quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O preço de viver


Descia tranquilamente uma das principais avenidas da cidade. Apesar do horário, o sol continuava firme e o vento, estático. O habitual, que podia fazer-lhe se sentir completamente integrado a tudo o que aqueles últimos seis anos significaram - conscientemente ou em abstrações. Andava distraído, ruminando pensamentos insistentes, como de costume. Daqueles safados que não te deixam de lado.

Olhava para frente. Não para a fila de carros apressados que passavam ao seu redor; nem para as pessoas agitadas, voltando para suas casas depois de um dia de trabalho ou correndo com suas vidas naquele fim de tarde de quarta feira. Olhava mais adiante; olhava para si mesmo.

Foi quando sua infância lembrou-lhe do quanto é fácil ser criança. Não ter de fazer escolhas, de preocupar-se, de estar distante de quem se gosta ou de gostar de muitas coisas ao mesmo tempo. De refletir e mudar o tempo todo. Brincar, comer e dormir! Nessa ordem. Pegou-se olhando para cima. O céu, azul, limpo, aparecia escondido acima dos buraquinhos das folhas das árvores. Como num passe de mágica, ou fruto da combinação perfeita do verde e do azul, pensou no título que dá nome a esse tópico. O preço de viver. E em todos os seus tentáculos.

Poderia muito bem não se angustiar, não se arriscar, não temer, não pensar, viver à regra, numa rotina, em sua cidade, ou em qualquer outra em que criasse um espaço inerte, naquilo que estava acostumado e que não apresentaria dificuldades ou desafios. Mas estaria vivendo? Mais, seria realmente feliz?

Uma resposta surgiu ainda naquele dia. Em forma de filme, com O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher. A parábola sobre o tempo e sobre a vida, tocante e lindíssimamente completa em todos os seus clichês bem colocados, deixa claro o que viera pensando naquela mesma tarde: para viver, para arder, para lutar, para amar ou sentir raiva, para tudo, existe um preço. Na verdade, existe uma reação. E é essa angústia, essa felicidade absurda que se almeja e teme-se perder, essa nostalgia do passado ou o desejo de mudança e novas conquistas no futuro, isso tudo, é o que nos faz sentir a vida e o que é estar vivo em toda a sua plenitude.

Como Benjamin ou Daisy, em seus momentos mais felizes, mais entrelaçados e mais completos, surgiram as maiores e melhores sensações. E também os maiores e mais desafiadores medos, angústias, problemas - que não raro, nem eram tão graves assim, mas assumiam proporções gigantescas diante desse turbilhão sentimental que a vida nos joga nesse tipo de momento ou fase que adquire o status de inesquecível.

Um comentário:

Luiz Sas disse...

E um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Cai sete.