sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Um desabafo II

A democracia como um fim. O grande objetivo. Instituições democráticas consolidadas, poderes separados e não sujeitos a intervenções, competição política, eleições regulares, pluraridade partidária, educação para todos, sistema de saúde de qualidade, transporte eficiente, taxas de desemprego irrisórias, desigualdade então, quase zero. Um sonho admirável em toda a sua plenitude.

Mas uma grande piada nos dias de hoje. Que instituições democráticas estão consolidadas frente ao poder econômico que corrompe e corrói tudo ao seu redor? Que inverte valores, joga no lixo qualquer ideologia e caráter para vencer? Como negar as intervenções veladas entre os poderes, no conchave para defender interesses de grupos privilegiados da sociedade, políticos corruptos, interesses de multinacionais e das famosas grandes potências?

Que competição política existe quando a representatividade de partidos e candidatos é tão desigual? Como as minorias podem um dia vir a competir com partidos consolidados que detém 20 minutos de horário eleitoral na TV? Qual é o real significado de eleições regulares quando mais de 50% da população não têm acesso à condições mínimas de educação para avaliar candidatos, propostas e programas ideológicos de partidos? Quando essa mesma população não possui nem ensino fundamental completo?

Como atingir um sistema de saúde de qualidade, transporte eficiente e taxas de desemprego irrisórias se nossos deputados e senadores vendem seus votos, nossos presidentes vendem seus cargos, nossa política econômica sustenta um dos juros mais altos do mundo, nossos governadores, ministros e ex-ministros repetidamente foram ex-vítimas dos horrores da ditadura e aindam assim, parecem terem sido submetidos a um processo de lavagem cerebral que os impedem de agir com o pulso firme, a coragem e o caráter talvez tão recorrentes outrora?

Como não se chocar com a desigualdade que mata jovens todos os dias, rouba outros milhares, impele abortos, ignorância e estupros, tira jovens da escola, briga pais com seus filhos e abarrota as igrejas?

Como não se tocar com crianças de talvez oito, talvez cinco anos, de pé, desde às onze da noite até pelo menos às cinco da manhã, catando latinhas e tirando a água do salão enquanto nesse mesmo lugar jovens pouco mais de dez anos mais velhos tentavam se divertir?

Sinceramente, não sei. Mas o que sei é: democracia não é um fim. Há vidas correndo lá fora. Não procuremos seguir velhos exemplos milagrosos, que antes de ilusoriamente servirem, estão longe de ser o que possivelmente possam vir a aparentar. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Façamos diferente. Ousemos.

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