terça-feira, 17 de novembro de 2009

Menina do século XIX

Era à tarde, estavámos no shopping. Fazia calor e ela trajava jeans. Tinha o cabelo de sempre; sem desafios. Voltávamos ao mesmo lugar de antes: aquele de nossa adolescência entrecortada, de visitas esporádicas, cheias de confissões. Eram ótimas e eram um alívio.

Dessa vez, havíamos crescido. Passaram-se anos, entramos na faculdade, mudamos de cidade. Eu, agora a 600 km, em uma cidade beirando os 20 milhões de habitantes. Ela, a 40 km de casa, com direito à voltas todo o fim de semana. E as mesmas pessoas de sempre, agora grávidas, drogadas, histéricas. Era uma realidade e não a era. Poderia muito bem ser um laboratório antropológico.

Para ela, agora, uma mulher deveria gastar apenas com os seus luxos; aos seus homens pertenciam as contas da casas. O sustento. Transparente como água. Explicitamente. Não se casaria com um homem pobre. O século XIX estava ali e não sabia. O século XIX vencera e corrompera, sequer se fora alguma vez vencido, a última das moicanas.

Era triste e era aceitável. Não haviam muitas possibilidades ali. Mesmo sabendo disso, sempre esperera o contrário...Talvez fosse apenas ingênuo. Talvez houvesse dentro de si uma esperança maior, que ultrapassava a mesquinharia corriqueira e enxergava algo de diferente nas pessoas que de alguma forma o marcavam. Não queria dar-se tanto crédito; era, entretanto, um escape, para poder resistir.

2 comentários:

gi disse...

queriiido, quase chorei lendo esse texto! muito bem escrito por sinal!
saudades imensas de vc!
beijo

Tulio Bucchioni disse...

ah gi...que saudade infinita de vc! mesmo!!!
te amo mto!