sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Vergonha

Mais uma vítima na Vila Indiana - para quem não sabe, um bairro encostado nos muros da USP. Um dos meus melhores amigos, que acabou de passar na USP, foi assaltado na noite de ontem. Roubaram-lhe pouco dinheiro, um cartão de poupança - cujo uso pelos assaltantes não se sabe bem ao certo qual vai ser - e alguns documentos. Quem? Garotos da mesma idade que meu amigo.

No começo do ano passado, quando um amigo e mais outro conhecido foram roubados na Vila Indiana, fiquei pensando no acontecido por alguns dias. E o que mais me indignava não era o roubo em si, mas o paradóxo gritante por detrás do fato. Garotos de 17, 18 anos ou até mais jovens, se ocupando de roubar estudantes pouco mais velhos para levar dez ou vinte reais e alguns celulares. De um lado aqueles que têm o privilégio de estudar na melhor universidade do país e talvez até da América Latina; de outro, aqueles que tão cedo entram para a criminalidade e arriscam sua liberdade por qualquer mixaria.

Mas é aí que está a questão: qual liberdade?

Que liberdade quando aos 17 anos não se tem dinheiro para ir ao cinema numa sexta feira à noite ou para comprar um CD daquela banda que você sempre curtiu? Que liberdade quando você sempre frequentou aulas em uma escola pública e sabe que tudo ali é uma farsa, desde os alunos que não vêem saída nos estudos ou não tem tempo de se dar ao luxo de ver de fato uma saída nos estudos até os professores que fingem ensinar quando na verdade sabem que o que ganham e o que enfrentam não vale um décimo do que o seu salário realmente lhes paga? Que liberdade quando você vê anúncios de aulas de inglês, francês e alemão e sabe que jamais poderia pagar por elas, apesar do dito "mundo globalizado" exigir que você fale mais do que uma língua para ter um bom trabalho? Que liberdade quando o seu dinheiro às vezes não é suficiente nem para comprar aquele remédio específico que o SUS não cobre? Que liberdade quando você experimentou certa vez um pêssego maduro e apesar de se lembrar que gostou bastante de seu sabor, hoje, infelizmente, o preço da fruta subiu e você já não é mais capaz de arcar com a inflação?

Que liberdade quando não se tem a chance de conhecer músicas novas, desenhos de um certo artista novo, filmes de um diretor criativo, danças que representam culturas que você nunca pensou existir, idéias que, apesar de mortas, fazem muito mais sentido do que muito do que você vê por aí? Quando você não reflete e não exercita sequer o seu conhecimento de si mesmo? Quando você é obrigado desde cedo a escolher entre trabalhar e roubar?

É, parece fácil dizer: trabalhar, óbvio. Nem sempre. Ás vezes, para quem vive diariamente com toda essa falta de liberdade, roubar pode parecer muito mais fácil e muito mais compensatório do que qualquer outra opção. E muito mais digno, como canalizador de raiva. E é aí, desse estado de carência generalizado que toma conta do nosso país, que surgem absurdos como esse: se rouba de qualquer um, de quem pouquíssimo tem a oferecer e daqueles que têm em suas mãos o potencial para mudar esse país, os estudantes. Não se trata de tirar a culpa de quem optou por roubar. Mas seria muito imaturo supor que o problema se encontra tão ilusoriamente em soluções pontuais.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

História de Família

O telhado da casa lembrou-lhe das férias em sua avó materna. Telhas velhas, disformemente ajustadas, quase que encavaladas, maltratadas por anos a fio de sol e chuva; já escuras em suas pontas apodrecidas. À varanda, diminuída em seu tamanho pelo efeito de cadeiras redondas de metal azulado dispostas confortavelmente com suas almofodas surradas, se adiantava o corredor daquela velha casa, que mais lhe parecia com um casarão de uma fazenda.

Exatamente essa a impressão que tivera: aquela poderia ter sido uma grande casa de uma fazenda do século XIX. Assim que colocou os pés no assoalho da sala, avistou os grandes porta-retratos que tomavam conta do aparador em frente à porta. Crianças vestidas de cowboy e mocinhas com laçorotes na cabeça enfeitavam o local de história antiga - e, de certo forma, fantasmagórica - sorrindo frenéticamente frente aos convidados que chegavam para almoçar.

Olhou para seus pés e mal pôde avistar seus sapatos. O piso estrelado de bordas amarelas e pequenos detalhes em azul-céu era capaz de ofuscar o mais estridente dos calçados. Virando a cabeça rapidamente com um giro inconsciente, deu-se com o corredor. A velhinha, sentada em sua poltrona igualmente desgastada com o tempo, empertigara-se ao enxergar um visitante. Do alto de seus cabelos brancos, um grampo fino brilhava e noticiava a vaidade de um domingo de visitas. Esboçara um leve sorriso, ao que fora respondida com um aceno de mão cordial.

Foi para a varanda. Lembrou-se de Capitu e Bentinho. De seus amores, do muro e do flagra do primeiro beijo. Do vento batendo em seu rosto e da calmaria de ler um romance em um mormaço de final de tarde à beira da piscina. O cajuzeiro e a folga dos cachorros deitados sorrateiros no chão de terra fazia jus ao calor que dominava a cidade. Do recente tempo em que passara na capital, essa era uma das características que se lhe havia emprestado: impaciência com o calor de outrora.

Do inconsciente de suas divagações e observações, ouviu um chamado e rumou para o quarto. Teto alto, cama de madeira de lei, colcha exemplarmente posta. Algo grande e robusto lhe chamou atenção. Era um baixo gigantesco de madeira. De tão grossas, suas cordas mal podiam se mexer. Encostou em algumas. Voltou para trás.

Antes que pudesse se sentar, apreciar a música ou pegar seu copo, pequenas fotos 3x4 lembraram-lhe de onde estava. E remarcaram a legendária casa e seus legados. Desconhecidos, mas ainda assim, imponentes. Em preto e branco, essas mulheres e homens, grandes desbravadores, rugiam ferozes através de suas caras ranzinzas.

Pensou na velhinha, em suas rugas e movimentos fracos e, voltando no tempo, supôs que um dia, essa velha fora uma menina, que corria apressada pelos cantos daquela velha mansão, enquanto as pessoas destacadas atualmente em seus retratos, talvez corressem mais apressadas ainda tomando conta de seu futuro. Ou do futuro de uma geração que, hoje, pendura nas paredes e estampa nos porta-retratos o que fora há algumas décadas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ele queria escrever. Mas não conseguia. Tentou escrever para si, tentou escrever para si e para os outros; tentou não escrever. Mas tampouco conseguiu não dizer. Tudo que queria era uma fração de segundo para poder mostrar ao mundo a magnitude, a beleza e a vitalidade de todo aquele sentimento. Sentimento sem nome, sentimento em formação, sentimento principiado, lindo em todo o seu começo, em toda a sua indefinição, confusão, em todo o seu embaraço. Em todo o seu enigma.

Aquela coisa boa que nos toma conta, nos faz dançar a mais banal das músicas, sorrir para a mais ridícula das situações. O que se tem medo de se sentir, posto que é grande. E que é inevitável remediar. E o que não é amor, é maior. É algo estranho e atordoante. É algo que nos deixa embriagados - e que nos impede de escrever com alguma decência.

Guacamole

Sittin' on a bencho, waitin' for the teco
Guacamole
Carne con frijole', carne con frijole
Waitin' for the sun to shine, hopin' for the chicken yakisoba
Hope there's some left overs, hope there's some
Left overs....

Ay, mami, qué está haciendo, dónde va?
Ay, papi, no sé, pero vete ya!
Even when the pompan, takin' on a holey,
Guacamole

Samarranch, havelange, copa mundo,
Uefa de la fifa
Just like Queen Latifah, hope she got some reefah
Solitaire, happiness, joie de vivre just' a like lola
Hope she' there sola, hope she' there sola

Guacamole, si señor, por favor!

Ay, mami, qué está haciendo, dónde va?
Ay, papi, no sé pero voy pa' allá!
Even when the pompan takin' escabeche
Uy, café con leche!

Vamos a comer a lo de Beto, que nos hizo
Guacamole!
Carne con frijoie', carne con frijoie'!
Cuchufrito, habichuela, hot tarnale, trucha al
Escabeche,
Con café con leche, con café con leche...
Chimichurri, zucundún con chequendengue,
Caraguatatuba
Y uma caipiruva, y uma caipiruva...
Un poquito de manteca, cuatro cucharada
E' milanesa
Queso con frambuesa, pongan bien la mesa!
(breakdown)
Boca Juniors, River Plate, Chacarita,
Diego Maradona
Diego no perdona, diego no perdona
Solitaire, happiness, joie de vivre, just a like a lola
Hope she there a sola, hope she there a sola...
Ay, mami que esta haciendo, donde va?
Ay, papi no se pero voy pa' alla!
Even when the pompan takin' on a lilly
Don't be so silly...

Guacamole, guacamole, si señor, por favor




Haja coração pra aguentar tanta guacamole e malemolência. Irresistível.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Dreaming in Dublin



He was in Dublin for only two years. The city never seemed so charming since he arrived there like now. That morning, specially, he could look through his window and see the mountains, the green and the gray living together peacefully. The smell of the city and its effects over him were something one would think as scary.

After a bath, with his hair still wet, holding his favorite cup with hot milk and being dressed informally to go out in a while, he couldn't think of anything, but the invasion the spirit of the town could produce over his body and soul.

No matter how many drops of rain would fall that morning, how gray would be the sky or how low were the degrees, he felt so familiar to that weather and the sensations it could inspire that nothing could destroy the feeling of acommodation he experimented inside him.

It was everything there: the landscapes, the laughs, the people, the feelings, the love affairs. The weather and the traditions. The wet hair and the cup of milk. All inside him.

He just had to go now.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O preço de viver


Descia tranquilamente uma das principais avenidas da cidade. Apesar do horário, o sol continuava firme e o vento, estático. O habitual, que podia fazer-lhe se sentir completamente integrado a tudo o que aqueles últimos seis anos significaram - conscientemente ou em abstrações. Andava distraído, ruminando pensamentos insistentes, como de costume. Daqueles safados que não te deixam de lado.

Olhava para frente. Não para a fila de carros apressados que passavam ao seu redor; nem para as pessoas agitadas, voltando para suas casas depois de um dia de trabalho ou correndo com suas vidas naquele fim de tarde de quarta feira. Olhava mais adiante; olhava para si mesmo.

Foi quando sua infância lembrou-lhe do quanto é fácil ser criança. Não ter de fazer escolhas, de preocupar-se, de estar distante de quem se gosta ou de gostar de muitas coisas ao mesmo tempo. De refletir e mudar o tempo todo. Brincar, comer e dormir! Nessa ordem. Pegou-se olhando para cima. O céu, azul, limpo, aparecia escondido acima dos buraquinhos das folhas das árvores. Como num passe de mágica, ou fruto da combinação perfeita do verde e do azul, pensou no título que dá nome a esse tópico. O preço de viver. E em todos os seus tentáculos.

Poderia muito bem não se angustiar, não se arriscar, não temer, não pensar, viver à regra, numa rotina, em sua cidade, ou em qualquer outra em que criasse um espaço inerte, naquilo que estava acostumado e que não apresentaria dificuldades ou desafios. Mas estaria vivendo? Mais, seria realmente feliz?

Uma resposta surgiu ainda naquele dia. Em forma de filme, com O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher. A parábola sobre o tempo e sobre a vida, tocante e lindíssimamente completa em todos os seus clichês bem colocados, deixa claro o que viera pensando naquela mesma tarde: para viver, para arder, para lutar, para amar ou sentir raiva, para tudo, existe um preço. Na verdade, existe uma reação. E é essa angústia, essa felicidade absurda que se almeja e teme-se perder, essa nostalgia do passado ou o desejo de mudança e novas conquistas no futuro, isso tudo, é o que nos faz sentir a vida e o que é estar vivo em toda a sua plenitude.

Como Benjamin ou Daisy, em seus momentos mais felizes, mais entrelaçados e mais completos, surgiram as maiores e melhores sensações. E também os maiores e mais desafiadores medos, angústias, problemas - que não raro, nem eram tão graves assim, mas assumiam proporções gigantescas diante desse turbilhão sentimental que a vida nos joga nesse tipo de momento ou fase que adquire o status de inesquecível.