quarta-feira, 24 de março de 2010

Uma casa

Postou-se observando a moldura da janela. As árvores pareciam mexer-se, leves, junto ao vento. Ao fundo, o cinza concreto dos automóveis e do asfalto. Uma bela imagem da modernidade: a natureza, lenta, certa, permanente; os carros, o cimento, correria, instabilidade. Ainda assim, a cena não lhe era angustiante.


O piso, cujos passos dos diversos habitantes que a casa provavelmente já tivera os deveria ter sustentado por mais de cento e vinte anos, continuava lustroso. Linhas amareladas e linhas marrons. Pacíficas, combinando com a madeira que cobria as paredes até a altura das maçanetas das portas.

O teto era muito alto, como de costume. Podia-se se sentar na janela e, mesmo quem tivesse apenas um metro e meio, se sentiria alto. As escadas, primeiro contato com o interior da casa, eram de um branco gélido. Glacial. Mesmo em meio aos 32 graus de uma quarta-feira de verão no Brasil. Uma viagem na história. De três gerações.

A última habitante, a quem o nome da casa hoje homenageia, Dona Yayá, foi considerada louca e trancafiada na mansão - nesta altura, suficientemente afastada do centro e da sociedade da cidade. Yayá tivera uma vida sofrida; perdera os pais e os irmãos ainda jovem. Dedicou-se à fotografia e não era casada. Um perfil bastante autêntico para sua época. Ainda mais sendo mulher.

As pinturas da parede são, no entanto, o êxtase deslumbrante do ambiente. Passadas todas as gerações de habitantes e todas as suas camadas de tinta sobrepostas nestas mesmas paredes, lá estavam elas. Sólidas, visíveis, magníficas. Um trabalho de precisão da equipe de pintura do Centro de Preservação de Cultura da USP. Imperdível.

Para quem não conhece, assim como eu, as pinturas da parede funcionam mais ou menos como desenhos de molduras ou os atuais papéis de parede, mas não tão preenchidas, e costumam seguir as correntes artísticas da época em que foram pintadas. São realmente delicadas e garantem um visual muito peculiar para o ambiente. Vale a pena conferir.

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