quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Almodovár Vermelho



Definitivamente só agora entendi Volver, do Almodovár. Bem, por mais que a cada vez que você assista um filme novos significados e novas formas de se relacionar com o filme sempre surjam, acho que só agora passei a compreender melhor - e apreciar - Volver.

A história é forte e mesmo que tenha um certo apelo melodramático fantástico, a direção de Almodovár é tão precisa ao conduzir a narrativa que se torna possível se descolar da história iminente e passar a realmente problematizar o que é abordado em cena.

Ou seja, toda a situação de uma construção familiar, de costumes, de memórias, de traumas de infâncias, de segredos de família - e que família não tem os seus? - tudo envolvido em uma direção de arte fantástica em toda a sua simplicidade ao lidar com as cores. Nada nos ambientes em que são filmadas as cenas dos filmes de Almodovár soa impossível.

O trabalho de enquadramento de azulejos coloridos, frutas, legumes, cadeiras e outros objetos é extremamente detalhista, sem, no entanto, tornar-se inverossímel. Pode-se dizer o mesmo das personagens de seus filmes: gordas, magras, baixas, altas, velhas e novas. Sem nenhum apelo fora da realidade.

É incrível poder apreciar seu trabalho, um verdadeiro cinema de autor, identificar suas angústias, seu olhar atento e minimalista, seu toque para com a construção da sociedade espanhola e de suas relações sociais, sua crítica bem-humorada, sem mascarar-se. Um ótimo filme.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Tempo



Porque paradas, só ficam as estátuas. Às vezes, nem elas. Queríamos poder voltar a abraços, sentimentos, intensidades. É impossível. Melhor deixá-los guardados, servindo como parâmetros para outros momentos, no reino das memórias.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pedro Almodovár I



Tudo sobre Eve soa estranho para Manuela. Como seria possível alguém saber tudo sobre outra pessoa? Esse é o primeiro questionamento que nos fazemos quando assistimos Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodovár.

O filme nos revela desde cedo o que faz um longa de Almodovár ser bonito de se ver, independente de seu conteúdo: uma estética apurada, com um trabalho intenso de dedicação às cores, ângulos ousados, posicionamento de câmera estratégico. O diretor consegue captar sem qualquer toque de surrealismo o que há de insólito no cotidiano. É como o trabalho de um fotógrafo minimalista, que pensa em todas as variáveis de sua cena antes de tirar sua foto. O que torna seus filmes, antes de mais nada, filmes bonitos de se ver.

O conteúdo, como sempre, gira em torno do que Almodovár sabe fazer melhor: dissecar todas as contradições envolvendo seres humanos e suas histórias de vida - mesmo que, para muitos, isto custe deixar de assistir filmes do diretor. De quando em quando, ouvimos pessoas dizerem que tudo "é mais do mesmo". Mas aí reside o diferencial do diretor: seu cinema de autor.

Almodovár consegue humanizar classes marginalizadas, como usuários e traficantes de drogas, travestis e prostitutas, de forma bastante verídica, sem cair em um idealismo ou em uma caricaturização excessivos, colocando sempre, os chamados "excluídos", em contraponto à classe média e alta da sociedade espanhola. É possível identificar também no trabalho do diretor e, especialmente em Tudo sobre minha mãe, sua abordagem incessante acerca dos temas da sexualidade humana para além de barreiras impostas pela cultura.

De uma forma bastante natural e sincera, ou melhor, livre de hipocrisias, as personagens do longa vagam em busca de si mesmas, todas complexas em sua obstinação e inquietação na maneira com que levam a vida e, dentro de toda a sua desorientação ou orientação marginal, é possível encontrar valores autênticos, todos pautados por um único ponto em comum: o salto sobre o vazio. Jean-Luc Godard disse certa vez: "[...]aquele que salta sobre o vazio não tem mais contas a prestar àqueles que o observam."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Por um semestre perfeito...na FFLCH

Meu semestre acaba de terminar. E eu estou realmente muito feliz! E não é porque o semestre acabou, porque vou entrar de férias, vou voltar para casa, vou poder assistir milhões de filmes, comer comida da mãe, etc. Simplesmente porque esse semestre foi PERFEITO! Na FLLCH...

Foram duas matérias simplesmente fantásticas, que me proporcionaram momentos de reflexões inacreditáveis, que me desafiaram a cada aula, que me propuseram novas formas de olhar o mesmo, novas significações, novas amizades, novas maneiras de me portar e de observar outras pessoas se portarem no espaço público, novos valores...

A vida que se renova na USP a cada semestre, que nos deixa extremamente saudosistas, nostalgicos pelo que acabou, que nos faz olhar para frente e apostar no próximo semestre, na próxima matéria, nos próximos desafios, no próximo crescer, no próximo mudar, no próximo se entender, entender os outros, entender a vida, nesse ciclo incrível de reciclamento permanente, principalmente nessa fase de graduação. Toda essa vitalidade que nos faz olhar para as coisas que deram errado e pensar: de quê adianta se preocupar com isso?

Penso no jornalismo, em todas as frustações por que passei durante o ano - e notadamente durante esse semestre especificamente - e me pego pensando: na verdade, só redescubro a cada dia mais o porque entrei no jornalismo. O quão diferente é o jornalismo em que acredito e o jornalismo que é praticado hoje. O quanto essas matérias da FFLCH me fazem olhar para o que antes parecia condenado e encontrar forças de acreditar que o impossível é possível, que existem as brechas, que existem os pormenores, que existe uma "história a contrapelo" como previa Walter Benjamin.

Incrível, incrível, incrível!

A todos que fizeram "Benjamin, Brecht e antropologia", obrigado por seus comentários, por nossas trocas de idéia a cada aula, por nossas divagações, por nossa seriedade, por nosso entusiasmo, por nossa vontade de ler e reler o mundo através de cada texto estudado, por nossa crença em algo que seja diferente do que está aí dado.

Felicidade.

PS: à ECA, se esse semestre foi tenebroso, com direito a professor pedindo pra aluno fazer pergunta para ser avaliado em prova, o que fica é a mesmíssima sensação: ainda há muito a ser feito. Por nós, alunos, que queremos e pensamos algo diferente do que a Escola de Comunicações e Artes nos propõe atualmente.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Poema do Carneiro

Planificação. Plenificação. Superficialidade. Obviedade.

Liberdade. Complexidade. Contradição. Detalhes. Questões. Vida. Regras. Quebra.

Profundidade. Profundidade. Profundidade.

Simplicidade. Sem pequenos prazeres. Intelectualidade. Conformismo. Vida burguesa.

Deslocamento. Inadequação. Adaptação. Descobertas. Descobrir-se. Descobrindo-se.

Saídas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Irmãos



Abriu a porta da geladeira e, em vez de localizar a caixa de leite que procurava, deu de cara com sua irmã. Em formato de sensação, sentimento e pensamento. Pegou-se se questionando: estaria indo, dali a duas horas, para a casa de sua irmã, que mora há seis anos em Bauru, interior de São Paulo. Até aí tudo bem. Tudo ótimo, aliás.

Mas a coisa foi um pouco mais além, em toda a profundidade surpreendente - e perturbadora - de segundos efêmeros parados em frente à geladeira para achar a caixinha de leite. Caramba, será que há dez anos atrás eu poderia esperar por isso? Eu, morando em São Paulo, já há dois anos, e minha irmã morando em Bauru há oito anos. Nós nos visitando, se ligando todas as semanas. Estando longe um do outro. Crescendo.

Foi um pouco assustador. Há pouco tempo morávamos juntos, éramos crianças. Tinhamos milhões de dúvidas idiotas sobre o futuro - não que elas ainda não tenham desaparecido. Mas gostávamos de especular sobre o futuro. E sobre sair de uma certa cidade. E agora, aqui estamos. Incrível. É super legal e, de repente, por alguma circunstância xis poderia ser tudo diferente. E, também, muito legal.

Bom, o fato foi que, depois daqueles segundos, de muita pressa, afinal já estava atrasado para pegar meu ônibus, o que me peguei pensando foi: aonde estaremos daqui a dez anos? Como? Com quem? Não gosto muito das previsões, mas não deixo de ficar curioso de qualquer jeito. Ainda mais quando se trata de alguém que é, digamos assim, a sua outra metade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Perdas, ganhos e novas fases


Uma fase se encerra e outra começa. Mas o mais importante: as melhores coisas continuam iguais.

É incrível como na vida conseguimos reunir o que foi bom e, em cada momento novo, levar sempre o que vale a pena, o que nos acrescenta, o que nos enriquece e nos faz se sentir vivos para as fases posteriores em que mergulhamos a todo momento.

E é mais incrível ainda saber que, as pessoas envolvidas com esse sentimento, sabem que isso é recíproco e verdadeiro. Sinto-me leve...

Quem não foi feliz aqui?

Todos sabemos que fomos. E seremos. E recordaremos com muita saudade. Porque o que fica, é sempre o lado bom. E é assim que eu pretendo levar a vida, sempre. Afinal, do contrário, para que viver? Vivemos pelo prazer e por mais nada. Se há um sentido embutido debaixo do pano, é este em que acredito.

Ah, um próximo ano. Com novos desafios para todos. Nessa fase absurdamente intensa, efêmera e encantadora em que nos encontramos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Do começo ao fim




A velha idealização. Às vezes simplesmente não sei como me portar diante dela. Na vida real, até sei. Temos que saber. Afinal, se não soubéssemos, o que seria de nós, pobres humanos? No cinema, a coisa fica mais difícil. Idealização inesperada em dose excessiva é golpe baixo.

Esse é o caso do esperado filme Do começo ao fim, cuja temática é a relação incestuosa e homossexual entre Francisco e Tomás, filhos da mesma mãe com pais diferentes. O longa teria tudo para decolar e abordar questões realmente interessantes nos campos social, cultural e político.

No entanto, se existe uma palavra que defina com precisão a sensação pós-filme, esta palavra seria artificialidade. Os irmãos não passam por nenhum tipo de dúvida, constrangimento, desesperança ou frustração em todo o filme. O espectador termina o longa se perguntando como se constituiu a formação do relacionamento entre os irmãos, a afirmação de sua homossexualidade e, obviamente, todos as inimagináveis problemáticas daí resultantes.

É incrível refletir sobre a proposta inicial do filme. Mas é absolutamente frustrante reconhecer a falta de desafios, de questionamentos, a superficialidade das personagens contornada por toda a preocupação estética do longa - que se reflete na brancura de todos os ambientes clean que os personagens frequentam, nas formas de seus corpos, seus sorrisos e toda a fotografia do longa.

Não há em Do começo ao fim momentos em que a claridade não esteja presente. O filme ofusca, de tanta segurança e otimismo. O que poderia ser maravilhoso, se não saíssemos do cinema pensando: "a vida não é sempre assim".

Outro ponto negativo é a trilha sonora do filme. Tudo leva a crer que estamos chegando perto de uma tragédia. Que, no entanto, nunca chega a se concretizar, o que garante à escolha da canção tema do longa uma boa dose de descolamento do filme.

De qualquer forma, é importante o papel que o longa cumpre. No Brasil, não há debate institucionalizado sobre as questões GLBT. As paradas gays, antes instrumento de mobilização e de confrontamento na luta por direitos e igualdade, hoje tornaram-se esvaziadas em toda a espetacularização da abordagem midiática e no insuficiente envolvimento dos participantes da parada com a causa gay.

Para quem se interessar mais, vale a pena ler a fantástica crítica de Heitor Augusto, colunista do Cineclick:

http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/do-comeco-ao-fim/id/2329

sábado, 28 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Menina do século XIX

Era à tarde, estavámos no shopping. Fazia calor e ela trajava jeans. Tinha o cabelo de sempre; sem desafios. Voltávamos ao mesmo lugar de antes: aquele de nossa adolescência entrecortada, de visitas esporádicas, cheias de confissões. Eram ótimas e eram um alívio.

Dessa vez, havíamos crescido. Passaram-se anos, entramos na faculdade, mudamos de cidade. Eu, agora a 600 km, em uma cidade beirando os 20 milhões de habitantes. Ela, a 40 km de casa, com direito à voltas todo o fim de semana. E as mesmas pessoas de sempre, agora grávidas, drogadas, histéricas. Era uma realidade e não a era. Poderia muito bem ser um laboratório antropológico.

Para ela, agora, uma mulher deveria gastar apenas com os seus luxos; aos seus homens pertenciam as contas da casas. O sustento. Transparente como água. Explicitamente. Não se casaria com um homem pobre. O século XIX estava ali e não sabia. O século XIX vencera e corrompera, sequer se fora alguma vez vencido, a última das moicanas.

Era triste e era aceitável. Não haviam muitas possibilidades ali. Mesmo sabendo disso, sempre esperera o contrário...Talvez fosse apenas ingênuo. Talvez houvesse dentro de si uma esperança maior, que ultrapassava a mesquinharia corriqueira e enxergava algo de diferente nas pessoas que de alguma forma o marcavam. Não queria dar-se tanto crédito; era, entretanto, um escape, para poder resistir.

sábado, 14 de novembro de 2009

Coisas a se pensar...

Saiu o resultado das "eleições" para reitor da USP e, por mais que ainda existissem esperanças do esperado não se concretizar, o governador José Serra não deixou por menos em sua escolha, vinte anos depois da última vez em que o primeiro colocado da lista tríplice não foi o escolhido para reitor. João Grandino Rodas, diretor da Faculdade de Direito e segundo colocado, foi o escolhido.

Humilhante, para o primeiro colocado, não ter sido escolhido. Afinal, fica, se ainda é possível, mais do que clara a ingerência governamental dentro dos processos internos da Universidade. A troco de quê existe uma votação para escolhar quem os supostos professores mais "qualificados", membros do papado eleitoral uspiano, vulgo Conselho Universitário (CO), elegem, se no final o resultado de sua opção é ignorado pelo governador de Estado? É no mínimo ridículo...

E como salientou na Folha de S.Paulo de hoje o professor da FFLCH Renato Janine Ribeiro: cria-se um conflito ainda maior dentro da Universidade, que já tem um problema crônico de não representação de funcionários e estudantes nas instâncias deliberativas, o fato do reitor eleito não ter sido sequer o mais votado pelo CO.

Afirma o governador que meramente por motivos curriculares, dada a extensão do currículo de Rodas - em sessenta e quatro anos de vida do candidato, muito mais velho do que seus concorrentes - foi feita a escolha. Entretanto, a afirmação não resiste a uma análise mais profunda dos fatos.

Rodas tem ligações explicítas com a alta cúpula tucana, fez parte da equipe de governo durante o mandato de FHC e conquistou o prestígio do partido com a desocupação relâmpago da Faculdade de Direito em 2007, quando no mesmo dia chamou a PM para retirar estudantes e funcionários do prédio. Também na Folha de S.Paulo de hoje, o primeiro colocado, diretor do Instituto de Física de São Carlos, salientou o fato de que seus esforços para que o governador de São Paulo se interasse de seu projeto para a reitoria foram todos em vão.

Só temos a lamentar: um processo que denominam "eleição" em que são legitimadas as diferenças e a hierarquia entre os membros da Universidade - não só entre professores, funcionários e alunos, mas entre os próprios docentes - e em que os interesses estritos de produção de conhecimento da Universidade são aliados às politicagens do ocupante do cargo de governador da vez. Completamente estapafúrdio, para dizer o mínimo.

PS: e quando utilizam o velho argumento, para não se democratizar a Universidade e a eleição de seu representante máximo, de que, "bom, se é pra votar, que votem todos os contribuintes do Estado, então", tudo se resume a uma simples prerrogativa: se todos pudessem escolher aonde estudar, ou seja, se todos tivessem acesso à USP, poderiam então votar para reitor. Mas como não entram e nem votam, utilizam-se das mazelas do país para evitar que os que conquistaram a chance de estar na USP, participem de sua construção. Ou seja: que todos tenham a chance de escolher aonde estudar e em quem votar, se quiserem, e não que não se democratize uma Universidade, a custa da desculpa esfarrapada respaldada na ausência de chances da maioria.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Coco Avant Chanel



Gabrielle Coco Chanel não precisou de homens. Preferia ser amante a cumprir o papel de coadjuvante atrás da sombra de um marido - no começo do século XX, não eram muitas as opções disponíveis. Coco sabia na medida certa quando sair de cena sem se machucar. Sabia na medida certa o que esperar de alguém. Mais: o que esperar de si mesma.

Conduziu sua vida da amargura da miséria ao auge da fama com a sobriedade de seus modelos, sem deixar-se levar por ilusões que lhe pudessem valer seu prazer e inteligência em posicionar-se e produzir.

É essa mulher a frente de seu tempo, na aparência e na essência, que o filme "Coco antes de Chanel" pretende mostrar. E consegue, mesmo com a fraqueza da esperada perfomance de Audrey Tautou no papel da protagonista.

O título, talvez, indique com clareza o traço mais forte que o longa imprime ao espectador: antes da magnata Chanel, existiu Coco, que enfrentou grandes dificuldades, sofreu, começou do zero, mas sempre brilhou, na profundidade de suas percepções, de seu tino e da convicção em seus valores e ideais.

sábado, 7 de novembro de 2009

Zeitgeist



Zeitgeist ou "espírito do tempo".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Prévia





Duas figuras que vou usar pra um seminário amanhã, de História de Jornalismo. Uma loucura, cara...A primeira é uma das fiéis que participou da famosa "Marcha da família com Deus pela Liberdade", antes do golpe de 64. A segunda é a foto de um grupo de mulheres cujo slogan era: "Vermelho bom, só o batom"...Por aí já é possível entender muita coisa...

Enfim, mulheres servindo de massa de manobra, lutando contra aquilo que exatamente diziam-se a favor. E a religião mais uma vez mostrando sua faceta mais perversa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Das coisas que pensei em escrever

Pensei em escrever tantas coisas durante a semana...

Tudo começou no meu café da manhã quando olhei a capa do jornal. Que cena mais nauseante, humilhante, animalesca, doída.

Chocante.

"Um homem é achado morto em um carrinho de supermercado". Assim.

O sujeito se levanta, bem cedo, se arruma, pega seu dinheirinho contado, vai ao supermercado. Na porta, não dá de cara com a promoção do dia, tipo "lagarto 3,90 o kg!". Ao contrário, dá de cara com um homem, de seus aparentes quase quarenta anos, a julgar pela foto, morto a tiros, dentro de um carrinho de supermercado.

Nas explicações sobre a morte: confronto com traficantes. Saldo de mortos de três policiais militares, três moradores do Morro dos Macacos, local onde os confrontos ocorreram e dezenove suspeitos de envolvimento com o crime. Vitória! Menos policiais mortos do que potenciais criminosos.

Deveremos mediar o sucesso de acordo com os números de mortos de cada lado? Sabe, até quando essa hipocrisia vai durar? Sem mais.

...

Pensei em escrever também sobre comunicações e artes. E os embates que travo dentro de mim ao conviver com esses dois mundos. E com esse espaço que nos separa. Com essa realidade e com essa utopia que nos separa. Às vezes esses dois mundos se cruzam e, aí, sempre é tudo muito estranho. Sinto como se fosse impossível um diálogo de fato. Uma comunhão. Na correria dos encontros, é sempre o que nos separa que se evidencia. Como um rio e suas margens. Esse espaço, esse espaço entre a vivência e o canil, como se todos os jornalistas fossem para a Globo e todos os artistas fossem encenar Brecht. É o que sinto, às vezes. Mas que sei que não é a realidade.

...

Pensei em escrever sobre uma tarde chuvosa, pós uma festa intensa. Sobre andar segurando o guarda-chuva nas ruas molhadas de São Paulo, em seu frio desproposital de outubro. Sobre estar com blusa de lã e adentrar um daqueles prédios antigos, cinza, com piso quase amarelado de manchinhas pretas, com grades verde-escuro e elevador velho. Sobre uma república desorganizada, muitos livros em uma estante, pinturas meio infantis a decorar a sala; copos sujos sobre a mesa. Cadeiras espalhadas, um banheiro estudantil aonde algum tipo de luxo já existira, previsto na forma de uma banheira. Pensei em escrever sobre estar ali, com aquelas pessoas, que certamente posso imaginar daqui uns vinte anos e estar feliz, desde já, por ter feito parte daquilo. Penso em um filme: câmera na mão, muitos cortes rápidos, personagens diversas. É interessante e é agora. É uma espécie de embrião, de nostalgia não vivida, que toma forma. É também, aconchegante e fria, São Paulo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Leveza



Avedon, por sua leveza.

domingo, 11 de outubro de 2009

Cor local


Há pessoas que florescem e há pessoas que desbotam. Há lugares que nunca mudam. Acima de tudo, há situações que parecem ultrapassar os séculos. Como o calor. As mulheres em seus devidos lugares; os homens e seus assuntos. O reacionário e o piegas. A ignorância e a insolência. As relações estabelecidas. As cartas marcadas. O inesgotável velho revestido de novo - nas formas de carros, roupas, salto altos.

Houve um tempo em que existira o nós. Em que existiram as possibilidades de mudanças, os sonhos, os sentimentos, a paixão. Agora não haviam sequer olhares. Triste? Frustrante. Não que se esperasse que as coisas voltassem a ser como antes depois do antes ter sido posto no purgatório. Mas, era como já dizia sua mãe: a pior coisa do mundo é frustar-se com as pessoas. É quando a graça chega ao fim, quando a paciência impõe limites, quando a consideração deixa de ser prazerosa e se torna um pesar.

Quando os olhares, que se cruzavam incessantemente e, ainda traduzindo o de sempre, o velho conhecimento insuperável, entram no jogo de aparências dominante. Aí, tudo está perdido. Porque o nós, que ainda existia involuntariamente, é posto em prova, de uma vez por todas e, por mais que tudo não precise fazer sentido, as feridas estão abertas.

Certas competições, maneirismos e imaturidades já não fazem mais sentido. Certas ambiguidades não cabem mais. É quando tudo parece derreter e o que sobra é você e suas certezas, afinal, por mais que doa ou que clame saudades, nada é definitivo. Ou, em outras palavras, tudo é subjetivo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Foram tantas perguntas...E havia tão poucas respostas. Perguntas básicas, inusitadas:

-Você é feliz quando acorda?

Não soube o que responder. Tenho sono. Seria óbvio. Na verdade, mal acordo e já começo a pensar no que tenho que fazer. Ou, nos dias mais graves, no que deixei de fazer. E na consciência, que agora pesa.

Foi estranho. Mas divertido. Perguntas inusitadas sempre nos levam a reflexões inusitadas. Que quebram com a sua rotina. Com a sua correria. Ou com a sua insensatez. O seu não apego aos detalhes - eles, que são tão importantes.

Tenho sono agora. E há ainda muito o que fazer. Mas talvez sejam essas perguntas aquelas que nos deixam mais a vontade: nos põe de volta ao controle das coisas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Volta à realidade

Ante a escolha do Rio de Janeiro para sediar os jogos Olímpicos de 2016, divulgada na última sexta-feira, talvez seja hora de o país superar as comemorações e encarar de fato o ônus que a escolha comporta para o Brasil e os brasileiros. Se, por um lado, é mais do que óbvio que o país enfrenta dificuldades latentes, cujo grau de urgência ultrapassa qualquer celebração pela vitória em Copenhague, por outro, é preciso superar o raciocínio equivocado de que esporte, cultura ou lazer são menos dignos de importância ou valor do que projetos que envolvam educação, segurança ou a criação de empregos, por exemplo.

Entre sediar uma Olimpíada e não sediá-la porque o Brasil enfrenta a fome e o desemprego ou porque a corrupção é uma chaga que assola o país, é preferível ficar com a primeira opção partindo-se do princípio de que uma coisa obrigatoriamente ou, supostamente, não deveria excluir a outra. Há dinheiro público e privado suficiente para os investimentos necessários que deverão ser feitos no Rio de Janeiro e para a criação de políticas públicas que cuidem dos problemas vigentes no país, sendo ambos, em última análise, totalmente passíveis de se complementarem juntos. O que não há é dinheiro – e agora, nem tempo – para corrupção ou investimentos descolados de interesses estritamente públicos.

O que deve ficar devidamente claro desde já, entretanto, é o papel da iniciativa privada, que deve arcar com os custos dos investimentos em boa medida – e não apenas auferir lucros com os jogos como prevê a prática recorrente no país. Da mesma forma, o acompanhamento dos investimentos e a transparência com os gastos públicos devem ser a primeira prioridade dos órgãos públicos fiscalizadores, como o TCU (Tribunal de Contas da União) e o congresso brasileiro. Que o legado dos jogos pan-americanos do Rio de Janeiro, de superfaturamento de obras, rombo nas contas públicas nas três esferas estatais e inutilidade pública posterior das obras realizadas, não se repita nas Olimpíadas – mesmo sabendo que, curiosamente, grande parte da equipe responsável pela realização do pan é a mesma responsável pelos jogos olímpicos.

Como de fato, a escolha do Brasil representa uma democratização dos jogos Olímpicos – a serem pela primeira vez realizados na América do Sul – e as obras efetuadas para sua realização também devem primar pela utilidade pública, constituindo-se de benefícios duradouros para os cariocas. O saldo da escolha do Rio de Janeiro será positivo, desde que, a partir de agora, o país passe a encarar sua imagem interna, de escândalos políticos de corrupção à marginalização das camadas pobres da população, e a articule em tarefa bem sucedida com a realização dos jogos olímpicos no país. Caso contrário, aqueles que enxergaram no vídeo projetado em Copenhague uma boa dose de hipocrisia e ufanismo deslavado, estarão, obviamente, mais do que certos.

domingo, 4 de outubro de 2009



Só para desafogar posts pretendidos. E entalados - por falta de tempo. E pela mania de escrever as coisas ainda quentes e de achá-las sem sentido quando já frias.

E claro, também uma homenagem a França - que vem se fazendo presente por vários motivos. Todos ótimos!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Incomunicabilidade Conjugal

Ela tinha esquecido como fazia calor no interior de São Paulo, mesmo no inverno. Eram férias de julho e, como de costume, voltara para a casa dos pais durante o período em que não teria aulas na faculdade, em São Paulo. Nesse meio tempo, aproveitou para sair com as amigas de infância e rever velhos conhecidos. Dentre eles, Raúl.

Eles nunca foram íntimos, mas desde pequenotes se paqueraram. Suas mães foram vizinhas quando tinham menos de quinze anos. Ela já era mocinha; ele, um garotão que brincava na rua. Os anos passaram e, agora, estavam juntos há duas semanas. Para dona Helena, sua avó, o namoro não duraria muito:

-E você já não cansou de namorar capiau? – reiterava com uma freqüência irritante.

Ela não ligava, apesar de ouvir a voz da avó ralhar em sua cabeça, de quando em quando, ao se incomodar com algum hábito de Raúl. Era domingo e essa era a segunda vez que ela iria visitá-lo em sua casa – Raúl agora morava sozinho, os pais haviam se mudado para a capital e, portanto, não seria inoportuno freqüentar a sua casa em um dia de família como o domingo.

-Oi, amor!

Ele nem respondeu. Apenas grunhiu algo e estalou um beijinho rápido em sua bochecha. Correu de volta para o sofá. A explicação: naquela tarde o Corinthians jogava contra o Santos. Sentou-se ao seu lado.

-Amor, você quer pipoca?

-Que gentil! Quero sim...

-O saquinho tá no armário, debaixo da pia!

Levantou-se e fez pipoca para os dois. Uma vez na cozinha, observou que seu sapato grudava no chão. Curiosa como toda mulher, não demorou a perguntar o que havia acontecido. E obteve como resposta:

-É o café, derrubei sem querer anteontem de manhã...Passei uma paninho, mas não saiu, você não quer...Não quer...

Claro. Sem demoras, pegou outro paninho, molhou-o e, dois minutinhos, o chão já não grudava mais. Voltou ao sofá.

-Obrigado, morzão!

Mal havia sentado, ele lhe interrogou:

-Cadê a água?

Tinha esquecido da bebida. Foi à cozinha de novo. Nada de água. Deu um pulinho até a área de serviço e notou um galão cheio, à espera de ser trocado. Fez um esforço, contou até três e trocou-o. Nesse meio tempo, sentiu um odor estranho. Na verdade, um tanto característico...De roupas mofadas! Ah, esses homens!

Lembrou de seu pai e a semana em que sua mãe fora passear na casa da tia, em
Campinas. Fora aí que, aos treze anos, descobrira que ferver roupas mofadas tirava o mofo. Achou por bem não comentar.

No caminho de volta ao sofá, descuidou-se.

-Amor, cuidado, você passou em frente à TV e quase foi gol! Por sorte eu não perco um gol!

Fora suficiente para ela fazer bico. Não conseguia prestar atenção no futebol. Contara até dez. Pensara em seus cabelos, nas unhas, na faculdade, no capítulo de ontem da novela, em sua melhor amiga e o término do namoro. Decidida, resolveu puxar papo.

-Uhum.

Em vão: depois de três vezes deixada no vácuo, sem respostas, desistiu. Vez ou outra, Raúl soltava algum comentário. Falou sobre a última loira que o jogador fulano estava saindo, sobre quantos milhões cicrano ganhava, xingava beltrano. Coisas assim, ele falava A, ela pensava em B. Incomunicabilidade conjugal. Cansou-se e resolveu sair.

-Vou ao shopping. Quando o jogo terminar, me ligue.

Deu algumas várias voltinhas, olhou todas as vitrines, sem entediar-se. Ele ligou, ela foi até a saída do shopping, esperou; ele chegou, ela entrou no carro. Beijou-o no rosto, perguntou quanto foi o jogo. Ele perguntou se ela havia comprado alguma coisa. Durante o percurso, seus celulares tocaram. Não se incomodavam. Pelo contrário, era até bom, pelo menos não seguiam calados. Era melhor assim.

domingo, 20 de setembro de 2009

Loucura

Ela corria desajeitada, vagarosa. Fazia sinal com as mãos para o motorista do ônibus parar; na verdade, saltitava, o que garantia àqueles segundos a impressão de tomarem mais tempo do que na verdade duraram.

Entrou no ônibus.

Pediu autorização para o motorista para fazer qualquer coisa - não era possível compreendê-la direito. Sentou, não sem antes examinar o assento a procura de alguma coisa, e dar-se a falar desatinadamente, misturando, ora português, ora chinês. Não devia ser burra. Louca? Talvez. Em seu relato, muitas citações a um nome: Tai. Quem seria Tai? Pensei.

E ela me respondeu. Era seu filho adotivo, que, desde os quatro anos com ela, teria vindo direto da China para o Brasil, em virtude da nacionalidade do pai, brasileiro. As pessoas no ônibus ao seu redor se assustavam. De quando em quando, ela cantava em chinês alguma musiquinha de ninar. Não estava bem, com toda certeza. Mas também não era maluca.

Como definir loucura? Parecia mais uma alma penada, que, ainda assim, gozava de valores em comum com o resto da sociedade. Afirmava gostar de músicas alegres, procurar a alegria. E continuava a cantar. Uma mulher, sentada ao seu lado, do outro lado do ônibus, cerrava os olhos e punha-se a fazer o sinal da cruz. Olhava para mim e mencionava, por meio do velho sinal com o dedo, algo como: "essa não bate bem"!

Depois que a susposta louca saiu do ônibus, essa senhorinha, de uns sessenta e poucos anos, olhou para mim e o resto dos passageiros e sentenciou: "pra mim ela tá possuída!".

Foi uma análise antropológica aquele percurso.

E por que a "louca" é a louca? Por que ela é louca? Por que ela não pode simplesmente falar sozinha? Quem disse que para ser louco é preciso falar sozinho?

Pode parecer estranho, mas às vezes teimo em pensar: quem são os loucos? O que é loucura? Muitas vezes chego a pensar que há muitos loucos sãos e muito mais sãos loucos. Essas convenções sociais sempre existiram e observá-las é no mínimo curioso. O díficil é constatar o quanto é díficil ultrapassar a intolerância estabelecida.

domingo, 13 de setembro de 2009

Imagens de um domingo


Voei desde cedinho...


...esperando o tradicional almoço de domingo...


...olhava a paisagem de dentro do ônibus...


...enquanto tomava um solzinho...


...algumas formas me chamavam atenção...


...outras eram piegas...


...muitas, impactantes...


...algumas poucas intrigantes...


...e curiosas...


...quase sempre, jornalísticas, a meu ver...


...me identificava com as decididas...


...e ria daquelas vivas!

Em ordem...

Marc Chagall
Henri Matisse
Eugène Atget
Pierre Bourcher
Germaine Krull
Germaine Krull
Mapplethorpe
Mapplethorpe
Kertész
Kertész
William Klein
William Klein

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobre relações assimétricas



Ouvi dizer de alguém muito querida que todos os relacionamentos são assimétricos. Se não o são agora, serão em alguma fase. Porque sempre alguém tem de gostar mais do que o outro.

Amizades podem ser assim: há sempre o caso daqueles que ligam e dos que recebem as ligações. Os que são admirados e os que admiram. Os que dominam e os que se sujeitam. Há também o caso daqueles que contam tudo e não ouvem nada. O dos que ouvem e não se abrem. Ou dos que não contam e nem ouvem. Funcionam como grandes bolhas fechadas em que o mundo já não pode mais atravessar.

Há ainda o caso dos encontros fortuítos, cheios de entrega e intensidade, onde grandes caixas de diálogo parecem se abrir espontaneamente e sobrevoar nossas cabeças; mas que, na verdade, acabam por acontecer com menos frequência do que desejamos. E nem sempre a culpa é nossa. Muitas vezes é do tempo. Da falta dele que nos leva a bloquear tentativas aleatórias que irrompam no meio de uma rotina já demarcada. Porque às vezes, mesmo que involuntariamente, nos fechamos ao inusitado. O que é uma pena, diga-se de passagem.

No amor a coisa parece ser ainda mais engraçada - ou sádica, leia-se como quiser. Quem nunca conheceu alguém que praticamente não vivesse sem o outro? Ou alguém cuja identidade já não se reconhecia mais, de tão borrada? Quem não viu pessoas reluzirem e apagarem numa rapidez absurda?

Por outro lado, quantos são os que de fato sabem que não sabem o que querem? E nesse meio tempo, o do não saber, levam a energia e o gosto de si próprios e, pior, de seus companheiros. Há também aqueles que não se valorizam e ficam a mercê de, bem, pessoas que têm a sorte de tê-los e o azar de serem quem são. Há também os que se doam, sem medo. Pegar ou largar, sempre do mesmo jeito.

No fim, eu me pergunto, porque as pessoas - e nelas eu me incluo - reclamam tanto de tudo! Se, mais no fim ainda, tudo não passa de uma mesma música, que perpassa a vida de todos, em alguma fase da vida, e cujas grandes possibilidades só nos basta enxergar?

Porque se é pra viver, que seja de verdade. E de preferência, com simetria.

sábado, 29 de agosto de 2009

Extâse da tarde

A chave penetrou a fechadura e não precisou ser girada; a porta estava aberta. Dentro da casa, silêncio. A sala, toda iluminada de um resto de sol preguiçoso e expansivo, o convidou sem demoras para ali permanecer. Tirou a camisa suada, arregaçou as calças ate os joelhos, apertou play. Deixou a bossa nova tocar e tocá-lo.

Deu, a princípio, alguns passos tímidos, lentos. Sorrisos estremeados, algumas palmas aleatórias, uma sensação quente. Boa, gostosa, de felicidade. De completude, de sinuosidade, de contradição, de juventude, de tempo, de praia, de Rio de Janeiro, de infância, de pai de calção e mãe rindo de cabelos molhados, de irmã ainda pequena. Tudo enquanto contemplava a vista. Aquela vista de tantos segredos e tantos sentimentos!

Ela era brilhosa, azul, verde, cantava com os passarinhos, sambava com o vento da tarde, mandava a poluição embora. Ria-se sozinha. E o fazia rir. Deu mais alguns passos na sacada; logo, girava de braços abertos e os galhos começaram a se mexer sozinhos.

Era um extâse da tarde. Simples e bonito.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Estava prestes a terminar de escrever. Parei no "Eu...". Não sei se era a chuva, o frio, ou a espera, ou todos ao mesmo tempo, mas o fato é que aqueles minutinhos foram preciosos para começar a escrever. E não terminar. Listar detalhes intensos, pensar momentos decisivos, repensar atitudes. E na verdade sempre acabar por achar que a coisa certa havia sido realmente feita. Porque todos precisamos livrar um pouco a consciência na hora de desabafar consigo mesmo!

Mas o impressionante fora aonde parei. Estava no momento decisivo, no ápice da semana e dos dias e, no entanto, fui interceptado. Corri as mãos às palavras. Estavam seguras. Engatei no papo. E dele nunca mais saí. E, no fim, até me esqueci que estava escrevendo. Fechei as páginas, enfiei tudo correndo dentro da mochila, segui apressado. E, dessa vez, quando não, minha surpresa fora ainda maior dali a algumas horas. E, para ser sincero, não havia percebido aonde tinha parado de escrever. Mas agora, as coisas de fato parecem ter se conectado.

Se há coisas que devem ser ditas, caso contrário, perdem seu sentido, há também coisas que não devem se escrever ou se tentar em palavras. Quem quiser dar uma aprofundada no tema, dê uma olhada no post debaixo. Para mim ajudou bastante!

Percepção

Swann achava em si, na lembrança da frase que ouvira, nas sonatas que mandara tocar para ver se acaso descobriria, a presença de uma dessas realidades invísiveis em que deixara de crer.[...] E o prazer que lhe dava a música...assemelhava-se...ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não somos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem significado porque escapa à nossa inteligência e nós o atingimos por um único sentido.[...]Todos os encantos de uma tristeza íntima, era a eles que ela tentava imitar e recriar, e até a sua própria essência, que consiste em serem incomunicáveis e parecerem frívolos a qualquer outra pessoa que não seja a que os experimenta, a pequena frase a havia captado e tornado visível.[...] Que belo diálogo ouviu Swann entre o piano e o violino no começo do último trecho! A supressão das palavras humanas, longe de deixar reinar ali a fantasia, como se poderia crer, a tinha eliminado: jamais a linguagem falada foi tão inflexivelmente fatal, jamais conheceu a tal ponto a pertinência das perguntas, a evidência das respostas.

Proust, "No Caminho de Swann"

Porque...

"O sentido do mundo está fora da linguagem, ele está no ontológico e não no lógico"

Merleau-Ponty

E...

"Percepção é sentida, vai além dos signos, como diz Merleau-Ponty, [vai] 'rumo ao silêncio deles' "
Ciro

Fim. Só para constar algumas frases que fiquei de completar!

sábado, 22 de agosto de 2009

Brecht

No familiar, descubram o insólito

No cotidiano, desvelem o inexplicável

Que o que é habitual provoque espanto

Na regra, descubram o abuso

E sempre que o abuso for encontrado

Procurem o remédio


Bertold Brecht

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Imagem, valores e a falta de sono

Quase não escrevi esse post. Mas decidi que era importante. Que era uma ótima forma de estravasar a desesperança que estou sentindo agora. Por desesperança, leia-se: falta de sono. Quando durmo pouco, sou dado a reflexões pessimistas, sentimentalismos e desesperanças. Seria tão mais fácil ficar bocejando, mas não...

Tudo começou bem, com uma aula fantástica das quais há tempos não tinha na ECA. Levantou-se o seguinte ponto, o qual achei interessantíssimo, a partir das reflexões de Hegel: na sociedade em que vivemos, a sociedade do espetáculo, houve uma inversão na relação entre conceito e imagem.

Se antes, no século XIX, valorizava-se chegar a conceitos a partir de imagens, da apreensão e percepção do real, atualmente a ordem das coisas se inverteu: na sociedade técnica do século XXI busca-se chegar a imagens, perdendo-se, no meio do caminho, a importância dos conceitos. É o que passou a ser chamado de Idealismo da Imagem.

Tudo funciona em torno das imagens atualmente. E o lado lúdico do papel da imagem, isto é, aquele que concerne ao imaginário e suas infinitas potencialidades, espaço de criatividade e distinção do ser humano, vai sendo também deixado de lado a medida que a imagem, apresentando desta vez sua faceta mais perversa, passa a servir como sistematizador de normas e convenções e, acima de tudo, legitimador de hábitos e ideologias, atuando de forma opressora.

Perde-se a diferença por impor-se o império do sempre-igual. E aí entra o que sempre me atraiu: a diferença e o diferente. O pensar diferente, o propor, o agir, as idéias, as iniciativas. O questionar e o transgredir.

Enfim, pode ser que seja uma boa idéia canalizar a agressividade da falta de sono para coisas produtivas.

sábado, 15 de agosto de 2009

Tempo



Olhei as fotos e pensei ter vivido anos. Esqueci que foram apenas semestres. Desnecessário dizer que, de lá pra cá, minha vida se dá em semestres e não mais em anos como antigamente. Foram tantos momentos!

Recordo-me de sensações. De sentimentos abstratos, de climas. De como as fotos foram tiradas. Das pessoas envolvidas e suas impressões. Das primeiras impressões. Que engraçado!

Assusto-me. Lembrei do começo, bem do comecinho. Vindo do interior, com um gás total e absurdo. Tudo novo. Medo do sentimento de envelhecer. Do sentimento de passagem, de efêmero. Do tempo que passa. Hoje parece que tudo é tão...conhecido. Apesar de eu sempre lidar com o desconhecido semestralmente, como costumo dizer. Estranho. Foi algo que fiquei pensando e que, confesso, odeio ter de dizer - ou escrever - dado que não sou de tristezas.

Nem sei se de fato esse sentimento se configura como tristeza. Na verdade, tudo fica no campo da nostalgia. E, para ser sincero, acho que não estou - ou melhor, não estamos - acostumados a lidar com sentimentos nostálgicos. Deveríamos, afinal, o que somos nós senão uma história em construção?

Este post, por exemplo, já pertence ao passado.

Músicas de sábado II



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Encontro

O vento frio que lhe arrepiava os pelos expostos em uma camiseta tão indesejavelmente de mangas curtas e os olhos azuis cor de piscina que o fitavam dedicados e emoldurados por cabelos louros bem naturais faziam-no sentir-se em um filme. Era como se a cena que presenciava com suas vistas fosse, de fato, uma fotografia nítida, clara, cuja câmera provavelmente estaria a tremer se dividindo entre sua barba mal-feita e os olhos azuis da garota que o encarava.

Era tarde. Havia poucas pessoas ao seu redor. Ela lhe perguntava, ele respondia com sinceridade. Era um questionário, desses inesperados, a princípio chatos e demorados. Ele, por mais que convencionalmente, sem saber o porque, parecendo negar-se a participar de tal questionário - sobre religião e espiritualidade - acabou cedendo. Sentaram e se encararam por alguns segundos. Ela lhe mostrou algumas fotos. Lindas, coloridas, fortes.

Ele a ouviu falar sobre suas crenças. Com tanta firmeza! Por mais que discordasse de tudo que lhe era dito - sempre fora cético para esse tipo de coisa - não conseguia deixar de admirar sua determinação. Seu empenho, sua coragem. Afinal, não era fácil estar em outro país para pregar algo que se acredita, pensou. Se já é difícil no seu próprio país! Respeitou-a e respondeu direitinho a tudo que ela queria saber.

Sorriram, deram as mãos, desejaram-se boa sorte. Encorajaram-se. Lançaram apostas, daquelas inacreditavelmente verdadeiras, sobre seus respectivos perfis. Seguiram seus caminhos, diferentes, mas com um ponto comum que, acredito, nenhum dos dois poderia deixar de esquecer: acreditavam, acima de tudo, neles. E nesses encontros, aleatórios, significativos e, acima de tudo, rápidos. Tudo não durou mais do que dez minutos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O garoto olhou para trás com firmeza:

-Eu não acredito mais em você.

Eu, de longe, que andava até então brincando de cantar errado músicas conhecidas, pausei por um instante. É, perdeu. Quem diz algo assim, com tanta força e determinação não pode estar falando senão a verdade. Sorte dele. Sinto falta disso, de quando em quando.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Amor à Flor da Pele



Uma imersão na cultura tradicional chinesa. Só assim é possível compreender as inflexões, vacilações e o tempo do filme Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai. É incrível observar o quanto somos moldados pela cultura em que vivemos e o quanto nossas vidas tornam-se tão mais fáceis a partir do momento em que rompemos com preocupações pontuais. De preocupações, bastam as inevitáveis que surgem no decorrer da vida.

A fotografia colorida ameniza a frieza das personagens principais e os efeitos usados pelo diretor para sinalizar sentimentos e marcações de tempo - os mesmos usados em Um Beijo Roubado - são de uma precisão absurda. A trilha sonora novamente é um dos pontos altos dos filmes do diretor.

Vale a pena ouvir a versão de Nat King Cole pra música Quizas:
http://www.youtube.com/watch?v=2wQ4gJo0bII&feature=related

sábado, 1 de agosto de 2009

Tropa de Elite



Acabo de assistir ao filme Tropa de Elite e estou estarrecido. Embasbacado, como diz o outro. Achei o filme absurdamente moralista, legitimador e incitador do uso da violência, representante de primeira das forças da hierarquia e doutrinação e, acima de tudo, absolutamente subserviente à manutenção do status quo e dos poderosos em sua análise retrógada e, no fim, absolutamente rasa dos fatos.

A lógica do filme é desvendada desde cedo: a visão de que a solução para o tráfico é simplesmente não consumir drogas. Não entra em cena o envolvimento político, econômico e militar de uma rede internacional dessa indústria das drogas que é uma das maiores e mais bem equipadas multinacionais do mundo. Para constatar esse fato é só parar e pensar um pouquinho. Nos EUA por exemplo, que é o país com maior mercado consumidor de drogas do mundo, com uma frequência assustadora vemos notícias sobre imigrantes ilegais que tentam entrar no país e, no entanto, são barrados nas fronteiras. E a droga, como faz para adentrar o território norte-americano?

Não venha me dizer que quem controla e lucra com essa indústria é Beira-Mar, é Marcola. Certamente esses caras que controlam o tráfico estão a quilômetros de distância dos morros, muito bem acomodados. O filme não só não faz menção a esse tipo de constatação como subverte o problema do tráfico escolhendo como alvo o consumidor de drogas. É sim um fato que, caso não houvesse demanda por drogas, não haveria tráfico ou mortes nos morros. Mas assim como existem pessoas que gostam e consomem álcool ou cigarros, existem pessoas que gostam e consomem maconha, cocaína ou heroína. Outro fato. Até quando vamos ser hipócritas e acreditar que a ilegalidade funciona em vez de encararmos a realidade tal qual ela é? Quando vamos lidar com a realidade?

Para citar outro exemplo, quantas pessoas tiveram que morrer até que a lei seca, que impedia o consumo de álcool nos Estados Unidos, fosse derrubada? Ou seja, não é o usuário que é culpado pela morte de pessoas na favela ou da existência do tráfico e sim o fato de uma pessoa não poder ser usuária livremente caso deseje. Vivemos em um país livre ou não? É mais do que óbvio que com a legalização das drogas viriam juntas uma série de restrições a locais de uso, publicidade nos meios de comunicação, campanhas governamentais de conscientização dos malefícios causados pelo uso de drogas e uma outra série de ferramentas sobre as quais teríamos que estudar.

Mas a legalização é, obviamente, desinteressante. O preço da droga cairia, haveria uma maior concorrência, o que demandaria outros gastos e lucros menores, restrições oficiais, campanhas de prevenção, leis e tarifas comerciais, maior informação por parte dos usuários. Não serve aos interesses da indústria internacional das drogas tal tipo de medida. Surgiria uma outra realidade que prezaria pelo conforto de seus clientes, como qualquer outra indústria e que, certamente, afugentaria tiroteios e mortes de suas portas. Principalmente mortes por bala perdidas de pessoas que nada tem a ver com o consumo de drogas. Será que morreriam mais pessoas do que morrem atualmente nos morros? Talvez um aumento no número de overdoses, mas bem...trata-se de uma escolha.

Ainda assim, no fundo, no fundo, longe da discussão sobre legalização das drogas, o que mais me intriga é: por que alguém se submete à vida do tráfico no morro? A troco de quê esses traficantes levam essa vida se você pode perder a sua vida a qualquer segundo, como o filme deixa explicitamente claro? Se você não tem paz, não tem família, não tem acesso a nada?

Na verdade, a única resposta a que consigo chegar é: os valores do ser humanos estão apodrecidos. Dinheiro, consumo, ganância. Que essa sociedade que reprime nos morros, alimenta em suas engrenagens. A vida não vale mais nada ali; vide a carnificina e brutalidade do filme.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

To Fabio

Fabio'd be smoking. Certainly he'd have had a coffee some minutes ago. He'd be looking firmly to me, speaking only in english, of course - not because he was my teacher, but because our secrets, well, those...only in english.

He'd cross and open his eyes. And his mouth'd move in a way that his teeth'd seem bigger than they accually are. He'd be fidgeting. And probably tired. And complaining about having to do the washing or going to the supermarket - and not having time to do so. He'd be pretty much the same.

Even in Alasca.

Miss you, buddy!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Árvore

Annie Hall



Annie Hall ou, no Brasil, Noivo neurótico, Noiva nervosa é um retrato de uma geração. E de um diretor. Ali podemos ver Woody Allen em seus primórdios, as bases de seu cinema de forma muito mais evidente do que seus filmes atuais, os diálogos apressados, propositadamente sutis e sugestivos, o humor inteligente e sofisticado sob o ponto de vista de um contexto histórico efervescente, fértil e desafiador.

Assim é Annie Hall: o retrato aparentemente não comprometido de uma geração comprometida em buscar o que não sabia. Em buscar o novo em meio ao banal, em testar-se, em aprofundar-se, em ultrapassar moralismos e conservadorismos. Em reiventar a si mesmo e, se não o mundo, pelo menos aquilo que se encontra ao seu redor: discos, livros, ideologias, roupas, tabus, personalidades, hábitos. Acima de tudo, Allen deixa claro, relacionamentos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Se


E novamente me pego pensando no "se". Relembro algumas histórias. Tento mudá-las, em vão. Fecho os olhos por alguns segundos e sou capaz de voltar no tempo. De sentir o cheiro do verde e o calor do parque central da cidade. De exigir de mim mesmo mais pulso. De exigir da vida e das pessoas outras atitudes. De "retocar" detalhes.

Tudo me inspira um passado distante que insiste em sistematicamente voltar à tona. E se fazer tão próximo. Um passado efêmero, de meses. Talvez os melhores meses que tenha vivido aqui. Sem dúvida, dos mais turbulentos. Cheios de emoções, desafios, momentos, pessoas. Nesse quesito, o "se" me persegue.

O "se" é emocional, sei disso e não nego. Se penso racionalmente, não me dou a tal tipo de luxo. É ilusório acreditar que tudo na vida possa depender de algo ou alguém. Acima de tudo, faz mal. Mas enfim, o "se" existe e é preciso lidar com ele. Fazer o que?

Sempre

E parece que, propositadamente, de onde não tinhamos mais esperança alguma surgem forças. Propositadamente ou despropositadamente? Sempre me ponho a pensar - já que sempre que algo novo e bom surge em nossas vidas a primeira pergunta que fazemos é porque aquilo não aconteceu antes.

Onde eu estava esse tempo todo???

Por dois segundos de puro otimismo, consigo me confortar um pouco com o fato de que na vida as coisas se dêem dessa maneira. Fico pensando como seria se tudo desse certo sempre e você não tivesse que passar por maus bocados antes de jogar os braços pra cima e ser feliz. Felicidade. Cara, como na maioria das vezes nós mesmos somos capazes de sermos felizes! - momento "surto" de desconsiderar todas as injustiças do mundo.

E eu sempre me volto para o passado. Para o aparente "tempo perdido" e sua velha sensação de angústia. Verdade ou ilusão? Ainda me pergunto isso constantemente. Ah, essa mania de ficar refazendo o que já passou! Mas para quase tudo existe um lado justo...E soa absolutamente tão justo reconstruir momentos, situações...pessoas!

É, voltar para casa sempre significa voltar-se para o passado. E desta vez, por enquanto, torcer pelo futuro. Que me parece um dos melhores possíveis, desde...sempre!

domingo, 26 de julho de 2009

O casamento de Rachel



Mais um drama familiar. Legal observar a câmera em movimento e alguns diálogos espertos. O problema são as tomadas muito longas e repetitivas e o excesso de clichês. Mas as atuações valem a pena.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Paris, Je t'aime


Paris, eu te amo não poderia deixar de ser lindo. E problemático. De filmes cuja expectativa prévia é alta e os resultados nem sempre são condizentes com o que se espera, estamos fartos. Mas a combinação de 20 filmes sobre a capital francesa desempenha modestamente bem sua proposta de juntar diretores com repertórios cinematográficos diferentes para destacar o que há de melhor em Paris: a diversidade cultural, as possibilidades que a cidade apresenta, seus encantos, seus problemas, o amor.

É notável perceber que nos filmes em que os atores hollywoodianos se encontram - e em que a mídia consequentemente concentrou seu enfoque - as surpresas e reflexões não são tão desafiadoras quanto àquelas presentes em outros curtas que compõe o longa. Coincidência ou não, já que esta é por si só uma proposta até certo ponto alternativa, estão nos atores desconhecidos do grande público as melhores interpretações. Entre os diretores, salvo Gus Van Sant, mais uma vez mostrando compreender muito bem o espírito jovem - vide os diálogos espertos e desconexos de seu filme - o mesmo pode ser dito.

É só uma pena não vermos iniciativas como essa para outras cidades do mundo. Não pude deixar de pensar que São Paulo se adequaria totalmente para a proposta.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Um pé na terra, outro na lua

Dizem que as palavras esfriam caso você demore a pô-las à mostra. Concordo. São efêmeras. Se dissolvem no ar ao menor piscar de olhos para separar um parágrafo de outro. Faz tanto tempo que não sinto as palavras caminharem com o pensamento... Ou melhor, com o sentimento. Difícil. Falta de tempo. Ou insensibilidade de tempos insensíveis.

Férias. Volto para casa, finalmente. Tudo está igual. Os mesmos porta-retratos - que variam suas posições, na lógica de um anagrama cujas letras mantém-se sempre as mesmas, apenas revezando-se em seus lugares - o mesmo cheiro, o clima abafado de sempre. A poeira da avenida. É lindo e é trágico. Que saudade do tempo que passou! Faz bem olhar para trás agora. E é lindo pensar que novos horizontes se traçam a minha frente, o tempo todo. Sucessivos e efêmeros, como as palavras. Intensos.

Abro o armário e procuro mais fotos. A luz do dia começava a desaparecer; prefiro não acender as luzes e aproveitar a ressaca do final da tarde, ouvindo o barulho dos carros lá fora, que logo passaria, assim que as pessoas chegassem em suas casas e a cidade caísse no marasmo da noite. O vento me traz cheiros, que retomam sensações, que se intensificam ao relembrar de cada foto. Calma, é só o primeiro dia. Como é ruim ser manteiga derretida desse jeito! Na verdade, nem sei se manteiga derretida. No fundo, aposto que não.

Penso em ligar para alguém. Algum dos amigos que não vejo há meses e de que, de um jeito ou de outro, sinto falta e me lembro sempre, no decorrer da vida longe. Chego a discar, ouço chamar, mas... hesito. Esse momento é seu. Volto às fotografias, aos sentimentos, ao pé descalço no sofá macio; à camiseta regata em um dia de inverno. Fico por ali dez, vinte, trinta minutos. As costas começam a doer, as fotos se tornam indecifráveis dado seu estado de deterioração e a falta de luz. A campainha toca; as compras chegaram.

Hora de desvencilhar-se de pensamentos, cheiros e sensações. O pé na terra volta à ativa. Por pouco tempo, espero, dada a fertilidade das férias.

sábado, 18 de julho de 2009

Casa no campo

Tulio longe das internets da vida.

Casa no campo.
Onde eu possa ver meus amigos.
Meus livros, meus discos.

E algo mais!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Fim de semestre

Fins de semestre são sempre estranhos. Enigmáticos e nostálgicos. Cansativos e excitantes. Você agradece loucamente pelos momentos por que passou, as experiências que viveu, as pessoas que conheceu, a fase em que você está. O quanto você mudou, como é bom mudar e como a vida - e a USP - são um poço inesgotável de desafios. Que cabem a você encarar, decifrar e se deixar mudar.

E claro, olhar para trás e dizer: caramba!...

Ao mesmo tempo é tão nostálgico perceber que, sim, tudo passa rápido e jájá esses quatro aninhos e meio estarão no fim. Mas o melhor de tudo, apesar do cansaço, é poder pensar: semestre que vem tem mais. Mais pessoas, mais coisas pra viver, pensar, aprender. Mais mudanças pela frente, sempre.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Resposta

Minha resposta ao editorial de ontem da Folha de São Paulo, dia 2 de julho, sobre o fim da greve na USP:

USP

O “roteiro desgastado de sempre” das greves de funcionários, professores e estudantes da Universidade de São Paulo que o editorial do jornal Folha de São Paulo do dia 2 de julho aponta vai continuar sistematicamente se repetindo pelo simples fato de que na USP, assim como na sociedade brasileira como um todo, as raízes dos problemas – nesse caso, uma constituição estatuinte das mais anti-democráticas e uma estrutura de poder que mais lembra um papado – permanecem propositalmente intactas. Joga-se a sujeira para debaixo do tapete mais uma vez – para depois esse mesmo jornal voltar com seus “editoriais desgastados de sempre”, sem tocar no cerne principal das questões relativas à universidade.

Se desta vez a USP não passa por uma grave crise, eu lhes pergunto: é preciso uma crise para que se legitime o direito de enxergar problemas na universidade? O debate não encontra espaço na USP e as divergências, que deveriam ser celebradas, são encaradas como um problema – para a USP e para a sociedade como um todo. Há sim problemas crônicos na USP: não se permitir dar voz a quem quer se fazer ser ouvido. Se para a Folha, como foi dito no editorial, representatividade não é o “ponto principal”, então que não se julgue o uso do radicalismo como “principal instrumento de pressão” por funcionários e estudantes – a famigerada “minoria radical”. Um tanto quanto incoerente a posição do jornal.

É inadmissível que um punhado de professores titulares, que representam por volta de 1,5% da comunidade USP detenha mais de 75% das cadeiras do conselho universitário. É inadmissível que a escolha dos diretores de unidade tenha sua decisão final nas mãos da reitora. Democracia nunca é demais. Ou não deveria ser. E se o contribuinte mantenedor da USP é usado como desculpa para eleições diretas para reitor da USP não serem realizadas, caberia se levantar então a pergunta: até quando a USP será um feudo em que a maior parte dos contribuintes fica de fora em virtude das deprimentes condições do ensino público brasileiro? Isso sim é uma vergonha para o contribuinte que mantém a USP – e não eleições diretas para o cargo com máxima concentração de poder na maior universidade do Brasil.

sábado, 20 de junho de 2009

Amanhã, ninguém sabe - Chico

Hoje, eu quero
Fazer o meu carnaval
Se o tempo passou, espero
Que ninguém me leve a mal
Mas se o samba quer que eu prossiga
Eu não contrario não
Com o samba eu não compro briga
Do samba eu não abro mão

Amanhã, ninguém sabe
Traga-me um violão
Antes que o amor acabe
Traga-me um violão
Traga-me um violão
Antes que o amor acabe

Hoje, nada
Me cala este violão
Eu faço uma batucada
Eu faço uma evoluçao
Quero ver a tristeza de parte
Quero ver o samba ferver
No corpo da porta-estandarte
Que o meu violão vai trazer

Amanhã ninguém sabe
Traga-me a morena
Antes que o amor acabe
Traga-me uma morena
Traga-me uma morena
Antes que o amor acabe

Hoje, pena
Seria esperar em vão
Eu já tenho uma morena
Eu já tenho um violão
Se o violão insistir, na certa
A morena ainda vem dançar
A roda fica aberta
E a banda vai passar

Amanhã, ninguém sabe
No peito de um cantador
Mais um canto sempre cabe
Eu quero cantar o amor
Eu quero cantar o amor
Antes que o amor acabe

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Dias ditosos

E do surto e do desespero eis que vem a luz; da onde tudo parece vir nesses dias intensos. No final de um dia longo, que mais pareceu arrastar-se por mais de um mês, eis que uma fagulha surge, se revela, se desinibe e se transforma em olhares apressados; cheios de significado. E de brilho. Esperança e apreensão. Idéias, acima de tudo.

-Ah, onde é que elas estavam?

Pois é, guardadas. Aqui dentro, esperando para serem soltas e, de fato, livres. Obrigado.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desabafo




Porque tem horas que são difíceis. E você quase perde as esperanças. A desesperança é o pior sentimento do mundo. Você só quer deitar, ouvir uma música, olhar para o céu. Mas não dá. E é preciso continuar. Mesmo que você esteja contra a maré - ou que você acredite tanto em seus valores que se torne simplesmente impossível negá-los.

sábado, 6 de junho de 2009

Greve na USP

A príncipio não era favorável a uma greve de estudantes na ECA. Acreditava que os funcionários tinham todo o direito de lutar por melhores salários, por reajustes do índice de inflação, pela readmissão de seu líder máximo, Claudionor Brandão.

O dirigente do Sintusp foi supostamente demitido por justa causa, tendo a reitoria alegado reincidência processual. O primeiro processo contra Brandão foi fruto de uma intervenção do Sintusp na greve dos funcionários terceirizados da FAU - o que é considerado ilegal já que o Sintusp não poderia se envolver em uma greve de funcionários terceirizados - e de uma briga durante essa greve, na qual as duas únicas testemunhas ouvidas no processo misteriosamente não tiveram seus nomes divulgados e o próprio Brandão, cujo depoimento está no processo, contesta os fatos apresentados. O segundo processo diz respeito à participação do dirigente do Sintusp na ocupação da reitoria da USP em 2007, quando o motivo principal da greve de funcionários e estudantes eram os decretos então editados pelo governador José Serra que foram considerados prejudiciais à autonômia universitária. Até aí, tudo bem. Apóio a causa dos funcionários. Mas e eu, enquanto estudante e não enquanto pessoa, com isso?

Eis que a vaca foi para o brejo e a minha atuação enquanto estudante passa a ser necessária, a meu ver, quando a polícia militar, que não entrava no campus do Butantã da USP desde o governo Figueiredo, em 1979, passa a ser chamada para conter o piquete que os funcionários da USP realizavam em frente à reitoria. Muitos me disseram: " ah, Tulio, mas a reitora tem todo o direito legal de chamar a PM, os funcionários estavam impedindo aqueles que não aderiram à greve de trabalhar". E eu lhes pergunto: não seria melhor o diálogo com os funcionários em greve? Esse que foi interrompido horas antes da ocupação relampâgo da reitoria da USP na semana passada quando a reitora se negou a se reunir com o Fórum das Seis(que reúne professores, funcionários e alunos) porque Brandão, como líder do Sintusp, participaria da reunião? Esse que, possivelmente, poderia resolver a situação, que, mesmo - e de fato, piorada - com a presença da PM, ainda se estende?

Ou seja, a que fim a presença da PM, na Universidade de São Paulo, a maior universidade do Brasil e uma das maiores do mundo, se destina? A que ponto chegamos para que em um centro de excelência reconhecido mundo afora policiais precisem ser chamados para conter tensões entre categorias diferentes? Não importa se Brandão é gordo, magro, inteligente ou imbecil, assim como não importa se funcionários defendem o direito ao aborto ou uma campanha por melhores salários, o que me interessa pode ser definido do seguinte modo: a Universidade de São Paulo tem a obrigação de defender a livre expressão dos movimentos sociais e não é com PMs no campus que tal defesa será assegurada. Temos o privilégio de estarmos em um local onde o diálogo tem a obrigação de ser preservado.

Bem, isto posto, na segunda-feira, decidi ir à Assembléia dos estudantes da ECA para ficar a par da discussão sobre a entrada da PM. Foi então que tive o prazer - ou não - de conhecer a nova empreitada na área de educação do governo do Estado de São Paulo: a Universidade Virtual do Estado de São Paulo. O projeto, cujo epicentro conta com fabulosas sete páginas, foi estruturado sem a participação dos docentes da USP e nem foi aprovado sequer pelo Conselho de Graduação e, no entanto, com menos de um ano, está prestes a ser efetivado, com vestibular para agosto. Seu objetivo é a formação de professores para sanar a falta desses profissionais no país - que já alcança as centenas de milhares, segundo as últimas estimativas do MEC - através de um curso com 80% de aulas à distância, que, para utilizar o argumento do editorial da Folha de São Paulo do dia de hoje, faria com que "mais estudantes, com renda abaixo da média dos alunos da universidade, possam desfrutar dos serviços educacionais da USP".

E eu pergunto: como esses alunos poderão desfrutar dos "serviços educacionais da USP" à distância? Sem biblioteca, sem orientação ou garantias como restaurantes universitários ou moradia estudantil? Mais: como o problema quantitativo de professores de qualidade será solucionado se serão formados professores cujo centro de formação será efetuado sem a presença de um professor? Será que realmente a formação de professores a rodo é a melhor opção para um ensino público de qualidade? Ou deveríamos repensar salários e investimentos, sugerir atrativos para a profissão, impulsionar sua valorização, entre outras coisas? Onde estaria na formação desses professores o tripé da Universidade de São Paulo, "ensino, pesquisa e extensão"? Diversos países de fato adotam o ensino à distância, mas apenas como uma solução para a impossibilidade de se frequentar a sala de aula. Como uma ferramenta complementar à formação de qualidade em locais devidamente estruturados para a formação profissional.

Sou contra a Univesp nos moldes em que está sendo efetuada. E como aluno privilegiado de uma universidade para poucos, o mínimo que considero ter de fazer é repensar as maneiras como a educação pública desse país é encaminhada. Para fazer das palavras de uma garota da ciências sociais, minhas: " PM no campus e ensino a distância, em vez de ensino no campus e PM à distância, não é comigo". Dois bons motivos que, sempre particularmente, já me fazem crer que um choque de realidade é necessário para nos fazer questionar a realidade, debatê-la. A greve é uma quebra do cotidiano, incomoda. Mas passa longe de ser férias ou coisa de vagabundo.

Antes, é um espaço de debates e produção ativa que se abre e nos posiciona como elementos fundamentais dentro desse debate. E foram nesses últimos dias que me dei conta do poder que temos e do quão é importante e necessário pararmos e pensarmos, ativamente, no futuro da universidade que queremos. Porque democracia é isso. E não reclamam tanto que a sociedade brasileira é anestesiada? Pois é, ainda há redutos que produzem vibrações que incomodam. Ou, para citar o mesmo editorial, ainda existem "moinhos de ventos" neste país.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Vira-tempo

Estava deitada em seu quarto, de olhos semi abertos. O teto a encarava, mas ela não podia enxergá-lo. Na verdade, enxergava-o e ele girava feito areia movediça branca. Ela piscava e de repente tudo vibrava, voltando à sua fixidez natural. Estava naqueles estágios dormentes em que não se está dormindo nem acordado, em que você ouve o que acontece lá fora e torce para que esteja dormindo. Torce para não ser incomodado. E torce para não despertar, mas raciocinando sonhando, sabe que está desperto. Ouvia os passos apressados das crianças a correr pela casa. Já era quase meio dia e, dali a pouco, teria que sair.

Confortável em sua cadeira favorita, agora, anos depois e muitas rugas na cara, movimentos lentos de passos vagorosos, ela me relatava tudo como se estivesse falando com seu diário. Não olhava para mim; olhava, outra vez, para o teto. Mas era um teto de abstração. De pessoas, fatos e sonhos. Que não rodava aleatoriamente como num sonho quando se está acordando na cama e sim um teto em que cenas de um passado de mais de oitenta anos se sucediam como as fotografias de um albúm de retratos.

Resistiu; levantou-se de um pulo aproveitando a fagulha de iniciativa que despontava e que poderia perder-se ao menor pensamento contraditório que surgisse e ressurgisse em sua cabeça. Porque nessas horas, pensamentos vagos e contrastantes vão e voltam numa intensidade e fragmentação incessante. Vestira-se e em meia hora estava pronta. Seu perfume envolvia toda a casa. Era díficil não notar a sua presença - ou a véspera de sua ausência.

A essa altura eu ouvia sobre como era bonita. E magrinha. E quais eram os defeitos de seus pretendentes - e as virtudes de meu avô. Quais eram as amigas verdadeiras e aquelas que eram invejosas. As que tiveram azar na vida. Ou sorte no amor. Sobre seu pai e seu pomar. Ou sua mãe e sua aura triste. Sobres as brincadeiras de quando era menina.

Iria encontrar-se com sua irmã. Lourdes, das quatro, fora a mais infeliz de todas. Ainda assim, considerava-se a mais feliz. E de fato, talvez o fosse. Iriam tomar chá no alto do edifício Itália. Era um dia de outono, de sol fraco, casaco e garoa fina. Ventava muito e ela era uma mulher precavida. O ritual fora o de sempre: desceu correndo até o metrô. Esperou impaciente durante alguns minutos até o vagão chegar. Nunca gostou de se atrasar. Era preferível chegar antes e esperar do que ser esperada. Sentaram-se no lugar de sempre. Falavam baixo, confidências que só trocavam entre si. E que estavam impacientes para desabafar. Lourdes às vezes soltava uma ou outra gargalhada de satisfação. Ela ouvia com atenção e surpresa. Admirada e orgulhosa da irmã.

Era hora de falar dos outros irmãos. De seus casamentos, filhos, netos, sobrinhos. Cunhados e sogras. E famílias inteiras que já se foram. Ou que existem e estão a beira de irem-se. Era também hora de voltar ao fogão; o lagarto já devia estar quase pronto.

Depois de algumas horas tagarelando, teria que ir embora. Pegou a bolsa junto ao braço, passou seu batom apressada. Cumprimentou a irmã e seguiu seu rumo cuidando para que o barulho de seu salto não incomodasse as pessoas que apreciavam a vista. Passaria no supermercado na volta para casa e precisaria estar com o jantar pronto às seis da tarde. Esperaria seu marido com tudo pronto.

Sentamos e almoçamos. Agora vovó me ouvia atentamente. Sem se importar necessariamente com o significado exato de um e-mail, de um pen drive ou de uma mensagem de celular.

Sentaram e jantaram. Seus olhos brilhavam ao notar que a comida estava boa. Era feliz só por viver aqueles momentos. Respirava fundo e pausadamente. E ouvia. Sabia ouvir muito bem. Dava poucos conselhos. Mas muitos pitacos.

Acabamos o almoço. Lavava as louças. Silenciou por alguns segundos. Talvez pensando no que valeria a pena. Enxugava as mãos. E perguntava: o que vai querer de sobremesa?

Conferência de Durban

The Durban Review Conference: A Palestinian Critique
Haidar Eid

Palestinians are fed up with the International Community. After the Durban Review Conference, only a new worldwide anti-apartheid movement can affect a rescue.
30 - 04 - 2009


"There is no document of civilization which is not at the same time a document of barbarism" (Walter Benjamin)

The Durban Review Conference, held in Geneva on April 20-24, was supposed to review the implementation of the Programme of Action of the World Conference against Racism held in Durban, South Africa, in 2001.

Some western countries boycotted the conference altogether, and some walked out in protest against Ahmedinejad's speech in which he dared to reiterate the obvious; namely, the racism inherent in Zionist ideology. These countries are, historically, either racist, or settler-colonialist. The conference itself was actually hijacked by the West. Palestinian voices were almost nonexistent.

The major problem for those countries was, then, the equation of Zionism with racism. So, what we have here is a complex issue: one seems to be dealing with a colonist who denies his colonialism and argues to the contrary, and with a victim whose victimisation has been denied for decades. This ought to be scrutinized. Dr. Haidar Eid is Associate Professor in the Department of English Literature, Al-Aqsa University, Gaza Strip, Palestine. Dr. Eid is a founding member of the One Democratic State Group (ODSG) and a member of Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel (PACBI).

The conflict in Palestine is between a colonial party, Israel, and a weaker, colonized one, the Palestinians. The problem with what has been presented to us by those countries which boycotted the Durban Review Conference (DRC) is that it is done under the claim of ‘striking a balance.' But, as Ilan Pappe argues correctly, a ‘balance of power' which dominates this discourse ignores the fact that Israelis have colonized the land and history altogether. In his introduction to The Israel/Palestine Question, Pappe argues that "the stronger party has the power to write the history in a more effective way. Israel, the powerful party, is a state whose apparatus has been employed successfully to propagate its narrative in front of an external public. The weaker party, the Palestinians, is engaged in a national liberation struggle."

In an extreme contempt for the Palestinian people, Golda Meir - the former Israeli prime minister - once said: "There were no such thing as Palestinians... They did not exist." Obviously, the creation of an independent sovereign state ruled by parliamentary elections and majority rule before 1948 could have meant the end of Zionism because it would have meant the rule of the majority. It becomes clear, then, why Zionism has fought against the creation of a representative, legislative assembly in historic Palestine. This assembly would have represented the Arab majority, which was a mortal danger for Zionism. The political goal of Zionism was to engineer a population shift from being a minority to being a majority. Massive Jewish immigration and the expulsion of the Palestinians was the means by which this goal was achieved. Inevitably, the expropriation of land went hand in hand with the denial of the rights of the Palestinian majority. Zionists have always looked at Palestinians as invisible if not absent, or rather ‘present absentees.' Basic human and political rights of Palestinians were completely denied since Zionism, in principle, could not allow them to exercise their rights because it would mean the end of the Zionist enterprise.

What needs to be emphasized within this context is that, contrary to what has been central in modern liberal thinking, the idea of the citizen in Israel is totally missing. Israel is the only state in the 'modern' world in which citizenship and nationality are two separate, independent concepts. In other words, Israel is not the state of its citizens, but the state of the Jewish People. Moreover, Israel does not have a constitution. So, the question avoided by those countries that have boycotted, or hijacked the Durban Review conference, is since Judaism is a religion and since it is the basis of the existence of a "modern State," why can Islam, Christianity or Hinduism not be so? Thus, if one is to follow the logic of Zionism, one should ignore the achievements of humanity and the ideals of the enlightenment since what is acceptable for some (.i.e. Jews) is not acceptable for others (.i.e. Palestinians). The more provocative questions, in fact, deal with 'universal' liberal slogans and ask why they have never applied when it comes to Israel? Can one imagine the USA being the state of Protestant Christians?

Palestinians in Israel are considered foreigners in their own homeland, because Israel is defined by its Basic Laws as "the state of the Jewish people" i.e. not the state of all of its citizens. This is the direct result of Zionism and its ideology of separatism. In other words, there is no place for integration in Israel. In apartheid South Africa, blacks were not expected to share political rights and cultural heritage with whites. Similarly, Palestinians are ‘native aliens', who became foreigners by birth. But they are also the enemy by their mere presence. Every Palestinian is by definition a threat because of the mere fact that he or she is Palestinian.

Similarities between the two states can be found in their policies on citizenship, their use of detention without trial, and laws which limit freedom of movement and the right to live in one's own home with one's family. Just as apartheid South Africa gave citizenship to white South Africans and relegated blacks to "independent homelands", Zionism gives all Jews the right to citizenship in the State of Israel, while denying citizenship to Palestinians - its indigenous inhabitants. While Apartheid used race to determine citizenship, the state of Israel uses religious identification to determine citizenship. Just as the apartheid state made laws criminalising free movement of blacks on their ancestral land, Israel uses a military occupation infrastructure composed of checkpoints, Jewish-only settlements and roads, and the Wall, combined with a myriad of legal regulations that govern Palestinian daily life and are designed specifically to restrict how they work and live.

Israel has over the years been accused of being even worse than the apartheid state by South Africans such as Bishop Tutu and John Dugard - amongst others. One of the major differences between crimes committed by the South African apartheid regime and those of Israel is the way, as evidenced by the DRC sham, that the latter gets away with its crimes with unprecedented impunity. Israel could not have carried out its massacre on the people of Gaza without a green light from the international community. One Israeli soldier commented to Haaretz: "That's what is so nice, supposedly, about Gaza: You see a person on a road, walking along a path. He doesn't have to be with a weapon, you don't have to identify him with anything and you can just shoot him."

The contradiction between professed ideals and actual behaviours, which has been the engine of political change in many places, does not exist for many Israelis because the democratic creed, or civic democracy, is absent. There is no promise of equality for all citizens in Israeli political culture and praxis. In short, there is no tradition of civil liberties in Israel because such a tradition would mean the end of Zionism. If Israel belongs to all its citizens, it would mean the end of the Zionist state. Hence, one can understand the antagonism of the establishment to calls for the creation of a secular democratic institution. When South Africa was declared the state of all its citizens, political apartheid came to an end. Thus there is a clear contradiction between the Zionist ethos and democratic ideals. The Zionist system is quite clearly incompatible with democracy, which stems from the colonialist problem and the presence of the Palestinians.

The conflict has been misrepresented, by CNNized mainstream media owned by those who decided to boycott the DRC, as a ‘war' between ‘two sides'. In fact, as I have argued, and as the late Palestinian intellectual Edward Said put it, there are not two sides involved in the "violence" in the Middle East. There is a colonial state turning all its great power against a stateless people, repeatedly made refugees - a dispossessed people, bereft of arms with the aim of destroying this people. What is left for the Palestinian people after the fourth, some say third, strongest army in the world, with its navy and air force has been bombarding the West Bank and the Gaza Strip? Ten years of "negotiations" created only bantustans, and when Palestinians asked for the implementation of international law (in Camp David) they were accused of blowing Ehud Barak's "generous offer." Palestinians have been at the receiving end of merciless assaults by Israeli troops, and reservists, hidden in their helicopter gun ships, F16's and tanks (Gaza 2009). By and large, Western governments have considered the killing of Palestinians by tank and plane missiles "legitimate," whereas acts of Palestinian resistance are "terrorist attacks." Israel, therefore, is given the green light to conduct its genocidal attacks against Palestinians whose death is considered collateral damage. Barak Obama's administration does not have a balanced plan to resolve the crisis in the Middle East. What all American envoys to the region have been trying to do is reaching a cease-fire in accordance with Israeli conditions and without linking it to any clear political programme that is based on Security Council resolutions and international legitimacy. Of course, the logical outcome of this biased, even antagonistic American position, and the lack of will to find a just solution/peace, is catastrophic.

We, Palestinians, are absolutely fed up with the so-called ‘International Community'. Has Durban II been a failure? Well, if we still believe in the role of western governments, especially those with a long colonial legacy, in playing a positive role vis-a-vis the inalienable rights of the Palestinian people, we are, then, fooling ourselves. It is the power of people that we must bank on, just as it was in the case of apartheid South Africa, where a sustained global ‘Boycott, Divestment, Sanctions' (BDS) campaign forced the same governments to boycott the Pretoria racist regime. Durban II was a reminder that whether it is Bush, or Obama, the Empire is the same. Patrice Lumumba once said: "I know that history will have its say some day, but it will not be history as written in Brussels, Paris or Washington, it will be our own."

What urgently needs to be addressed at this moment in time, is an alternative programme that is necessarily dialectical and secular in its treatment of the Palestinian and Jewish questions - an alternative that never denies the rights of a people, one that guarantees equality, and that abolishes apartheid, bantustans and separation in Palestine altogether.

sábado, 9 de maio de 2009

Pulsão

Ouço a melodia e tenho vontade de criar. Executar movimentos de dança desconexos, não sincronizados e até mesmo piegas. Não me importar. Olhar para os lados e só ver a mim mesmo, dançando, pintando, desenhando. Produzindo. Tenho todo o tempo do mundo e não tenho nenhum nesse momento: não sei como usar meu tempo disponível agora. Paradoxal? O suficiente para você se sentir sufocado.

O que sei é o que sinto. E para isso não há de haver uma explicação suficientemente boa. O que sinto me faz querer produzir. E não sei por onde começar. Nessa hora, esse emaranhado de vontades, interesses, planos, projetos, ambições, essa carga dramática e pulsante e excêntrica toma vida e, no entanto, não vê por onde ser liberada. Bocejo. Isso porque, nesse momento, no meu tempo livre, de que tanto sinto falta nos segundos mais corridos e estressantes do dia a dia, essa pulsão exige ser liberada de todos os jeitos. E ao mesmo tempo.

Ela é intermitente. E exigente. E angustiante. Mas o que posso fazer? É ela, definitivamente, que me faz sentir vivo. Não abro mão.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Palestina

Um artigo de 30 de dezembro de 2008 sobre o conflito árabe-israelense, escrito por Robert Fisk, do jornal britânico The Independent
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Como é fácil desconectar o presente da história palestina, deletar a narrativa de sua tragédia, e evitar a ironia grotesca de Gaza que, em qualquer outro conflito, os jornalistas estariam descrevendo desde suas primeiras reportagens: qual seja, que os habitantes originais e legais da terra israelense almejada pelos foguetes do Hamas, hoje vivem em Gaza.

Por isso existe Gaza: porque os Palestinos que vivem em Ashkelon e campos ao seu redor – Asklan em árabe- foram destituídos de suas terras em 1948 quando foi criado o Estado de Israel e empurrados para onde residem hoje, na Faixa de Gaza. Eles –ou seus filhos, netos e bisnetos- estão entre o um milhão e meio de Palestinos espremidos na fossa séptica de Gaza. 80% dessas famílias viviam no que é hoje o Estado de Israel.

Assistindo os noticiários, tem-se a impressão de que a história começou apenas ontem, que um bando de lunáticos islâmicos barbudos anti-semitas apareceu de repente nas favelas de Gaza –um lixão povoado por pessoas destituídas de origem- e começou a atirar mísseis contra a democrática e pacífica Israel, apenas para dar de encontro com a indignada vingança da força aérea israelense. Nessa história simplesmente não consta o fato de que as cinco meninas mortas no campo de Jabalya tinham avós oriundos da mesmíssima terra de onde os atuais habitantes as bombardearam à morte.

Percebe-se porque tanto Yitzhak Rabin como Shimon Peres declararam, ainda na década de 1990, que desejavam que Gaza simplesmente desaparecesse, que sumisse mar adentro. A existência de Gaza é um indício permanente das centenas de milhares de Palestinos que perderam suas casas para o Estado de Israel, que fugiram apavorados ou foram expulsos por temor à limpeza étnica executada por Israel há 60 anos, momento no qual uma imensa onda de refugiados varria a Europa no pós Segunda Guerra Mundial, e um punhado de árabes expulsos de suas propriedades não importava ao mundo.

Mas agora o mundo deveria se preocupar. Espremido nos poucos quilômetros quadrados mais densamente povoados do mundo, está um povo destituído, vivendo no isolamento, no esgoto, e, durante os últimos seis meses, na fome e no escuro, sancionados pelo Ocidente. Gaza sempre foi insurrecional. A “pacificação” sangrenta de Ariel Sharon, começando em 1971, levou dois anos para ser completada e não vai ser agora que conseguirão dobrar Gaza.

Infelizmente para os palestinos, perderam sua mais poderosa voz política –refiro-me a Edward Said e não o corrupto Yasser Arafat (e como os Israelenses devem sentir sua falta)- ficando a sua sorte, em grande medida, sem explicação, no que depender dos seus atuais porta-vozes ineptos. “É o lugar mais deplorável que já vi”, disse Said, certa vez, sobre Gaza. “É um lugar terrivelmente triste devido ao desespero e à miséria em que vivem as pessoas. Não estava preparado para encontrar campos que são piores do que qualquer coisa que eu tivesse visto na África do Sul”.

Claro que ficou a cargo da Ministra de Relações Externas, Tzipi Livni, admitir que “às vezes os civis também pagam o preço”, um argumento que ela não usaria se a estatística de mortes fosse invertida. Foi certamente educativo ouvir ontem um membro do Instituto Empresarial Americano –repetindo fielmente os argumentos israelenses- defender o indefensável número de mortos palestinos, dizendo que “não faz sentido entrar no mérito dos números”. No entanto, se mais de 300 israelenses tivessem sido mortos, contra dois palestinos, pode ter certeza que se entraria “no mérito dos números”, e a violência desproporcional seria absolutamente relevante. O simples fato é que as mortes palestinas importam muito menos que as mortes israelenses. É verdade que 180 dos mortos eram membros do Hamas, mas e o restante? Se a estatística conservadora da ONU de 57 civis mortos for verdade, ainda assim seria uma desgraça.

Não é de surpreender que nem os EUA nem a Grã-Bretanha condenem o ataque Israelense, e ponham a culpa no Hamas. A política norte-americana para o Oriente Médio é indistinguível da israelense, sendo que Gordon Brown está assumindo a mesma devoção de cão à administração Bush, já demonstrada pelo seu antecessor.
Como sempre, os Estados árabes clientes –pagos e armadas pelo Ocidente- permanecem em silêncio, absurdamente, chamando uma cúpula árabe para discutir e (se chegar a isso) apontar um “comitê de ação” que redigiria um relatório que jamais será escrito. É assim que funcionam o mundo árabe e seus líderes corruptos. Quanto ao Hamas, este terá, é claro, que suportar a desmoralização dos Estados árabes enquanto cinicamente esperam que Israel fale com eles. O que farão. De fato, dentro de alguns meses, chegará a notícia de que Israel e Hamas mantêm “diálogos secretos” –assim como outrora ouvimos falar em relação a Israel e a ainda mais corrupta OLP. Mas, até lá, os mortos estarão enterrados e estaremos ingressando na próxima crise do Oriente Médio.