quinta-feira, 7 de maio de 2009

Palestina

Um artigo de 30 de dezembro de 2008 sobre o conflito árabe-israelense, escrito por Robert Fisk, do jornal britânico The Independent
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Como é fácil desconectar o presente da história palestina, deletar a narrativa de sua tragédia, e evitar a ironia grotesca de Gaza que, em qualquer outro conflito, os jornalistas estariam descrevendo desde suas primeiras reportagens: qual seja, que os habitantes originais e legais da terra israelense almejada pelos foguetes do Hamas, hoje vivem em Gaza.

Por isso existe Gaza: porque os Palestinos que vivem em Ashkelon e campos ao seu redor – Asklan em árabe- foram destituídos de suas terras em 1948 quando foi criado o Estado de Israel e empurrados para onde residem hoje, na Faixa de Gaza. Eles –ou seus filhos, netos e bisnetos- estão entre o um milhão e meio de Palestinos espremidos na fossa séptica de Gaza. 80% dessas famílias viviam no que é hoje o Estado de Israel.

Assistindo os noticiários, tem-se a impressão de que a história começou apenas ontem, que um bando de lunáticos islâmicos barbudos anti-semitas apareceu de repente nas favelas de Gaza –um lixão povoado por pessoas destituídas de origem- e começou a atirar mísseis contra a democrática e pacífica Israel, apenas para dar de encontro com a indignada vingança da força aérea israelense. Nessa história simplesmente não consta o fato de que as cinco meninas mortas no campo de Jabalya tinham avós oriundos da mesmíssima terra de onde os atuais habitantes as bombardearam à morte.

Percebe-se porque tanto Yitzhak Rabin como Shimon Peres declararam, ainda na década de 1990, que desejavam que Gaza simplesmente desaparecesse, que sumisse mar adentro. A existência de Gaza é um indício permanente das centenas de milhares de Palestinos que perderam suas casas para o Estado de Israel, que fugiram apavorados ou foram expulsos por temor à limpeza étnica executada por Israel há 60 anos, momento no qual uma imensa onda de refugiados varria a Europa no pós Segunda Guerra Mundial, e um punhado de árabes expulsos de suas propriedades não importava ao mundo.

Mas agora o mundo deveria se preocupar. Espremido nos poucos quilômetros quadrados mais densamente povoados do mundo, está um povo destituído, vivendo no isolamento, no esgoto, e, durante os últimos seis meses, na fome e no escuro, sancionados pelo Ocidente. Gaza sempre foi insurrecional. A “pacificação” sangrenta de Ariel Sharon, começando em 1971, levou dois anos para ser completada e não vai ser agora que conseguirão dobrar Gaza.

Infelizmente para os palestinos, perderam sua mais poderosa voz política –refiro-me a Edward Said e não o corrupto Yasser Arafat (e como os Israelenses devem sentir sua falta)- ficando a sua sorte, em grande medida, sem explicação, no que depender dos seus atuais porta-vozes ineptos. “É o lugar mais deplorável que já vi”, disse Said, certa vez, sobre Gaza. “É um lugar terrivelmente triste devido ao desespero e à miséria em que vivem as pessoas. Não estava preparado para encontrar campos que são piores do que qualquer coisa que eu tivesse visto na África do Sul”.

Claro que ficou a cargo da Ministra de Relações Externas, Tzipi Livni, admitir que “às vezes os civis também pagam o preço”, um argumento que ela não usaria se a estatística de mortes fosse invertida. Foi certamente educativo ouvir ontem um membro do Instituto Empresarial Americano –repetindo fielmente os argumentos israelenses- defender o indefensável número de mortos palestinos, dizendo que “não faz sentido entrar no mérito dos números”. No entanto, se mais de 300 israelenses tivessem sido mortos, contra dois palestinos, pode ter certeza que se entraria “no mérito dos números”, e a violência desproporcional seria absolutamente relevante. O simples fato é que as mortes palestinas importam muito menos que as mortes israelenses. É verdade que 180 dos mortos eram membros do Hamas, mas e o restante? Se a estatística conservadora da ONU de 57 civis mortos for verdade, ainda assim seria uma desgraça.

Não é de surpreender que nem os EUA nem a Grã-Bretanha condenem o ataque Israelense, e ponham a culpa no Hamas. A política norte-americana para o Oriente Médio é indistinguível da israelense, sendo que Gordon Brown está assumindo a mesma devoção de cão à administração Bush, já demonstrada pelo seu antecessor.
Como sempre, os Estados árabes clientes –pagos e armadas pelo Ocidente- permanecem em silêncio, absurdamente, chamando uma cúpula árabe para discutir e (se chegar a isso) apontar um “comitê de ação” que redigiria um relatório que jamais será escrito. É assim que funcionam o mundo árabe e seus líderes corruptos. Quanto ao Hamas, este terá, é claro, que suportar a desmoralização dos Estados árabes enquanto cinicamente esperam que Israel fale com eles. O que farão. De fato, dentro de alguns meses, chegará a notícia de que Israel e Hamas mantêm “diálogos secretos” –assim como outrora ouvimos falar em relação a Israel e a ainda mais corrupta OLP. Mas, até lá, os mortos estarão enterrados e estaremos ingressando na próxima crise do Oriente Médio.

Um comentário:

Binho de Lira disse...

Túlio esse texto vai pro tabalho. Criei um blog, entra lá: http://umbaurusemtomate.blogspot.com/
Gabriel