segunda-feira, 7 de abril de 2008

Deja vú

A fachado do prédio prometia surpresas.A maçaneta longa e cuidadosamente dourada enfeitava a porta de vidro com graça e necessidade.Olhou para baixo e, ao entrar, o tapete fofo e antigo amaciou seus pés cansados da calçada úmida e esburacada.O hall de entrada era acolhedor e aconchegante e as duas cadeiras ali dispostas contribuíam felizes para a sensação quente e vintage exalada no ambiente.

Chegou ao elevador, seu rosto molhado e a barba vagabundamente feita passaram de relance frente à magnitude do espelho, estratégicamente postado entre as paredes de madeira maciça.O lugar tinha algo de enigmático.Que segredos guardam esses elevadores?Toda sorte de perguntas lhe invadiam os pensamentos.Quantas pessoas, de diferentes tempos, vindas de diferentes momentos, vivenciando diferentes situações, talvez de diferentes países, enfrentando frio, sol, chuva, teriam passado por ali?

O apartamento seria igualmente intrigante, apostou.E o foi.A começar pelo olho mágico, daqueles antigos, atualmente não mais aconselháveis, já que a espessura do buraco seria um tanto quanto problemática em caso de visitas indesejadas.A porta se abriu e o que viu foi previsivelmente prazeroso e intenso.As janelas antigas e a posição dos cômodos, somadas ao brilho dos tacos fizeram-no lembrar e sentir muitas coisas.Como num deja vú, não sabia ao certo o que especificamente lhe lembrava, da onde surgiam as sensações ali experimentadas, mas algo o fazia crer que já estivera num espaço destes antes, que já vivera em ambiente parecido, ou que talvez fosse o lugar ideal pra se viver, dada a identificação súbita com o clima daquele local.

Pensou em sofás desorganizados, livros espalhados, quadros e souvenirs nas paredes, pôsteres, cobertores, filmes, jantares.Momentos.Pensou na vida que poderia ter ali.No cheiro de comida quente saindo da cozinha apertada e invadindo a sala, espantando o mofo dos armários antigos.A garoa fina continuava a bater na janela.Lembrou-se do passado.A atual situação não era para tristezas.Refez-se.Pensou em risadas, abraços, beijos, confidências, intimidades, saudades...

A volta das viagens seria ótima num lugar desses.Voltar para um lugar desses seria estimulante, certamente!Fez planos.Mais uma vez, não cessava em planejar coisas em seu íntimo, mesmo que não gostasse de planejar com detalhes.Mas esse era um momento seu, tinha esse direito.

-Me ajude aqui!

Saiu das suas divagações, voltou à realidade e deixou a chuva escorrendo na janela e a vista movimentada para lá.Olhou nos olhos do mais novo morador do local.Vazios e sem vida.Que contradição, pensou!Não podia entender essa pessoa.Era um enigma.Talvez tivesse problemas incapazes de serem pronunciados ou talvez simplesmente não soubesse de fato se comunicar.Não sabia.Sentia pena e vontade de ajudar de alguma forma.Mas ajudar como?Sempre tivera tudo que quis, viajara o mundo, frequentara os melhores lugares, as melhores escolas, tivera todas as oportunidades possiveís e inimagináveis.E supostamente as aproveitara.E ainda assim, não sabia sorrir.Ou viver. Era um desafio e uma mão atada.De plástico, com calça jeans e músculos.A realidade dera um tapa em sua cara- sim, era preferível continuar a sonhar.

Um comentário:

Clara disse...

Tulio!!!
Você escreve muito bem, sério mesmo :)
Você já tem um link no meu blog :D

=*