domingo, 21 de dezembro de 2008

Uma mulher, um homem, alguns amigos


Elis não se chamava Maria nem Madalena. Ainda assim, era digna de uma canção. Determinada, polêmica, hiperativa, destemida. Vivia entre o bêbado e a equilibrista. Algumas opiniões fortes - não raro desnecessárias - aqui, advertências pertinentes ali. Palpites cheios de gíria. Muita sinceridade, muito ativismo, muita impaciência com um mundo todo beirando o caos. Com razão, diga-se de passagem. Cuidado, as aparências enganam. Não soube tomar seu assento no trem azul e ver a vida passar - ainda bem, estamos agradecidos. Gracias a la vida.

Para bem ou para o mal, uma crítica. Quase um arrastão. Se veio para cantar, como gostava de admitir, de sobra vieram muitos percalços, inimigos, um país em frangalhos e muita bandeira para ser levantada. Conseguiu sua casa no campo, mas não se fez de rogada: desafiou a ditadura, a cultura enlatada que há pouco estava começando a ser imposta goela abaixo, entreguistas mexeriqueiros e jovens guardistas de bi-bi demais e ié-ié-ié, que era o que se pretendia, de menos.

Queria uma relação com a natureza e com os trabalhadores. Pois é. Não fazia parte do mundo das estrelas; seu palco era aquele que estivesse de acordo com seus valores. É, Elis, filha de D.Ercy, nessa transversal do tempo o mundo clama e pede ajuda, se todos fossem igual a você, certamente esse Brasil ousaria mais, o mundo dos artistas seria mais produtivo e Ivete - bom, a Ivete, nem sei se estaria por aí. Viva, bicho do mato com pimenta!


Hoje decidira encarar seus olhos. Aqueles, piscantes e difusos. Penetrantes. Antes, pensava que era prepotência; certa vez, cogitara até mesmo arrogância. Naquela tarde quente, de quase 40º, muita piscina, pele esticada e lombo ardendo, descobrira algumas afinidades com ele - que conhecia desde que nascera. Sempre o teve com muita consideração. E sabia ser esse um sentimento recíproco. Intimidade, nunca conquistara. Muito talvez por culpa sua. Queixava-se disso de vez em quando. Naquela tarde, entretanto, desafiara-se a si mesmo: não ia deixar-se levar pela vergonha, apreensão ou o medo de trocar as palavras, frases e de se intimidar com os habituais gaguejos. Falou. Chutou. Calou-se e respeitou o silêncio que tantas vezes tentara evitar, descontrolando-se. Cresceu e apareceu. Deu certo; dessa vez, aquele era um papo entre adultos.


Saíra para jantar com boas expectativas - não aquelas que estava acostumado a manter durante o período letivo, é claro. Mas outras. Mais sinceras, menos idealizantes e mais tolerantes. Frustrou-se. Mas não de um jeito ruim, que chegasse a incomodar. De um jeito sereno - e é aí que mora o perigo. Falaram asneiras, riram risadas sensíveis, olharam-se e voltaram ao passado demoradas vezes. Tinham sido uma turma feliz. Já não o eram mais. E vida que nos prega peças! Esbravejava. Sentiu saudades de seu mundinho. Tão longe que parece um sonho! Sentiu pena. Pena desses momentos desconexos, desses pensamentos desavisados, dessas pessoas queridas e anestesiadas. Pena de uma cidade tão bonita em um momento tão banal. O negócio é mesmo correr porque há muito espaço para isso - e pernas boas, o que é melhor.

Um comentário:

Fontes disse...

Elis, desilusões amorosas e voltas por cima. Túlio, de sentimento, um prato cheio.