segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Incomunicabilidade Conjugal

Ela tinha esquecido como fazia calor no interior de São Paulo, mesmo no inverno. Eram férias de julho e, como de costume, voltara para a casa dos pais durante o período em que não teria aulas na faculdade, em São Paulo. Nesse meio tempo, aproveitou para sair com as amigas de infância e rever velhos conhecidos. Dentre eles, Raúl.

Eles nunca foram íntimos, mas desde pequenotes se paqueraram. Suas mães foram vizinhas quando tinham menos de quinze anos. Ela já era mocinha; ele, um garotão que brincava na rua. Os anos passaram e, agora, estavam juntos há duas semanas. Para dona Helena, sua avó, o namoro não duraria muito:

-E você já não cansou de namorar capiau? – reiterava com uma freqüência irritante.

Ela não ligava, apesar de ouvir a voz da avó ralhar em sua cabeça, de quando em quando, ao se incomodar com algum hábito de Raúl. Era domingo e essa era a segunda vez que ela iria visitá-lo em sua casa – Raúl agora morava sozinho, os pais haviam se mudado para a capital e, portanto, não seria inoportuno freqüentar a sua casa em um dia de família como o domingo.

-Oi, amor!

Ele nem respondeu. Apenas grunhiu algo e estalou um beijinho rápido em sua bochecha. Correu de volta para o sofá. A explicação: naquela tarde o Corinthians jogava contra o Santos. Sentou-se ao seu lado.

-Amor, você quer pipoca?

-Que gentil! Quero sim...

-O saquinho tá no armário, debaixo da pia!

Levantou-se e fez pipoca para os dois. Uma vez na cozinha, observou que seu sapato grudava no chão. Curiosa como toda mulher, não demorou a perguntar o que havia acontecido. E obteve como resposta:

-É o café, derrubei sem querer anteontem de manhã...Passei uma paninho, mas não saiu, você não quer...Não quer...

Claro. Sem demoras, pegou outro paninho, molhou-o e, dois minutinhos, o chão já não grudava mais. Voltou ao sofá.

-Obrigado, morzão!

Mal havia sentado, ele lhe interrogou:

-Cadê a água?

Tinha esquecido da bebida. Foi à cozinha de novo. Nada de água. Deu um pulinho até a área de serviço e notou um galão cheio, à espera de ser trocado. Fez um esforço, contou até três e trocou-o. Nesse meio tempo, sentiu um odor estranho. Na verdade, um tanto característico...De roupas mofadas! Ah, esses homens!

Lembrou de seu pai e a semana em que sua mãe fora passear na casa da tia, em
Campinas. Fora aí que, aos treze anos, descobrira que ferver roupas mofadas tirava o mofo. Achou por bem não comentar.

No caminho de volta ao sofá, descuidou-se.

-Amor, cuidado, você passou em frente à TV e quase foi gol! Por sorte eu não perco um gol!

Fora suficiente para ela fazer bico. Não conseguia prestar atenção no futebol. Contara até dez. Pensara em seus cabelos, nas unhas, na faculdade, no capítulo de ontem da novela, em sua melhor amiga e o término do namoro. Decidida, resolveu puxar papo.

-Uhum.

Em vão: depois de três vezes deixada no vácuo, sem respostas, desistiu. Vez ou outra, Raúl soltava algum comentário. Falou sobre a última loira que o jogador fulano estava saindo, sobre quantos milhões cicrano ganhava, xingava beltrano. Coisas assim, ele falava A, ela pensava em B. Incomunicabilidade conjugal. Cansou-se e resolveu sair.

-Vou ao shopping. Quando o jogo terminar, me ligue.

Deu algumas várias voltinhas, olhou todas as vitrines, sem entediar-se. Ele ligou, ela foi até a saída do shopping, esperou; ele chegou, ela entrou no carro. Beijou-o no rosto, perguntou quanto foi o jogo. Ele perguntou se ela havia comprado alguma coisa. Durante o percurso, seus celulares tocaram. Não se incomodavam. Pelo contrário, era até bom, pelo menos não seguiam calados. Era melhor assim.

domingo, 20 de setembro de 2009

Loucura

Ela corria desajeitada, vagarosa. Fazia sinal com as mãos para o motorista do ônibus parar; na verdade, saltitava, o que garantia àqueles segundos a impressão de tomarem mais tempo do que na verdade duraram.

Entrou no ônibus.

Pediu autorização para o motorista para fazer qualquer coisa - não era possível compreendê-la direito. Sentou, não sem antes examinar o assento a procura de alguma coisa, e dar-se a falar desatinadamente, misturando, ora português, ora chinês. Não devia ser burra. Louca? Talvez. Em seu relato, muitas citações a um nome: Tai. Quem seria Tai? Pensei.

E ela me respondeu. Era seu filho adotivo, que, desde os quatro anos com ela, teria vindo direto da China para o Brasil, em virtude da nacionalidade do pai, brasileiro. As pessoas no ônibus ao seu redor se assustavam. De quando em quando, ela cantava em chinês alguma musiquinha de ninar. Não estava bem, com toda certeza. Mas também não era maluca.

Como definir loucura? Parecia mais uma alma penada, que, ainda assim, gozava de valores em comum com o resto da sociedade. Afirmava gostar de músicas alegres, procurar a alegria. E continuava a cantar. Uma mulher, sentada ao seu lado, do outro lado do ônibus, cerrava os olhos e punha-se a fazer o sinal da cruz. Olhava para mim e mencionava, por meio do velho sinal com o dedo, algo como: "essa não bate bem"!

Depois que a susposta louca saiu do ônibus, essa senhorinha, de uns sessenta e poucos anos, olhou para mim e o resto dos passageiros e sentenciou: "pra mim ela tá possuída!".

Foi uma análise antropológica aquele percurso.

E por que a "louca" é a louca? Por que ela é louca? Por que ela não pode simplesmente falar sozinha? Quem disse que para ser louco é preciso falar sozinho?

Pode parecer estranho, mas às vezes teimo em pensar: quem são os loucos? O que é loucura? Muitas vezes chego a pensar que há muitos loucos sãos e muito mais sãos loucos. Essas convenções sociais sempre existiram e observá-las é no mínimo curioso. O díficil é constatar o quanto é díficil ultrapassar a intolerância estabelecida.

domingo, 13 de setembro de 2009

Imagens de um domingo


Voei desde cedinho...


...esperando o tradicional almoço de domingo...


...olhava a paisagem de dentro do ônibus...


...enquanto tomava um solzinho...


...algumas formas me chamavam atenção...


...outras eram piegas...


...muitas, impactantes...


...algumas poucas intrigantes...


...e curiosas...


...quase sempre, jornalísticas, a meu ver...


...me identificava com as decididas...


...e ria daquelas vivas!

Em ordem...

Marc Chagall
Henri Matisse
Eugène Atget
Pierre Bourcher
Germaine Krull
Germaine Krull
Mapplethorpe
Mapplethorpe
Kertész
Kertész
William Klein
William Klein

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobre relações assimétricas



Ouvi dizer de alguém muito querida que todos os relacionamentos são assimétricos. Se não o são agora, serão em alguma fase. Porque sempre alguém tem de gostar mais do que o outro.

Amizades podem ser assim: há sempre o caso daqueles que ligam e dos que recebem as ligações. Os que são admirados e os que admiram. Os que dominam e os que se sujeitam. Há também o caso daqueles que contam tudo e não ouvem nada. O dos que ouvem e não se abrem. Ou dos que não contam e nem ouvem. Funcionam como grandes bolhas fechadas em que o mundo já não pode mais atravessar.

Há ainda o caso dos encontros fortuítos, cheios de entrega e intensidade, onde grandes caixas de diálogo parecem se abrir espontaneamente e sobrevoar nossas cabeças; mas que, na verdade, acabam por acontecer com menos frequência do que desejamos. E nem sempre a culpa é nossa. Muitas vezes é do tempo. Da falta dele que nos leva a bloquear tentativas aleatórias que irrompam no meio de uma rotina já demarcada. Porque às vezes, mesmo que involuntariamente, nos fechamos ao inusitado. O que é uma pena, diga-se de passagem.

No amor a coisa parece ser ainda mais engraçada - ou sádica, leia-se como quiser. Quem nunca conheceu alguém que praticamente não vivesse sem o outro? Ou alguém cuja identidade já não se reconhecia mais, de tão borrada? Quem não viu pessoas reluzirem e apagarem numa rapidez absurda?

Por outro lado, quantos são os que de fato sabem que não sabem o que querem? E nesse meio tempo, o do não saber, levam a energia e o gosto de si próprios e, pior, de seus companheiros. Há também aqueles que não se valorizam e ficam a mercê de, bem, pessoas que têm a sorte de tê-los e o azar de serem quem são. Há também os que se doam, sem medo. Pegar ou largar, sempre do mesmo jeito.

No fim, eu me pergunto, porque as pessoas - e nelas eu me incluo - reclamam tanto de tudo! Se, mais no fim ainda, tudo não passa de uma mesma música, que perpassa a vida de todos, em alguma fase da vida, e cujas grandes possibilidades só nos basta enxergar?

Porque se é pra viver, que seja de verdade. E de preferência, com simetria.