quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pedro Almodovár I



Tudo sobre Eve soa estranho para Manuela. Como seria possível alguém saber tudo sobre outra pessoa? Esse é o primeiro questionamento que nos fazemos quando assistimos Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodovár.

O filme nos revela desde cedo o que faz um longa de Almodovár ser bonito de se ver, independente de seu conteúdo: uma estética apurada, com um trabalho intenso de dedicação às cores, ângulos ousados, posicionamento de câmera estratégico. O diretor consegue captar sem qualquer toque de surrealismo o que há de insólito no cotidiano. É como o trabalho de um fotógrafo minimalista, que pensa em todas as variáveis de sua cena antes de tirar sua foto. O que torna seus filmes, antes de mais nada, filmes bonitos de se ver.

O conteúdo, como sempre, gira em torno do que Almodovár sabe fazer melhor: dissecar todas as contradições envolvendo seres humanos e suas histórias de vida - mesmo que, para muitos, isto custe deixar de assistir filmes do diretor. De quando em quando, ouvimos pessoas dizerem que tudo "é mais do mesmo". Mas aí reside o diferencial do diretor: seu cinema de autor.

Almodovár consegue humanizar classes marginalizadas, como usuários e traficantes de drogas, travestis e prostitutas, de forma bastante verídica, sem cair em um idealismo ou em uma caricaturização excessivos, colocando sempre, os chamados "excluídos", em contraponto à classe média e alta da sociedade espanhola. É possível identificar também no trabalho do diretor e, especialmente em Tudo sobre minha mãe, sua abordagem incessante acerca dos temas da sexualidade humana para além de barreiras impostas pela cultura.

De uma forma bastante natural e sincera, ou melhor, livre de hipocrisias, as personagens do longa vagam em busca de si mesmas, todas complexas em sua obstinação e inquietação na maneira com que levam a vida e, dentro de toda a sua desorientação ou orientação marginal, é possível encontrar valores autênticos, todos pautados por um único ponto em comum: o salto sobre o vazio. Jean-Luc Godard disse certa vez: "[...]aquele que salta sobre o vazio não tem mais contas a prestar àqueles que o observam."

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