domingo, 20 de setembro de 2009

Loucura

Ela corria desajeitada, vagarosa. Fazia sinal com as mãos para o motorista do ônibus parar; na verdade, saltitava, o que garantia àqueles segundos a impressão de tomarem mais tempo do que na verdade duraram.

Entrou no ônibus.

Pediu autorização para o motorista para fazer qualquer coisa - não era possível compreendê-la direito. Sentou, não sem antes examinar o assento a procura de alguma coisa, e dar-se a falar desatinadamente, misturando, ora português, ora chinês. Não devia ser burra. Louca? Talvez. Em seu relato, muitas citações a um nome: Tai. Quem seria Tai? Pensei.

E ela me respondeu. Era seu filho adotivo, que, desde os quatro anos com ela, teria vindo direto da China para o Brasil, em virtude da nacionalidade do pai, brasileiro. As pessoas no ônibus ao seu redor se assustavam. De quando em quando, ela cantava em chinês alguma musiquinha de ninar. Não estava bem, com toda certeza. Mas também não era maluca.

Como definir loucura? Parecia mais uma alma penada, que, ainda assim, gozava de valores em comum com o resto da sociedade. Afirmava gostar de músicas alegres, procurar a alegria. E continuava a cantar. Uma mulher, sentada ao seu lado, do outro lado do ônibus, cerrava os olhos e punha-se a fazer o sinal da cruz. Olhava para mim e mencionava, por meio do velho sinal com o dedo, algo como: "essa não bate bem"!

Depois que a susposta louca saiu do ônibus, essa senhorinha, de uns sessenta e poucos anos, olhou para mim e o resto dos passageiros e sentenciou: "pra mim ela tá possuída!".

Foi uma análise antropológica aquele percurso.

E por que a "louca" é a louca? Por que ela é louca? Por que ela não pode simplesmente falar sozinha? Quem disse que para ser louco é preciso falar sozinho?

Pode parecer estranho, mas às vezes teimo em pensar: quem são os loucos? O que é loucura? Muitas vezes chego a pensar que há muitos loucos sãos e muito mais sãos loucos. Essas convenções sociais sempre existiram e observá-las é no mínimo curioso. O díficil é constatar o quanto é díficil ultrapassar a intolerância estabelecida.

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