sábado, 14 de novembro de 2009

Coisas a se pensar...

Saiu o resultado das "eleições" para reitor da USP e, por mais que ainda existissem esperanças do esperado não se concretizar, o governador José Serra não deixou por menos em sua escolha, vinte anos depois da última vez em que o primeiro colocado da lista tríplice não foi o escolhido para reitor. João Grandino Rodas, diretor da Faculdade de Direito e segundo colocado, foi o escolhido.

Humilhante, para o primeiro colocado, não ter sido escolhido. Afinal, fica, se ainda é possível, mais do que clara a ingerência governamental dentro dos processos internos da Universidade. A troco de quê existe uma votação para escolhar quem os supostos professores mais "qualificados", membros do papado eleitoral uspiano, vulgo Conselho Universitário (CO), elegem, se no final o resultado de sua opção é ignorado pelo governador de Estado? É no mínimo ridículo...

E como salientou na Folha de S.Paulo de hoje o professor da FFLCH Renato Janine Ribeiro: cria-se um conflito ainda maior dentro da Universidade, que já tem um problema crônico de não representação de funcionários e estudantes nas instâncias deliberativas, o fato do reitor eleito não ter sido sequer o mais votado pelo CO.

Afirma o governador que meramente por motivos curriculares, dada a extensão do currículo de Rodas - em sessenta e quatro anos de vida do candidato, muito mais velho do que seus concorrentes - foi feita a escolha. Entretanto, a afirmação não resiste a uma análise mais profunda dos fatos.

Rodas tem ligações explicítas com a alta cúpula tucana, fez parte da equipe de governo durante o mandato de FHC e conquistou o prestígio do partido com a desocupação relâmpago da Faculdade de Direito em 2007, quando no mesmo dia chamou a PM para retirar estudantes e funcionários do prédio. Também na Folha de S.Paulo de hoje, o primeiro colocado, diretor do Instituto de Física de São Carlos, salientou o fato de que seus esforços para que o governador de São Paulo se interasse de seu projeto para a reitoria foram todos em vão.

Só temos a lamentar: um processo que denominam "eleição" em que são legitimadas as diferenças e a hierarquia entre os membros da Universidade - não só entre professores, funcionários e alunos, mas entre os próprios docentes - e em que os interesses estritos de produção de conhecimento da Universidade são aliados às politicagens do ocupante do cargo de governador da vez. Completamente estapafúrdio, para dizer o mínimo.

PS: e quando utilizam o velho argumento, para não se democratizar a Universidade e a eleição de seu representante máximo, de que, "bom, se é pra votar, que votem todos os contribuintes do Estado, então", tudo se resume a uma simples prerrogativa: se todos pudessem escolher aonde estudar, ou seja, se todos tivessem acesso à USP, poderiam então votar para reitor. Mas como não entram e nem votam, utilizam-se das mazelas do país para evitar que os que conquistaram a chance de estar na USP, participem de sua construção. Ou seja: que todos tenham a chance de escolher aonde estudar e em quem votar, se quiserem, e não que não se democratize uma Universidade, a custa da desculpa esfarrapada respaldada na ausência de chances da maioria.

Um comentário:

Alice Agnelli disse...

muito bom o que vc escreveu, tulio.
muito ruim o que aconteceu, acontece e segue acontecendo.

sorte que pelo menos temos coisas a se pensar e, para isso, pessoas pensantes como vc.