sábado, 21 de março de 2009

Mulheres e bandeiras

O ônibus andava e eu andava mais apressado ainda em meus pensamentos; pensando em meu atraso e em quando tomaria coragem para acordar mais cedo e chegar mais cedo em meus compromissos. Naquela manhã de domingo, pela janela do ônibus, olhava para minha imagem e não era eu o que via refletido no vidro. Eram mulheres. Muitas mulheres.

Magras, gordas, baixas, altas, brancas, negras, andando, sentadas, de pé, em cadeiras de rodas. Algumas com placas à mão, algumas segurando pontas de faixas, outras entoando coros animados e seus slogans. Unidas. Em prol de causas diferentes, mas ainda assim, unidas. Algumas contra a ditadura da beleza e o império do silicone. Outras em busca de melhores salários e melhores condições de emprego. Um número considerável representando o movimento negro. Boa parte lutando contra o desemprego. Outras simplesmente somando-se ao sem fim de iguais.

Os carros colados àquela multidão anunciavam a impaciência do paulistano quando o coração de sua cidade é tomado por uma das milhares de vozes capazes de emanar de seus guetos ocasionalmente. O cenário não poderia ser melhor para uma catástrofe hollywoodiana.

Domingo de sol, na avenida paulista, pessoas andando confortáveis nas calçadas. Nas vias, motoristas buzinando freneticamente frente a uma multidão que clama por atenção; de repente, uma nave espacial vindo sabe Deus de onde cai na Terra, mais especificamente no centro da avenida paulista, em cima de carros e manifestantes. Criancinhas começam a chorar, mocinhas a gritar e o caos toma conta da cidade. Só uma pessoa será capaz de evitar o pior. Ele [aparece o mocinho com cara de mau, sujo, lutando e escapando da morte mais do que gato e suas sete vidas].

Seguia andando e observando tudo com atenção. Outros, parados ao meu lado, olhavam com curiosidade as mulheres e sua força e pareciam embasbacados. Como se aquilo tudo fosse coisa de outro mundo. E não reclamam que o brasileiro é anestesiado? Pois é, quando se toma atitude, é baderneiro.

Diante daquelas pessoas, de suas histórias, de suas crenças, de sua disposição, debaixo do sol, peguei-me parado e pensando...A essa altura o atraso já não me preocupava e a possibilidade de escrever sobre a cena já começava a pipocar em minha mente, incessante, como algo que te toca e permance dentro de ti esperando o momento certo para ganhar o mundo. Deixando de lado todo o idealismo que muitas vezes sinto pulsar tão forte e tão certo em minhas veias, me perguntei, ou melhor, me propus: "e eu, qual bandeira será que deveria levantar hoje?"

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