sábado, 29 de agosto de 2009

Extâse da tarde

A chave penetrou a fechadura e não precisou ser girada; a porta estava aberta. Dentro da casa, silêncio. A sala, toda iluminada de um resto de sol preguiçoso e expansivo, o convidou sem demoras para ali permanecer. Tirou a camisa suada, arregaçou as calças ate os joelhos, apertou play. Deixou a bossa nova tocar e tocá-lo.

Deu, a princípio, alguns passos tímidos, lentos. Sorrisos estremeados, algumas palmas aleatórias, uma sensação quente. Boa, gostosa, de felicidade. De completude, de sinuosidade, de contradição, de juventude, de tempo, de praia, de Rio de Janeiro, de infância, de pai de calção e mãe rindo de cabelos molhados, de irmã ainda pequena. Tudo enquanto contemplava a vista. Aquela vista de tantos segredos e tantos sentimentos!

Ela era brilhosa, azul, verde, cantava com os passarinhos, sambava com o vento da tarde, mandava a poluição embora. Ria-se sozinha. E o fazia rir. Deu mais alguns passos na sacada; logo, girava de braços abertos e os galhos começaram a se mexer sozinhos.

Era um extâse da tarde. Simples e bonito.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Estava prestes a terminar de escrever. Parei no "Eu...". Não sei se era a chuva, o frio, ou a espera, ou todos ao mesmo tempo, mas o fato é que aqueles minutinhos foram preciosos para começar a escrever. E não terminar. Listar detalhes intensos, pensar momentos decisivos, repensar atitudes. E na verdade sempre acabar por achar que a coisa certa havia sido realmente feita. Porque todos precisamos livrar um pouco a consciência na hora de desabafar consigo mesmo!

Mas o impressionante fora aonde parei. Estava no momento decisivo, no ápice da semana e dos dias e, no entanto, fui interceptado. Corri as mãos às palavras. Estavam seguras. Engatei no papo. E dele nunca mais saí. E, no fim, até me esqueci que estava escrevendo. Fechei as páginas, enfiei tudo correndo dentro da mochila, segui apressado. E, dessa vez, quando não, minha surpresa fora ainda maior dali a algumas horas. E, para ser sincero, não havia percebido aonde tinha parado de escrever. Mas agora, as coisas de fato parecem ter se conectado.

Se há coisas que devem ser ditas, caso contrário, perdem seu sentido, há também coisas que não devem se escrever ou se tentar em palavras. Quem quiser dar uma aprofundada no tema, dê uma olhada no post debaixo. Para mim ajudou bastante!

Percepção

Swann achava em si, na lembrança da frase que ouvira, nas sonatas que mandara tocar para ver se acaso descobriria, a presença de uma dessas realidades invísiveis em que deixara de crer.[...] E o prazer que lhe dava a música...assemelhava-se...ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não somos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem significado porque escapa à nossa inteligência e nós o atingimos por um único sentido.[...]Todos os encantos de uma tristeza íntima, era a eles que ela tentava imitar e recriar, e até a sua própria essência, que consiste em serem incomunicáveis e parecerem frívolos a qualquer outra pessoa que não seja a que os experimenta, a pequena frase a havia captado e tornado visível.[...] Que belo diálogo ouviu Swann entre o piano e o violino no começo do último trecho! A supressão das palavras humanas, longe de deixar reinar ali a fantasia, como se poderia crer, a tinha eliminado: jamais a linguagem falada foi tão inflexivelmente fatal, jamais conheceu a tal ponto a pertinência das perguntas, a evidência das respostas.

Proust, "No Caminho de Swann"

Porque...

"O sentido do mundo está fora da linguagem, ele está no ontológico e não no lógico"

Merleau-Ponty

E...

"Percepção é sentida, vai além dos signos, como diz Merleau-Ponty, [vai] 'rumo ao silêncio deles' "
Ciro

Fim. Só para constar algumas frases que fiquei de completar!

sábado, 22 de agosto de 2009

Brecht

No familiar, descubram o insólito

No cotidiano, desvelem o inexplicável

Que o que é habitual provoque espanto

Na regra, descubram o abuso

E sempre que o abuso for encontrado

Procurem o remédio


Bertold Brecht

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Imagem, valores e a falta de sono

Quase não escrevi esse post. Mas decidi que era importante. Que era uma ótima forma de estravasar a desesperança que estou sentindo agora. Por desesperança, leia-se: falta de sono. Quando durmo pouco, sou dado a reflexões pessimistas, sentimentalismos e desesperanças. Seria tão mais fácil ficar bocejando, mas não...

Tudo começou bem, com uma aula fantástica das quais há tempos não tinha na ECA. Levantou-se o seguinte ponto, o qual achei interessantíssimo, a partir das reflexões de Hegel: na sociedade em que vivemos, a sociedade do espetáculo, houve uma inversão na relação entre conceito e imagem.

Se antes, no século XIX, valorizava-se chegar a conceitos a partir de imagens, da apreensão e percepção do real, atualmente a ordem das coisas se inverteu: na sociedade técnica do século XXI busca-se chegar a imagens, perdendo-se, no meio do caminho, a importância dos conceitos. É o que passou a ser chamado de Idealismo da Imagem.

Tudo funciona em torno das imagens atualmente. E o lado lúdico do papel da imagem, isto é, aquele que concerne ao imaginário e suas infinitas potencialidades, espaço de criatividade e distinção do ser humano, vai sendo também deixado de lado a medida que a imagem, apresentando desta vez sua faceta mais perversa, passa a servir como sistematizador de normas e convenções e, acima de tudo, legitimador de hábitos e ideologias, atuando de forma opressora.

Perde-se a diferença por impor-se o império do sempre-igual. E aí entra o que sempre me atraiu: a diferença e o diferente. O pensar diferente, o propor, o agir, as idéias, as iniciativas. O questionar e o transgredir.

Enfim, pode ser que seja uma boa idéia canalizar a agressividade da falta de sono para coisas produtivas.

sábado, 15 de agosto de 2009

Tempo



Olhei as fotos e pensei ter vivido anos. Esqueci que foram apenas semestres. Desnecessário dizer que, de lá pra cá, minha vida se dá em semestres e não mais em anos como antigamente. Foram tantos momentos!

Recordo-me de sensações. De sentimentos abstratos, de climas. De como as fotos foram tiradas. Das pessoas envolvidas e suas impressões. Das primeiras impressões. Que engraçado!

Assusto-me. Lembrei do começo, bem do comecinho. Vindo do interior, com um gás total e absurdo. Tudo novo. Medo do sentimento de envelhecer. Do sentimento de passagem, de efêmero. Do tempo que passa. Hoje parece que tudo é tão...conhecido. Apesar de eu sempre lidar com o desconhecido semestralmente, como costumo dizer. Estranho. Foi algo que fiquei pensando e que, confesso, odeio ter de dizer - ou escrever - dado que não sou de tristezas.

Nem sei se de fato esse sentimento se configura como tristeza. Na verdade, tudo fica no campo da nostalgia. E, para ser sincero, acho que não estou - ou melhor, não estamos - acostumados a lidar com sentimentos nostálgicos. Deveríamos, afinal, o que somos nós senão uma história em construção?

Este post, por exemplo, já pertence ao passado.

Músicas de sábado II



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Encontro

O vento frio que lhe arrepiava os pelos expostos em uma camiseta tão indesejavelmente de mangas curtas e os olhos azuis cor de piscina que o fitavam dedicados e emoldurados por cabelos louros bem naturais faziam-no sentir-se em um filme. Era como se a cena que presenciava com suas vistas fosse, de fato, uma fotografia nítida, clara, cuja câmera provavelmente estaria a tremer se dividindo entre sua barba mal-feita e os olhos azuis da garota que o encarava.

Era tarde. Havia poucas pessoas ao seu redor. Ela lhe perguntava, ele respondia com sinceridade. Era um questionário, desses inesperados, a princípio chatos e demorados. Ele, por mais que convencionalmente, sem saber o porque, parecendo negar-se a participar de tal questionário - sobre religião e espiritualidade - acabou cedendo. Sentaram e se encararam por alguns segundos. Ela lhe mostrou algumas fotos. Lindas, coloridas, fortes.

Ele a ouviu falar sobre suas crenças. Com tanta firmeza! Por mais que discordasse de tudo que lhe era dito - sempre fora cético para esse tipo de coisa - não conseguia deixar de admirar sua determinação. Seu empenho, sua coragem. Afinal, não era fácil estar em outro país para pregar algo que se acredita, pensou. Se já é difícil no seu próprio país! Respeitou-a e respondeu direitinho a tudo que ela queria saber.

Sorriram, deram as mãos, desejaram-se boa sorte. Encorajaram-se. Lançaram apostas, daquelas inacreditavelmente verdadeiras, sobre seus respectivos perfis. Seguiram seus caminhos, diferentes, mas com um ponto comum que, acredito, nenhum dos dois poderia deixar de esquecer: acreditavam, acima de tudo, neles. E nesses encontros, aleatórios, significativos e, acima de tudo, rápidos. Tudo não durou mais do que dez minutos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O garoto olhou para trás com firmeza:

-Eu não acredito mais em você.

Eu, de longe, que andava até então brincando de cantar errado músicas conhecidas, pausei por um instante. É, perdeu. Quem diz algo assim, com tanta força e determinação não pode estar falando senão a verdade. Sorte dele. Sinto falta disso, de quando em quando.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Amor à Flor da Pele



Uma imersão na cultura tradicional chinesa. Só assim é possível compreender as inflexões, vacilações e o tempo do filme Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai. É incrível observar o quanto somos moldados pela cultura em que vivemos e o quanto nossas vidas tornam-se tão mais fáceis a partir do momento em que rompemos com preocupações pontuais. De preocupações, bastam as inevitáveis que surgem no decorrer da vida.

A fotografia colorida ameniza a frieza das personagens principais e os efeitos usados pelo diretor para sinalizar sentimentos e marcações de tempo - os mesmos usados em Um Beijo Roubado - são de uma precisão absurda. A trilha sonora novamente é um dos pontos altos dos filmes do diretor.

Vale a pena ouvir a versão de Nat King Cole pra música Quizas:
http://www.youtube.com/watch?v=2wQ4gJo0bII&feature=related

sábado, 1 de agosto de 2009

Tropa de Elite



Acabo de assistir ao filme Tropa de Elite e estou estarrecido. Embasbacado, como diz o outro. Achei o filme absurdamente moralista, legitimador e incitador do uso da violência, representante de primeira das forças da hierarquia e doutrinação e, acima de tudo, absolutamente subserviente à manutenção do status quo e dos poderosos em sua análise retrógada e, no fim, absolutamente rasa dos fatos.

A lógica do filme é desvendada desde cedo: a visão de que a solução para o tráfico é simplesmente não consumir drogas. Não entra em cena o envolvimento político, econômico e militar de uma rede internacional dessa indústria das drogas que é uma das maiores e mais bem equipadas multinacionais do mundo. Para constatar esse fato é só parar e pensar um pouquinho. Nos EUA por exemplo, que é o país com maior mercado consumidor de drogas do mundo, com uma frequência assustadora vemos notícias sobre imigrantes ilegais que tentam entrar no país e, no entanto, são barrados nas fronteiras. E a droga, como faz para adentrar o território norte-americano?

Não venha me dizer que quem controla e lucra com essa indústria é Beira-Mar, é Marcola. Certamente esses caras que controlam o tráfico estão a quilômetros de distância dos morros, muito bem acomodados. O filme não só não faz menção a esse tipo de constatação como subverte o problema do tráfico escolhendo como alvo o consumidor de drogas. É sim um fato que, caso não houvesse demanda por drogas, não haveria tráfico ou mortes nos morros. Mas assim como existem pessoas que gostam e consomem álcool ou cigarros, existem pessoas que gostam e consomem maconha, cocaína ou heroína. Outro fato. Até quando vamos ser hipócritas e acreditar que a ilegalidade funciona em vez de encararmos a realidade tal qual ela é? Quando vamos lidar com a realidade?

Para citar outro exemplo, quantas pessoas tiveram que morrer até que a lei seca, que impedia o consumo de álcool nos Estados Unidos, fosse derrubada? Ou seja, não é o usuário que é culpado pela morte de pessoas na favela ou da existência do tráfico e sim o fato de uma pessoa não poder ser usuária livremente caso deseje. Vivemos em um país livre ou não? É mais do que óbvio que com a legalização das drogas viriam juntas uma série de restrições a locais de uso, publicidade nos meios de comunicação, campanhas governamentais de conscientização dos malefícios causados pelo uso de drogas e uma outra série de ferramentas sobre as quais teríamos que estudar.

Mas a legalização é, obviamente, desinteressante. O preço da droga cairia, haveria uma maior concorrência, o que demandaria outros gastos e lucros menores, restrições oficiais, campanhas de prevenção, leis e tarifas comerciais, maior informação por parte dos usuários. Não serve aos interesses da indústria internacional das drogas tal tipo de medida. Surgiria uma outra realidade que prezaria pelo conforto de seus clientes, como qualquer outra indústria e que, certamente, afugentaria tiroteios e mortes de suas portas. Principalmente mortes por bala perdidas de pessoas que nada tem a ver com o consumo de drogas. Será que morreriam mais pessoas do que morrem atualmente nos morros? Talvez um aumento no número de overdoses, mas bem...trata-se de uma escolha.

Ainda assim, no fundo, no fundo, longe da discussão sobre legalização das drogas, o que mais me intriga é: por que alguém se submete à vida do tráfico no morro? A troco de quê esses traficantes levam essa vida se você pode perder a sua vida a qualquer segundo, como o filme deixa explicitamente claro? Se você não tem paz, não tem família, não tem acesso a nada?

Na verdade, a única resposta a que consigo chegar é: os valores do ser humanos estão apodrecidos. Dinheiro, consumo, ganância. Que essa sociedade que reprime nos morros, alimenta em suas engrenagens. A vida não vale mais nada ali; vide a carnificina e brutalidade do filme.