quarta-feira, 23 de julho de 2008

Uma corrida

Andava pelo parque distraído. Ali, naquele lugar em que tantas vezes divagara sobre a vida, sobre seu futuro, seus sonhos, seus amigos, seus medos e seus amores. Engraçado voltar ali, andar ali, rever pessoas, sensações e momentos. Lembrar de suas corridas sozinho, em que aqueles poucos minutos eram como uma bigorna caindo do alto de um prédio: intensos, leves, renovadores. Fora um ano díficil aquele, sem dúvida.

Mas ótimo. Ele mudara tanto, em tão pouco tempo! Incrível. O vento, a certeza que a paisagem bonita exalava, o clamor dos passos apressados, o encontro com pessoas queridas, tudo lhe fazia feliz. Mas acima de tudo, era a sua personalidade o que mais lhe fazia bem. A fase em que se encontrava. Descobrindo tantas coisas, se livrando de tantas outras. Tantas amarras.

O passado não lhe metia mais medo. Muito pelo contrário: agora era sua vez de causar medo. De causar medo do tempo que passa rápido, das coisas que ficam para trás, de todos os segundos que não são bem aproveitados. Tinha sede. De vida, de bandas alternativas, de filmes clássicos, de músicas românticas, de peças desconhecidas, de atores e atrizes talentosos, de poesia e de bossa nova. De beijos perdidos. E de novos beijos a serem conquistados. De sorrisos e de momentos especiais.

-Tragam a água, o garoto acaba de correr!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Nicole e o casamento

O que mais me chamou atenção no filme foi a inovação. É simplesmente inevitável dizer que me senti desafiado. Desafiado a compreender um roteiro propositalmente desconexo, uma série de frases, situações e comportamentos extravagantes e realistas que não pareciam levar o filme a lugar nenhum, mas à análise do comportamento humano. À solidez e ao ventre da relação de duas irmãs. E gostei disso. Gostei dessa atmosfera estranha e perturbadora, em que as coisas nem sempre fazem sentido, em que risadas e lágrimas se sucedem e interagem em uma fração de segundos. Em que o público é instigado a refletir para se chegar a algum lugar.

A relação entre irmãs me chamou atenção. Esse sentimento impálpavel, forte, irracional, que não pode ser dito, que admite ressalvas, brigas, momentos tensos, angústias, críticas, mau-humor e toda sorte de estados, mas que como um ventríloco com sua marionete, está sempre lá. Superior. Presente, vivo, para ser sentido, defendido, admirado...amado.

A sinceridade das personagens, o seu realismo, a câmera fugídia e vibrante, a fotografia natural e as atuações espontâneas merecem créditos. O que mais gosto depois de assistir ao filme é pensar em Nicole Kidman de uma maneira diferente. Depois da fama, um ator não precisa mais fazer qualquer papel. Ele os escolhe. E Nicole vem escolhendo filmes não tão convencionais assim. O que eu acho simplesmente ótimo. Não importa se fazem sucesso ou não, se o salário é alto ou não, a característica comum é o conteúdo que abordam: pessoas não convencionais, muitas vezes em crises, questionadoras, com uma vida interior complexa e pulsante, de alguma forma diferentes do senso comum. E essa ligação da atriz com esse mundo de personagens complexas é tão forte que não seria pouco dizer que são exatamente essas personagens as que Nicole encarna melhor.

É só lembrar de Grace, em Dogville, Anna, em Birth, Diane, em Fur. E claro, Virgínia Woolf em As Horas. Com Margot, não seria diferente. Nicole transita entre o cinema alternativo, diretores alternativos e interessantes como Lars Von Trier e o próprio Noah Baumbach e as grandes produções, como Cold Mountain e Austrália - em fase de pós-produção. Margo e o casamento, um filme para se pensar. Uma proposta que por si só, boa ou ruim, a depender de quem assiste, já é interessante desde o começo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Você - Dick Farney e Norma Bengell

Você, manhã de todo meu
Você, que cedo entardeceu
Você, de quem a vida eu sou

E sei, mas eu serei
Você, um beijo bom de sol
Você, de cada tarde vã
Virá sorrindo de manhã

Você, um riso rindo a luz
Você, a paz de céus azuis
Você, sereno bem de amor em mim

Você, tristeza que eu criei
Sonhei, você pra mim
Vem mais pra mim, mais só

Você ...
Você ...
"Voxê" ...

Você ...
Você ...
Você ...

Você, um riso rindo a luz
A paz de céus azuis
Você, sereno bem de amor em mim

Você, tristeza que eu criei
Sonhei, você pra mim

Vem mais pra mim, mas só
Vem mais pra mim,
Vem mais pra mim, mas só
Mas só ...

domingo, 13 de julho de 2008

E o vento levou...


Pulso firme. Forte, exigente, determinada, segura, espirituosa e ousada. Linda. Vivien Leigh como Scarlett O'Hara. De uma presença fabulosamente desafiadora. Até que enfim tomei coragem e assisti ao filme que tanto ouvi falar nas aulas de história: "E o vento levou...". E palmas para ela, a protagonista escolhida numa seleção de mais de 1400 atrizes de todo mundo carrega o filme com a intensidade exata exigida pela sagacidade de sua personagem.

O que mais admiro em Scarlett é sua segurança e determinação. Mesmo nos momentos mais díficeis dentre os muitos que se sucedem ao longo do filme, Scarlett nunca perde a esperança de mudar o rumo de sua vida. Ela promete nunca mais passar fome, toma as rédeas dos negócios da família, assume o lugar do pai ensandecido, sofre com as surpresas da vida, da morte e do amor - mas nunca deixa de acreditar que pode vir a mudar os acontecimentos a seu favor.

E se nem tudo é como poderia ser, não é por isso que Scarlett vai ficar parada. Pensando nos problemas no dia seguinte, a possibilidade de se chegar a uma solução é muito maior. Nem que para isso sejam necessárias algumas doses de conhaque - ora, ninguém é de ferro!


quinta-feira, 10 de julho de 2008

Fabuleux

As cores ofuscavam seus olhos brilhantes e desejosos. O amarelo vibrante misturado ao dourado dos objetos bem distribuídos ao redor dos cenários lhe transmitiam um certo otimismo e uma sensação de conforto; o desejo íntimo das personagens, principalmente da protagonista, era bem representado pelo vermelho de seu quarto, de suas blusas, saias e de seus lábios delicados. Como se a vida, o amor e a paixão gritassem para todos a sua existência pulsante e ardente. Os saguões e as estações de metrô ficaram bem de verde.

Tudo na mais perfeita e sincera sintonia. As personagens não idealizadas, excêntricas e admiráveis em toda a sua imperfeição e veracidade davam o tom cotidiano e acessível ao filme - era um retrato bem feito de personagens reais, pálpaveis, corriqueiras, dúbias, inseguras. Humanas. A vida como ela é, as pessoas como elas são. Uma série de aventuras e desventuras, o risco de cada dia, a alternância de sentimentos, o sublime e o banal. O conforto de estar vivo: ter prazeres, sonhos, mistérios, medos, desafios. Sentia-se leve, contemplado, esperançoso.

A vida como uma mudança. Original, divertida e simples. Única e formidável. Os pequenos atos como grandes ações. A ousadia refletida num desejo de criança. A alegria e a felicidade. Agora, 1 e 43, do dia 11 de julho de 2008. Ah, Amelie!

terça-feira, 8 de julho de 2008

O filme de hoje

Um filme intrigante. A briga interna com que convivemos quase todos os dias: aquilo que somos, aquilo que queremos ser. Aquilo que podíamos ser. Coisas do tipo. Mas a pergunta é: se todos nós temos dentro de si um "Clube da Luta", por que se preocupar tanto com ele em vez de apenas viver, da maneira que queremos, da maneira que nos sentimos melhor, sendo nós mesmos, com todas as nossas nuances, mudanças, vícios e virtudes, na imperfeição do dia-a-dia? É preciso coragem.

É algo para se pensar. Antes ser do que de fato idealizar e viver do "querer ser". Fico com a primeira opção.