sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Das coisas que pensei em escrever

Pensei em escrever tantas coisas durante a semana...

Tudo começou no meu café da manhã quando olhei a capa do jornal. Que cena mais nauseante, humilhante, animalesca, doída.

Chocante.

"Um homem é achado morto em um carrinho de supermercado". Assim.

O sujeito se levanta, bem cedo, se arruma, pega seu dinheirinho contado, vai ao supermercado. Na porta, não dá de cara com a promoção do dia, tipo "lagarto 3,90 o kg!". Ao contrário, dá de cara com um homem, de seus aparentes quase quarenta anos, a julgar pela foto, morto a tiros, dentro de um carrinho de supermercado.

Nas explicações sobre a morte: confronto com traficantes. Saldo de mortos de três policiais militares, três moradores do Morro dos Macacos, local onde os confrontos ocorreram e dezenove suspeitos de envolvimento com o crime. Vitória! Menos policiais mortos do que potenciais criminosos.

Deveremos mediar o sucesso de acordo com os números de mortos de cada lado? Sabe, até quando essa hipocrisia vai durar? Sem mais.

...

Pensei em escrever também sobre comunicações e artes. E os embates que travo dentro de mim ao conviver com esses dois mundos. E com esse espaço que nos separa. Com essa realidade e com essa utopia que nos separa. Às vezes esses dois mundos se cruzam e, aí, sempre é tudo muito estranho. Sinto como se fosse impossível um diálogo de fato. Uma comunhão. Na correria dos encontros, é sempre o que nos separa que se evidencia. Como um rio e suas margens. Esse espaço, esse espaço entre a vivência e o canil, como se todos os jornalistas fossem para a Globo e todos os artistas fossem encenar Brecht. É o que sinto, às vezes. Mas que sei que não é a realidade.

...

Pensei em escrever sobre uma tarde chuvosa, pós uma festa intensa. Sobre andar segurando o guarda-chuva nas ruas molhadas de São Paulo, em seu frio desproposital de outubro. Sobre estar com blusa de lã e adentrar um daqueles prédios antigos, cinza, com piso quase amarelado de manchinhas pretas, com grades verde-escuro e elevador velho. Sobre uma república desorganizada, muitos livros em uma estante, pinturas meio infantis a decorar a sala; copos sujos sobre a mesa. Cadeiras espalhadas, um banheiro estudantil aonde algum tipo de luxo já existira, previsto na forma de uma banheira. Pensei em escrever sobre estar ali, com aquelas pessoas, que certamente posso imaginar daqui uns vinte anos e estar feliz, desde já, por ter feito parte daquilo. Penso em um filme: câmera na mão, muitos cortes rápidos, personagens diversas. É interessante e é agora. É uma espécie de embrião, de nostalgia não vivida, que toma forma. É também, aconchegante e fria, São Paulo.

Um comentário:

Maria Joana disse...

Minha cabeça passou nessa semana pelas mesmíssimas coisas que você pensou em escrever.
Mas eu só pensei, não pensei em escrever.

eu...