domingo, 5 de abril de 2009


É difícil assistir a Quem quer ser um milionário? - filme dirigido por Danny Boyle, rodado inteiramente na Índia e composto somente por atores indianos - e não se pegar pensando freneticamente após a sessão no mundo, seus dilemas e suas consequências na vida de tanta gente por aí afora. Porque, uma coisa é certa, esse filme é capaz de nos sugerir a imensidão de pessoas, situações, contextos e injustiças que podem estar vivendo e acontecendo exatamente agora - enquanto eu escrevo esse post e você o lê.

A fotografia amarelada é tão quente quanto o calor emanado das camisetas regatas velhas que vestiam boa parte das crianças do filme e todas as tomadas parecem não nos deixar esquecer a desumana miséria que permeia a vida das personagens retratadas no filme. O império do dinheiro, que mata vidas, coisifica e escraviza o homem, a degradação das relações sociais e o primitivismo a que o ser humano pode chegar em situações limites emocionam e revoltam em toda a complexidade de entender quais são realmente as engrenagens das situações que o filme leva ao espectador.

Toda a estrutura narrativa desenvolvida entre a história de Jamil, abandonado à própria sorte quando criança após a morte abrupta da mãe, e o programa no qual o garoto concorre ao prêmio milionário que pode mudar sua vida nos remetem ao poder locomotor e hipnotizante que a mídia tem sobre a vida das pessoas - de todas as classes sociais. Torcer por Jamil, um favelado que consegue garantir seu futuro dignamente através de um programa de televisão, é, por extensão, sair de um cotidiano cinzento, sujo e desolador que parece afogar a maioria dos semblantes exaustos das figuras que aparecem ao longo do filme. Um exemplo claro do poder de fogo da indústria cultural.

É inevitável não mencionar a Índia, suas contradições gritantes - que, diga-se de passagem, muito se assemelham ao Brasil - e traçar um paralelo com os outros países vítimas da colonização imperialista dos séculos XIX e XX: todos convivendo com suas enormes disparidades.

3 comentários:

Maria Joana disse...

o filme não me tocou tanto assim.... achei até bonzinho, mas fraquinho perto de tanto barulho que estão fazendo sobre ele

Alice Agnelli disse...

Eu saí do filme com a sensação dançante de "caraca!".

Mas sei lá. Pensando bem... por mais linkadas que sejam as coisas na narrativa e por melhor que seja a coreografia no final, ela não é meio inverossímel demais?

Será que essa inverossimelhança não causa um certo desconforto de parecer que isso nunca poderia acontecer, não há mais esperança para os países "em desenvolvimento"?

Será que então, só na magia do cinema um indiano poderia se dar tão bem depois de tanto sofrer -sendo que mesmo dentro desse cinema, ainda só na magia dos programas de auditórios é que se encontra a solução?

Quer dizer então que esse talvez seja o objetivo do filme? Expor as mazelas esquecidas e ignoradas da Índia de modo a dar suas soluções apenas pelo surrealismo do cara "ignorante" ganhar no "show do milhão" só por causa do destino?

Estamos todos ligados ao destino?

Dependemos do destino?

Essa força do além é que comanda nossas vidas e não há modos de superá-la?

Estamos presos incondicionalmente a algo incontrolável?

Sei lá. Você vive enchendo minha cabeça de perguntas - sendo que ela já é mais do que cheia de perguntas.

(mas meu, esse papo de destino... isso é muito cômodo. E muito louco. Mas muito conformado.

Então tá: não tem nada a fazer, o que será, será. Não me conformo. Mas que dá pano pra manga, dá!)

Alice Agnelli disse...

vê lá meu blog.

o último post foi feito logo depois de ter comentado aqui.

vc me traz inspiração.