sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

Aquele era o dia mais quente do ano. No vai e vem da cozinha, os chinelos tilintavam apressados no piso de quadrados esbranquiçados; de dentro do forno, um calor suficiente para ocupar um cômodo inteiro e um odor embriagante anunciavam comida farta e cuidadosamente preparada. O prato do dia, o de sempre: aquela gorda leitoa com abacaxi, que em natais passados causara tanto espanto com seus olhos arregalados na boca de um dos convidados.

Do fundo da casa, sentindo falta do tradicional e sistemático zumbido que os embalava nas quentes noites de sono, e do som distante e sonolento do abre e fecha corriqueiro das portas, rispidamente ajustáveis a seus encaixes, os dois levantaram a cabeça de seus travesseiros e fizeram o primeiro contato com aquele velho ambiente. Pés quentes na gélida ardósia; era Natal.

O mais novo já estava pronto: cabelos desarrumados, uma camiseta regata velha, um short qualquer e os pés descalços. Antes de sair do quarto, pôde ouvir a voz ranheta e resmungona do velho à sala, causando-lhe preguiça. Ficaria no quarto? Poderia fingir dormir mais ou isso causaria incômodo? Saiu. Ela, espreguiçou-se lentamente. Que horas seriam agora? Estaria atrasada para o almoço? Sentiu preguiça de pensar que roupa vestir para conversar com as mulheres. A essa altura, ele já tomara sua decisão: introduzira-se, pegara seu livro e recostara-se no sofá ao lado.

Na sala de TV, os homens lançavam apostas sobre a vida, hipnotizados pelas imagens e pelo primo distante e seu "fraco" por mulheres mais novas. Enquanto isso, nos fundos da casa, ela informava-se sobre noivados, traições, regimes, doenças, separações e outros sem-fim de banalidades alheias. O mundo das celebridades - loiras e saradas - moda e tendências eram, também, assuntos da ordem do dia. Por quantos anos mais será assim?

- Qual é mesmo o nome do namorado daquela garota que estudou com você?

E logo a realidade interrompe seus devaneios. Estaria muito quieta? Deveria opinar ou seria melhor concordar? Quanto tempo ainda para o almoço?

Tudo transcorrera bem durante o almoço e lá estavam eles novamente à beira da piscina. Estatelados na cadeira de sol, as perguntas surgiam lentamente e as respostas, imprecisas e espaçadas, não raro eram interrompidas pela velhota simpática e estridente com suas intervenções pontuais: -Tira o cabelo do rosto, senão fica uma marca branca do sol!

A dúvida era sempre a mesma: o que fariam depois da meia noite? E rapidamente se desanimavam ante as opções. O fundinho de esperança forçosa que encobria a certeza de que nada iriam fazer se esvaia na primeira alternativa, afinal duplas sertanejas em puleiros improvisados já não faziam sentido. Pior, já não lhes despertavam nenhuma atração.

De repente, sentiram-se sós. A casa estava quieta e temeram que, talvez, já estivessem atrasados. O mormaço do final da tarde e o sossego da cozinha anunciavam que os quitutes já estavam devidamente preparados. Era hora do banho e a fila prenunciava os bate-bocas amigáveis e as tensões típicas da noite de Natal. Ela mal deixara o banheiro e ele entrara em seguida. O bafo quente da ducha somado ao espelho embaçado, às roupas e toalhas penduradas, às caixinhas das lentes de contato, desodorantes e maquiagens em cima da pia, sinalizavam toda a preparação que ocorrera ali. Deixou o banheiro ainda de toalha e antes mesmo de entrar no quarto pôde ouvir o chiado do spray de cabelo que há tantos anos segurava os floquinhos de neve da cabeça da velhota. O suadouro característico, ressaltado pelos lábios cor-de-rosa, evidenciavam a ansiedade e a pressa em se aprontar no horário certo. Seu maior medo era atrapalhar o andamento da noite. Era velha e isso, por si só, já lhe causava imensos transtornos.

-Ói, ói, não adianta, não entra! Alarga a tira.

E aos poucos convencia-se de que teria de usar o mesmo e velho sapato dos Natais anteriores, aquele que ficava guardado no armário esperando os dias quentes.

-Vamos, vamos. Ainda não se trocou?! Tá tarde, já tá todo mundo lá, anda!

E assim começa novamente a correria; desta vez em direção às poses fixas em frente da câmera fotográfica. O local das fotos não variava muito, a farra ficava por conta das constantes trocas de posição. Todos prontos, coisas esquecidas recuperadas, era hora de ir.

Portão fechado e dentro da casa restava ainda um habitante em seu descanso. O cachorro, com seu desajeitado corpanzil, parecia representar muito bem o estado de espírito natalino. A boca aberta e as bochechas murchas pelo calor alternavam-se entre escassos momentos de animosidade, que quase sempre acabavam ao final do primeiro passeio no quarteirão, e o constante tédio e enfado, sinalizados pelas patas cruzadas no chão e o olhar cabisbaixo.

Restaria-lhe algum osso destroçado do jantar? A única certeza era o angu com ração do dia seguinte.

Por Tulio e Xenya

Um comentário:

Maria Joana disse...

parece natal na minha família, quando passávamos na casa da vó. ah! ótima descrição!