terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bandeira

Tudo em Inhambupe me fascina e me cansa. É tão estranho. Sinto uma vontade enorme de produzir sem parar, mas, por vezes, me fogem os meios em meio a tantas reflexões em que me vejo tomado!

O interior da Bahia me intensifica com sua acolhida e me comove com a sua situação. Me torna mais forte e me entristece. A experiência tem sido única, de qualquer forma. Para quem quiser conferir alguns dos textos que a equipe de comunicação daBandeira tem feito, entre no blog oficial: www.bandeiracientifica.com.br/blog

Vamos ver no que vai dar! Boas coisas...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sobre migrar

"Migrar é uma situação criativa. Mas dolorosa. Toda uma literatura trata da relação entre criatividade e sofrimento. Quem abandona a pátria sofre. Porque mil fios são amputados, é como se uma intervenção cirúrgica fosse feita. Quando fui expulso de Praga, vivenciei o colapso do universo. É que confundi o meu íntimo com o espaço lá fora. Sofri as dores dos fios amputados. Mas depois comecei a me dar conta de que tais dores não eram a da operação cirúrgica, mas de parto. Dei-me conta de que os fios cortados me tinham alimentado e que estava sendo projetado para a liberdade, a qual se manifesta pela inversão da pergunta "livre de quê" em "livre para fazer o quê". E assim somos todos os migrantes: seres tomados de vertigem"

Vilém Flusser

domingo, 3 de outubro de 2010

Comer, rezar e amar

Comer, rezar e amar poderia ser muito melhor. O que não é grande novidade quando se trata de adaptações cinematográficas de best-sellers. Ou de best-sellers em si. De um jeito ou de outro, o fato de uma pessoa escolher cair no mundo em busca de algumas respostas é atraente o suficiente para o filme possuir uma ótima razão de ser. E contar com uma boa dose de encantamento sob seus espectadores.

Ao longo de sua trajetória não são poucos os momentos em que simpatizamos com o longa. O ponto fraco é, no entanto, o seu roteiro. Demasiadamente comprido e com diálogos e atuações que não salvam locações maravilhosas e reflexões instigantes. Vale ressaltar a busca de Liz - que realmente existe e é casada com um brasileiro após um ano viajando por Itália, Índia e Indonésia - por sua verdadeira identidade, pelo prazer em viver, tomar decisões, ter pulso e, acima de tudo, encontrar um equilíbrio verdadeiro entre amor, consciência e espírito. Algo por vezes difícil de se combinar.


Fico tocado, ao longo de sua busca, com a necessidade que algumas pessoas possuem de conhecer, de destrinchar curiosidades, modos de vida, personalidades, histórias. De se encontrar encontrando o outro e de selar raízes após se afastar delas. A estabilidade realmente muitas vezes me parece um teto de vidro. Pelo menos até os quase 40, eu costumo dizer. Há tanto para se viver, para se conhecer, para aprender. Só mesmo estando disposto e aberto. Caso contrário, pode-se viajar, andar léguas e, como muitas pessoas que conhecemos, não enxergar nada.

Algo que me instiga também é o quão gratificante se torna provar para nós mesmos que somos capazes de estar sozinhos e bem. De vivenciar experiências incríveis sem, no entanto, nos tornarmos demasiadamente individualistas. Pois é exatamente o contrário do individualismo. Cotidianamente, há situações na vida que exigem de nós mesmos um conhecimento individual muito grande. Um prazer em ser e vivenciar experiências solitárias. E que forma melhor do que viver com intensidade esses momentos senão passando algum tempo consigo mesmo? Viagens são ótimas para isso. É quando você pensa, se articula, se conhece. Tudo isso conhecendo o mundo e o outro - por isso desde já algo bem distinto de um individualismo ou não entrega.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ahmadinejad na ONU

Hoje li um artigo da Folha comentando sobre a ida do presidente do Irã, o Ahmadinejad, à Assembléia Geral da ONU. Confesso que sempre achei o cara meio porra-louca e inconsequente, mas, gente, preciso dizer que sua fala tinha sim muita coerência.

Um de seus ataques foi ao fato de que, desde 2001, famílias, crianças, mulheres, homens, festas, bares, escolas, casas, cemitérios, em suma, tudo, foi atacado impiedosamente, no Afeganistão e depois no Iraque. Mesmo sem armas de destruição em massa, com o consenso de boa parte do mundo - obviamente das potências européias ditas "diplomáticas" e "democráticas". Ou seja: por 3000 mortos no 11 de setembro, somaram-se em troca centenas de milhares no Afeganistão e no Iraque. E a mídia e o mundo não dá 1/20 da atenção que se dá ao 11 de setembro nos EUA a esse fato...Vergonha do jornalismo e do mundo nesses momentos...

Óbvio, não?! Não haviam torres gêmeas em Cabul ou em Bagda, engravatados, pessoas de língua e sangue anglo-saxão, riqueza, atenção, status, capital concentrado. Pois é, fato triste e sintomático da hipocrisia do mundo em que vivemos. E também de suas inversões, dentre elas o fato de se elocubrar - sempre propositadamente, é claro - em cima da figura de um presidente e sua periculosidade enquanto o que há de muito pior é feito por baixo do tapete. E em nome da pobre da democracia...Os gregos se reviram nos túmulos.

Não se trata de defender alguém aqui. Destruir Israel, como propõe Ahmadinejadi é tanto uma resposta inconsequente e sangrenta como entrar em guerra - ai, guerras! - com Afeganistão ou Iraque. É uma questão de bom senso...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dentro do carro




Estávamos sós. Entre suspiros e receios, em uma tarde, assim, sem nada a fazer, andando dentro de um carro que se locomovia devagar. A canção ao som, doce e carioca, areia frente ao mar de Copacabana, era antiga, quente e suave. Vento em cabelos duros depois de um longo dia de mar. Por do sol sozinho em um abraço de duas pessoas - juntas.

Era como uma lembrança. Saudosista, não se sabe bem por quê, nem de quê. Sabe-se que, agora, essa visão e lembrança soa melhor e mais completa do que aquilo que fora vivido. A vida nos prega peças. E nos prepara, mesmo que inconscientemente, para aquilo que há de vir. De melhor e de mais intenso. Mesmo que, toda vez que alguém ousar tocar aquela música de novo, não seja de outra pessoa, senão desta, que se há de lembrar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Fim de noite

Música de fim de domingo. Na verdade, de final de sexta. Pois é. Me perdi agora: final de sexta, começo de noite, meio do processo? Quem pode saber?!...

Você precisa.

Você precisa.

Você precisa.

domingo, 25 de julho de 2010

Tarde noir

Entramos, nos aconchegamos e sentimos o sol. Sorrisos, abraços, saudades. Os cincos querendo-se ouvir e contar com prazer. Foi-se a tarde, veio a noite e continuamos aonde estavámos. Naquela sala, de pés e sofás no chão, vermelho e desenhos na parede, tudo, sempre, noir. Artístico, epifânico, inteligente. Característico.

Pensei em uma cozinha, uma tarde de verão gostoso, duas crianças correndo, duas pessoas se amando, depois de tantas viagens, tantas experiências enriquecedoras e diferenciadas - ao redor do mundo. Uma paz quarentona.

Volto à realidade. Falamos sobre ciclos, sobre crises, sobre frustrações com o semestre passado. Difícil. Mas, como sempre, da crise e do fundo do poço saem as soluções mágicas e inevitáveis da vida: a reciclagem de sempre, para quem quer. Saber o que não se gosta, já é meio caminho andado, diria Woody Allen. Pois é, tendo a acreditar que sim.

Volto agora, ou melhor, daqui a alguns dias - depois de uma parada mais do que necessária - e penso: a produção é o segredo. A arte, a beleza, o ideal da reflexão que traz uma prática saudável e livre para evoluir. É isso, sem mais segredos.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Nosso Amor de Ontem


O Nosso Amor de Ontem, filme de Sydney Pollack de 1973, com Robert Redford e Barbra Streisand (ao lado) me intriga e me faz muito sentido - de um modo triste, diga-se de passagem. Se bem que um tanto estereotipado, o filme trata dos dilemas de um relacionamento entre uma garota militante de esquerda e um garoto bon vivant, mas bem intencionado, que estudam na mesma Universidade. Katie se sente atraída e logo se apaixona por Hubbell, que apesar de não participar de nenhum tipo de organização coletiva, não deixa de guardar sua admiração por aqueles que se manifestam a favor de uma causa.

E causas a defender era o que não faltava na época em que o filme se passa: o pós-segunda guerra mundial nos EUA. Katie faz campanhas contra a ditadura de Franco na Espanha, a favor do desarmamento nuclear, pela liberdade de expressão. Tudo isso não a impede, no entanto, de se apaixonar e de se afastar do centro de sua pró-atividade, Nova Iorque, para viver uma vida distante de seus ideais ao lado de Hubbell na Califórnia.

E viver essa vida significa conviver e ter amizade com pessoas com valores e hábitos totalmente diferentes, abdicar de pontuações políticas mais críticas, em resumo, se acostumar com a maneira como se diverte, se pensa e se vive de uma maneira hegemônica mais convencional - quando não conservadora. Eis que, quem surpreende é quem menos se espera, o amor. É possível largar sonhos e ideais tão internamente arraigados por alguém que se ama? Antes, será que o amor supera vidas ideologicamente diferentes?

Hubbell, que certamente é estimulado diariamente por Katie a escrever, a refletir e a questionar antigos hábitos de vida e ciclos de amizade, não percebe que, ao contrário de sua companheira, que o respeita e se dispôs a mudar de vida para viver ao seu lado, abdicando de sua antiga rotina nova-iorquina, algumas atitudes tomadas com relação aos ideais e posicionamentos de Katie são capazes de cercear justamente o que ela tem de melhor: sua personalidade. Não se trata de se juntar à mulher em suas atividades; antes, trata-se de respeitar este que é um dos traços de sua personalidade, sua atividade política e cidadã.

Para apimentar a discussão, vale o questionamento: se os papéis se invertessem e Katie fosse o homem da relação, será que esse dilema teria todo esse peso? Será que ela teria de optar entre a atividade política e ficar ao lado de sua mulher? Vale a reflexão.

O filmes traz muitas perguntas importantes e angustiantes à mente. O lugar de quem acredita e luta por uma causa em um mundo certamente cheio de problemas, a paixão por uma atividade transformadora - seja em um coletivo organizado, seja em uma profissão - a possibilidade de relacionamento entre pessoas com referências tão diferentes. Os limites do estímulo mútuo e o início da subjugação de um ao outro. O fim e o relembrar.

Não que, obviamente, esse tipo de relacionamento seja muito especialmente diferente de todos os outros. São apenas outros tipos de conflitos quando o assunto é o relacionar-se de duas pessoas, sempre tão complexo. E maravilhoso, é bom não esquecer.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Atividade e satisfação

Por sorte, dois filmes bons. E totalmente diferentes. Do mais, a mesma certeza: a busca pela satisfação nas atividades em que desempenhamos na vida. Grandes atividades. Lecionar e dançar. E é realmente essa a ordem do dia: satisfação e paixão. Lembro de Almodóvar em Má Educação.

A outra é um Woody Allen dos bons. Sincero, de direção e narrativa simples. Mas profundo em sua sutileza. Para todos aqueles que estão muito certos do que fazem e do que querem, é recomendável, assistam a esse filme. Deixem-se sentir, sofrer, se entregar ao sentimento. No mais, deixem-se viver. Essa é a mensagem principal do filme. Se não está tudo bem, ótimo. Que venha a crise!

Momento de decisão não é mais um daqueles filmes manjados sobre ballet ou dança. Tá certo que o suposto conflito entre vida pessoal e a dança por horas parece demasiado dispensável. E não conflituoso, ao fim. Mas o filme todo é apaixonante. Ame a dança, ou deixe-a. Taí a foto do Mikhail Baryshnikov, bailarino russo famoso no mundo inteiro, que fez um papel no filme.

domingo, 18 de julho de 2010

Nelson e A Serpente


Hoje assisti a uma montagem da última peça escrita por Nelson Rodrigues, A Serpente. Já tinha assistido a algumas montagens do autor antes - Senhora dos Afogados, Valsa Nº6, a qual gostei muito e A Falecida - todas as vezes aqui em Prudente. É engraçado porque há algo no teatro feito aqui na cidade que me parece evocar bastante Nelson Rodrigues.

É sempre intrigante e inquietante assistir a uma montagem teatral desafiadora, como já prefigura qualquer montagem de Nelson. Em especial desta vez, entrar em um galpão mal-iluminado, silenciar por longos e ansiosos minutos e sentir-se parte atuante ao decorrer do espetáculo, dada a formação escolhida para o cenário, foi desde o ínicio uma experiência excitante. Curiosa.

Não sei se de fato inovadora, mas essa tendência das últimas peças a que tenho assistido de colocar o espectador propositadamente cara a cara com os atores, em uma dinâmica de tornar quem assiste quase que parte da narrativa, é bastante interessante. Somos obrigados a nos concentrar. Somos envolvidos, com constrangimento e hesitação que logo se misturam a um desejo de viver o que é visto. De estar lá, ao lado desses personagens reais.

O universo de Nelson me incita e me provoca ruídos. Gosto de sua ousadia, gosto de sua irrupção e volúpia justas; mas me incomoda talvez algo em sua abordagem do sexo e das relações amorosas. Algo como um zumbido que não consigo reconhecer direito. Reconheço o seu valor, mas sinto algo que me soa exagerado, quase naturalista, às vezes. Não sei - nenhum problema com o naturalismo; é algo subjetivo.
Fico com medo de criticar, ao não conhecer mais elementos de sua obra, mas, de qualquer forma, sendo sincero, é essa a impressão com que saio do teatro após assistir as repetidas montagens de sua obra.
Algo como uma sexualidade exacerbada que, na verdade, sempre me traz a impressão de não ser vivida apaixonadamente. Uma sexualidade de culpa na fruição. Algo parecido, a ver, em muito, com um certo masoquismo. Não me agrada, acho que por isso. Prazer, dor e morte não estão necessariamente atados. Não deveriam estar, pelo menos.
*essa foto é de uma montagem de A Serpente com a Débora Falabella

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Repaginado

Aê, novos Bastidores no ar!

Mais solto, mais atualizado - ah, santas impressões, prometo que a rotina não vai lhes sufocar! - mais colorido. E com mais Bastidores Alheios, se tudo der certo.

Veremos!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O segredo dos outros

Sempre pensara no segredo dos outros. O que não lhe revelam, o que fingem, o que escamoteiam. Sabe-se lá porque. Às vezes, nem motivos poderia haver - e sabia disso. Mesmo assim, de quando em quando e, na maior parte dos casos, das vezes que encontrava alguma figura de seu passado incerto, se perguntava se não havia algo sendo escondido.

A rotina, os vícios, os efeitos aparentes: tudo poderia parecer extremamente normal. Assim quem fala o pretende. Mas seria de fato normal? Rotineiro, ordeiro?

Estranho. Uma coisa lhe parecia certa: essa era a sua sensação de insegurança se materializando na fala dos outros. E não seria nem um pouco surpreendente que esse sentimento surgisse, mesmo que agora totalmente descabido, com quem pouco significa hoje. Mas que antes, talvez houvesse uma sombra de excitação em torno dessas figuras. Engraçado, olhar e não enxergar nada - apenas sentir uma sombrinha daquela impressão que um dia fora assim tão grande.

Tão grande que quase não deixava espaço para si mesmo. Infantil, de crescimento, de aceitação.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Primeiro filme: Educação

A suposta necessidade de se ter de escolher entre os estudos e a diversão, como se quem estudasse não se divertisse ou como se existisse o tipo certo de diversão para o tipo certo de pessoa - o resto, meu amigo, não serve. A velha homogeneização de sempre. A rigidez de um sistema de ensino que nos faz quase detestar os estudos; uma moral tão sólida e hipócrita que por vezes nos torna pequenos. E sem forças.

No entanto, a lição de Jenny ainda é bonita. E verossímil. É ela quem decide viver de uma hora para outra e, a seu próprio custo, pagar para ver aonde seus sonhos a levariam. Por sorte, consegue escapar de um futuro conservador e apostar no que mais a caracterizaria: a sua ousadia em tentar o novo frente ao cristalizado. Quebrando a cara, vamos longe. Ou, parafraseando Felipe Abreu, da Originais Reprovados 2009: muitas vezes, de olhos fechados, enxergamos mais.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O moço e o Velho


Liberdade.

Flutuando, Chagall, rumo aos céus!




Inversão da ordem. Por me lembrar de antes, da brisa, do tempo, das dúvidas, do interior. Por ser bom e puro. E me lembrar que tenho um beijo com gosto de cigarro a quem lembrar. Por ter acabado e ser uma ruptura.



Só eles mesmo, como sempre. Voltem, hermanos!


segunda-feira, 21 de junho de 2010

O dia laranja

Durante aquele final de tarde, não soube dizer se era luz, sol ou bossa nova. Poderia ser os três; uma mistura. Era certamente uma intensidade. De passado e presente. Juntos, numa mistura que não era nem um, nem outro. Era mais, talvez, o futuro.

Sentou-se e pôs-se a escrever. De fora, espiavam pulando. O cachorro aos gritos com os assobios e o deitar da tarde. Tudo estava laranja. As camas, um pouco desarrumadas, o chão liso, com espaço suficiente para se sentar, sentir a brisa, deitar o peso do caderno nas pernas desnudas, apalpar a caneta no chão. E se entregar - naquela sensação, algo nostálgica, algo verão, algo infância, algo momentos interrompidos. De uma individualidade definitivamente sua.

As nuvens pareciam mover-se; não no espaço, mas em cores, mesclando-se em uma espiral laranja. As pessoas, pela casa, acima e abaixo, pés nos chãos, vai e vem, chegada e saída. Mais vivas, com a casa que se expandia a cada nova investida do sol por entre suas frestras. Era cedo e não parecida tarde desta vez. O tempo, o sentimento, o clima, tudo era especialmente seu.

Momentos de nostalgia, de complexidade em um todo simplificado. Certezas em meio ao tempo de outrora: certezas na incerteza da selva de pedra. Vamos lá.

domingo, 6 de junho de 2010

Chagall

We are happy and empty.

Marc Chagall.

E isso é pra ser bom. É pra ser leve. É para ser menos ao ser mais.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Contágio e mudança

Coisas simples podem fazer toda a diferença na hora de cozinhar. Vide um pimentão verde, um pouquinho de manjericão ou mesmo uma fritada de alho e cebola. Tá, eu não quero que isso se pareça com livros de receita ou propagandas manjadas - de novo, longe de mim, vícios!

Enfim, se você quer fazer um molho vermelho simples, segue a dica: antes de começar a preparar o molho em si, dê uma fritadinha com óleo em cubinhos de cebola picados, junto com um dente de alho e algumas folhinhas de salsinha. Depois é só jogar o extrato de tomate, com alguns tomates picadinhos, pedaços de cebola, uma colher de óregano e pimentões verdes picados - sério, o pimentão faz toda a diferença.

Se você não é vegetariano, dá pra acrescentar carne moída - já feita, obviamente.

PS: esse post tem uma única fonte, Alice. Acabei de entrar em seu blog e vi a resenha de uns barzinhos, aí resolvi soltar esse prazer dos últimos tempos, a cozinha.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Para alguém que já existiu




Vá embora, eu lhe peço. Mas nunca ouse sair das minhas memórias.

Ouse mudar, ouse crescer. Ouse amadurecer. Mas não desaparecer.

Que se consiga, um dia, olhar e não enxergar. Ou olhar e enxergar o que sempre esteve ali e há muito vem sendo sentida a falta. O que sempre esteve ali e que, hoje, é quente e abstrato. É uma gota e um oceano. Quente ao escorrer por entre as bochechas; fria em toda a dimensão e profundidade do oceano que se perdeu. Ou melhor, que se criou, que se reinventou, se transpôs e agora cumpre o seu avesso: a distância que se firmou.

Que venha mais e melhor. Sempre.

Inevitável dizer, inevitável pensar. Admitir, para si mesmo, o mais difícil. O que quer que vier, necessita de muito para sequer alcançar toda a amplidão do que foi vivido. Maior: do que foi sentido e, abstratamente e simbolicamente, continuar lá.

Infinito, em toda a sua finitude.

Passion

Suddenly, out of the blue, it comes to you the reason why you are producing. Why you chose producing. Why you keep betting, why you keep fighting, why you are making such a huge effort for what you believe in. In a letter from someone you once admired. Someone you've spent a couple of remarkable moments with.

That's for you to remember there'll always be nonsense around. Nonsense which turns to be way too sensitive.

Je vous en prie!

And there'll always be backs, anyway. For you to hope, count on, believe in, live with. And do live without it, as well. Backs, faces, smiles, deepness. Lovers. Surpass it. But never dare giving it away.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Descarrego

Em meio à rotina que lhe suprimia, precisava de um tempo. De um respiro, de um bolo de cenoura mal feito. Precisava de um agasalho velho, daqueles de ficar em casa, meio sujo, maltrapilho. Precisava de música clássica ao fundo - aquela que sempre quisera parar e escutar um dia.

Sabia que ela existia ali, secreta naquela estação de rádio. Assim ouvira dizer. Mas não a conhecia. Na verdade, em meio ao caos dos afazeres, tinha medo de parar para escutá-la. Poderia...emocionar-se. E não ter tempo para curtir direito o prazer da emoção. Sentir, como sempre, fora sua primeira opção.

Estavam sentados em uma fileira. Arrumados, aconchegados no escuro e no macio de suas poltronas. Fazia tempo que não se dava ao direito daqueles luxos; do lúdico, do poético. Sua vida certamente já fora mais poética. Não que estivesse dura demais; disso não se queixava. Tudo ali e tudo isso não se passam de escolhas e desafios senão dele. O problema é: tudo o que se deseja, ou melhor, tudo que se sempre desejou, em um passado hoje remoto e quente, tem seu preço.

A cortina se abriu e um véu desceu. Espantaram-se. O que poderia ser aquilo? Era tudo e era lindo. Emocionou-se e, de fininho, duas lágrimas escorreram por entre seu rosto. Eram vivos, leves e flutuantes, todos os bailarinos que no céu percorriam; voavam, com graça e simpatia. O romantismo da música era inspirador, a cena, pacífica. É assim que a vida deve ser - concluíu.

É assim mesmo, com esses brainstorms, com essa pulsão. Com essa libertação da arte. Que a dureza da política e do mundo vire arte. É só o que se deseja. Enfim, nem tudo são flores. Mas bem, de qualquer forma, sempre haverão os bolos de cenoura e os cds do Gilberto Gil da Bahia para te lembrar do que é bom, existe e está lá, guardado somente para você desfrutar.

sábado, 24 de abril de 2010

Meninos não choram

Meninos não choram é desértico em meio ao oásis, é brusco, é doído. É caricatural em toda a sua triste verossimilhança. É também interior - geograficamente. Bate forte em nossa incapacidade de aceitação, em nosso egoísmo, em nossa opressão. Em nossa maldade. Digo tudo isso no plural porque, enquanto sujeito ativo do macrocosmos social, ninguém consegue se livrar desta pecha. Estamos aí e respondemos sim pelo que é construído na coletividade.

Na verdade, ainda não sei muito bem o que escrever. Sei que sinto vontade e que preciso escrever sobre isso - talvez para aliviar a culpa que senti ao assistir ao filme...A culpa por essa mediocridade, por essa crueza.

Sempre me vem à cabeça a figura onipresente de nossos padrões sociais dominantes. Em formas de images, olhares, gestos e trejeitos. É Bertold Bretch quem usa dos gestos para compor os personagens de suas peças. Os gestos dialéticos de Bretch, aqueles que mostram muito mais do que sua superfície; vão fundo, evocam as profundezas e oposições constitutivas do ser. É a eles que me reporto quando menciono essa coisa dos padrões sociais dominantes.

O filme é um retrato fiél da opressão de nossa sociedade no que se refere ao livre desenvolvimento de nossa sexualidade. Desde muito cedo, sabe-se como se portar, sabe-se como se expressar, quais verbos escolher, quais palavrões citar, sabe-se como se vestir. Sabe-se qual é o seu papel social esperado; tudo, é claro, de acordo com seu sexo. Os limites e as possibilidades. Um jogo de cartas marcadas.

É sobretudo importante que filmes como este venham à tona e contem histórias reais como a de Brandon, brilhantemente interpretado por Hilary Swank. O registro histórico nos alivia para que um dia seja possível olhar para trás e enumerar os absurdos que marcaram nossa evolução enquanto humanidade.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Janis


Janis, por sua autenticidade.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Deslocamentos

E quem já não teve um deles? Ou não os sentiu? Deslocamentos de cidades, de casas, de ambientes, de climas, de sensações, de segurança, de amizade, de palavras. Quando você sente vontade de escrever, mas não consegue. Em português, inglês ou francês. Riem.

Quando o tempo te comprime e você se sente sufocado. É triste. Mas também pode não ser. É o que sempre tento pensar, afinal, somos nós quem damos corda a tudo que fazemos. E ao que somos e ao que queremos. É que, sabe, às vezes, é difícil. Realmente.

Mas bem, nada como uma soneca, um filme, a arte. O lúdico, o poético, o que há de lindo em cinco minutos de descanso entre esse compromisso e o próximo. Pois é, temos essa capacidade. Que deveria ser exercida mais vezes.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Uma casa

Postou-se observando a moldura da janela. As árvores pareciam mexer-se, leves, junto ao vento. Ao fundo, o cinza concreto dos automóveis e do asfalto. Uma bela imagem da modernidade: a natureza, lenta, certa, permanente; os carros, o cimento, correria, instabilidade. Ainda assim, a cena não lhe era angustiante.


O piso, cujos passos dos diversos habitantes que a casa provavelmente já tivera os deveria ter sustentado por mais de cento e vinte anos, continuava lustroso. Linhas amareladas e linhas marrons. Pacíficas, combinando com a madeira que cobria as paredes até a altura das maçanetas das portas.

O teto era muito alto, como de costume. Podia-se se sentar na janela e, mesmo quem tivesse apenas um metro e meio, se sentiria alto. As escadas, primeiro contato com o interior da casa, eram de um branco gélido. Glacial. Mesmo em meio aos 32 graus de uma quarta-feira de verão no Brasil. Uma viagem na história. De três gerações.

A última habitante, a quem o nome da casa hoje homenageia, Dona Yayá, foi considerada louca e trancafiada na mansão - nesta altura, suficientemente afastada do centro e da sociedade da cidade. Yayá tivera uma vida sofrida; perdera os pais e os irmãos ainda jovem. Dedicou-se à fotografia e não era casada. Um perfil bastante autêntico para sua época. Ainda mais sendo mulher.

As pinturas da parede são, no entanto, o êxtase deslumbrante do ambiente. Passadas todas as gerações de habitantes e todas as suas camadas de tinta sobrepostas nestas mesmas paredes, lá estavam elas. Sólidas, visíveis, magníficas. Um trabalho de precisão da equipe de pintura do Centro de Preservação de Cultura da USP. Imperdível.

Para quem não conhece, assim como eu, as pinturas da parede funcionam mais ou menos como desenhos de molduras ou os atuais papéis de parede, mas não tão preenchidas, e costumam seguir as correntes artísticas da época em que foram pintadas. São realmente delicadas e garantem um visual muito peculiar para o ambiente. Vale a pena conferir.

domingo, 21 de março de 2010

Darwin em Criação

Em uma das primeiras cenas de Criação, filme biografia do biólogo inglês Charles Darwin, é dada ao espectador a chave que desvenda todas as contradições que serão escancaradas em pouco mais de uma hora e meia dali para frente: as implicações inimagináveis da passagem da religião para a razão como o cimento social que une os povos da Europa ocidental contemporânea.

E quem melhor para particularizar os dilemas dessa contradição, religião versus razão, senão a figura de um grande pensador, a frente de seu tempo?

É extremamente angustiante observar os percalços de Darwin consigo mesmo, suas hesitações, questionamentos e, após algum tempo, sua própria insanidade. O filme consegue mostrar o quão forte são as idéias socialmente construídas, por vezes, a incapacidade do homem em lidar com as agrúrias de sua capacidade de transformação, seu potencial de mutabilidade, tanto de crenças externas como, principalmente, de crenças internas. É impressionante observar o grau de envolvimento do homem com seu contexto histórico e sua debilidade em enfrentar costumes, a cultura e, ao fim, a sua própria história - todos frutos, invariavelmente, de suas próprias mãos.

O sentimento de inadequação, a coragem de nadar contra a corrente estão presentes em todo o filme. Em Criação, romper amarras é mais do que libertador, é saudável. É desejável. Incrível poder sentir a emancipação de alguém por exercer aquilo que lhe é prazeroso de uma maneira tão autêntica.

Apesar de algumas cenas um tanto quanto piegas e dispensáveis, do incômodo de uma narrativa desnecessariamente guiada, o que fica, após o longa, é a grandeza do ser humano, de seu olhar, de sua natureza mutável e, não dispensando este clichê, de sua paixão na produção daquilo que lhe desperta e lhe inspira.

sábado, 13 de março de 2010

Sábado Gaudí


Gaudí, com suas colagens de cerâmica quebrada, sua inovação e mistura de influências sempre na auto-produção da arte e do lúdico em suas inversões do real.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Domingo de tarde

Sentou-se no banheiro, abaixou as calças e tomou-se pensando na vermelhidão do ambiente. Antes, tomou-se sentindo-a, não em sua pele, mas em suas lembranças e nas imagens que lhe invadiam a cabeça. Era um domingo e estava claro. O vento, vindo da janela semi-aberta, não era tão gélido, mas também não era quente. Era um daqueles dias de sol de inverno. Meia-estação.

O vermelho lhe era conhecido, de alguma forma. Olhou para os azulejos brancos, para a pia pequena, limpa, inconfundível. Antiga e simbólica. O espelho retangular com uma moldura de madeira branca já amarelada parecia guardar o suficiente para uma vida a dois naquele lugar. Levantou-se, ajustou as calças. Olhou para a janela, aonde foi possível enxergar a fonte da iluminação: um toldo vermelho desbotado cobria a varanda.

Fechou os olhos e entrou em contato com o cheiro daquele ambiente aconchegante, meio velho, meio rústico, cheio de histórias. Pensou nas viagens que os habitantes haviam feito e que poderiam ser relembradas olhando-se para os souvenirs nos arredores da casa, pensou nas estantes de livros e nos momentos que haviam sido gastos para lê-los, pensou em uma tarde, como aquela, deitado, naquele sofá, depois do almoço, lendo uma revista ou um livro, em um dia de chuva.

Lembrou das pessoas que o esperavam lá fora. Aquele momento era tão bom. Eram tão únicos e tão capazes. Tantos sonhos e tantas discussões, ali, naquela salinha. Voltou-se a si e à realidade que o aguardava. Mas ficou com essa impressão na cabeça, aquele apartamento antigo, uma calça de moletom e uma camiseta velha, um cheiro de chá, mesmo que chá não fosse sua bebida preferida, uma cama e um edredom, um domingo gostoso e livre para ser gasto. Horas bem acompanhadas e bem aproveitadas.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Frases

A gente não quer so comida; a gente quer comida e quer fazer amor.*

De um cartaz feito por moradores do Crusp colocado no corredor do bandejão central da USP contra a separação dos alojamentos por sexo. Achei poético.



O infinito está em sua própria finitude.

Na aula de teoria da história, do Grespan, na última sexta, explicando dialética e a complexidade do ser humano, dos costumes e da história enquanto auto-produção. Achei incrível.



*Claro que o cartaz está inserido em mais uma série de pautas do movimento da associação de moradores do Crusp, dentre elas mais vagas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lembrança

Estava sentado e voltara a ter cinco anos. A luz, fraca, mal dava para iluminar a tela do projetor da sala de aula. Ao meu redor, somente pessoas falando inglês. Dentro de mim, algo bem diferente: um sentimento simples, pequeno, um fiapo de lembrança. Confortável e quente, em toda sua intensidade que me tomou com desproporção em relação à vontade de me lembrar de mais.

Tentava não piscar ou não fechar os olhos para que aquilo que eu sentia não escapasse no ar, como uma fuligem, ao menor sinal de um movimento de algum colega de sala. O professor falava; eu não escutava. Lembrava do tempo frio, como hoje, do agasalho de algodão com elástico, como este, das crianças da escolinha ao meu redor e suas lancheiras, da sensação do final da aula, em uma sexta-feira no final da tarde, como esta.

Pude sentir a minha volta para casa. A insegurança do final de semana que me amedontrava todas as sextas-feiras, por me afastar dos coleguinhas e, de certa forma, representar uma ruptura em minha pequena rotina, misturada à sensação de carinho e de proteção que a imagem de meus pais em minha mente representava. A sensação de chegar em casa, tomar um banho, tomar a janta carinhosamente arrumada, deitar ainda com os cabelos molhados para assistir TV. Brincar um pouco com a irmã; dormir e acordar cedo no dia seguinte, esperando por um café da manhã com pão, manteiga e leite quente.

Tudo isso me invade, assim, às vezes. Em forma de cheiros, de sentimentos e de sensações. Em forma de frio na barriga. Em forma de frio. E em forma de vento.

Definitivamente, em forma de São Paulo, há uns quinze anos atrás.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Farkas



Volta à tão amada rotina.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Interpretando



Hoje reassisti na TV ao filme A Interpréte, de 2005, do Sydney Pollack, com Sean Penn e Nicole Kidman. Engraçado, apesar de detestar o final do filme, alguma coisa nele se torna interessante para mim a cada vez que o vejo.

Talvez seja a combinação de África, cultura, problemas políticos e sociais e essa coisas das línguas do mundo. Essa possibilidade de contato com novos significados, novos sons, novas crenças. Esse contato com outros mundos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

500 dias com ela



Summer é o tipo de pessoa enigmática. Difícil de se lidar. Ou difícil de se esperar muito. Aquele tipo de pessoa absolutamente enigmática em toda a força de sua individualidade, em toda sua especifícidade; seus gostos musicais, a maneira como se veste, seu corte de cabelo, suas opiniões decididas. O tipo de pessoa encantadora por transbordar segurança. E autenticidade - isso tudo, claro, para aqueles que estão à procura de algo que fuja de um modelo convencional.

Tom se apaixona por Summer desde o momento em que a conhece. Figura dócil, ingênua; no começo do filme, quase infantil. Idealiza as mulheres e faz o perfil do cara que se apaixona fácil. Acredita, sobretudo, no amor. Eis que acaba ficando com Summer em uma relação que ela prefere manter ao estilo casual. Nada de relacionamento sério. Como percebemos no decorrer do longa, uma relação dela com ela mesma. Daí em diante começa sua glória e desgraça: 500 dias de amor, momentos incríveis e também de muita tensão, angústia e auto-conhecimento.

500 dias com ela vale a pena ser visto. Desde seus pressupostos bacanas - e verossímeis, o que é bastante importante atualmente quando se trata de comédias românticas - de jovens complexos, de carne e osso, em busca de uma relação sem saber de fato o que esperar dela, flutuando ao acaso, até todas as consequências da transitoriedade da vida que leva as pessoas para lugares e comportamentos talvez imprevisíveis em outros momentos.

O que se destaca no filme é a naturalidade com que a idealização versus o peso da realidade, em que não necessariamente o amor é correspondido, é abordada. É incrível notar a evolução de Tom no decorrer do filme, de menininho que se apaixona por uma garota de presença a homem que passa a tomar decisões e de fato guiar sua vida. Summer hipnotiza no longa. Mas, no entanto, não deixa de decepcionar quando, assim como na vida real, descobrimos que, por mais estranho que pareça, nem toda essa autenticidade e segurança são suficientes para se viver a vida de verdade. Talvez falte um pouco de simplicidade. Ou até mesmo de humildade.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Cidades


Ando pensando nas férias. Na noite, no parque, no vento e no calor abafado - um tanto quanto familiar. Até o percurso, as pessoas caminhando com suas roupas de ginástica; o meu objetivo final: a academia como um contraponto à falta de exercícios na cidade grande. É gostoso.

Agora à noite tudo muda: entro no computador e com um clique me sinto em casa novamente. Os blogs e sua pulsação, as entrevistas com personalidades de quem eu ouvi falar, admiro, mas não sei bem concretamente a razão, o email e toda a sua acumulação de chamados. Que me retornam à ativa, me levam à reflexão, me trazem desejo de produzir. À juventude e à vida.

As artes, as fotografias, o teatro. A cultura. O elo entre esses dois mundos. Agora, o cinza. Talvez, mais tarde, o bucólico. A saudade, sempre. De um e de outro.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pulsação cinza

Não por acaso tem a cara de São Paulo. E as cores, o asfalto necessário, o figurino, os personagens, o trânsito. O clima de uma metrópole fascinante. E também toda a sua tristeza e deslumbre na impossibilidade de conhecê-la e, de fato, sentí-la. Para que abarcar tudo sempre? É a lição que fica...

Pedro e sua namorada são um desses casais que você que mora em São Paulo pode encontrar por aí, na esquina da sua casa. Moram juntos, no centro. O afago de suas carícias, de seus pijamas e de sua cama desarrumada lembra um dia de chuva, uma tarde, um domingo em São Paulo. Ele tem um hobby; ela, uma coleção de livros. Ele usa somente roupas em tons sem vida; ela tem cabelo curto.



É incrível como todos aqueles ambientes mostrados no filme, de apartamentos largos, com portas antigas, vidrais e piso cinza chamuscado dizem tanto em tão pouco tempo. De tão rápido, não chegam a dizer, atingem logo o sentimento e, antes do sentimento, o olfato.

É como se eu pudesse estar na cidade, usando todas aquelas roupas de frio em um dia de junho, o vento gelado em meu rosto, as pessoas à minha volta, parecendo interessantes em seu aspecto antigo e moderno ao mesmo tempo. Definitivamente, decidido. É como se eu voltasse à minha infância e ao tempo e às sensações antigas.

Uma certa angústia é gerada no filme. Seja por seus incidentes, seja pela cidade e seu tamanho monstruoso oprimindo os seus habitantes. Dá vontade de conhecer os apartamentos do centro, de andar, de saber a história, de conversar com essas pessoas e desvendar o seu exterior.

Com sua câmara aguçada, de ângulos audaciosos, tomadas totalmente simples e criativas, o diretor consegue criar um filme bastante arrojado. A pergunta que fica é: será que de fato, meu olhar ou olhar de qualquer pessoa que more em uma cidade por mais de um ano consegue resistir às tentativas de colonização da mente frente a novos olhares e significações?



Porque, para ser sincero, a meu ver é isso que faz qualquer cidade do mundo ser o lugar ideal para se viver. Simplesmente, sua pulsação.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Boa educação



Uma movimento de retorno e reciclagem, reciclagem e retorno interminável. Um rodamoinho em forma de espiral. Uma surpresa após a outra. É assim que enxergo Má Educação, de Almodóvar. Simplesmente de cair o queixo!

E absolutamente autobiográfico, claramente como água. O que me impressiona é pensar que o filme é capaz de escancarar o que move o diretor de uma forma simples e objetiva: "filmar com paixão", como nos é descrito em sua cena final. Ou seja, que venham todos os revezes que a vida é capaz de trazer - e trará - pois, caso você faça algo com paixão, algo que te nutra e não te torne dependente, sem, obviamente, cair em um individualismo egocêntrico - muito pelo contrário, a paixão que te motiva a querer produzir para os outros - tudo estará seguro.

É essa a imagem que o filme me passa. Pois desde o começo a vida de Enrique ou de Almodovár, por certo, foi marcada pelo desafio e pela transgressão. Que seja só no ato de pensar - a transgressão que fica só na cabeça, azucrinando, muitas vezes é das mais dolorosas.

Interessante pensar em todos os contornos que as personagens ganham ao longo do filme, deslocando-se na mente do espectador o tempo todo, ora em situações favoráveis, ora em situações deploráveis, sem, no entanto, se revestirem em nenhum momento do longa de alguma forma de maniqueísmo.

No mais, vale destacar a cena da piscina por sua direção e fotografia apuradíssimas, espantosamente originais, sua sensualidade tremenda e sua inquietação. Incrível pensar também no tato do diretor para novamente tematizar de uma maneira tão natural camadas marginalizadas da população ou, se não marginalizadas de fato, pessoas que vivem à margem do senso comum.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fantasmas da América Latina

É, parece que os velhos fantasmas da América Latina não vão sair de cena tão cedo. Sem mais delongas, já que escrever em uma lan house em um baita calor não é das coisas mais inspirantes, o fato é que dois eventos são muito sintomáticos da realidade do nosso continente: a crise argentina no governo da Cristina Kischner(espero que esteja certo) e o Programa Nacional de Direitos Humanos 3.

Cara, a Cristina pode sofrer um golpe. Eu acho. Tudo começou porque ela queria taxar o agronegócio. É claaaaro que não, né, Cristina?! Onde já se viu, cobrar mais imposto de quem tem milhares de hectares de terra pra poder repassar a grana pra distribuição de terra e reforma agrária? Nem pensar. Eu, na verdade, não sou um entusiasta dos Kirchner. Mas acho que a coisa fugiu do controle. Você passa a notar isso quando se unem ex-presidente do Banco Central, o maior conglomerado de mídia local, o Clarín, e governo dos Estados Unidos para anunciar que a grana do BC argentino está congelada nos Estados Unidos - e o plano do governo de negociação com credores da dívida está amarrado. Ou seja, Cristina está sendo esprimida por onde são maiores as chances de seu fracasso: a economia.

Bom, no que diz respeito ao PNDH-3, a coisa é menos complicada. Simplesmente não se quer abrir os porões da ditadura. Que mal tem, em um país supostamente democrático, você abrir os arquivos de um crime de Estado, em que milhares forom mortos, continuam desaparecidos? A sociedade precisa passar por esse processo para curar essa ferida. De feridas abertas só saem vespas. É ultrajante que ainda deem vozes para esses militares. No que diz respeito ao aborto, a coisa é mais difícil. Impostos sobre as heranças e agronegócio, estou dentro. Controle de mídia ainda não sei o suficiente. Casamento homossexual, qual é, até quando essa hipocrisia vai durar? O Estado não é laico, as pessoas não são livres e iguais perante a lei? Eu me furto dessa discussão, por ser irritante. Mais pra frente, quem sabe, eu não entro de cabeça.

Bom, é isso!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo... e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares... É o tempo da travessia... e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos."

A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa.