domingo, 22 de fevereiro de 2009

História de Família

O telhado da casa lembrou-lhe das férias em sua avó materna. Telhas velhas, disformemente ajustadas, quase que encavaladas, maltratadas por anos a fio de sol e chuva; já escuras em suas pontas apodrecidas. À varanda, diminuída em seu tamanho pelo efeito de cadeiras redondas de metal azulado dispostas confortavelmente com suas almofodas surradas, se adiantava o corredor daquela velha casa, que mais lhe parecia com um casarão de uma fazenda.

Exatamente essa a impressão que tivera: aquela poderia ter sido uma grande casa de uma fazenda do século XIX. Assim que colocou os pés no assoalho da sala, avistou os grandes porta-retratos que tomavam conta do aparador em frente à porta. Crianças vestidas de cowboy e mocinhas com laçorotes na cabeça enfeitavam o local de história antiga - e, de certo forma, fantasmagórica - sorrindo frenéticamente frente aos convidados que chegavam para almoçar.

Olhou para seus pés e mal pôde avistar seus sapatos. O piso estrelado de bordas amarelas e pequenos detalhes em azul-céu era capaz de ofuscar o mais estridente dos calçados. Virando a cabeça rapidamente com um giro inconsciente, deu-se com o corredor. A velhinha, sentada em sua poltrona igualmente desgastada com o tempo, empertigara-se ao enxergar um visitante. Do alto de seus cabelos brancos, um grampo fino brilhava e noticiava a vaidade de um domingo de visitas. Esboçara um leve sorriso, ao que fora respondida com um aceno de mão cordial.

Foi para a varanda. Lembrou-se de Capitu e Bentinho. De seus amores, do muro e do flagra do primeiro beijo. Do vento batendo em seu rosto e da calmaria de ler um romance em um mormaço de final de tarde à beira da piscina. O cajuzeiro e a folga dos cachorros deitados sorrateiros no chão de terra fazia jus ao calor que dominava a cidade. Do recente tempo em que passara na capital, essa era uma das características que se lhe havia emprestado: impaciência com o calor de outrora.

Do inconsciente de suas divagações e observações, ouviu um chamado e rumou para o quarto. Teto alto, cama de madeira de lei, colcha exemplarmente posta. Algo grande e robusto lhe chamou atenção. Era um baixo gigantesco de madeira. De tão grossas, suas cordas mal podiam se mexer. Encostou em algumas. Voltou para trás.

Antes que pudesse se sentar, apreciar a música ou pegar seu copo, pequenas fotos 3x4 lembraram-lhe de onde estava. E remarcaram a legendária casa e seus legados. Desconhecidos, mas ainda assim, imponentes. Em preto e branco, essas mulheres e homens, grandes desbravadores, rugiam ferozes através de suas caras ranzinzas.

Pensou na velhinha, em suas rugas e movimentos fracos e, voltando no tempo, supôs que um dia, essa velha fora uma menina, que corria apressada pelos cantos daquela velha mansão, enquanto as pessoas destacadas atualmente em seus retratos, talvez corressem mais apressadas ainda tomando conta de seu futuro. Ou do futuro de uma geração que, hoje, pendura nas paredes e estampa nos porta-retratos o que fora há algumas décadas.

Um comentário:

Alice Agnelli disse...

retratos de famílias são sempre um poço sem fim para imaginações férteis.

o problema será daqui a uns anos, já que para vê-los será preciso dar uma ligadinha no computador antes...