sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sexta-feira santa

Por uma fração de segundos, voltou no tempo. Podia sentir o calor do tempo abafado, a sensação de sair nas ruas com os cabelos úmidos que sempre o refrescara, o sol do final da tarde, terno e simbolizando o fim de seu expediente, os músculos de seus braços ainda cansados da musculação... Entrava na sala, sentava-se, exausto, repensando o que ainda tinha de fazer, o que fizera naquele dia, o que pretendia fazer dali a um ano.

Como as fases da vida passam rápido. Olhou para os tracinhos espalhados no papel reciclado e se lembrou desse passado recente. Era como um tapa na cara. Súbito e eficiente! Podia ouvir novamente os listenings que tanto treinara, o barulho do ar condicionado, relembrar o movimento dos teachers, repensar suas sextas-feiras, nas vezes em que saíra apressado, sem jantar, depois de um banho de dez minutos, para ir ao cinema ou ao shopping da cidade. Fizera isso tantas vezes!

Engraçado pensar que um tracinho, entre um B e um D, em um papel reciclado, no meio de uma prova de inglês, pudesse trazer tantas lembranças, cheiros e sensações de uma maneira tão arrebatadora.

Sim, senhores e senhoras, o tempo passa!

----------------------------------

Devia ter seus treze ou catorze anos. Apesar da aparência, seus traços de criança não o enganavam. Talvez nem mesmo enganassem seus colegas. Talvez seu objetivo era enganar-se só a si mesma. Tanto melhor se fosse isso mesmo, pensou. Não conseguia acreditar no que via. De sobretudo, bolsa empunhada contra o braço, meia calça rosa choque, maquiagem pesada, cabelos semi-alisados, semi-rebeldes, desejava ter atitude.

Típico da juventude, diriam. Atitude e estereótipo caminhando juntos - porque o que importa é realmente mostrar aos outros quem somos. Ideologia barata. Com aqueles trajes não era uma menina de catorze anos. Era madura. Como poderia correr ou gritar, gargalhar sem parar ou jogar volei com todo aquele aparato ambulante em que se transformara? É uma questão de imagem, mocinho! A sociedade de hoje vive do exterior!

Se era feliz? Provavelmente não, haja vista seus olhos minguados pelos cantos do prédio, ou, analisando a cena de maneira antiquada, a ausência de pessoas de carne e osso - que não fossem parte do plástico de suas roupas e personalidade - ao seu redor. Modernidade!

3 comentários:

Alice Agnelli disse...

Tulio, eu consigo me apropriar tão facilmente das suas palavras...

Parece que eu não presenciei sua inspiração enquanto me esperava.

Parece que quando vc me falou sobre quem escreveria, eu pensei o que eu acabo de ler de vc.

Parece que vc é daqueles que vêm, misturam os pensamentos nos meus, terminam as minhas frases, e ainda me fazem sentir como parte também de mim.

Parece, e eu gosto disso.
E muito.

gi disse...

nem me fale em tempo que passa!
passou tudo tão rapido, não acredito que já faz um ano que vc tava aqui estudando desesperadamente pelo seu presente!
saudades imensas de ouvir seus pensaamentos!
beiiijo

Felipe Lobo disse...

Dá para ver a cena e quase dá para sentir o que cada personagem sente. É como uma viagem à sua mente.