segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Fim de semana, fim de semestre

A sala estava vazia como sempre. O chão, frio e liso, não estava menos do que empoeirado. O final de tarde e o vento gelado vindo da sacada, tão característicos, lhe faziam pensar ainda mais nos momentos que passara ali. Depois de tanto trabalho, era inevitável não se dar à dramas. E olha que eles nem faziam grande parte de sua vida; fora feliz ali, talvez como nunca antes. Olhou em volta: o abajour vermelho, uma prova viva pulsante e estridente de felicidade e lembrança, fitava-o sem vergonha.

O colchão azul, a essa altura já desgastado, precisando de um novo lençól, lhe fez pensar em quantas pessoas já tinham dormido ali. O chão, particularmente, não parecia o mesmo sem os cobertores pós-festas. Era muito mais aconchegante quando cheio de pessoas falantes e sonolentas, frenéticas e bêbadas. Pôde imaginar-se cansado, com as pernas pedindo para serem postas para cima, as roupas pedindo para serem lavadas, o corpo pedindo por um banho e a felicidade e a sensação de plenitude pedindo por uma boa noite de sono; no fim, ficavam conversando até tarde, até que fosse impossível ficar acordado e ir direto de encontro com as responsabilidades do dia seguinte. No fim, o banho ficava para depois - as conversas sinceras tinham preferência - e, não raro, os compromissos também.

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Caia uma garoa fina lá fora. Os prédios, altos e imponentes, espreitavam a pequenez de seu ser dentro de um dos milhares de carros a seu redor. Sentia uma angústia enorme no peito. Não era devido às reclamações do pai, que detestava aquela cidade. A isso já se acostumara. A angústia tinha outras causas; era diferente. Daquelas que não doem, não incomodam, que não se quer perder de vista: a angústia da felicidade. Olhava para fora e pensava no quanto tinha sido feliz ali. Em quantas pessoas fantásticas conhecera, no quanto mudara, quantas idéias o influenciaram, quantas músicas lhe emocionaram, quantos olhares foram perseguidos, quantas risadas lhe fizeram se sentir vivo...O quanto participar daquele mundinho, daquele microcósmos auri-roxo mudara sua vida em tão pouco tempo.

Definitivamente, viera para ficar.

5 comentários:

Alice Agnelli disse...

tulio.

nunca vi melhor descrição para um pós-festa jornoteano, do que essa sua do seu colchão azul estendido nos frios azulejos,com os cobertores que não são suficientes, com as pessoas espremidas, falantes, felizes, bêbadas, sonolentas...

nunca imaginei que um colchão pudesse significar tantas pessoas.

ou uma casa.
desde o primeiro caju que deu certo mesmo (o 2) até várias festas, sua casa sempre foi um QG jornot08.

e continuará sendo, que venha a toca do coelho!

;)

Du Graziani disse...

Lindo seu texto, é bom saber que existem pessoas que se importam com a gente ... que fizemos diferença de alguma forma. Espero reencontrar vc o mais breve possivel, pois tenho ctz q vc faz parte desse grupo de pessoas, e o nosso apreço imenso é recíproco.

Abraço forte

Felipe Lobo disse...

Tulio, só de ler sua descrição, sinto falta daquele CAJU 2, que foi o que iniciou, de verdade, nossa dinastia jornot!
Sua casa, seja onde for, será palco de mais espetáculos jornotianos!
Seu lugar, agora, é aqui, São Paulo!

Maria Joana disse...

que saudade de tudo isso. até das horas de frio, muito frio, no chão da sua sala. da nossa amizade coletiva grande, grande, como um uníssono.
saudade do seu abraço e de ouvir sua voz (ouço ainda aqui dentro da minha cabeça vc me cumprimentando "maaaaaari!")

Clara disse...

"Sentia uma angústia enorme no peito."

idem.


mas ano que vem tem mais, darling!
e os próximos Caju's vão ser na nossa república!!

:DD