domingo, 30 de novembro de 2008

Uma velhinha

Vestia um casaquinho cor-de-rosa claro. As unhas, bem pintadas e grossas, saltavam aos dedos gordos, como pequenas coroinhas que brilhavam enquanto gesticulava. Suas caras e bocas eram características; era dada à caretas. A risada, alta e afável, só não lhe fazia um bem maior do que seus olhos: estes sim eram pequenas pérolas que o oceano tratara de deixar na terra para que os homens pudessem contemplar. Olhava fundo e trazia consigo toda a força impiedosa e hipnotizadora de um olhar preciso. Sabia poder buscá-lo sempre que fosse preciso.

O carinho que sempre sentira por ela era mágico. Tão forte, tão antigo, tão natural. Lágrimas eram capazes de escorrer de seus olhos quando pensava na ausência dela em algum dia. Estava acostumado a chegar ali, naquela mesma rua, naquele mesmo horário, naquela mesma e efêmera frequência, e dar de cara com seus sorrisos. Ali, sempre pronta e disposta a agradá-lo. Faça chuva ou faça sol; joelho doa ou deixe de doer.

Ah, como o tempo passa. Há pouco tempo ainda era pequeno e podia lembrar-se de suas caminhadas, de suas tardes à beira da piscina olhando os passarinhos tomarem água e ouvindo histórias de sua infância. Do tempo de quando era menina.

- Hoje não...Não é mais assim...No meu tempo era, mas hoje não! - dizia enfaticamente todas as vezes, não em tom de lamentação, mais como constatação.

Estava feliz. Gabava-se de ainda morar sozinha, de fazer suas coisinhas, de ser ativa. Ele orgulhava-se tanto disso. Ela devia imaginar. Era um exemplo pálpavel de determinação e força. Ainda que não dissesse tudo aquilo que sentia, procurava demonstrar com sorrisos, agrados ou beijinhos. Se falava mais incisivamente, ela ficava sem graça. Mas gostava, no fundo sabia que gostava muito.

E assim continuavam indo. Os domingos chegavam, a fome era sempre a mesma, a comida até que não variava muito - sempre satisfatória e caprichada. Mas era ela, aquela certeza absoluta e insondável, o que mais o atraia. Aproximar-se de sua porta, sentir o frio do corredor gelado subir-lhe as pernas, tocar a maçaneta com cuidado e ouvir o trinco ceder e ver a porta abrir, estampando seu sorriso feliz e sincero frente a sua chegada, era algo de sensacional:

- Oi, filho! A vovó tá com saudades!

sábado, 29 de novembro de 2008

E na insanidade opressora de querer se fazer notar, eis que se perde o fio da meada. É o que sempre penso. Para que os olhares prolongados se, no fim, eles são para você mesmo e para mais ninguém? Para que as sujeições absurdas se elas são só para te fazer feliz, e a mais ninguém? Para que as considerações profundamente gritantes e inconvenientes se, no fundo, a verdade a que se quer chegar só faz sentido para você, e para mais ninguém? Para que todos os pensamentos estritamente planejados se, no fundo, é o acaso que te acomete em um segundo e te faz extremamente feliz, mesmo que a pão e água?

São perguntas que me fiz e que continuo a fazer. Sem saber se algum dia existirão respostas. Na verdade, mais uma vez, sempre me pego pensando que as respostas estão em mim, no porteiro do prédio à frente ou na fila do pão. Virão, algum dia. Assim como a vida leva e trás rostos, músicas ou suspiros.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Dançando no escuro

Girava a cabeça sem parar. Os braços, leves e soltos, flutuavam sem parar. Acariciavam o ar como folhas velhas que o vento arranca e caem do alto de uma árvore. Seus joelhos se movimentavam vagorosa e acertadamente. Um passo pra lá, outro pra cá.

Era fantástico pensar em como o som da música tinha o poder de penetrar fundo em seu corpo, em sua alma e influenciar suas emoções. Em como um segundo é capaz de trazer toda a fortuna do mundo, assim, pálpavel e eterna em toda a finitude que é possível haver nesse curto espaço de tempo.

Sentia-se como um balão que podia explodir a qualquer momento. A felicidade batia forte e intensa em seu peito toda vez que era capaz de sentir-se completo com uma música. Como um balão; cheio de gás e auto-suficiente. Engraçado como uma música ou uma dança podem dizer tanto de alguém. Sua única saída era sempre a mesma ao ouvir algo que lhe despertava esse conhecido e valorizado estado: dançar.

Não olhava para os lados. Olhava para si. Era um daqueles momentos egoístas aonde tudo o que se quer é sentir prazer; sentir a vida bater e pulsar por todo o seu corpo. Sentia a música tocar e incorporava vivências, sentimentos e ressentimentos, apostas e expectativas em cada passo que dava.

Às vezes, não pensava em nada. Mas uma certeza carregava sempre com si: a felicidade está, sim, nas pequenas coisas. E claro, nas grandes canções.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Cinema

Assistiu a dois filmes seguidos. Dois socos, duas realidades distintas e iguais. Sim, porque o paradóxo é nosso companheiro de cada dia. E quem mais? Coitada de Lorna. Garota apática, sem graça, sem razão de viver mesmo com todos os seus planos e estratégias. Sempre pensando em um fim. Mas a que fim pensar em um fim e deixar de viver seus preciosos minutos do começo até o fim?

Pois é. Vai entender?! Mas aí é que tá a semelhança entre os filmes. Parece que as pessoas esqueceram de pesar o que vale mais a pena nessa vida. E ficam nesse chove não molha, nessa reclamação absurda, nesses dias de cães! E nem quando vem aquele segundo fatídico, aquela sinapse rápida, intensa e perturbadora - "mas porque tudo isso?" - se resolve rumar em outra direção. Sim, é mais fácil permanecer onde se está. Mas não é mais prazeroso.

E fico pensando quantas vezes levei as mãos na boca durante o filme. No mínimo cinco. Foi mesmo um soco no estômago. A esperança é a última que morre, oras! Que esperança? Nesse mundo bandido - lembrei da Helô agora - e absurdo. Lá vem os paradóxos de novo! E aquela cena absurda, quando a mulher do médico volta pra sua ala e, após ter matado o cara mais escroto e desprezível do mundo, tudo que as pessoas de sua ala dizem, amedrontadas e submissas é: " acho que deveríamos entregar quem matou o cara!". Desacreditei completamente nessa hora...Uma excelente metáfora pra tudo o que acontece por aí. Só basta enxergar. Ou querer enxergar.

domingo, 2 de novembro de 2008

Aquela inspiração louca, absurda. Que te toma em um segundo, que é fugídia, que é intensa e faz cada fibra do seu corpo tremer e se excitar. Aquele poder que te consola e te faz grande; aquela sensação de segurança. O que está distante, o que é díficil de apalpar, o que se conecta em um outro plano - o que é imprevísivel, se sente, mas não se sabe o quanto irá durar. Aquilo que persigo, que me faz feliz, que me completa, que me faz entendível de mim mesmo.

Você, escrita. Pronto, escrevi, desabafei.