terça-feira, 26 de maio de 2009

Vira-tempo

Estava deitada em seu quarto, de olhos semi abertos. O teto a encarava, mas ela não podia enxergá-lo. Na verdade, enxergava-o e ele girava feito areia movediça branca. Ela piscava e de repente tudo vibrava, voltando à sua fixidez natural. Estava naqueles estágios dormentes em que não se está dormindo nem acordado, em que você ouve o que acontece lá fora e torce para que esteja dormindo. Torce para não ser incomodado. E torce para não despertar, mas raciocinando sonhando, sabe que está desperto. Ouvia os passos apressados das crianças a correr pela casa. Já era quase meio dia e, dali a pouco, teria que sair.

Confortável em sua cadeira favorita, agora, anos depois e muitas rugas na cara, movimentos lentos de passos vagorosos, ela me relatava tudo como se estivesse falando com seu diário. Não olhava para mim; olhava, outra vez, para o teto. Mas era um teto de abstração. De pessoas, fatos e sonhos. Que não rodava aleatoriamente como num sonho quando se está acordando na cama e sim um teto em que cenas de um passado de mais de oitenta anos se sucediam como as fotografias de um albúm de retratos.

Resistiu; levantou-se de um pulo aproveitando a fagulha de iniciativa que despontava e que poderia perder-se ao menor pensamento contraditório que surgisse e ressurgisse em sua cabeça. Porque nessas horas, pensamentos vagos e contrastantes vão e voltam numa intensidade e fragmentação incessante. Vestira-se e em meia hora estava pronta. Seu perfume envolvia toda a casa. Era díficil não notar a sua presença - ou a véspera de sua ausência.

A essa altura eu ouvia sobre como era bonita. E magrinha. E quais eram os defeitos de seus pretendentes - e as virtudes de meu avô. Quais eram as amigas verdadeiras e aquelas que eram invejosas. As que tiveram azar na vida. Ou sorte no amor. Sobre seu pai e seu pomar. Ou sua mãe e sua aura triste. Sobres as brincadeiras de quando era menina.

Iria encontrar-se com sua irmã. Lourdes, das quatro, fora a mais infeliz de todas. Ainda assim, considerava-se a mais feliz. E de fato, talvez o fosse. Iriam tomar chá no alto do edifício Itália. Era um dia de outono, de sol fraco, casaco e garoa fina. Ventava muito e ela era uma mulher precavida. O ritual fora o de sempre: desceu correndo até o metrô. Esperou impaciente durante alguns minutos até o vagão chegar. Nunca gostou de se atrasar. Era preferível chegar antes e esperar do que ser esperada. Sentaram-se no lugar de sempre. Falavam baixo, confidências que só trocavam entre si. E que estavam impacientes para desabafar. Lourdes às vezes soltava uma ou outra gargalhada de satisfação. Ela ouvia com atenção e surpresa. Admirada e orgulhosa da irmã.

Era hora de falar dos outros irmãos. De seus casamentos, filhos, netos, sobrinhos. Cunhados e sogras. E famílias inteiras que já se foram. Ou que existem e estão a beira de irem-se. Era também hora de voltar ao fogão; o lagarto já devia estar quase pronto.

Depois de algumas horas tagarelando, teria que ir embora. Pegou a bolsa junto ao braço, passou seu batom apressada. Cumprimentou a irmã e seguiu seu rumo cuidando para que o barulho de seu salto não incomodasse as pessoas que apreciavam a vista. Passaria no supermercado na volta para casa e precisaria estar com o jantar pronto às seis da tarde. Esperaria seu marido com tudo pronto.

Sentamos e almoçamos. Agora vovó me ouvia atentamente. Sem se importar necessariamente com o significado exato de um e-mail, de um pen drive ou de uma mensagem de celular.

Sentaram e jantaram. Seus olhos brilhavam ao notar que a comida estava boa. Era feliz só por viver aqueles momentos. Respirava fundo e pausadamente. E ouvia. Sabia ouvir muito bem. Dava poucos conselhos. Mas muitos pitacos.

Acabamos o almoço. Lavava as louças. Silenciou por alguns segundos. Talvez pensando no que valeria a pena. Enxugava as mãos. E perguntava: o que vai querer de sobremesa?

Conferência de Durban

The Durban Review Conference: A Palestinian Critique
Haidar Eid

Palestinians are fed up with the International Community. After the Durban Review Conference, only a new worldwide anti-apartheid movement can affect a rescue.
30 - 04 - 2009


"There is no document of civilization which is not at the same time a document of barbarism" (Walter Benjamin)

The Durban Review Conference, held in Geneva on April 20-24, was supposed to review the implementation of the Programme of Action of the World Conference against Racism held in Durban, South Africa, in 2001.

Some western countries boycotted the conference altogether, and some walked out in protest against Ahmedinejad's speech in which he dared to reiterate the obvious; namely, the racism inherent in Zionist ideology. These countries are, historically, either racist, or settler-colonialist. The conference itself was actually hijacked by the West. Palestinian voices were almost nonexistent.

The major problem for those countries was, then, the equation of Zionism with racism. So, what we have here is a complex issue: one seems to be dealing with a colonist who denies his colonialism and argues to the contrary, and with a victim whose victimisation has been denied for decades. This ought to be scrutinized. Dr. Haidar Eid is Associate Professor in the Department of English Literature, Al-Aqsa University, Gaza Strip, Palestine. Dr. Eid is a founding member of the One Democratic State Group (ODSG) and a member of Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel (PACBI).

The conflict in Palestine is between a colonial party, Israel, and a weaker, colonized one, the Palestinians. The problem with what has been presented to us by those countries which boycotted the Durban Review Conference (DRC) is that it is done under the claim of ‘striking a balance.' But, as Ilan Pappe argues correctly, a ‘balance of power' which dominates this discourse ignores the fact that Israelis have colonized the land and history altogether. In his introduction to The Israel/Palestine Question, Pappe argues that "the stronger party has the power to write the history in a more effective way. Israel, the powerful party, is a state whose apparatus has been employed successfully to propagate its narrative in front of an external public. The weaker party, the Palestinians, is engaged in a national liberation struggle."

In an extreme contempt for the Palestinian people, Golda Meir - the former Israeli prime minister - once said: "There were no such thing as Palestinians... They did not exist." Obviously, the creation of an independent sovereign state ruled by parliamentary elections and majority rule before 1948 could have meant the end of Zionism because it would have meant the rule of the majority. It becomes clear, then, why Zionism has fought against the creation of a representative, legislative assembly in historic Palestine. This assembly would have represented the Arab majority, which was a mortal danger for Zionism. The political goal of Zionism was to engineer a population shift from being a minority to being a majority. Massive Jewish immigration and the expulsion of the Palestinians was the means by which this goal was achieved. Inevitably, the expropriation of land went hand in hand with the denial of the rights of the Palestinian majority. Zionists have always looked at Palestinians as invisible if not absent, or rather ‘present absentees.' Basic human and political rights of Palestinians were completely denied since Zionism, in principle, could not allow them to exercise their rights because it would mean the end of the Zionist enterprise.

What needs to be emphasized within this context is that, contrary to what has been central in modern liberal thinking, the idea of the citizen in Israel is totally missing. Israel is the only state in the 'modern' world in which citizenship and nationality are two separate, independent concepts. In other words, Israel is not the state of its citizens, but the state of the Jewish People. Moreover, Israel does not have a constitution. So, the question avoided by those countries that have boycotted, or hijacked the Durban Review conference, is since Judaism is a religion and since it is the basis of the existence of a "modern State," why can Islam, Christianity or Hinduism not be so? Thus, if one is to follow the logic of Zionism, one should ignore the achievements of humanity and the ideals of the enlightenment since what is acceptable for some (.i.e. Jews) is not acceptable for others (.i.e. Palestinians). The more provocative questions, in fact, deal with 'universal' liberal slogans and ask why they have never applied when it comes to Israel? Can one imagine the USA being the state of Protestant Christians?

Palestinians in Israel are considered foreigners in their own homeland, because Israel is defined by its Basic Laws as "the state of the Jewish people" i.e. not the state of all of its citizens. This is the direct result of Zionism and its ideology of separatism. In other words, there is no place for integration in Israel. In apartheid South Africa, blacks were not expected to share political rights and cultural heritage with whites. Similarly, Palestinians are ‘native aliens', who became foreigners by birth. But they are also the enemy by their mere presence. Every Palestinian is by definition a threat because of the mere fact that he or she is Palestinian.

Similarities between the two states can be found in their policies on citizenship, their use of detention without trial, and laws which limit freedom of movement and the right to live in one's own home with one's family. Just as apartheid South Africa gave citizenship to white South Africans and relegated blacks to "independent homelands", Zionism gives all Jews the right to citizenship in the State of Israel, while denying citizenship to Palestinians - its indigenous inhabitants. While Apartheid used race to determine citizenship, the state of Israel uses religious identification to determine citizenship. Just as the apartheid state made laws criminalising free movement of blacks on their ancestral land, Israel uses a military occupation infrastructure composed of checkpoints, Jewish-only settlements and roads, and the Wall, combined with a myriad of legal regulations that govern Palestinian daily life and are designed specifically to restrict how they work and live.

Israel has over the years been accused of being even worse than the apartheid state by South Africans such as Bishop Tutu and John Dugard - amongst others. One of the major differences between crimes committed by the South African apartheid regime and those of Israel is the way, as evidenced by the DRC sham, that the latter gets away with its crimes with unprecedented impunity. Israel could not have carried out its massacre on the people of Gaza without a green light from the international community. One Israeli soldier commented to Haaretz: "That's what is so nice, supposedly, about Gaza: You see a person on a road, walking along a path. He doesn't have to be with a weapon, you don't have to identify him with anything and you can just shoot him."

The contradiction between professed ideals and actual behaviours, which has been the engine of political change in many places, does not exist for many Israelis because the democratic creed, or civic democracy, is absent. There is no promise of equality for all citizens in Israeli political culture and praxis. In short, there is no tradition of civil liberties in Israel because such a tradition would mean the end of Zionism. If Israel belongs to all its citizens, it would mean the end of the Zionist state. Hence, one can understand the antagonism of the establishment to calls for the creation of a secular democratic institution. When South Africa was declared the state of all its citizens, political apartheid came to an end. Thus there is a clear contradiction between the Zionist ethos and democratic ideals. The Zionist system is quite clearly incompatible with democracy, which stems from the colonialist problem and the presence of the Palestinians.

The conflict has been misrepresented, by CNNized mainstream media owned by those who decided to boycott the DRC, as a ‘war' between ‘two sides'. In fact, as I have argued, and as the late Palestinian intellectual Edward Said put it, there are not two sides involved in the "violence" in the Middle East. There is a colonial state turning all its great power against a stateless people, repeatedly made refugees - a dispossessed people, bereft of arms with the aim of destroying this people. What is left for the Palestinian people after the fourth, some say third, strongest army in the world, with its navy and air force has been bombarding the West Bank and the Gaza Strip? Ten years of "negotiations" created only bantustans, and when Palestinians asked for the implementation of international law (in Camp David) they were accused of blowing Ehud Barak's "generous offer." Palestinians have been at the receiving end of merciless assaults by Israeli troops, and reservists, hidden in their helicopter gun ships, F16's and tanks (Gaza 2009). By and large, Western governments have considered the killing of Palestinians by tank and plane missiles "legitimate," whereas acts of Palestinian resistance are "terrorist attacks." Israel, therefore, is given the green light to conduct its genocidal attacks against Palestinians whose death is considered collateral damage. Barak Obama's administration does not have a balanced plan to resolve the crisis in the Middle East. What all American envoys to the region have been trying to do is reaching a cease-fire in accordance with Israeli conditions and without linking it to any clear political programme that is based on Security Council resolutions and international legitimacy. Of course, the logical outcome of this biased, even antagonistic American position, and the lack of will to find a just solution/peace, is catastrophic.

We, Palestinians, are absolutely fed up with the so-called ‘International Community'. Has Durban II been a failure? Well, if we still believe in the role of western governments, especially those with a long colonial legacy, in playing a positive role vis-a-vis the inalienable rights of the Palestinian people, we are, then, fooling ourselves. It is the power of people that we must bank on, just as it was in the case of apartheid South Africa, where a sustained global ‘Boycott, Divestment, Sanctions' (BDS) campaign forced the same governments to boycott the Pretoria racist regime. Durban II was a reminder that whether it is Bush, or Obama, the Empire is the same. Patrice Lumumba once said: "I know that history will have its say some day, but it will not be history as written in Brussels, Paris or Washington, it will be our own."

What urgently needs to be addressed at this moment in time, is an alternative programme that is necessarily dialectical and secular in its treatment of the Palestinian and Jewish questions - an alternative that never denies the rights of a people, one that guarantees equality, and that abolishes apartheid, bantustans and separation in Palestine altogether.

sábado, 9 de maio de 2009

Pulsão

Ouço a melodia e tenho vontade de criar. Executar movimentos de dança desconexos, não sincronizados e até mesmo piegas. Não me importar. Olhar para os lados e só ver a mim mesmo, dançando, pintando, desenhando. Produzindo. Tenho todo o tempo do mundo e não tenho nenhum nesse momento: não sei como usar meu tempo disponível agora. Paradoxal? O suficiente para você se sentir sufocado.

O que sei é o que sinto. E para isso não há de haver uma explicação suficientemente boa. O que sinto me faz querer produzir. E não sei por onde começar. Nessa hora, esse emaranhado de vontades, interesses, planos, projetos, ambições, essa carga dramática e pulsante e excêntrica toma vida e, no entanto, não vê por onde ser liberada. Bocejo. Isso porque, nesse momento, no meu tempo livre, de que tanto sinto falta nos segundos mais corridos e estressantes do dia a dia, essa pulsão exige ser liberada de todos os jeitos. E ao mesmo tempo.

Ela é intermitente. E exigente. E angustiante. Mas o que posso fazer? É ela, definitivamente, que me faz sentir vivo. Não abro mão.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Palestina

Um artigo de 30 de dezembro de 2008 sobre o conflito árabe-israelense, escrito por Robert Fisk, do jornal britânico The Independent
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Como é fácil desconectar o presente da história palestina, deletar a narrativa de sua tragédia, e evitar a ironia grotesca de Gaza que, em qualquer outro conflito, os jornalistas estariam descrevendo desde suas primeiras reportagens: qual seja, que os habitantes originais e legais da terra israelense almejada pelos foguetes do Hamas, hoje vivem em Gaza.

Por isso existe Gaza: porque os Palestinos que vivem em Ashkelon e campos ao seu redor – Asklan em árabe- foram destituídos de suas terras em 1948 quando foi criado o Estado de Israel e empurrados para onde residem hoje, na Faixa de Gaza. Eles –ou seus filhos, netos e bisnetos- estão entre o um milhão e meio de Palestinos espremidos na fossa séptica de Gaza. 80% dessas famílias viviam no que é hoje o Estado de Israel.

Assistindo os noticiários, tem-se a impressão de que a história começou apenas ontem, que um bando de lunáticos islâmicos barbudos anti-semitas apareceu de repente nas favelas de Gaza –um lixão povoado por pessoas destituídas de origem- e começou a atirar mísseis contra a democrática e pacífica Israel, apenas para dar de encontro com a indignada vingança da força aérea israelense. Nessa história simplesmente não consta o fato de que as cinco meninas mortas no campo de Jabalya tinham avós oriundos da mesmíssima terra de onde os atuais habitantes as bombardearam à morte.

Percebe-se porque tanto Yitzhak Rabin como Shimon Peres declararam, ainda na década de 1990, que desejavam que Gaza simplesmente desaparecesse, que sumisse mar adentro. A existência de Gaza é um indício permanente das centenas de milhares de Palestinos que perderam suas casas para o Estado de Israel, que fugiram apavorados ou foram expulsos por temor à limpeza étnica executada por Israel há 60 anos, momento no qual uma imensa onda de refugiados varria a Europa no pós Segunda Guerra Mundial, e um punhado de árabes expulsos de suas propriedades não importava ao mundo.

Mas agora o mundo deveria se preocupar. Espremido nos poucos quilômetros quadrados mais densamente povoados do mundo, está um povo destituído, vivendo no isolamento, no esgoto, e, durante os últimos seis meses, na fome e no escuro, sancionados pelo Ocidente. Gaza sempre foi insurrecional. A “pacificação” sangrenta de Ariel Sharon, começando em 1971, levou dois anos para ser completada e não vai ser agora que conseguirão dobrar Gaza.

Infelizmente para os palestinos, perderam sua mais poderosa voz política –refiro-me a Edward Said e não o corrupto Yasser Arafat (e como os Israelenses devem sentir sua falta)- ficando a sua sorte, em grande medida, sem explicação, no que depender dos seus atuais porta-vozes ineptos. “É o lugar mais deplorável que já vi”, disse Said, certa vez, sobre Gaza. “É um lugar terrivelmente triste devido ao desespero e à miséria em que vivem as pessoas. Não estava preparado para encontrar campos que são piores do que qualquer coisa que eu tivesse visto na África do Sul”.

Claro que ficou a cargo da Ministra de Relações Externas, Tzipi Livni, admitir que “às vezes os civis também pagam o preço”, um argumento que ela não usaria se a estatística de mortes fosse invertida. Foi certamente educativo ouvir ontem um membro do Instituto Empresarial Americano –repetindo fielmente os argumentos israelenses- defender o indefensável número de mortos palestinos, dizendo que “não faz sentido entrar no mérito dos números”. No entanto, se mais de 300 israelenses tivessem sido mortos, contra dois palestinos, pode ter certeza que se entraria “no mérito dos números”, e a violência desproporcional seria absolutamente relevante. O simples fato é que as mortes palestinas importam muito menos que as mortes israelenses. É verdade que 180 dos mortos eram membros do Hamas, mas e o restante? Se a estatística conservadora da ONU de 57 civis mortos for verdade, ainda assim seria uma desgraça.

Não é de surpreender que nem os EUA nem a Grã-Bretanha condenem o ataque Israelense, e ponham a culpa no Hamas. A política norte-americana para o Oriente Médio é indistinguível da israelense, sendo que Gordon Brown está assumindo a mesma devoção de cão à administração Bush, já demonstrada pelo seu antecessor.
Como sempre, os Estados árabes clientes –pagos e armadas pelo Ocidente- permanecem em silêncio, absurdamente, chamando uma cúpula árabe para discutir e (se chegar a isso) apontar um “comitê de ação” que redigiria um relatório que jamais será escrito. É assim que funcionam o mundo árabe e seus líderes corruptos. Quanto ao Hamas, este terá, é claro, que suportar a desmoralização dos Estados árabes enquanto cinicamente esperam que Israel fale com eles. O que farão. De fato, dentro de alguns meses, chegará a notícia de que Israel e Hamas mantêm “diálogos secretos” –assim como outrora ouvimos falar em relação a Israel e a ainda mais corrupta OLP. Mas, até lá, os mortos estarão enterrados e estaremos ingressando na próxima crise do Oriente Médio.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Brasil pandeiro

Era tarde. De vento e de frio. Mas com aquele solzinho esperto que nos faz lembrar, sempre, de onde estamos e aonde pertencemos. Os prédios ao nosso redor nos espreitavam, mas dessa vez, quem tinha medo, não eramos nós. Eram eles. Seu tamanho frente aquela multidão brasil de nada adiantava. Sambávamos e era do poder do samba que toda a incerteza de uma semana agitada se convertia em uma segurança de olhos vendados que tomava conta do coração da cidade.

De olhos fechados, mesmo assim podíamos avistar o céu. Podiamos sentir os raios de sol gelados e enxergar o que não víamos - e que, ainda assim, era palpável. Encostar em um desconhecido, ouvir aquela canção familiar e, mesmo sem saber a letra, sorrir e embalar no ritmo do momento.

Mãos para cima; naquele dia, o céu, o samba, o centro e a cidade eram todos nossos.


Bresson

Fobias mistificadas

Um documentarista decide fazer um documentário sobre fóbicos e suas fobias. Em sua busca, Jean-Claude(Jean-Claude Bernardet) só tem uma certeza: a única imagem verdadeira passível de ser captada por uma câmera é a reação de um fóbico frente sua fobia. Partindo dessa premissa, Filmefobia, dirigido por Kiko Goifman, leva o espectador a uma sucessão de cenas em que personagens reais – que topam participar do documentário de Jean-Claude – se submetem à situações em que devem ficar cara a cara com seu maior medo.

Sendo boa parte dos traumas resultado de experiências mal sucedidas com o objeto fóbico ao longo da vida, o que Filmefobia não explora é exatamente a origem desses temores descontrolados – e, por vezes, insignificantes – e a capacidade criativa da mente em alterar situações aparentemente banais, transformando-as em verdadeiros tormentos.

A fotografia escura, que mais lembra um quarto fechado, e o misto de exibicionismo e sadomasoquismo que parece exalar das repetitivas sequências de fóbicos versus fobias não só são responsáveis pelo ar naturalista que o filme possui como passam também a impressão de que estamos frente a mais um reality show de TV.

Com uma linguagem que se divide entre narração e documentário, Filmefobia talvez pudesse ganhar muito mais densidade caso viesse a optar pelo segundo formato. Apesar do ambicioso pano de fundo metalinguístico e da peculiaridade do tema tratado, o longa não consegue alçar vôo e sobreviver a seus próprios clichês.