domingo, 19 de outubro de 2008

História da África

A menina encarava as doloridas linhas de suas mãos, com quem convivia a duros e sofridos treze anos, como quem olha nos olhos profundos de uma velha emocionada. Não tinha vergonha de sua aparência, isso era o de menos. Lembrou-se da mãe, com quem tivera pouco contato - o suficiente para relembrar todos os momentos que passara sob seu colo, depois do almoço, quando recebia seu cafuné no meio da rua.

Da avó se lembrava menos. Só ouvira a mãe contar algumas vezes de suas reclamações, provavelmente herdadas de seus bisavós. O jeito que as terras foram tomadas. Essa tal propriedade.

-Ela dizia: "chegaram aqui, como quem não quer nada, adentraram o território, pomposos, com toda aquela vestimenta, aqueles pertences, em busca do ouro; no fim, tiraram o papel e nossa sentença estava feita: a terra não é mais de vocês. E alguém se preocupava? É claro que não! Na África, nunca tínhamos ouvido falar disso, gente. A terra é de todos e não é de ninguém. Foi de meus pais, assim como é sua e será de sua filha."

Fora na escola que escrevera, certa vez, com as mesmas mãos que agora encarava: "os europeus entraram, fizeram contratos, tinham a suposta posse legal das terras africanas". Balela! Sentia seu rosto queimar, como o vento do deserto que castigava a paisagem que tanto amava. As mulheres da família não mereciam suas sortes.

Não havia mais tempo para passado. O estalido do sinal desafogou-lhe da embriaguez de seus pensamentos entrecruzados. Por um segundo e com uma intensidade enlouquecedora, desejou mais tempo para si mesma. Que luxo! Tinha de trabalhar. Em Guiné Bissau, as alternativas que lhe restavam eram poucas. E nada agradáveis. Talvez, um dia, tudo possa ser diferente. Não se entregaria assim tão fácil.

Olhou para o relógio: hora de ir.

4 comentários:

Clara disse...

e o pior é que essa sua menina é quase um estereótipo da menina africana, não é?

como é que coisas assim acontecem? como é que permitem que coisas assim aconteçam?


[mas... quem é(são) o(s) sujeito(s)dessa pergunta? quer dizer... quem é que permite? será que somos nós? ou esse meu pensamento é muito assistecialista?
porque, para mim, nós tratamos o africano como se ele fosse o objeto da sua história, e não o sujeito... e será que isso é verdade até que ponto?]

Tulio Bucchioni disse...

pois é...um estereótipo de séculos que vem apenas se modernizando e se atualizando, sem, no fim, ser de fato extinto...

exatamente...tratamos o africano como reles objeto, porque a história ocidental, além de opressora é preconceituosa...bom, estamos aí pra repensar tudo isso!

Luiz disse...

Oi, Tulio, td bem?
Acompanho seu blog há algum tempo, sempre preferindo ler seus texttos aleatoriamente.. Do tipo: "Ah, vamos ver o que ele pensava em Abril.."

Hoje resolvi comentar, mais, talvez até lhe dar um dica. É oferecida na FFLCH (Letras) uma disciplina muitississíma interessante, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, dá uma olhada, é optativa livre. Vale a pena - quer dizer, não é de forma alguma uma pena fazê-la.

Enfim, abraço.

Tulio Bucchioni disse...

Oi, Luiz!
hahaha...obrigado por entrar no meu blog de vez em qnd!
valeu pela dica! eu faço na FFLCH "História da África", também é uma ótima opção...me fez refletir mto sobre a áfrica em perspectivas completamente diferentes...
um abraço!