sábado, 28 de junho de 2008

Artigo pra Marília

Uma análise filosófica sobre a questão tibetana

Março de 2008. Sessenta anos de dominação chinesa no Tibete. Um levante nacional ocorre em Lassa, capital do Tibete, e recorda ao mundo aquilo que não se quis ver: uma história de imperialismo, repressão, etnocídio e mortes.

A poucos meses das Olímpiadas de Pequim, os tibetanos mostram que ainda têm forças para resistir. O sentimento nacionalista vive e uma nova geração de tibetanos se mostra engajada na causa da independência, procurando outras formas de resistência. Se antes a posição de resistência pacífica do Dalai-Lama, líder religioso e político máximo do Tibete, era o ponto em comum entre os tibetanos ao redor do planeta, hoje pode-se dizer que as coisas mudaram um pouco.

Boa parte dos jovens tibetanos crescidos dentro do regime opressor chinês, para quem liberdade é uma palavra desconhecida e as lembranças da independência de seu país soam como uma fábula encantada, não mais se apegam ao Dalai como um líder ao qual devem seguir. A religião é frequentemente criticada em instituições de ensino tibetanas e as revoltas de cárater mais incisivo são cada vez mais frequentes. Mas, e quanto a posição do Dalai?

Desde 1988, o Dalai renunciou à independência, assegurando apenas o desejo de autonomia e sinalizando até mesmo uma união com a China.A decisão, que se mantém até hoje, privilegia as tentativas de diálogo aberto e condena as manifestações violentas favoráveis a independência tibetana ao redor do mundo. Como se atitudes mais incisivas ou que promovam a questão do Tibete aos flashes da mídia pudessem de fato ser maléficas para o processo de conversação com as autoridades chinesas. Posto isso, entra em cena a filosofia.

O filósofo alemão Immanuel Kant postulou em suas três principais obras a noção de imperativo categórico: a existência de uma moral unificada e igual para todas as pessoas. Dessa forma, o indivíduo deve procurar agir da melhor maneira possível - de modo a sua atuação servir de exemplo para as outras pessoas sem se dar conta - sempre tendo em mente que o outro é um fim em si próprio, e não um meio para usufruto alheio.

Correlacionando os postulados de Kant à posição do Dalai-Lama, pode-se reiterar que a opção por uma resistência pacífica, que privilegie o diálogo e não veja os tibetanos ou os oficiais chineses somente como um meio para a validação de uma causa maior, a independência tibetana, seja dona de sentido.

Por outro lado, é completamente passível de entendimento o comportamento dessa nova geração de tibetanos e seu descrédito com relação aos apelos pacíficos de seu líder supremo. David Hume, filósofo escocês do século XVIII, foi o pai do utilitarismo sistematizado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill, que prevê ações cujo único próposito é a consequência a ser atingida. Consequência esta que deve favorecer o maior número de pessoas possível. A moral humiana é alimentada pela consequência do ato praticado, daí sua classificação como utilitarista.

No caso do Tibete, o utilitarismo seria uma possível solução para acelerar o processo de autonomia da região, como já vem sendo feito: recentemente houve na Índia a organização de uma marcha de protesto dos tibetanos em exílio na Índia rumo ao Tibete, reivindicando a independência total da China.

É claro que a não-violência deve ser procurada. Entretanto, frente à posição internacional de entidades como a própria ONU e o governo indiano – acolhedor da maior parcela dos refugiados tibetanos – de não reconhecer a independência tibetana, além da anestesia da comunidade internacional, hipnotizada com o mercado consumidor chinês e suas maravilhas, e incapaz de ousar pensar perdê-lo, a situação no Tibete não encontra fácil saída. Dentre as possibilidades, permanecer estático não está entre as opções. Que nessa Olímpiada não sejam só as medalhas americanas e chinesas fonte de controvérsia.

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