Dizem que as palavras esfriam caso você demore a pô-las à mostra. Concordo. São efêmeras. Se dissolvem no ar ao menor piscar de olhos para separar um parágrafo de outro. Faz tanto tempo que não sinto as palavras caminharem com o pensamento... Ou melhor, com o sentimento. Difícil. Falta de tempo. Ou insensibilidade de tempos insensíveis.
Férias. Volto para casa, finalmente. Tudo está igual. Os mesmos porta-retratos - que variam suas posições, na lógica de um anagrama cujas letras mantém-se sempre as mesmas, apenas revezando-se em seus lugares - o mesmo cheiro, o clima abafado de sempre. A poeira da avenida. É lindo e é trágico.
Que saudade do tempo que passou! Faz bem olhar para trás agora. E é lindo pensar que novos horizontes se traçam a minha frente, o tempo todo. Sucessivos e efêmeros, como as palavras. Intensos.
Abro o armário e procuro mais fotos. A luz do dia começava a desaparecer; prefiro não acender as luzes e aproveitar a ressaca do final da tarde, ouvindo o barulho dos carros lá fora, que logo passaria, assim que as pessoas chegassem em suas casas e a cidade caísse no marasmo da noite. O vento me traz cheiros, que retomam sensações, que se intensificam ao relembrar de cada foto.
Calma, é só o primeiro dia. Como é ruim ser manteiga derretida desse jeito! Na verdade, nem sei se manteiga derretida. No fundo, aposto que não.
Penso em ligar para alguém. Algum dos amigos que não vejo há meses e de que, de um jeito ou de outro, sinto falta e me lembro sempre, no decorrer da vida longe. Chego a discar, ouço chamar, mas... hesito.
Esse momento é seu. Volto às fotografias, aos sentimentos, ao pé descalço no sofá macio; à camiseta regata em um dia de inverno. Fico por ali dez, vinte, trinta minutos. As costas começam a doer, as fotos se tornam indecifráveis dado seu estado de deterioração e a falta de luz. A campainha toca; as compras chegaram.
Hora de desvencilhar-se de pensamentos, cheiros e sensações. O pé na terra volta à ativa. Por pouco tempo, espero, dada a fertilidade das férias.