domingo, 21 de março de 2010

Darwin em Criação

Em uma das primeiras cenas de Criação, filme biografia do biólogo inglês Charles Darwin, é dada ao espectador a chave que desvenda todas as contradições que serão escancaradas em pouco mais de uma hora e meia dali para frente: as implicações inimagináveis da passagem da religião para a razão como o cimento social que une os povos da Europa ocidental contemporânea.

E quem melhor para particularizar os dilemas dessa contradição, religião versus razão, senão a figura de um grande pensador, a frente de seu tempo?

É extremamente angustiante observar os percalços de Darwin consigo mesmo, suas hesitações, questionamentos e, após algum tempo, sua própria insanidade. O filme consegue mostrar o quão forte são as idéias socialmente construídas, por vezes, a incapacidade do homem em lidar com as agrúrias de sua capacidade de transformação, seu potencial de mutabilidade, tanto de crenças externas como, principalmente, de crenças internas. É impressionante observar o grau de envolvimento do homem com seu contexto histórico e sua debilidade em enfrentar costumes, a cultura e, ao fim, a sua própria história - todos frutos, invariavelmente, de suas próprias mãos.

O sentimento de inadequação, a coragem de nadar contra a corrente estão presentes em todo o filme. Em Criação, romper amarras é mais do que libertador, é saudável. É desejável. Incrível poder sentir a emancipação de alguém por exercer aquilo que lhe é prazeroso de uma maneira tão autêntica.

Apesar de algumas cenas um tanto quanto piegas e dispensáveis, do incômodo de uma narrativa desnecessariamente guiada, o que fica, após o longa, é a grandeza do ser humano, de seu olhar, de sua natureza mutável e, não dispensando este clichê, de sua paixão na produção daquilo que lhe desperta e lhe inspira.