segunda-feira, 30 de março de 2009

Conversa para boi dormir...

É díficil medir o quanto mudamos todos os dias. O quanto o que servia antes passa a servir menos, infimimanente, a cada segundo. E o quão excitante pode ser descobrir novas possibilidades, facetas ou características em você mesmo. Talvez uma coisa esteja de fato conectada à outra e nós estejamos mesmo fadados a conviver com esse ciclo interminável de perdas e ganhos.

Eu não diria perdas, na verdade... É impossível supor que todas as fases por que passamos fossem durar para sempre. É impossível e também absurdo. Ou seja, talvez a graça de se recordar de um fato, de um contexto ou de uma pessoa esteja justamente dentro da possibilidade de se sentir saudade de algo que foi bom, mas já passou.

Pode parecer estranho e triste, mas na verdade, todo o saudosismo, a sensação de tempo passado ou de uma época que foi melhor ou pior do que a que vivemos hoje nada mais é do que resultado do ser humano pulsante, vivo e, sobretudo, contingente que somos e que, felizmente, sempre seremos.

quarta-feira, 25 de março de 2009

30 e 10

Tá. Nem todo mundo vai entender, mas preciso explicitar toda a minha indignação.

Que 30 e 10!
"O compromisso com a palavra é de tempo completo, a vida toda. Pode ser que um jornalista convencional não pense assim. Mas um jornalista de raça não tem outra saída que não a de pensar assim. O jornalista não é uma camisa que a gente veste na hora de ir para o trabalho. É algo que dorme conosco, que respira e ama, com nossas mesmas vísceras e nossos mesmos sentimentos."

Tomás Eloy Martínez - jornalista e escritor argentino

sábado, 21 de março de 2009

Mulheres e bandeiras

O ônibus andava e eu andava mais apressado ainda em meus pensamentos; pensando em meu atraso e em quando tomaria coragem para acordar mais cedo e chegar mais cedo em meus compromissos. Naquela manhã de domingo, pela janela do ônibus, olhava para minha imagem e não era eu o que via refletido no vidro. Eram mulheres. Muitas mulheres.

Magras, gordas, baixas, altas, brancas, negras, andando, sentadas, de pé, em cadeiras de rodas. Algumas com placas à mão, algumas segurando pontas de faixas, outras entoando coros animados e seus slogans. Unidas. Em prol de causas diferentes, mas ainda assim, unidas. Algumas contra a ditadura da beleza e o império do silicone. Outras em busca de melhores salários e melhores condições de emprego. Um número considerável representando o movimento negro. Boa parte lutando contra o desemprego. Outras simplesmente somando-se ao sem fim de iguais.

Os carros colados àquela multidão anunciavam a impaciência do paulistano quando o coração de sua cidade é tomado por uma das milhares de vozes capazes de emanar de seus guetos ocasionalmente. O cenário não poderia ser melhor para uma catástrofe hollywoodiana.

Domingo de sol, na avenida paulista, pessoas andando confortáveis nas calçadas. Nas vias, motoristas buzinando freneticamente frente a uma multidão que clama por atenção; de repente, uma nave espacial vindo sabe Deus de onde cai na Terra, mais especificamente no centro da avenida paulista, em cima de carros e manifestantes. Criancinhas começam a chorar, mocinhas a gritar e o caos toma conta da cidade. Só uma pessoa será capaz de evitar o pior. Ele [aparece o mocinho com cara de mau, sujo, lutando e escapando da morte mais do que gato e suas sete vidas].

Seguia andando e observando tudo com atenção. Outros, parados ao meu lado, olhavam com curiosidade as mulheres e sua força e pareciam embasbacados. Como se aquilo tudo fosse coisa de outro mundo. E não reclamam que o brasileiro é anestesiado? Pois é, quando se toma atitude, é baderneiro.

Diante daquelas pessoas, de suas histórias, de suas crenças, de sua disposição, debaixo do sol, peguei-me parado e pensando...A essa altura o atraso já não me preocupava e a possibilidade de escrever sobre a cena já começava a pipocar em minha mente, incessante, como algo que te toca e permance dentro de ti esperando o momento certo para ganhar o mundo. Deixando de lado todo o idealismo que muitas vezes sinto pulsar tão forte e tão certo em minhas veias, me perguntei, ou melhor, me propus: "e eu, qual bandeira será que deveria levantar hoje?"

Waking Life parte 1

E como saber se estamos de fato sonhando ou não? Ou se a realidade que estamos vivendo, e de que muitas vezes reclamamos, nada mais é do que uma interpretação puramente subjetiva e portanto suscetível a toda sorte de mudanças a qualquer instante?

Essas parecem ser duas da avalanche de questões que o filme-animação de Richard Linklater, Waking Life, nos remete imediatamente após um primeiro - e atordoante - contato. Feito inteiramente em rotoscopia, uma técnica que sobrepõe desenhos a cenas gravadas com atores reais, pode-se dizer que a estética do filme em muito contribui para sua aura desafiadora, lúdica e extremamente reflexiva. É como se cada cenario do filme tratasse de nos lembrar que nada do que está sendo mostrado ou discutido pudesse ser de fato real. Ou que a realidade ou validade das questões apresentadas pelo filme dependessem unicamente do ponto de vista do espectador do filme.

Religião, existencialismo, filosofia, literatura, política, antropologia e sociologia são lançadas ao público de maneira direta e incisiva, abrindo a possibilidade de grandes reflexões serem levantadas, maturadas em poucos segundos e logo depois sucedidas por mais uma série de posicionamentos encadeados pelas personagens do filme.

Continua.

domingo, 15 de março de 2009

Sacada na Toca

E de repente estávamos nós cinco juntos na sacada. Éramos dois; a casa completa, tornamo-nos cinco. Um desabafava e colocava a moradora ausente das últimas cinco horas a par dos acontecimentos que perdera, outra, caindo de sono e fazendo do piso seu colchão e do vaso de flores seu inimigo, não estava assim tão presente na conversa; uma dava indícios de choro, em parte frente a mudanças naturais que lhe propunham novos desafios e em - boa - parte, devido ao álcool que corria ainda forte em seu sangue. O último, bom, o último era responsável por algumas risadas e pela lembrança de uma ótima torta de frango - uhmm...

Ali, sentados olhando as estrelas, cansados e suados do calor de um dia inteiro, deixando aquele silêncio oportuno e natural, que prevê os melhores e mais espontâneos momentos surgirem, tomar conta da roda sem constrangimentos, foi que a Toca lhe deu mais uma daquelas sensações tão envolventes de pertencimento e de felicidade que só podem sinalizar o que é, apesar de um pouco piegas mas ainda assim, inevitável de se dizer: o quanto ainda viveremos nessa república!

E se alguém se incomodar com o barulho, pode lhes dizer, por favor: " Ahh, companheiro, vê se vai tirar tick-tick lá onde é que tão os meus pijama! E se achar ruim, toco o berrante meeeermo!"