidado e ouvir o trinco ceder e ver a porta abrir, estampando seu sorriso feliz e sincero frente a sua chegada, era algo de sensacional:

- Oi, filho! A vovó tá com saudades!

sábado, 29 de novembro de 2008

E na insanidade opressora de querer se fazer notar, eis que se perde o fio da meada. É o que sempre penso. Para que os olhares prolongados se, no fim, eles são para você mesmo e para mais ninguém? Para que as sujeições absurdas se elas são só para te fazer feliz, e a mais ninguém? Para que as considerações profundamente gritantes e inconvenientes se, no fundo, a verdade a que se quer chegar só faz sentido para você, e para mais ninguém? Para que todos os pensamentos estritamente planejados se, no fundo, é o acaso que te acomete em um segundo e te faz extremamente feliz, mesmo que a pão e água?

São perguntas que me fiz e que continuo a fazer. Sem saber se algum dia existirão respostas. Na verdade, mais uma vez, sempre me pego pensando que as respostas estão em mim, no porteiro do prédio à frente ou na fila do pão. Virão, algum dia. Assim como a vida leva e trás rostos, músicas ou suspiros.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Dançando no escuro

Girava a cabeça sem parar. Os braços, leves e soltos, flutuavam sem parar. Acariciavam o ar como folhas velhas que o vento arranca e caem do alto de uma árvore. Seus joelhos se movimentavam vagorosa e acertadamente. Um passo pra lá, outro pra cá.

Era fantástico pensar em como o som da música tinha o poder de penetrar fundo em seu corpo, em sua alma e influenciar suas emoções. Em como um segundo é capaz de trazer toda a fortuna do mundo, assim, pálpavel e eterna em toda a finitude que é possível haver nesse curto espaço de tempo.

Sentia-se como um balão que podia explodir a qualquer momento. A felicidade batia forte e intensa em seu peito toda vez que era capaz de sentir-se completo com uma música. Como um balão; cheio de gás e auto-suficiente. Engraçado como uma música ou uma dança podem dizer tanto de alguém. Sua única saída era sempre a mesma ao ouvir algo que lhe despertava esse conhecido e valorizado estado: dançar.

Não olhava para os lados. Olhava para si. Era um daqueles momentos egoístas aonde tudo o que se quer é sentir prazer; sentir a vida bater e pulsar por todo o seu corpo. Sentia a música tocar e incorporava vivências, sentimentos e ressentimentos, apostas e expectativas em cada passo que dava.

Às vezes, não pensava em nada. Mas uma certeza carregava sempre com si: a felicidade está, sim, nas pequenas coisas. E claro, nas grandes canções.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Cinema

Assistiu a dois filmes seguidos. Dois socos, duas realidades distintas e iguais. Sim, porque o paradóxo é nosso companheiro de cada dia. E quem mais? Coitada de Lorna. Garota apática, sem graça, sem razão de viver mesmo com todos os seus planos e estratégias. Sempre pensando em um fim. Mas a que fim pensar em um fim e deixar de viver seus preciosos minutos do começo até o fim?

Pois é. Vai entender?! Mas aí é que tá a semelhança entre os filmes. Parece que as pessoas esqueceram de pesar o que vale mais a pena nessa vida. E ficam nesse chove não molha, nessa reclamação absurda, nesses dias de cães! E nem quando vem aquele segundo fatídico, aquela sinapse rápida, intensa e perturbadora - "mas porque tudo isso?" - se resolve rumar em outra direção. Sim, é mais fácil permanecer onde se está. Mas não é mais prazeroso.

E fico pensando quantas vezes levei as mãos na boca durante o filme. No mínimo cinco. Foi mesmo um soco no estômago. A esperança é a última que morre, oras! Que esperança? Nesse mundo bandido - lembrei da Helô agora - e absurdo. Lá vem os paradóxos de novo! E aquela cena absurda, quando a mulher do médico volta pra sua ala e, após ter matado o cara mais escroto e desprezível do mundo, tudo que as pessoas de sua ala dizem, amedrontadas e submissas é: " acho que deveríamos entregar quem matou o cara!". Desacreditei completamente nessa hora...Uma excelente metáfora pra tudo o que acontece por aí. Só basta enxergar. Ou querer enxergar.

domingo, 2 de novembro de 2008

Aquela inspiração louca, absurda. Que te toma em um segundo, que é fugídia, que é intensa e faz cada fibra do seu corpo tremer e se excitar. Aquele poder que te consola e te faz grande; aquela sensação de segurança. O que está distante, o que é díficil de apalpar, o que se conecta em um outro plano - o que é imprevísivel, se sente, mas não se sabe o quanto irá durar. Aquilo que persigo, que me faz feliz, que me completa, que me faz entendível de mim mesmo.

Você, escrita. Pronto, escrevi, desabafei.

domingo, 19 de outubro de 2008

História da África

A menina encarava as doloridas linhas de suas mãos, com quem convivia a duros e sofridos treze anos, como quem olha nos olhos profundos de uma velha emocionada. Não tinha vergonha de sua aparência, isso era o de menos. Lembrou-se da mãe, com quem tivera pouco contato - o suficiente para relembrar todos os momentos que passara sob seu colo, depois do almoço, quando recebia seu cafuné no meio da rua.

Da avó se lembrava menos. Só ouvira a mãe contar algumas vezes de suas reclamações, provavelmente herdadas de seus bisavós. O jeito que as terras foram tomadas. Essa tal propriedade.

-Ela dizia: "chegaram aqui, como quem não quer nada, adentraram o território, pomposos, com toda aquela vestimenta, aqueles pertences, em busca do ouro; no fim, tiraram o papel e nossa sentença estava feita: a terra não é mais de vocês. E alguém se preocupava? É claro que não! Na África, nunca tínhamos ouvido falar disso, gente. A terra é de todos e não é de ninguém. Foi de meus pais, assim como é sua e será de sua filha."

Fora na escola que escrevera, certa vez, com as mesmas mãos que agora encarava: "os europeus entraram, fizeram contratos, tinham a suposta posse legal das terras africanas". Balela! Sentia seu rosto queimar, como o vento do deserto que castigava a paisagem que tanto amava. As mulheres da família não mereciam suas sortes.

Não havia mais tempo para passado. O estalido do sinal desafogou-lhe da embriaguez de seus pensamentos entrecruzados. Por um segundo e com uma intensidade enlouquecedora, desejou mais tempo para si mesma. Que luxo! Tinha de trabalhar. Em Guiné Bissau, as alternativas que lhe restavam eram poucas. E nada agradáveis. Talvez, um dia, tudo possa ser diferente. Não se entregaria assim tão fácil.

Olhou para o relógio: hora de ir.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Confissões de um acaso sedutor

E foi assim que se conheceram. De repente, no caminho da casa para a academia. Pararam no ponto de ônibus, sentaram na sarjeta e contaram descompromissadamente alguns planos, as rotinas cansativas, os sonhos, os gostos parecidos, a paixão pelo teatro...Também descompromissadamente, flertaram e fizeram apostas.

Teve medo. Queria e não queria se envolver novamente. Era muito cedo. Acabara de sair de um relacionamento de anos, daqueles intransponíveis, inacabáveis, sufocantes, massantes. Amor e ódio. Mas, ao mesmo tempo, era bom saber que a vida lhe batia de frente mais uma vez. E frente a esse tipo de desafio, nunca tivera medo. Pelo contrário.

Encarou profundamente aqueles olhos verdes. Sentia-se hipnotizado por sua beleza. Já não ia mais para a academia. Andando devagar, acabaram jantando juntos. Riram à toa, criaram uma fração de intimidade suficiente para disfarçar os sorrisos amarelos e necessária para palpitar sobre podres e temores. Jogaram seu jogo. Seu coração batia acelerado. Gostava de como a coisa evoluía e, então, e, contra a razão, deixou-se levar.

Engraçado lembrar daquela época. Daqueles meses, daqueles passeios. Daquela ansiedade absurda que se dava muito bem com a alegria de cada ligação. Fora feliz por um tempo, a sua maneira, não como quis e supôs, mas de uma maneira não menos excitante e marcante.

A música lhe trouxe, agora, no presente, todos esses sentimentos de volta, numa fração de segundo. Arrebatou-o. Sorriu de leve, como que para não espantar o calor daqueles segundos. Mas logo depois, voltou a si. Olhou ao redor, fitou os bancos surrados, o sol preguiçoso, as pessoas espontâneas em seus trajes leves de verão.

Encontrou-se aberto. Sim, aberto e desejoso mais do que nunca de que o acaso passasse mais uma vez por seu caminho.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Um desabafo II

A democracia como um fim. O grande objetivo. Instituições democráticas consolidadas, poderes separados e não sujeitos a intervenções, competição política, eleições regulares, pluraridade partidária, educação para todos, sistema de saúde de qualidade, transporte eficiente, taxas de desemprego irrisórias, desigualdade então, quase zero. Um sonho admirável em toda a sua plenitude.

Mas uma grande piada nos dias de hoje. Que instituições democráticas estão consolidadas frente ao poder econômico que corrompe e corrói tudo ao seu redor? Que inverte valores, joga no lixo qualquer ideologia e caráter para vencer? Como negar as intervenções veladas entre os poderes, no conchave para defender interesses de grupos privilegiados da sociedade, políticos corruptos, interesses de multinacionais e das famosas grandes potências?

Que competição política existe quando a representatividade de partidos e candidatos é tão desigual? Como as minorias podem um dia vir a competir com partidos consolidados que detém 20 minutos de horário eleitoral na TV? Qual é o real significado de eleições regulares quando mais de 50% da população não têm acesso à condições mínimas de educação para avaliar candidatos, propostas e programas ideológicos de partidos? Quando essa mesma população não possui nem ensino fundamental completo?

Como atingir um sistema de saúde de qualidade, transporte eficiente e taxas de desemprego irrisórias se nossos deputados e senadores vendem seus votos, nossos presidentes vendem seus cargos, nossa política econômica sustenta um dos juros mais altos do mundo, nossos governadores, ministros e ex-ministros repetidamente foram ex-vítimas dos horrores da ditadura e aindam assim, parecem terem sido submetidos a um processo de lavagem cerebral que os impedem de agir com o pulso firme, a coragem e o caráter talvez tão recorrentes outrora?

Como não se chocar com a desigualdade que mata jovens todos os dias, rouba outros milhares, impele abortos, ignorância e estupros, tira jovens da escola, briga pais com seus filhos e abarrota as igrejas?

Como não se tocar com crianças de talvez oito, talvez cinco anos, de pé, desde às onze da noite até pelo menos às cinco da manhã, catando latinhas e tirando a água do salão enquanto nesse mesmo lugar jovens pouco mais de dez anos mais velhos tentavam se divertir?

Sinceramente, não sei. Mas o que sei é: democracia não é um fim. Há vidas correndo lá fora. Não procuremos seguir velhos exemplos milagrosos, que antes de ilusoriamente servirem, estão longe de ser o que possivelmente possam vir a aparentar. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Façamos diferente. Ousemos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Personagens de uma história

Eram dois infelizes, os dois. Uma, representante da grã-fineza. Vestia-se com as melhores roupas, os acessórios mais caros e brilhantes, as tendências da última moda. Os cabelos eram alourados e donos de um corte autêntico. Seu linguajar refletia sua jovialidade - poucos acertariam a sua idade. Os olhos, azuis de uma força impressionante, refletiam o passado de boas medidas e incitavam a curiosidade alheia sobre sua história.

Era uma mulher forte, aquela. E apesar de todos os aparatos, não era superficial. Pelo contrário, suas posturas eram muito bem definidas e muito aquém do que toda a aprumação poderia supor. De certa forma, também lamentara os tempos em que viviam. Ela sempre o intrigara. Não declarava abertamente suas opiniões quando não era necessário. Era comedida e certeira. Não se importava com os outros, certamente. Era para si mesma que tinha o prazer de viver. E de ensinar, e de olhar e analisar a vida em seus pormenores. Era tudo ou nada: segurança e certeza de mãos dadas à insegurança de cada sentimento. Porque nem sempre a razão tem a razão!

Ele era um mal-amado. Ou pelo menos parecia. Olhar caído, bochecas minguadas, pulseiras escorregando pelos braços, camisa aberta até a metade do peito. Não, não era charme. Não se daria ao luxo de charmes. Parecia estar imune ao prazer. Em suas pidas e ensaios sobre a vida, reinavam as ironias e o sarcasmo. Mas não tinha dó de si mesmo - e nem dos outros. Parecia conformado com a situação das coisas. Analisava tudo a sua volta e chegava à conclusões pessimistas - era o que sabia fazer. Ou podia fazer, dado o seu estado. Naquelas circunstâncias, o seu pessimismo não era de se rejeitar. Olhava-o, intrigava-se, tentava adivinhar as razões para tamanho ceticismo...Era como um morto-vivo.

Gostava da sua raiva disfarçada de ceticismo. Agradava-lhe seu tom rebelde, sua subversão encenada de uma maneira dócil. Na juventude, certamente teria sido alguém interessante, com sonhos, ávido por grandes feitos e boas histórias. Nisso se pareciam. E lhe dava prazer ter contato com alguém assim. Um eterno mistério.

Ela não sabia sorrir. Ele não queria sorrir. Um belo par, não fossem tão diferentes. De mundos tão excludentes. Ainda assim, não podia se lembrar de exemplos melhores. De figuras mais excitantes, de pessoas mais apaixonantes. De vivências mais bem-quistas.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sexta-feira santa

Por uma fração de segundos, voltou no tempo. Podia sentir o calor do tempo abafado, a sensação de sair nas ruas com os cabelos úmidos que sempre o refrescara, o sol do final da tarde, terno e simbolizando o fim de seu expediente, os músculos de seus braços ainda cansados da musculação... Entrava na sala, sentava-se, exausto, repensando o que ainda tinha de fazer, o que fizera naquele dia, o que pretendia fazer dali a um ano.

Como as fases da vida passam rápido. Olhou para os tracinhos espalhados no papel reciclado e se lembrou desse passado recente. Era como um tapa na cara. Súbito e eficiente! Podia ouvir novamente os listenings que tanto treinara, o barulho do ar condicionado, relembrar o movimento dos teachers, repensar suas sextas-feiras, nas vezes em que saíra apressado, sem jantar, depois de um banho de dez minutos, para ir ao cinema ou ao shopping da cidade. Fizera isso tantas vezes!

Engraçado pensar que um tracinho, entre um B e um D, em um papel reciclado, no meio de uma prova de inglês, pudesse trazer tantas lembranças, cheiros e sensações de uma maneira tão arrebatadora.

Sim, senhores e senhoras, o tempo passa!

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Devia ter seus treze ou catorze anos. Apesar da aparência, seus traços de criança não o enganavam. Talvez nem mesmo enganassem seus colegas. Talvez seu objetivo era enganar-se só a si mesma. Tanto melhor se fosse isso mesmo, pensou. Não conseguia acreditar no que via. De sobretudo, bolsa empunhada contra o braço, meia calça rosa choque, maquiagem pesada, cabelos semi-alisados, semi-rebeldes, desejava ter atitude.

Típico da juventude, diriam. Atitude e estereótipo caminhando juntos - porque o que importa é realmente mostrar aos outros quem somos. Ideologia barata. Com aqueles trajes não era uma menina de catorze anos. Era madura. Como poderia correr ou gritar, gargalhar sem parar ou jogar volei com todo aquele aparato ambulante em que se transformara? É uma questão de imagem, mocinho! A sociedade de hoje vive do exterior!

Se era feliz? Provavelmente não, haja vista seus olhos minguados pelos cantos do prédio, ou, analisando a cena de maneira antiquada, a ausência de pessoas de carne e osso - que não fossem parte do plástico de suas roupas e personalidade - ao seu redor. Modernidade!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As velhas relações amorosas...

Indecisões.
Encarar ou não?
Ligar ou não ligar?
Mandar mensagem ou ligar?
Deixar rolar ou por um fim?
Correr atrás ou ficar na sua?
Deixar o olhar dizer por si?
Dizer tudo o que se pensa?
Não dizer, mas sentir?
Pensar ou sentir?

Arriscar-se, definitivamente.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Sobre um garoto...

Era uma vez um garoto. Curioso, sabia de cor todos os nomes de todos os atores e atrizes dos filmes de que gostava. Mais tarde, seu hobby passou a ser assistir a todos os filmes que pudesse dos diretores que lhe chamavam a atenção. Descobriu Chaplin e o garoto, passou por Oliver Stone e JFK, depois Lars Von Trier e Dogville, Woody Allen, Truffaut, Godard, Meirelles, Salles, Coutinho. Deu-se ao luxo de não gostar de Clint Eastwood, Scorcese e de alguns filmes de Almodóver.

Idolatrou filmes clássicos, mas também rendeu-se aos medíocres. Sobretudo, gostava de se imaginar em cena. De decorar suas falas favoritas, de encenar as cenas mais desafiadoras. De imitar olhares fatais, gestos automáticos e surpresas decepcionantes. Pensou em ser ator. Não havia uma escola decente aonde pudesse desde cedo desenvolver o seu lado artístico. Que pena! Dizem que essas coisas tem que ser desenvolvidas desde cedo. Se importava e não se importava.

Veio o destino que lhe trouxe quatro espetáculos de muito orgulho, mas pouco trabalho. Não era o suficiente para ele, mas como tinha de ser, se contentara com aquilo. Eis que mais tarde se apaixonou pela escrita, pela política e pelas discussões acaloradas.

-Quer mudar o mundo, vê se pode!

E pode. E nem que seja uma mudança pequena, que comece em sua boca e termine no ouvido da colega de sala. Ou na ponta de seu lápis e nos olhos de seu editor. Quem sabe. Ainda assim, nunca deixara de lado seu antigo sonho. Nem que quisesse. Era tão forte, não tinha como! Toda vez que via uma peça, que assistia a um bom filme, seu desejo era de entrar no palco, entrar na tela de cinema, repetir quinhentas vezes a mesma fala, encenar trezentas vezes a mesma cena, se acabar e se restabelecer toda vez que ouvisse um aplauso ou um "corta!".

Mas a vida é engraçada e agora sua função é assistir e criticar. No bom sentido é claro. Nem sempre. Era exigente quando precisava. Além do mais, agora tinha de se empenhar na escrita. Bom, como nunca foi fã de trajetórias lineares ou rotinas, de repente daqui a uns tempos lá está ele nos palcos. Muito provavelmente. Por enquanto contentava-se em ir ao cinema e idealizar o que via...Maldita idealização! Será que ela nunca terá fim?

Isso não podia saber, mas também não se preocupava muito não, afinal, aquele estado de sonho, de felicidade e de euforia com que saia de um bom filme e com que escrevia desesperadamente a sua resenha era tão grande, mas tão grande, que seria impossível não desejá-lo, não persegui-lo e não tentar, mesmo que sem efeito, levá-lo para todos os seus minutos, horas e segundos.

Porque, assim, quando se escreve sob esse efeito, sabe, tudo fica literalmente maravilhoso!

Fim.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

My blueberry nights

Era como uma noite fria, de cachecól, cabelos bagunçados pelo vento, cigarros à tiracolo. Diálogos espertos - vagos e intencionais. Pessoas normais, nem sublimes nem banais. Com histórias de vida. Experiências, ressentimentos, confiança. Bom humor. O filme traduzia bem um universo particularmente encantador - simples, bonito, natural. Aquele que você encontra ali, na esquina. E quem já não flertou descompromissadamente?

Tragédias? É claro que havia. E das grandes. Mas nada que superasse a música de fundo, a ingenuidade da mocinha ou o sorriso do galã. E que tipos com que trombamos! Mas não seria melhor passar sem eles, afinal, talvez seja mesmo como Lizzie diz. Às vezes os outros funcionam como um espelho, aonde você enxerga melhor seus limites e seu contorno. Aonde você define sua personalidade. Ou coisa do tipo - o filme não é lá de precisões. Mas é como um amigo diz, depois de assistir dá aquela baita vontade de viver. De conhecer, de se apaixonar, de se magoar, de redescobrir a vida e de se reinventar a todo instante. Assim, agora.

-Alguém quer ir até a padaria?

Porque, no fim, sempre acreditei que tudo funcionaria exatamente dessa forma: nós imprimimos aquilo que queremos ter, ver, ser ou viver no nosso tempo. Nem que seja por um segundo. Ou uma noite. Ou um final de semana. Então, demorou, me vê aí uma blueberry pie!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A sorte do dia

Chegou leve, rindo. Estava animado e parecia bem disposto para sua tarefa. Deu oi para todos, sorriu mais ainda quando lhe fizeram algumas gracinhas, olhou para o lado, desviou seu olhar. Perguntou-lhe algo sutil. Ouviu a resposta e concordou. Sentiu-se bem, nunca tinha realmente percebido como pequenas coisas fazem toda a diferença.

Continuaram seus afazeres ordinariamente. Vez ou outra encostavam as mãos, esbarravam os olhares, batiam os pés. Tudo involuntariamente. Talvez não - gostava de pensar. Recebeu elogios. Realmente, melhorara muito de uns tempos pra cá. Saltava alto e com precisão. Tentara seu máximo. Naqueles minutos, talvez estivesse realmente se destacando.

De repente, apagaram as luzes. Hora de ir embora. Ficou ansioso, era hora de dizer tchau. Nunca sabia como se portar, afinal, tudo poderia ser coisa de sua cabeça. Bem, não tinha nada a perder. Foram caminhando e conversando, todos juntos. Todos eram muito engraçados. Na hora de cada um pegar seu caminho, a despedida veio e parecia não acabar: deram um abraço, se afastaram, olharam para trás, sorriram, cada qual encarando a rua a sua frente e os carros passando. Era engraçado como não conseguiam sustentar um olhar prolongado! Como era bacana aquilo! Esses momentos, esses pequenos gestos. Ficou feliz só por aquele pedacinho de coisa. Que bobagem!

Bobagem nada. São esses momentos que mostram quem cada um é -diria. E disse, a si mesmo. Vale a pena tentar. Quem sabe aquele não era o começo de uma grande sorte. Torcia para isso.

domingo, 31 de agosto de 2008

DeNiro indomável

Para muitos críticos de cinema talvez a obra-prima do diretor norte-americano Martin Scorcese, Touro Indomável permanece como referência entre os filmes de boxe e, consensualmente, um dos clássicos dos anos oitenta. O longa conta a história do pugilista peso-médio Jake La Motta, filho de imigrantes italianos e conhecido como “The Bronx Bull”(o touro do Bronx), vivido magnificamente bem pelo ator Robert DeNiro – idealizador do projeto e principal responsável por convencer Scorcese a aceitar dirigir o filme.

Focando na rápida ascenção e queda de La Motta, talvez o grande mérito do filme seja relembrar ao espectador que, muitas vezes, o maior inimigo que possuímos pode ser nós mesmos. A força destrutiva com que o pugilista encara seus adversários transborda para fora dos ringues e atinge sua vida pessoal da mesma maneira drástica e quase que involuntária com que o protagonista vence suas lutas. Para encarnar La Motta em sua última fase no filme, DeNiro foi capaz de engordar quase 30 kg, uma transformação até então inédita no cinema, que somada ao seu empenho entusiasmado na produção e interpretação do protagonista, lhe rendeu o Oscar de melhor ator.

Touro Indomável é rodado em preto e branco e propositalmente os únicos trechos coloridos do filme aparecem durante a exibição dos filmes caseiros de 16 mm ao longo da narrativa. A trilha sonora é um grande marco do filme, assim como o roteiro de Paul Schrader que, apesar de focar principalmente nas cenas mais violentas, traduz muito bem a percepção que La Motta tem da realidade. Se por um lado talvez seja difícil se identificar com o turbulento protagonista, em contrapartida é praticamente inevitável não se emocionar com a interpretação eletrizante que DeNiro imprime ao filme.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Um dia de cão

Os índios só pedem terra. Daniel Dantas ainda está solto. A guerra do Iraque continua. McCain em primeiro lugar nas pesquisas norte-americanas. MartaXAlckmin. Maluf. Um buraco em um metrô joga milhões de reais na lata do lixo e as causas são "naturais" . Poluição. Aquecimento global. Assaltantes de 14 anos na Vila Indiana. Roubando estudantes, pouco mais velhos. Mais mortos no Rio. Queimadas na Amazônia. Cortadores de cana no interior. Alienação. Arrogância. Ceticismo. Conservadorismo. Medo. Preguiça. Subserviência. E uma professora que me vem com mil e um intelectuais que sutilmente inferem que a ditadura era necessária em prol do processo de modernização e industrialização brasileiros. Ah, vá a merda!

E quanto às músicas de Chico? As interpretações de Elis? A loucura de Vandré? A morte de Herzog? Ao movimento hippie, woodstock, Janis e Jimmy? Aos milhares de exilados, torturados, mutilados e mortos? E quanto aos filhos do exílio ou às mães das praças de maio? E quanto ao Brasil? E quanto a essa dependência ridícula e cretina? A essa imitação barata? Aos analfabetos, aos famintos, aos bandidos, às prostitutas, aos velhos e aos jovens? E quanto aos brasileiros? E a seca e as enchentes, as favelas, os mendigos e os loucos? E quanto ao medo de inovar, de arriscar, de transformar, de crescer, de ser, de parar de fingir?

Desculpe, mas sentar numa sala de aula e discutir os problemas do mundo considerando a hipótese de que o autoritarismo é uma característica própria, um processo quase que inevitável para os fins almejados e alcançados e que - sim, sim, quem nunca ouviu falar do fabuloso "milagre econômico"? - o crescimento econômico foi brilhantemente bem-sucedido durante o período - e por que será que se esquecem de citar a dívida externa? ou a distribuição de renda? - e nunca anteriormente visto, é muito pra mim. A vida está e esteve lá fora o tempo todo. Mais do que um esquema gráfico, uma teoria, uma tabela, um conceito. Uma necessidade. Há um país por trás disso tudo.

Vergonha!

sábado, 16 de agosto de 2008

A um amigo

Por alguns segundos, abstraiu. Pensou no significado de momentos como aqueles. As pessoas revezavam-se apressadas para falar de si mesmas, um pouco nervosas, com as mãos ocupadas distraidamente em movimentos rápidos e fúgidios, contornavam costuras de bolsos, soltavam e prendiam novamente tic-tacs e presilhas, coçavam o rosto que não coçava. Era engraçado. Seu peito arfava, numa mistura de excitação e vontade de conhecer e ser conhecido. Apreciava esse tipo de coisa.

Foi então que o garoto se levantou. Do alto de seu mais de um metro e setenta, parecia não trazer grandes surpresas. Seu aspecto era sereno, do mesmo modo de suas roupas, simples e bem escolhidas, e de seu jeito de andar.

Era uma pessoa sincera. Gesticulou, explicou e fez-se entender: era um amontoado de coisas. Como saber o por quê dessas coisas? Só sabia disso, a vida é assim, uma sucessão de momentos, fases e gostos, aonde o medo não precisa necessariamente ter seu lugar garantido. Concordou. O medo paralisa as pessoas. E nem as coisas precisam ter uma relação tão bem definida. Sabia do que gostava, sabia que estava ali. Sabia o que queria. E pra que saber mais?

De alguma maneira, pegou-se com lágrimas nos olhos. Singelas, naturais e sublimes. Felizes. Assim, como a vida, as pessoas à sua volta e os momentos como aqueles. Sentiu vontade de que aqueles quatro anos e meio, com aquelas pessoas especialmente únicas e unidas, demorassem a passar. E que fossem daquele jeito, cheios de descobertas, até mesmo na última aula de uma sexta-feira à noite.

sábado, 9 de agosto de 2008

Nossa Vida Não Cabe Num Opala

“Nossa Vida Não Cabe Num Opala” é, antes de tudo, um filme ousado. Baseado na peça teatral de Mário Bortolotto, a versão cinematográfica é dirigida por Reinaldo Pinheiro, que consegue captar com competência a essência e as características das personagens tipicamente paulistanas retratadas no filme. A câmera persegue as personagens em seus conflitos, de maneira que em muitas cenas é possível perceber que o movimento de Pinheiro parece refletir realmente o que as personagens vêem ou sentem.

As cores pastéis e os ambientes desorganizados traduzem com presteza o tédio e a vida sem perspectivas e sem afeto das personagens principais. O choque de uma realidade tão triste e tão degradante, que revela o pior da condição humana, o lado mais obscuro e desesperador de uma vida de roubos, marginalidade, ignorância e subserviência ao crime e à falta de escrúpulos, leva o espectador a fazer uma pergunta simples: por que essas pessoas não tentam mudar de vida? A resposta aparece absolutamente nítida ao longo do filme.

Como se safar de uma condição onde a esperança não existe mais, ou sequer existiu algum dia? As personagens do longa estão enterradas nas profundezas de suas próprias vidas amargas, como se tivessem sido tragadas por seus próprios medos e pela indignidade do meio em que vivem. Viver de roubos e cair na mediocridade parece ser a única saída possível para os elementos dessa família.

Merecem destaque também o figurino muito bem trabalhado e a trilha sonora, presente em todos os momentos cruciais do filme, com uma carga dramática que se torna imprescindível para a compreensão da proposta do longa. Com um final impressionantemente chocante e deprimente, o longa de Pinheiro consegue retratar com fidelidade uma existência caótica, desprovida de qualquer possibilidade de sonho: para essa realidade não há trégua.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Uma corrida

Andava pelo parque distraído. Ali, naquele lugar em que tantas vezes divagara sobre a vida, sobre seu futuro, seus sonhos, seus amigos, seus medos e seus amores. Engraçado voltar ali, andar ali, rever pessoas, sensações e momentos. Lembrar de suas corridas sozinho, em que aqueles poucos minutos eram como uma bigorna caindo do alto de um prédio: intensos, leves, renovadores. Fora um ano díficil aquele, sem dúvida.

Mas ótimo. Ele mudara tanto, em tão pouco tempo! Incrível. O vento, a certeza que a paisagem bonita exalava, o clamor dos passos apressados, o encontro com pessoas queridas, tudo lhe fazia feliz. Mas acima de tudo, era a sua personalidade o que mais lhe fazia bem. A fase em que se encontrava. Descobrindo tantas coisas, se livrando de tantas outras. Tantas amarras.

O passado não lhe metia mais medo. Muito pelo contrário: agora era sua vez de causar medo. De causar medo do tempo que passa rápido, das coisas que ficam para trás, de todos os segundos que não são bem aproveitados. Tinha sede. De vida, de bandas alternativas, de filmes clássicos, de músicas românticas, de peças desconhecidas, de atores e atrizes talentosos, de poesia e de bossa nova. De beijos perdidos. E de novos beijos a serem conquistados. De sorrisos e de momentos especiais.

-Tragam a água, o garoto acaba de correr!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Nicole e o casamento

O que mais me chamou atenção no filme foi a inovação. É simplesmente inevitável dizer que me senti desafiado. Desafiado a compreender um roteiro propositalmente desconexo, uma série de frases, situações e comportamentos extravagantes e realistas que não pareciam levar o filme a lugar nenhum, mas à análise do comportamento humano. À solidez e ao ventre da relação de duas irmãs. E gostei disso. Gostei dessa atmosfera estranha e perturbadora, em que as coisas nem sempre fazem sentido, em que risadas e lágrimas se sucedem e interagem em uma fração de segundos. Em que o público é instigado a refletir para se chegar a algum lugar.

A relação entre irmãs me chamou atenção. Esse sentimento impálpavel, forte, irracional, que não pode ser dito, que admite ressalvas, brigas, momentos tensos, angústias, críticas, mau-humor e toda sorte de estados, mas que como um ventríloco com sua marionete, está sempre lá. Superior. Presente, vivo, para ser sentido, defendido, admirado...amado.

A sinceridade das personagens, o seu realismo, a câmera fugídia e vibrante, a fotografia natural e as atuações espontâneas merecem créditos. O que mais gosto depois de assistir ao filme é pensar em Nicole Kidman de uma maneira diferente. Depois da fama, um ator não precisa mais fazer qualquer papel. Ele os escolhe. E Nicole vem escolhendo filmes não tão convencionais assim. O que eu acho simplesmente ótimo. Não importa se fazem sucesso ou não, se o salário é alto ou não, a característica comum é o conteúdo que abordam: pessoas não convencionais, muitas vezes em crises, questionadoras, com uma vida interior complexa e pulsante, de alguma forma diferentes do senso comum. E essa ligação da atriz com esse mundo de personagens complexas é tão forte que não seria pouco dizer que são exatamente essas personagens as que Nicole encarna melhor.

É só lembrar de Grace, em Dogville, Anna, em Birth, Diane, em Fur. E claro, Virgínia Woolf em As Horas. Com Margot, não seria diferente. Nicole transita entre o cinema alternativo, diretores alternativos e interessantes como Lars Von Trier e o próprio Noah Baumbach e as grandes produções, como Cold Mountain e Austrália - em fase de pós-produção. Margo e o casamento, um filme para se pensar. Uma proposta que por si só, boa ou ruim, a depender de quem assiste, já é interessante desde o começo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Você - Dick Farney e Norma Bengell

Você, manhã de todo meu
Você, que cedo entardeceu
Você, de quem a vida eu sou

E sei, mas eu serei
Você, um beijo bom de sol
Você, de cada tarde vã
Virá sorrindo de manhã

Você, um riso rindo a luz
Você, a paz de céus azuis
Você, sereno bem de amor em mim

Você, tristeza que eu criei
Sonhei, você pra mim
Vem mais pra mim, mais só

Você ...
Você ...
"Voxê" ...

Você ...
Você ...
Você ...

Você, um riso rindo a luz
A paz de céus azuis
Você, sereno bem de amor em mim

Você, tristeza que eu criei
Sonhei, você pra mim

Vem mais pra mim, mas só
Vem mais pra mim,
Vem mais pra mim, mas só
Mas só ...

domingo, 13 de julho de 2008

E o vento levou...


Pulso firme. Forte, exigente, determinada, segura, espirituosa e ousada. Linda. Vivien Leigh como Scarlett O'Hara. De uma presença fabulosamente desafiadora. Até que enfim tomei coragem e assisti ao filme que tanto ouvi falar nas aulas de história: "E o vento levou...". E palmas para ela, a protagonista escolhida numa seleção de mais de 1400 atrizes de todo mundo carrega o filme com a intensidade exata exigida pela sagacidade de sua personagem.

O que mais admiro em Scarlett é sua segurança e determinação. Mesmo nos momentos mais díficeis dentre os muitos que se sucedem ao longo do filme, Scarlett nunca perde a esperança de mudar o rumo de sua vida. Ela promete nunca mais passar fome, toma as rédeas dos negócios da família, assume o lugar do pai ensandecido, sofre com as surpresas da vida, da morte e do amor - mas nunca deixa de acreditar que pode vir a mudar os acontecimentos a seu favor.

E se nem tudo é como poderia ser, não é por isso que Scarlett vai ficar parada. Pensando nos problemas no dia seguinte, a possibilidade de se chegar a uma solução é muito maior. Nem que para isso sejam necessárias algumas doses de conhaque - ora, ninguém é de ferro!


quinta-feira, 10 de julho de 2008

Fabuleux

As cores ofuscavam seus olhos brilhantes e desejosos. O amarelo vibrante misturado ao dourado dos objetos bem distribuídos ao redor dos cenários lhe transmitiam um certo otimismo e uma sensação de conforto; o desejo íntimo das personagens, principalmente da protagonista, era bem representado pelo vermelho de seu quarto, de suas blusas, saias e de seus lábios delicados. Como se a vida, o amor e a paixão gritassem para todos a sua existência pulsante e ardente. Os saguões e as estações de metrô ficaram bem de verde.

Tudo na mais perfeita e sincera sintonia. As personagens não idealizadas, excêntricas e admiráveis em toda a sua imperfeição e veracidade davam o tom cotidiano e acessível ao filme - era um retrato bem feito de personagens reais, pálpaveis, corriqueiras, dúbias, inseguras. Humanas. A vida como ela é, as pessoas como elas são. Uma série de aventuras e desventuras, o risco de cada dia, a alternância de sentimentos, o sublime e o banal. O conforto de estar vivo: ter prazeres, sonhos, mistérios, medos, desafios. Sentia-se leve, contemplado, esperançoso.

A vida como uma mudança. Original, divertida e simples. Única e formidável. Os pequenos atos como grandes ações. A ousadia refletida num desejo de criança. A alegria e a felicidade. Agora, 1 e 43, do dia 11 de julho de 2008. Ah, Amelie!

terça-feira, 8 de julho de 2008

O filme de hoje

Um filme intrigante. A briga interna com que convivemos quase todos os dias: aquilo que somos, aquilo que queremos ser. Aquilo que podíamos ser. Coisas do tipo. Mas a pergunta é: se todos nós temos dentro de si um "Clube da Luta", por que se preocupar tanto com ele em vez de apenas viver, da maneira que queremos, da maneira que nos sentimos melhor, sendo nós mesmos, com todas as nossas nuances, mudanças, vícios e virtudes, na imperfeição do dia-a-dia? É preciso coragem.

É algo para se pensar. Antes ser do que de fato idealizar e viver do "querer ser". Fico com a primeira opção.

sábado, 28 de junho de 2008

Artigo pra Marília

Uma análise filosófica sobre a questão tibetana

Março de 2008. Sessenta anos de dominação chinesa no Tibete. Um levante nacional ocorre em Lassa, capital do Tibete, e recorda ao mundo aquilo que não se quis ver: uma história de imperialismo, repressão, etnocídio e mortes.

A poucos meses das Olímpiadas de Pequim, os tibetanos mostram que ainda têm forças para resistir. O sentimento nacionalista vive e uma nova geração de tibetanos se mostra engajada na causa da independência, procurando outras formas de resistência. Se antes a posição de resistência pacífica do Dalai-Lama, líder religioso e político máximo do Tibete, era o ponto em comum entre os tibetanos ao redor do planeta, hoje pode-se dizer que as coisas mudaram um pouco.

Boa parte dos jovens tibetanos crescidos dentro do regime opressor chinês, para quem liberdade é uma palavra desconhecida e as lembranças da independência de seu país soam como uma fábula encantada, não mais se apegam ao Dalai como um líder ao qual devem seguir. A religião é frequentemente criticada em instituições de ensino tibetanas e as revoltas de cárater mais incisivo são cada vez mais frequentes. Mas, e quanto a posição do Dalai?

Desde 1988, o Dalai renunciou à independência, assegurando apenas o desejo de autonomia e sinalizando até mesmo uma união com a China.A decisão, que se mantém até hoje, privilegia as tentativas de diálogo aberto e condena as manifestações violentas favoráveis a independência tibetana ao redor do mundo. Como se atitudes mais incisivas ou que promovam a questão do Tibete aos flashes da mídia pudessem de fato ser maléficas para o processo de conversação com as autoridades chinesas. Posto isso, entra em cena a filosofia.

O filósofo alemão Immanuel Kant postulou em suas três principais obras a noção de imperativo categórico: a existência de uma moral unificada e igual para todas as pessoas. Dessa forma, o indivíduo deve procurar agir da melhor maneira possível - de modo a sua atuação servir de exemplo para as outras pessoas sem se dar conta - sempre tendo em mente que o outro é um fim em si próprio, e não um meio para usufruto alheio.

Correlacionando os postulados de Kant à posição do Dalai-Lama, pode-se reiterar que a opção por uma resistência pacífica, que privilegie o diálogo e não veja os tibetanos ou os oficiais chineses somente como um meio para a validação de uma causa maior, a independência tibetana, seja dona de sentido.

Por outro lado, é completamente passível de entendimento o comportamento dessa nova geração de tibetanos e seu descrédito com relação aos apelos pacíficos de seu líder supremo. David Hume, filósofo escocês do século XVIII, foi o pai do utilitarismo sistematizado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill, que prevê ações cujo único próposito é a consequência a ser atingida. Consequência esta que deve favorecer o maior número de pessoas possível. A moral humiana é alimentada pela consequência do ato praticado, daí sua classificação como utilitarista.

No caso do Tibete, o utilitarismo seria uma possível solução para acelerar o processo de autonomia da região, como já vem sendo feito: recentemente houve na Índia a organização de uma marcha de protesto dos tibetanos em exílio na Índia rumo ao Tibete, reivindicando a independência total da China.

É claro que a não-violência deve ser procurada. Entretanto, frente à posição internacional de entidades como a própria ONU e o governo indiano – acolhedor da maior parcela dos refugiados tibetanos – de não reconhecer a independência tibetana, além da anestesia da comunidade internacional, hipnotizada com o mercado consumidor chinês e suas maravilhas, e incapaz de ousar pensar perdê-lo, a situação no Tibete não encontra fácil saída. Dentre as possibilidades, permanecer estático não está entre as opções. Que nessa Olímpiada não sejam só as medalhas americanas e chinesas fonte de controvérsia.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Resenha para a Jota

Tentativa audaciosa

Muitos são os filmes que tentam captar os sentimentos envolvidos nas situações mais simples e corriqueiras da vida, poucos são os que realmente conseguem. É nessa armadilha que A Força da Amizade cai. A proposta do filme dirigido por Christopher N. Rowley, que tem como tema o poder da amizade em momentos difíceis pelos quais passamos no decorrer da vida, é justamente captar a essência desse vínculo que une pessoas diferentes, as torna companheiras e solidárias umas com as outras.

Tudo começa quando Arvilla ( Jessica Lange ) fica viúva em uma viagem a Nova Guiné e em seu retorno para sua pequena cidade no interior de Idaho, EUA, tem de acertar contas sobre o funeral de seu marido com a sua enteada Francine ( Christine Baranski ). Arvilla, que prometera ao marido morto espalhar suas cinzas pelo mundo, é surpreendida pela proposta que sua enteada, agora proprietária da casa em que Arvilla vive, lhe faz: as cinzas de seu pai em troca da permanência de Arvilla na casa que é sua por direito. Permanecendo fiél a sua promessa, Arvilla e suas duas melhores amigas, Margene ( Kathy Bates ) e Carol ( Joan Allen ) caem na estrada em um conversível de marca Bonneville e durante o percurso passam por uma série de aventuras em fabulosas paisagens.

A fotografia colorida e os pontos turísticos mostrados fazem de A Força da Amizade um filme bonito. Se o roteiro não é lá tão bem construído, pode-se dizer que o elenco mostra uma certa afinidade junto, com destaque para as cenas da sempre talentosa Kathy Bates e para as esquisitices de Carol, interpretada por uma apagada Joan Allen. O mérito do filme, todavia, é levar o espectador à reflexão sobre as diferentes interpretações e percepções que uma mesma pessoa pode deixar ao longo de sua vida.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O fim de um nome

Fora uma tarde engraçada, aquela. Uma mudança na relação dos dois. Ela queria desabafar. E esquecer. Ele a ouvia com atenção e surpresa. Ao som de Elis, com jeans e mochilas nas costas. Como nossos pais. Estava leve, sorridente, feliz. Algo o fazia sentir que aquilo não era bom sinal. Não se levado em consideração o que ela dizia. Nunca a vira daquele jeito!

Fartara-se de falsos modernismos. De pessoas confusas, mal resolvidas. De indecisões. De narcisistas carentes e de jovens eufóricos. Queria resolver as coisas rápido. Sem demoras ou frescuras. Pegar ou largar. Não era dada a promessas, mas o caso é que dessa vez era diferente. E ela era tão decidida, tão exemplarmente bem sucedida, tão segura. Admirável, sem dúvida, a maior parte do tempo. Sofria daquilo que atinge a todos. O amor.

Cansara. De fingir. De entender. De ocultar características suas para que as coisas ficassem bem. De discussões idiotas ou contentamentos efêmeros. Cansara de pensar nisso. Queria viver. Só. Carne e osso. Era isso que queria. Ele ria. Como pode ser tão duplamente diferente? Não sabia, mas tomara uma decisão.

Era o fim de um nome. E o começo de outro: o seu.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A audição

E 1,2,3 e 4. Pra um lado, pro outro. O ombro, o pé. Sobe e desce. A perna, pra frente, pra trás. Um pulo! Pose. 1,2,3,4. Estalando os dedos e andando pra trás. Agora o refrão! Pra um lado, pro outro. O ombro, o pé. Sobe e desce. A perna, pra frente pra trás.Um pulo! Pose.

Eram segundos mágicos. A roupa de dança o impressionara. A leveza, o andar, o jeito de se mover, de mexer nos cabelos e de dar as ordens. O cheiro de outono, a ausência de objetos e a frieza imponente das faces gélidas e petrificadas nos milhões de espelhos que cercavam a pequena sala de piso de madeira marfim, preguiçosamente iluminado por um fio de luz da janela, eram um ânimo e um refúgio: a vida estancara lá fora. Ali, tínhamos de ser livres.

Que pose eu faço? Não se preocupe com a pose. Dance! Sinta a música em você, não pense, não faça previsões, concentre-se. 1,2,3,4. De novo! Perguntou-se porque não insistira nisso. Queixou-se da falta de tempo para se fazer o que gosta. Repensou e voltou atrás mais de uma vez. Parou de pensar definitivamente. Sentiu a música correr pelo seu corpo, os movimentos saírem numa sequência quase natural.

Sorriu, parou. Entrou a outra turma, encostou-se à janela. Os olhos, miúdos frente ao sol amarelo de uma manhã azul que lhe tomava a face. Os cabelos, quentes e leves, amaciados pelo vento. As mãos geladas seguravam o parapeito metálico. Abriu-os: o jardim estava mais verde do que nunca. Fechou os olhos, já incomodados com a luz e o calor; imaginou a cena que acabara de ver. Dócilmente, sentiu suas mãos, cabelos e face. Repassou os movimentos mentalmente. Girava os calcanhares, enquanto sorria e balançava a cabeça.

Não podia evitar, porém, uma única e quente sensação. Felicidade.

domingo, 4 de maio de 2008

A big part of me

Tam, tam, tam, tam. Batia a sola do tenis contra o piso liso e concentrava-se no barulho enquanto esperava. Não sabia como se portar. Sorrisos forçados eram esboçados, como que num treino, e a luz da manhã esbanjava o seu calor no saguão de entrada do shopping prometendo um dia quente.

Avistou-lhe de longe. O mesmo sorriso, o mesmo vício - um café com cigarro - o mesmo andar apressado. Sentiu-se em casa novamente. O cheiro do passado recente e as memórias em conjunto lhe invadiram os pensamentos e lá ficaram durante todo o encontro. Falou durante horas, o outro ouvia-o com atenção. Alternavam-se sedentos.

Enquanto o ouvia, lembrou de muitas coisas. Das pessoas com quem conviviam diariamente, do frio, dos cafés expressos, da correria semanal, de seu desespero em determinados momentos. Da sua rotina pesada, de seus horários marcados, de sua grande paixão. Das palavras de ajuda. Das risadas e dos segredos contados em inglês. Dos sábados. Nada poderia ser mais remarkable...Sentiu saudades de um tempo que não voltaria mais. É, não voltaria mesmo. Passado e presente alternavam-se em seus pensamentos mecanicamente, como que numa sucessão de cartas de um baralho onde cada número lembrava o anterior e o próximo.

As novidades eram muitas! Conheceram pessoas, passaram por provas, foram felizes...sentiram saudades. Concordaram que seis meses eram de fato tudo e nada ao mesmo tempo. O tempo passaria rápido e esse encontro teria de ser muito bem aproveitado, caso contrário, só daqui a outros seis meses. Desabafaram sucintamente. Cada qual tinha mudado muito, isso não era de se negar, mas as afinidades que lhe mantinham amigos eram agora muito maiores e mais nítidas. Sem censuras, com compreensão e um olhar afável, comemoraram vitórias e subestimaram derrotas.

-Ahh...porque temos que estar tão longe de quem gostamos, sempre?

A questão é: gostamos daqueles com quem nos identificamos. Sinto muito, ele disse, somos exploradores do mundo. A felicidade daquela tarde efêmera era mutúa e verdadeira. Éramos parte da história de um lugar. Estávamos em busca de novos desafios, mas valorizávamos o passado em comum. Era um lugar de força, calmo e tranquilo. Eterno. No último abraço, a certeza de um sentimento superior, puro e seguro, que nos ligaria em qualquer parte do mundo, tornava a vida compreensível e dona de um significado inestimável.

Não precisávamos de mais tempo.

-//-

Suddenly all the little tension experimented before disappeared.

-I'm sure you're gonna be happy!

I just asked myself why he was saying that. A big part of me could believe him easily. Or would like to believe him. Not because of his titles, or the amount of books he had published before with great success. But because he was being honest. He was an old man, certainly had dealt with a lot of people and situations in his life. He wouldn't say that for nothing. I stared at those green eyes strongly, and asked:

-Why are you so sure about it?

-Believe me, I know your kind.

That says it all. I couldn't disagree. The rain over my umbrella was starting to bother me. I look back and said:

-Thank you.

I laughed alone. That's a good sign.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Texto pra J.Junior- "Greve 2008"

Ao sabor do V Congresso

O ano de 2008 na Universidade de São Paulo promete ser agitado.É o que apostam os estudantes membros dos Centros Acadêmicos e participantes do movimento estudantil da maior universidade do país.Após anos sem muita expressão, o movimento estudantil ressurge com força e engajamento em suas propostas para esse ano, dentre elas o V Congresso da USP, uma das conquistas da ocupação da reitoria da USP ocorrida em maio do ano passado.

O V Congresso contará com a participação de professores, funcionários e estudantes e terá a democracia na universidade como pauta principal, questionando a estrutura de poder autoritária da Universidade de São Paulo, e propondo uma reelaboração do Estatuto da USP- um dos mais conservadores do país.A base da discussão não surgiu ocasionalmente.

No ano passado, após a publicação de dois decretos estabelecendo, entre outras medidas, a criação de uma Secretária Estadual de Ensino Superior, responsável por controlar a gestão dos recursos financeiros das universidades estaduais paulistas, aumentando portanto o controle do governo sobre as universidades, além da proibição da contratação de professores e funcionários pelas universidades, o governador José Serra viu-se diante de uma retomada histórica do movimento estudantil- o que não se restringiu somente ao estado de São Paulo, é importante ressaltar.

Sob o lema da defesa da autonomia universitária, a reação estudantil tomou forma com a greve das estaduais paulistas- USP, Unesp e Unicamp- e teve como ápice a ocupação da reitoria da USP, da Unicamp e de vários campi da Unesp.A greve durou pouco mais de um mês e teve seu fim após o recuo do governador e o revogamento dos decretos.

Daí surgiu a idéia do V Congresso da USP, após garantida a autonomia universitária, seria pertinente questionar quem poderia usufruí-la.O congresso se estrutura sobre alguns eixos principais: estrutura de poder na universidade, acesso e permanência, financiamento e fundação e espaços estudantis.O último tema, talvez um dos mais próximos aos estudantes, tratará das reformas nos atuais espaços estudantis propostas pela reitoria e pelos departamentos.No fim do ano passado, durante o período de férias, Gabriel Cohn, diretor da FFLCH- faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP- construiu uma lage de concreto fechando a entrada do 'porão', tradicional ambiente estudantil de debates, filmes e festas, causando muita polêmica e repudio em meio aos estudantes, que por fim acabaram por quebrar a lage, retomando suas atividades.Outro caso parecido acontece na Escola de Comunicações e Artes(ECA), onde uma possível reforma poderia acabar com a 'prainha' e a 'vivência' dois dos espaços mais frequentados pelos estudantes e esta última, sede da Atlética e do Centro Acadêmico Lupe Cotrim(CALC).

Quando questionados sobre a possibilidade de uma nova greve para esse ano, membros do CALC disseram ser impossível dar uma resposta definitiva, já que tudo dependerá dos resultados do V Congresso, além das posições da Adusp(Associação dos docentes da USP) e do Sintusp(Sindicato dos trabalhadores da USP).Mas deixam claro que a paralisação é a última alternativa, já que novas formas de protesto, como debates e palestras, privilegiando a discussão teórica sobre o papel da universidade atualmente e a introdução dos estudantes ao universo da discussão e da conscientização política, social e de cidadania, serão privilegiados.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Deja vú

A fachado do prédio prometia surpresas.A maçaneta longa e cuidadosamente dourada enfeitava a porta de vidro com graça e necessidade.Olhou para baixo e, ao entrar, o tapete fofo e antigo amaciou seus pés cansados da calçada úmida e esburacada.O hall de entrada era acolhedor e aconchegante e as duas cadeiras ali dispostas contribuíam felizes para a sensação quente e vintage exalada no ambiente.

Chegou ao elevador, seu rosto molhado e a barba vagabundamente feita passaram de relance frente à magnitude do espelho, estratégicamente postado entre as paredes de madeira maciça.O lugar tinha algo de enigmático.Que segredos guardam esses elevadores?Toda sorte de perguntas lhe invadiam os pensamentos.Quantas pessoas, de diferentes tempos, vindas de diferentes momentos, vivenciando diferentes situações, talvez de diferentes países, enfrentando frio, sol, chuva, teriam passado por ali?

O apartamento seria igualmente intrigante, apostou.E o foi.A começar pelo olho mágico, daqueles antigos, atualmente não mais aconselháveis, já que a espessura do buraco seria um tanto quanto problemática em caso de visitas indesejadas.A porta se abriu e o que viu foi previsivelmente prazeroso e intenso.As janelas antigas e a posição dos cômodos, somadas ao brilho dos tacos fizeram-no lembrar e sentir muitas coisas.Como num deja vú, não sabia ao certo o que especificamente lhe lembrava, da onde surgiam as sensações ali experimentadas, mas algo o fazia crer que já estivera num espaço destes antes, que já vivera em ambiente parecido, ou que talvez fosse o lugar ideal pra se viver, dada a identificação súbita com o clima daquele local.

Pensou em sofás desorganizados, livros espalhados, quadros e souvenirs nas paredes, pôsteres, cobertores, filmes, jantares.Momentos.Pensou na vida que poderia ter ali.No cheiro de comida quente saindo da cozinha apertada e invadindo a sala, espantando o mofo dos armários antigos.A garoa fina continuava a bater na janela.Lembrou-se do passado.A atual situação não era para tristezas.Refez-se.Pensou em risadas, abraços, beijos, confidências, intimidades, saudades...

A volta das viagens seria ótima num lugar desses.Voltar para um lugar desses seria estimulante, certamente!Fez planos.Mais uma vez, não cessava em planejar coisas em seu íntimo, mesmo que não gostasse de planejar com detalhes.Mas esse era um momento seu, tinha esse direito.

-Me ajude aqui!

Saiu das suas divagações, voltou à realidade e deixou a chuva escorrendo na janela e a vista movimentada para lá.Olhou nos olhos do mais novo morador do local.Vazios e sem vida.Que contradição, pensou!Não podia entender essa pessoa.Era um enigma.Talvez tivesse problemas incapazes de serem pronunciados ou talvez simplesmente não soubesse de fato se comunicar.Não sabia.Sentia pena e vontade de ajudar de alguma forma.Mas ajudar como?Sempre tivera tudo que quis, viajara o mundo, frequentara os melhores lugares, as melhores escolas, tivera todas as oportunidades possiveís e inimagináveis.E supostamente as aproveitara.E ainda assim, não sabia sorrir.Ou viver. Era um desafio e uma mão atada.De plástico, com calça jeans e músculos.A realidade dera um tapa em sua cara- sim, era preferível continuar a sonhar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Uma homenagem

Seus grandes olhos azuis brilhavam, fitando o local com ansiedade e certeza. O cabelo vermelho-vivo combinava com a pele clara e o corte repicado, desleixadamente preso, sugeria uma certa informalidade que não poderia ser negada após a primeira gargalhada alta, nasal e maliciosa.Ela tinha seus vinte e poucos anos.Vestia uma blusa colada,uma cigarrette e um all star velho. Era simples e decidida.

Chegou, falou, riu, se enturmou, bebeu. Ao som das baladinhas anos 80, não se preocupava com os outros. Dançava para si. Passos arrastados, cabeça baixa, olhar alheio...Usufruía do seu corpo da melhor maneira possível. O conhecia, sabia seus limites, seu talento, seus defeitos, estava satisfeita. Mike Nichols a teria escalado.

Era feliz com pouca coisa.Queria dançar, queria aproveitar, queria sentir-se bem com pouco, sendo ela mesma, da forma que quisesse.Queria ser originalmente feliz.Alguns olhavam-na receosos.Há pessoas que gostam de aparecer.Não era o seu caso.É certo que não se incomodava com os olhares que a fitavam, mas não era a eles que se dirigia. Dançava, cantava, vibrava. A vida pulsava frenéticamente a cada nova música que lhe enchia de esperança e prazer.

Estava viva.

domingo, 23 de março de 2008

Finalmente criei o comentado blog.Sempre quis ter um blog, mas por falta de tempo ou pura preguiça mesmo acabava adiando esse desejo.Bem, pretendo escrever sobre tudo.Esse blog não possui um assunto específico até então e a idéia é que seja no começo algo sem grandes pretensões, uma ferramenta de discussões e também algo que me faça escrever com uma certa frequência.Por isso escolhi o nome Bastidores.Porque pretendo escrever sobre tudo que eu sinta vontade ou que eu ache que seja importante de alguma forma ou até mesmo algo insignificante que de alguma forma tenha ocupado um tempo na minha cabeça ou tenha me deixado alguma impressão.Hoje começo escrevendo sobre amizade.E como tenho pouco tempo porque o ônibus é daqui a pouco, vou ser breve e o texto vai ser 100% subjetivo.
Após três semanas fora, volto a Prudente.O feriado foi incrível, muito agito, pouco tempo pra estudar e ler os textos da faculdade,almoços de família, enfim aquela coisa em que você se vê enroscado pra conseguir encontrar todo mundo e não desapontar ninguém.
Mas o que me chamou atenção mesmo foi a transitoriedade da vida!Encontrei a maior parte dos grupinhos que convivi boa parte da minha adolescência e hoje é contraditoriamente feliz e perturbador reencontrá-los.Feliz porque são as pessoas que você conhece e que te conhecem, que vão identificar quando você está bem e quando você dormiu pouco, que sabem quem são seus pais, irmãos, que lembram de você ao ver um filme, ler uma reportagem, ao visitar lugares, que estão prontas pra ouvir suas novidades com interesse e saber todos os detalhes da sua rotina.Esse tipo de coisa é confortante e animador.
Mas perturbador porque você fica ciente de que o tempo passa.E passa rápido.Hoje meus amigos se espalharam pelo mundo , há pessoas trabalhando em navios no exterior, há pessoas nos EUA, há gente em Curitiba,BH,etc...E o saudosismo dessas pessoas e daquilo que elas representaram e ainda representam é muito forte, ainda mais quando você se dá conta de que esse nosso tempo juntos não vai voltar nunca mais.E pra quem ficou por aqui a coisa não deve ser muito melhor, afinal você é obrigado a se reinventar em uma cidade onde as oportunidades de conhecer pessoas não são tão frequentes e onde os restaurantes, clubes e casas noturnas vão te fazer lembrar de pessoas com quem você já conviveu e de quem você guarda ótimas lembranças.
É muito triste voltar e ouvir isso de quem ficou.Ainda mais quando se tratam de pessoas tão especiais.Mas o segredo, pra mim, está em se manter aberto, ter confiança no futuro e na vida e principalmente, não ter medo de se envolver.
Acredito que as amizades sejam uma das coisas mais valiosas e eternas que a vida nos proporciona, esse contato com pessoas diferentes, visões de mundo diferentes, hábitos diferentes, capaz de te transformar e de te fazer passar por situações memoráveis é realmente algo especial e rejuvenescedor.Estar aberto a conhecer pessoas e compartilhar seus gostos, hábitos e vulnerabilidades, é o canal pra se sentir querido e próximo ao outro.É engraçado pensar que ainda exista hoje em dia um medo em se envolver, em se mostrar tal qual você seja, em se aproximar das pessoas.
Enfim, meu conselho é esse: que as memórias fiquem bem guardadas,que as amizades antigas sejam mantidas com muito carinho,e que cada coisa boa que alguém tem a te acrescentar diariamente signifique uma transformação no seu jeito de pensar e agir, mantendo-se aberto.Sempre.Lamentar a transitoriedade da vida e suas fases significa fechar-se quanto ao novo e tentar reviver um tempo que não volta mais, com pessoas que, segundo Heráclito( 100% Ciro isso ) não serão mais as mesmas quando você as reencontrar.
Boa sorte pra todos vocês aonde quer que estejam...E me desejem sorte também.