segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Do começo ao fim




A velha idealização. Às vezes simplesmente não sei como me portar diante dela. Na vida real, até sei. Temos que saber. Afinal, se não soubéssemos, o que seria de nós, pobres humanos? No cinema, a coisa fica mais difícil. Idealização inesperada em dose excessiva é golpe baixo.

Esse é o caso do esperado filme Do começo ao fim, cuja temática é a relação incestuosa e homossexual entre Francisco e Tomás, filhos da mesma mãe com pais diferentes. O longa teria tudo para decolar e abordar questões realmente interessantes nos campos social, cultural e político.

No entanto, se existe uma palavra que defina com precisão a sensação pós-filme, esta palavra seria artificialidade. Os irmãos não passam por nenhum tipo de dúvida, constrangimento, desesperança ou frustração em todo o filme. O espectador termina o longa se perguntando como se constituiu a formação do relacionamento entre os irmãos, a afirmação de sua homossexualidade e, obviamente, todos as inimagináveis problemáticas daí resultantes.

É incrível refletir sobre a proposta inicial do filme. Mas é absolutamente frustrante reconhecer a falta de desafios, de questionamentos, a superficialidade das personagens contornada por toda a preocupação estética do longa - que se reflete na brancura de todos os ambientes clean que os personagens frequentam, nas formas de seus corpos, seus sorrisos e toda a fotografia do longa.

Não há em Do começo ao fim momentos em que a claridade não esteja presente. O filme ofusca, de tanta segurança e otimismo. O que poderia ser maravilhoso, se não saíssemos do cinema pensando: "a vida não é sempre assim".

Outro ponto negativo é a trilha sonora do filme. Tudo leva a crer que estamos chegando perto de uma tragédia. Que, no entanto, nunca chega a se concretizar, o que garante à escolha da canção tema do longa uma boa dose de descolamento do filme.

De qualquer forma, é importante o papel que o longa cumpre. No Brasil, não há debate institucionalizado sobre as questões GLBT. As paradas gays, antes instrumento de mobilização e de confrontamento na luta por direitos e igualdade, hoje tornaram-se esvaziadas em toda a espetacularização da abordagem midiática e no insuficiente envolvimento dos participantes da parada com a causa gay.

Para quem se interessar mais, vale a pena ler a fantástica crítica de Heitor Augusto, colunista do Cineclick:

http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/do-comeco-ao-fim/id/2329

3 comentários:

Du Graziani disse...

Não deu tempo deu ler seu post. Eu o farei assim que acordar. Mas muito obrigado pelo teu comentário no meu. E otra coisa, aquele nao foi nem perto do meu balancete do ano. Ainda tem chão ... hahaha

bju

Silas Luiz disse...

Oi Túlio, tudo bem contigo?

Depois de muito tempo, resolvi visitar seu blog e não é que encontrei o que procurava?! Assisti ontem ao filme "Do começo ao fim" e buscando pessoas com quem conversar sobre.

Pelo que li, vc não faz uma avaliação muito positiva do o filme. A maioria das pessoas com quem conversei também não. Mas acho que pelo menos por enquanto eu serei um de seus defensores.

Putz, reconheço que há muito de discutível no filme. As cenas iniciais de parecem meio descoladas, a cena em que o Thomas joga as coisas que estava na mochila do Franscisco no chão foi muito, muito fraca. A cena do banho dos dois também não curti. A cena das tintas pra mim foi a pior. Eu até entendo a proposta de mostrar a dificuldade do pai em lidar com a situação, mas, nossa!, deixou muito a desejar.

Mas super concordo que a trilha sonora aponta prum desfecho que não se realiza. E acho que a narração em off feita pelo irmão mais novo contribui pra isso. O tom como ele fala, "éramos felizes", "naquele tempo" me deu a certexa desde o início de que o filme não acabaria bem. Foi muito tenso assistir, eu tinha certeza de que o mais velho morreria. E afogado. Passei parte do tempo sofrendo antecipadamente.

Mas por outro lado, vi cenas duma beleza ímpar. A cena da mãe observando os dois no hospital, seguida da cena em que está sentada na praia, a cena do sofrimento dos dois logo após descobrirem da proposta pra viagem pra Rússia. Esses silêncios... Ou ainda um outro recurso interessante, eu achei o máximo não ouvir as conversas dos personagens na balada, ter que imaginar os diálogos e itenções pelos movimentos dos corpos.

E tem ainda a idealização, a tecla em que todo mundo bate. Um amigo me disse que o filme é imaculado demais, esterelizado. Talvez tenha faltado coragem. Mas como que argumentos defender uma relação como essa? Mas por que defender? Por que ter de ir à luta? Por que uma saga de auto-afirmação com um provável final trágico? Não seria o esperado? Mas nós já temos um "Milk".

Acho que no fundo o que mais me pegou no filme foi justamente a maneira como a relação foi trabalhada. É lógico que no "mundo real" não seria assim. Foi tudo muito fácil, eles não tem vizinhos, parece não ter amigos, a família morre, não tem probelmas com grana. O amor é tal que eles se bastam. E a gente que não é bem assim. Mas o fato deles não terem que lutar pra nada, da relação não ser um tabu, de não obedecer a nenhuma lógica normalizadora, puta, é foda. Não se levanta bandeiras, não é uma narrativa de uma relação marginal contada tomando como ponto de referência "os normais". Eles não não estão em oposição a nada, são o que são e só. Eu adorei ver (e pode muito de alienação ou um milhão de outras coisas nisso) uma relação amorosa que é apenas uma relação amorosa.

Abração e boas férias!

Tulio Bucchioni disse...

Silas!

Primeiro de tudo: obrigado pelo seu comentário! Estava realmente afim de conversar com alguém que o filme tivesse provocado algum impacto também.

Bom, na verdade, não fiz uma avaliação tão positiva, mas também não desmereci totalmente o filme. Algo nele realmente me provoca, me instiga.

Acho que tem um pouco a ver com a estética geral do filme porque o que eu fiquei pensando é que, mesmo se a relação filmada fosse entre um casal heterossexual, ainda assim o filme me chamaria atenção. Ou seja, mesmo que fosse ainda menos problemático e filmado do mesmo modo, ainda assim acho que eu seria instigado de alguma forma pelo filme.

Bem, as cenas que vc citou realmente foram um pouco desconexas, fracas. Até entendo a proposta do diretor de fazer uma narrativa mais interpretativa, menos condutiva, admiro muito isso, me lembra um pouco uma estética de filme europeu, ele tenta provocar a reflexão. Acho que o problema realmente é o conteúdo das cenas e não o seu formato. Bem, mas na cena das tintas, uma coisa que eu me peguei pensando foi: imagine se fossem duas garotas. Será que a aceitação do pai não seria totalmente diferente?

É incrível perceber o quão patriarcal é a nossa sociedade. E mais ainda: o quanto a cultura social pauta a vida das pessoas. O quanto somos cegos para os limites que a cultura nos impõe.

Nossa, pode crer, eu tbm achei que o mais velho morreria afogado. Tive mto essa ctz. Concordo que houve cenas mto bonitas. Eu particularmente fiquei tocado com a cena do chuveiro. Achei mto bacana. Mas tbm acho que houve cenas mto dispensáveis, tp aquela deles conversando pela internet. O silêncio era realmente fantástico. Acho incrível essa coisa das imagens nos passarem tanto sem nenhuma palavra. É como na vida. Eu adoro esse recurso.

Concordo com as suas dúvidas sobre idealização, um desfecho previsível, a falta de coragem, a não necessidade de lutar. Às vezes. Mas é que, bem, me incomodou o fato de tudo ser absolutamente idealizado no filme. Gostaria mto que a vida fosse assim. E não acho que o cinema tem de ser fiel a vida a td instante. A cada cena. É só que a proposta do filme, que é de uma realidade absurda, parece merecer mais do que uma simples história de amor. Acho que o filme deixou a desejar em termos de reflexões instigantes justamente devido ao seu desligamento do mundo real. Acho que a fantasia poderia ter sido mais inspiradora. Mais ousada, talvez. A imagem que fica um pouco é a de que basta vc ter um puta corpo, morar em um lugar legal e tudo será perfeito. Acho que o filme corrobora um pouco para essa ilusão e, a meu ver, é nisso que o diretor peca.

Mas, sim, concordo que uma relação amorosa por ela mesma talvez seja o que todos procuramos. E isso, é, ao mesmo tempo, maravilhoso e opressor. Parace algo meio novelesco, que não vai acontecer na vida real, mas que ainda se continua a alimentar. Não sei, tenho sentimentos mistos. Acho bonito e extremamente desejável, mas me incomoda o fato de ser algo praticamente impossivel.

Bom, é isso!haha