quarta-feira, 10 de março de 2010

Domingo de tarde

Sentou-se no banheiro, abaixou as calças e tomou-se pensando na vermelhidão do ambiente. Antes, tomou-se sentindo-a, não em sua pele, mas em suas lembranças e nas imagens que lhe invadiam a cabeça. Era um domingo e estava claro. O vento, vindo da janela semi-aberta, não era tão gélido, mas também não era quente. Era um daqueles dias de sol de inverno. Meia-estação.

O vermelho lhe era conhecido, de alguma forma. Olhou para os azulejos brancos, para a pia pequena, limpa, inconfundível. Antiga e simbólica. O espelho retangular com uma moldura de madeira branca já amarelada parecia guardar o suficiente para uma vida a dois naquele lugar. Levantou-se, ajustou as calças. Olhou para a janela, aonde foi possível enxergar a fonte da iluminação: um toldo vermelho desbotado cobria a varanda.

Fechou os olhos e entrou em contato com o cheiro daquele ambiente aconchegante, meio velho, meio rústico, cheio de histórias. Pensou nas viagens que os habitantes haviam feito e que poderiam ser relembradas olhando-se para os souvenirs nos arredores da casa, pensou nas estantes de livros e nos momentos que haviam sido gastos para lê-los, pensou em uma tarde, como aquela, deitado, naquele sofá, depois do almoço, lendo uma revista ou um livro, em um dia de chuva.

Lembrou das pessoas que o esperavam lá fora. Aquele momento era tão bom. Eram tão únicos e tão capazes. Tantos sonhos e tantas discussões, ali, naquela salinha. Voltou-se a si e à realidade que o aguardava. Mas ficou com essa impressão na cabeça, aquele apartamento antigo, uma calça de moletom e uma camiseta velha, um cheiro de chá, mesmo que chá não fosse sua bebida preferida, uma cama e um edredom, um domingo gostoso e livre para ser gasto. Horas bem acompanhadas e bem aproveitadas.

Um comentário:

Maria Joana disse...

que jeito mais peculiar pra começar um texto genial... abaixou as calças!

é delicioso ler todos esses pequeninos detalhes que você guarda tão bem, e toda essa simplicidade tão gostosa, o apartamento velho, o moletom, o toldo que deixa a luz avermelhada, a moldura do espelho... tudo tão pequeno mas tão valioso, tão tornado grande nas suas palavras!

Beijos, meu querido!!!!