quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Almodovár Vermelho



Definitivamente só agora entendi Volver, do Almodovár. Bem, por mais que a cada vez que você assista um filme novos significados e novas formas de se relacionar com o filme sempre surjam, acho que só agora passei a compreender melhor - e apreciar - Volver.

A história é forte e mesmo que tenha um certo apelo melodramático fantástico, a direção de Almodovár é tão precisa ao conduzir a narrativa que se torna possível se descolar da história iminente e passar a realmente problematizar o que é abordado em cena.

Ou seja, toda a situação de uma construção familiar, de costumes, de memórias, de traumas de infâncias, de segredos de família - e que família não tem os seus? - tudo envolvido em uma direção de arte fantástica em toda a sua simplicidade ao lidar com as cores. Nada nos ambientes em que são filmadas as cenas dos filmes de Almodovár soa impossível.

O trabalho de enquadramento de azulejos coloridos, frutas, legumes, cadeiras e outros objetos é extremamente detalhista, sem, no entanto, tornar-se inverossímel. Pode-se dizer o mesmo das personagens de seus filmes: gordas, magras, baixas, altas, velhas e novas. Sem nenhum apelo fora da realidade.

É incrível poder apreciar seu trabalho, um verdadeiro cinema de autor, identificar suas angústias, seu olhar atento e minimalista, seu toque para com a construção da sociedade espanhola e de suas relações sociais, sua crítica bem-humorada, sem mascarar-se. Um ótimo filme.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Tempo



Porque paradas, só ficam as estátuas. Às vezes, nem elas. Queríamos poder voltar a abraços, sentimentos, intensidades. É impossível. Melhor deixá-los guardados, servindo como parâmetros para outros momentos, no reino das memórias.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pedro Almodovár I



Tudo sobre Eve soa estranho para Manuela. Como seria possível alguém saber tudo sobre outra pessoa? Esse é o primeiro questionamento que nos fazemos quando assistimos Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodovár.

O filme nos revela desde cedo o que faz um longa de Almodovár ser bonito de se ver, independente de seu conteúdo: uma estética apurada, com um trabalho intenso de dedicação às cores, ângulos ousados, posicionamento de câmera estratégico. O diretor consegue captar sem qualquer toque de surrealismo o que há de insólito no cotidiano. É como o trabalho de um fotógrafo minimalista, que pensa em todas as variáveis de sua cena antes de tirar sua foto. O que torna seus filmes, antes de mais nada, filmes bonitos de se ver.

O conteúdo, como sempre, gira em torno do que Almodovár sabe fazer melhor: dissecar todas as contradições envolvendo seres humanos e suas histórias de vida - mesmo que, para muitos, isto custe deixar de assistir filmes do diretor. De quando em quando, ouvimos pessoas dizerem que tudo "é mais do mesmo". Mas aí reside o diferencial do diretor: seu cinema de autor.

Almodovár consegue humanizar classes marginalizadas, como usuários e traficantes de drogas, travestis e prostitutas, de forma bastante verídica, sem cair em um idealismo ou em uma caricaturização excessivos, colocando sempre, os chamados "excluídos", em contraponto à classe média e alta da sociedade espanhola. É possível identificar também no trabalho do diretor e, especialmente em Tudo sobre minha mãe, sua abordagem incessante acerca dos temas da sexualidade humana para além de barreiras impostas pela cultura.

De uma forma bastante natural e sincera, ou melhor, livre de hipocrisias, as personagens do longa vagam em busca de si mesmas, todas complexas em sua obstinação e inquietação na maneira com que levam a vida e, dentro de toda a sua desorientação ou orientação marginal, é possível encontrar valores autênticos, todos pautados por um único ponto em comum: o salto sobre o vazio. Jean-Luc Godard disse certa vez: "[...]aquele que salta sobre o vazio não tem mais contas a prestar àqueles que o observam."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Por um semestre perfeito...na FFLCH

Meu semestre acaba de terminar. E eu estou realmente muito feliz! E não é porque o semestre acabou, porque vou entrar de férias, vou voltar para casa, vou poder assistir milhões de filmes, comer comida da mãe, etc. Simplesmente porque esse semestre foi PERFEITO! Na FLLCH...

Foram duas matérias simplesmente fantásticas, que me proporcionaram momentos de reflexões inacreditáveis, que me desafiaram a cada aula, que me propuseram novas formas de olhar o mesmo, novas significações, novas amizades, novas maneiras de me portar e de observar outras pessoas se portarem no espaço público, novos valores...

A vida que se renova na USP a cada semestre, que nos deixa extremamente saudosistas, nostalgicos pelo que acabou, que nos faz olhar para frente e apostar no próximo semestre, na próxima matéria, nos próximos desafios, no próximo crescer, no próximo mudar, no próximo se entender, entender os outros, entender a vida, nesse ciclo incrível de reciclamento permanente, principalmente nessa fase de graduação. Toda essa vitalidade que nos faz olhar para as coisas que deram errado e pensar: de quê adianta se preocupar com isso?

Penso no jornalismo, em todas as frustações por que passei durante o ano - e notadamente durante esse semestre especificamente - e me pego pensando: na verdade, só redescubro a cada dia mais o porque entrei no jornalismo. O quão diferente é o jornalismo em que acredito e o jornalismo que é praticado hoje. O quanto essas matérias da FFLCH me fazem olhar para o que antes parecia condenado e encontrar forças de acreditar que o impossível é possível, que existem as brechas, que existem os pormenores, que existe uma "história a contrapelo" como previa Walter Benjamin.

Incrível, incrível, incrível!

A todos que fizeram "Benjamin, Brecht e antropologia", obrigado por seus comentários, por nossas trocas de idéia a cada aula, por nossas divagações, por nossa seriedade, por nosso entusiasmo, por nossa vontade de ler e reler o mundo através de cada texto estudado, por nossa crença em algo que seja diferente do que está aí dado.

Felicidade.

PS: à ECA, se esse semestre foi tenebroso, com direito a professor pedindo pra aluno fazer pergunta para ser avaliado em prova, o que fica é a mesmíssima sensação: ainda há muito a ser feito. Por nós, alunos, que queremos e pensamos algo diferente do que a Escola de Comunicações e Artes nos propõe atualmente.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Poema do Carneiro

Planificação. Plenificação. Superficialidade. Obviedade.

Liberdade. Complexidade. Contradição. Detalhes. Questões. Vida. Regras. Quebra.

Profundidade. Profundidade. Profundidade.

Simplicidade. Sem pequenos prazeres. Intelectualidade. Conformismo. Vida burguesa.

Deslocamento. Inadequação. Adaptação. Descobertas. Descobrir-se. Descobrindo-se.

Saídas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Irmãos



Abriu a porta da geladeira e, em vez de localizar a caixa de leite que procurava, deu de cara com sua irmã. Em formato de sensação, sentimento e pensamento. Pegou-se se questionando: estaria indo, dali a duas horas, para a casa de sua irmã, que mora há seis anos em Bauru, interior de São Paulo. Até aí tudo bem. Tudo ótimo, aliás.

Mas a coisa foi um pouco mais além, em toda a profundidade surpreendente - e perturbadora - de segundos efêmeros parados em frente à geladeira para achar a caixinha de leite. Caramba, será que há dez anos atrás eu poderia esperar por isso? Eu, morando em São Paulo, já há dois anos, e minha irmã morando em Bauru há oito anos. Nós nos visitando, se ligando todas as semanas. Estando longe um do outro. Crescendo.

Foi um pouco assustador. Há pouco tempo morávamos juntos, éramos crianças. Tinhamos milhões de dúvidas idiotas sobre o futuro - não que elas ainda não tenham desaparecido. Mas gostávamos de especular sobre o futuro. E sobre sair de uma certa cidade. E agora, aqui estamos. Incrível. É super legal e, de repente, por alguma circunstância xis poderia ser tudo diferente. E, também, muito legal.

Bom, o fato foi que, depois daqueles segundos, de muita pressa, afinal já estava atrasado para pegar meu ônibus, o que me peguei pensando foi: aonde estaremos daqui a dez anos? Como? Com quem? Não gosto muito das previsões, mas não deixo de ficar curioso de qualquer jeito. Ainda mais quando se trata de alguém que é, digamos assim, a sua outra metade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Perdas, ganhos e novas fases


Uma fase se encerra e outra começa. Mas o mais importante: as melhores coisas continuam iguais.

É incrível como na vida conseguimos reunir o que foi bom e, em cada momento novo, levar sempre o que vale a pena, o que nos acrescenta, o que nos enriquece e nos faz se sentir vivos para as fases posteriores em que mergulhamos a todo momento.

E é mais incrível ainda saber que, as pessoas envolvidas com esse sentimento, sabem que isso é recíproco e verdadeiro. Sinto-me leve...

Quem não foi feliz aqui?

Todos sabemos que fomos. E seremos. E recordaremos com muita saudade. Porque o que fica, é sempre o lado bom. E é assim que eu pretendo levar a vida, sempre. Afinal, do contrário, para que viver? Vivemos pelo prazer e por mais nada. Se há um sentido embutido debaixo do pano, é este em que acredito.

Ah, um próximo ano. Com novos desafios para todos. Nessa fase absurdamente intensa, efêmera e encantadora em que nos encontramos.