segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Personagens de uma história

Eram dois infelizes, os dois. Uma, representante da grã-fineza. Vestia-se com as melhores roupas, os acessórios mais caros e brilhantes, as tendências da última moda. Os cabelos eram alourados e donos de um corte autêntico. Seu linguajar refletia sua jovialidade - poucos acertariam a sua idade. Os olhos, azuis de uma força impressionante, refletiam o passado de boas medidas e incitavam a curiosidade alheia sobre sua história.

Era uma mulher forte, aquela. E apesar de todos os aparatos, não era superficial. Pelo contrário, suas posturas eram muito bem definidas e muito aquém do que toda a aprumação poderia supor. De certa forma, também lamentara os tempos em que viviam. Ela sempre o intrigara. Não declarava abertamente suas opiniões quando não era necessário. Era comedida e certeira. Não se importava com os outros, certamente. Era para si mesma que tinha o prazer de viver. E de ensinar, e de olhar e analisar a vida em seus pormenores. Era tudo ou nada: segurança e certeza de mãos dadas à insegurança de cada sentimento. Porque nem sempre a razão tem a razão!

Ele era um mal-amado. Ou pelo menos parecia. Olhar caído, bochecas minguadas, pulseiras escorregando pelos braços, camisa aberta até a metade do peito. Não, não era charme. Não se daria ao luxo de charmes. Parecia estar imune ao prazer. Em suas pidas e ensaios sobre a vida, reinavam as ironias e o sarcasmo. Mas não tinha dó de si mesmo - e nem dos outros. Parecia conformado com a situação das coisas. Analisava tudo a sua volta e chegava à conclusões pessimistas - era o que sabia fazer. Ou podia fazer, dado o seu estado. Naquelas circunstâncias, o seu pessimismo não era de se rejeitar. Olhava-o, intrigava-se, tentava adivinhar as razões para tamanho ceticismo...Era como um morto-vivo.

Gostava da sua raiva disfarçada de ceticismo. Agradava-lhe seu tom rebelde, sua subversão encenada de uma maneira dócil. Na juventude, certamente teria sido alguém interessante, com sonhos, ávido por grandes feitos e boas histórias. Nisso se pareciam. E lhe dava prazer ter contato com alguém assim. Um eterno mistério.

Ela não sabia sorrir. Ele não queria sorrir. Um belo par, não fossem tão diferentes. De mundos tão excludentes. Ainda assim, não podia se lembrar de exemplos melhores. De figuras mais excitantes, de pessoas mais apaixonantes. De vivências mais bem-quistas.

Um comentário:

Luiz disse...

Acredito que essa uma característica dos bons textos: a capacidade de nos colocar em contato - em diálogo - com nós mesmos.