sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lembrança

Estava sentado e voltara a ter cinco anos. A luz, fraca, mal dava para iluminar a tela do projetor da sala de aula. Ao meu redor, somente pessoas falando inglês. Dentro de mim, algo bem diferente: um sentimento simples, pequeno, um fiapo de lembrança. Confortável e quente, em toda sua intensidade que me tomou com desproporção em relação à vontade de me lembrar de mais.

Tentava não piscar ou não fechar os olhos para que aquilo que eu sentia não escapasse no ar, como uma fuligem, ao menor sinal de um movimento de algum colega de sala. O professor falava; eu não escutava. Lembrava do tempo frio, como hoje, do agasalho de algodão com elástico, como este, das crianças da escolinha ao meu redor e suas lancheiras, da sensação do final da aula, em uma sexta-feira no final da tarde, como esta.

Pude sentir a minha volta para casa. A insegurança do final de semana que me amedontrava todas as sextas-feiras, por me afastar dos coleguinhas e, de certa forma, representar uma ruptura em minha pequena rotina, misturada à sensação de carinho e de proteção que a imagem de meus pais em minha mente representava. A sensação de chegar em casa, tomar um banho, tomar a janta carinhosamente arrumada, deitar ainda com os cabelos molhados para assistir TV. Brincar um pouco com a irmã; dormir e acordar cedo no dia seguinte, esperando por um café da manhã com pão, manteiga e leite quente.

Tudo isso me invade, assim, às vezes. Em forma de cheiros, de sentimentos e de sensações. Em forma de frio na barriga. Em forma de frio. E em forma de vento.

Definitivamente, em forma de São Paulo, há uns quinze anos atrás.

3 comentários:

Alice Agnelli disse...

Fiquei curiosa quando vc me falou, em meio àquele vento congelante da prainha, desse seu fiapo de lembrança.

E parece que ele ficou mais forte ainda quando o li aqui.

Maria Joana disse...

Aaaai. Que lindo.

A alice que me avisou, que nós dois tínhamos escrevido sobre o passado, e vim conferir. Lembranças de São Paulo de 15 anos atrás... eu também as tenho, várias. Moletom de elástico, vento frio, tarde cinza. Moletom cinza também. O meu e o teu. Lembranças minhas pareceram se misturar às suas agora, e posso te ver com o moletom cinza em casa.

Ai, que saudade!

Tulio Bucchioni disse...

ahhhhhh...que saudade=)