domingo, 31 de agosto de 2008

DeNiro indomável

Para muitos críticos de cinema talvez a obra-prima do diretor norte-americano Martin Scorcese, Touro Indomável permanece como referência entre os filmes de boxe e, consensualmente, um dos clássicos dos anos oitenta. O longa conta a história do pugilista peso-médio Jake La Motta, filho de imigrantes italianos e conhecido como “The Bronx Bull”(o touro do Bronx), vivido magnificamente bem pelo ator Robert DeNiro – idealizador do projeto e principal responsável por convencer Scorcese a aceitar dirigir o filme.

Focando na rápida ascenção e queda de La Motta, talvez o grande mérito do filme seja relembrar ao espectador que, muitas vezes, o maior inimigo que possuímos pode ser nós mesmos. A força destrutiva com que o pugilista encara seus adversários transborda para fora dos ringues e atinge sua vida pessoal da mesma maneira drástica e quase que involuntária com que o protagonista vence suas lutas. Para encarnar La Motta em sua última fase no filme, DeNiro foi capaz de engordar quase 30 kg, uma transformação até então inédita no cinema, que somada ao seu empenho entusiasmado na produção e interpretação do protagonista, lhe rendeu o Oscar de melhor ator.

Touro Indomável é rodado em preto e branco e propositalmente os únicos trechos coloridos do filme aparecem durante a exibição dos filmes caseiros de 16 mm ao longo da narrativa. A trilha sonora é um grande marco do filme, assim como o roteiro de Paul Schrader que, apesar de focar principalmente nas cenas mais violentas, traduz muito bem a percepção que La Motta tem da realidade. Se por um lado talvez seja difícil se identificar com o turbulento protagonista, em contrapartida é praticamente inevitável não se emocionar com a interpretação eletrizante que DeNiro imprime ao filme.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Um dia de cão

Os índios só pedem terra. Daniel Dantas ainda está solto. A guerra do Iraque continua. McCain em primeiro lugar nas pesquisas norte-americanas. MartaXAlckmin. Maluf. Um buraco em um metrô joga milhões de reais na lata do lixo e as causas são "naturais" . Poluição. Aquecimento global. Assaltantes de 14 anos na Vila Indiana. Roubando estudantes, pouco mais velhos. Mais mortos no Rio. Queimadas na Amazônia. Cortadores de cana no interior. Alienação. Arrogância. Ceticismo. Conservadorismo. Medo. Preguiça. Subserviência. E uma professora que me vem com mil e um intelectuais que sutilmente inferem que a ditadura era necessária em prol do processo de modernização e industrialização brasileiros. Ah, vá a merda!

E quanto às músicas de Chico? As interpretações de Elis? A loucura de Vandré? A morte de Herzog? Ao movimento hippie, woodstock, Janis e Jimmy? Aos milhares de exilados, torturados, mutilados e mortos? E quanto aos filhos do exílio ou às mães das praças de maio? E quanto ao Brasil? E quanto a essa dependência ridícula e cretina? A essa imitação barata? Aos analfabetos, aos famintos, aos bandidos, às prostitutas, aos velhos e aos jovens? E quanto aos brasileiros? E a seca e as enchentes, as favelas, os mendigos e os loucos? E quanto ao medo de inovar, de arriscar, de transformar, de crescer, de ser, de parar de fingir?

Desculpe, mas sentar numa sala de aula e discutir os problemas do mundo considerando a hipótese de que o autoritarismo é uma característica própria, um processo quase que inevitável para os fins almejados e alcançados e que - sim, sim, quem nunca ouviu falar do fabuloso "milagre econômico"? - o crescimento econômico foi brilhantemente bem-sucedido durante o período - e por que será que se esquecem de citar a dívida externa? ou a distribuição de renda? - e nunca anteriormente visto, é muito pra mim. A vida está e esteve lá fora o tempo todo. Mais do que um esquema gráfico, uma teoria, uma tabela, um conceito. Uma necessidade. Há um país por trás disso tudo.

Vergonha!

sábado, 16 de agosto de 2008

A um amigo

Por alguns segundos, abstraiu. Pensou no significado de momentos como aqueles. As pessoas revezavam-se apressadas para falar de si mesmas, um pouco nervosas, com as mãos ocupadas distraidamente em movimentos rápidos e fúgidios, contornavam costuras de bolsos, soltavam e prendiam novamente tic-tacs e presilhas, coçavam o rosto que não coçava. Era engraçado. Seu peito arfava, numa mistura de excitação e vontade de conhecer e ser conhecido. Apreciava esse tipo de coisa.

Foi então que o garoto se levantou. Do alto de seu mais de um metro e setenta, parecia não trazer grandes surpresas. Seu aspecto era sereno, do mesmo modo de suas roupas, simples e bem escolhidas, e de seu jeito de andar.

Era uma pessoa sincera. Gesticulou, explicou e fez-se entender: era um amontoado de coisas. Como saber o por quê dessas coisas? Só sabia disso, a vida é assim, uma sucessão de momentos, fases e gostos, aonde o medo não precisa necessariamente ter seu lugar garantido. Concordou. O medo paralisa as pessoas. E nem as coisas precisam ter uma relação tão bem definida. Sabia do que gostava, sabia que estava ali. Sabia o que queria. E pra que saber mais?

De alguma maneira, pegou-se com lágrimas nos olhos. Singelas, naturais e sublimes. Felizes. Assim, como a vida, as pessoas à sua volta e os momentos como aqueles. Sentiu vontade de que aqueles quatro anos e meio, com aquelas pessoas especialmente únicas e unidas, demorassem a passar. E que fossem daquele jeito, cheios de descobertas, até mesmo na última aula de uma sexta-feira à noite.

sábado, 9 de agosto de 2008

Nossa Vida Não Cabe Num Opala

“Nossa Vida Não Cabe Num Opala” é, antes de tudo, um filme ousado. Baseado na peça teatral de Mário Bortolotto, a versão cinematográfica é dirigida por Reinaldo Pinheiro, que consegue captar com competência a essência e as características das personagens tipicamente paulistanas retratadas no filme. A câmera persegue as personagens em seus conflitos, de maneira que em muitas cenas é possível perceber que o movimento de Pinheiro parece refletir realmente o que as personagens vêem ou sentem.

As cores pastéis e os ambientes desorganizados traduzem com presteza o tédio e a vida sem perspectivas e sem afeto das personagens principais. O choque de uma realidade tão triste e tão degradante, que revela o pior da condição humana, o lado mais obscuro e desesperador de uma vida de roubos, marginalidade, ignorância e subserviência ao crime e à falta de escrúpulos, leva o espectador a fazer uma pergunta simples: por que essas pessoas não tentam mudar de vida? A resposta aparece absolutamente nítida ao longo do filme.

Como se safar de uma condição onde a esperança não existe mais, ou sequer existiu algum dia? As personagens do longa estão enterradas nas profundezas de suas próprias vidas amargas, como se tivessem sido tragadas por seus próprios medos e pela indignidade do meio em que vivem. Viver de roubos e cair na mediocridade parece ser a única saída possível para os elementos dessa família.

Merecem destaque também o figurino muito bem trabalhado e a trilha sonora, presente em todos os momentos cruciais do filme, com uma carga dramática que se torna imprescindível para a compreensão da proposta do longa. Com um final impressionantemente chocante e deprimente, o longa de Pinheiro consegue retratar com fidelidade uma existência caótica, desprovida de qualquer possibilidade de sonho: para essa realidade não há trégua.