sábado, 1 de agosto de 2009

Tropa de Elite



Acabo de assistir ao filme Tropa de Elite e estou estarrecido. Embasbacado, como diz o outro. Achei o filme absurdamente moralista, legitimador e incitador do uso da violência, representante de primeira das forças da hierarquia e doutrinação e, acima de tudo, absolutamente subserviente à manutenção do status quo e dos poderosos em sua análise retrógada e, no fim, absolutamente rasa dos fatos.

A lógica do filme é desvendada desde cedo: a visão de que a solução para o tráfico é simplesmente não consumir drogas. Não entra em cena o envolvimento político, econômico e militar de uma rede internacional dessa indústria das drogas que é uma das maiores e mais bem equipadas multinacionais do mundo. Para constatar esse fato é só parar e pensar um pouquinho. Nos EUA por exemplo, que é o país com maior mercado consumidor de drogas do mundo, com uma frequência assustadora vemos notícias sobre imigrantes ilegais que tentam entrar no país e, no entanto, são barrados nas fronteiras. E a droga, como faz para adentrar o território norte-americano?

Não venha me dizer que quem controla e lucra com essa indústria é Beira-Mar, é Marcola. Certamente esses caras que controlam o tráfico estão a quilômetros de distância dos morros, muito bem acomodados. O filme não só não faz menção a esse tipo de constatação como subverte o problema do tráfico escolhendo como alvo o consumidor de drogas. É sim um fato que, caso não houvesse demanda por drogas, não haveria tráfico ou mortes nos morros. Mas assim como existem pessoas que gostam e consomem álcool ou cigarros, existem pessoas que gostam e consomem maconha, cocaína ou heroína. Outro fato. Até quando vamos ser hipócritas e acreditar que a ilegalidade funciona em vez de encararmos a realidade tal qual ela é? Quando vamos lidar com a realidade?

Para citar outro exemplo, quantas pessoas tiveram que morrer até que a lei seca, que impedia o consumo de álcool nos Estados Unidos, fosse derrubada? Ou seja, não é o usuário que é culpado pela morte de pessoas na favela ou da existência do tráfico e sim o fato de uma pessoa não poder ser usuária livremente caso deseje. Vivemos em um país livre ou não? É mais do que óbvio que com a legalização das drogas viriam juntas uma série de restrições a locais de uso, publicidade nos meios de comunicação, campanhas governamentais de conscientização dos malefícios causados pelo uso de drogas e uma outra série de ferramentas sobre as quais teríamos que estudar.

Mas a legalização é, obviamente, desinteressante. O preço da droga cairia, haveria uma maior concorrência, o que demandaria outros gastos e lucros menores, restrições oficiais, campanhas de prevenção, leis e tarifas comerciais, maior informação por parte dos usuários. Não serve aos interesses da indústria internacional das drogas tal tipo de medida. Surgiria uma outra realidade que prezaria pelo conforto de seus clientes, como qualquer outra indústria e que, certamente, afugentaria tiroteios e mortes de suas portas. Principalmente mortes por bala perdidas de pessoas que nada tem a ver com o consumo de drogas. Será que morreriam mais pessoas do que morrem atualmente nos morros? Talvez um aumento no número de overdoses, mas bem...trata-se de uma escolha.

Ainda assim, no fundo, no fundo, longe da discussão sobre legalização das drogas, o que mais me intriga é: por que alguém se submete à vida do tráfico no morro? A troco de quê esses traficantes levam essa vida se você pode perder a sua vida a qualquer segundo, como o filme deixa explicitamente claro? Se você não tem paz, não tem família, não tem acesso a nada?

Na verdade, a única resposta a que consigo chegar é: os valores do ser humanos estão apodrecidos. Dinheiro, consumo, ganância. Que essa sociedade que reprime nos morros, alimenta em suas engrenagens. A vida não vale mais nada ali; vide a carnificina e brutalidade do filme.

4 comentários:

martina disse...

É verdade que o filme é muito raso na discussão das drogas, tem um argumento superficial que não abrange toda a extensão do tráfico internacional. Mas não podemos esquecer que é um filme de personagem em 1ª pessoa, no caso, o Capitão Nascimento, então esse argumento é dele. O ruim é a opção do Padilha de dar voz justamente para um personagem que sempre tem expaço nas mídias escritas e audiovisuais. Talvez tenha sido uma compensação do diretor por ter feito anteriormente o Ônibus 174.

Ana Paula Saltão disse...

Na verdade, quando eu fui à pré-estreia do filme do Bruno Barreto sobre o 174, ele comentou justamente isso acerca do Padilha. Que no Ônibus era uma versão do consumidor de drogas e o Tropa de Elite uma versão da polícia. Não que um ou outro esteja tentando doutrinar que desse ou daquele jeito é o certo ou a realidade. Acho que são versões e realidades distintas.

:)

Tulio Bucchioni disse...

É, vou assistir o 174 agora, eu ainda não vi.
=)

Xenya Bucchioni disse...

Concordo com o argumento das meninas, no entanto é de se pensar porque o 174 não teve tanta cobertura como o Tropa de Elite. Essa diferença na publicidade e na atenção dispensada pelos jornalistas e críticos, sobretudo no caso do Tropa, diz muito sobre nossa sociedade e os valores dominantes.
O interessante é que os filmes dialogam. A polícia representada pelo Capitão Nascimento e legitimada socialmente é a mesma que decide, de um certo modo, o futuro do "marginal" do 174. Afinal, não podemos esquecer que esse personagem é fruto/vítima da chacina da candelária. Por isso, o problema nem é o diretor, mas sim como a mídia se apropria das produções e escolhe quais merecem destaque e importância, acabando por prescrever (e não convencer e manipular) o que a sociedade em geral deve pensar sobre determinados assuntos.