domingo, 25 de julho de 2010

Tarde noir

Entramos, nos aconchegamos e sentimos o sol. Sorrisos, abraços, saudades. Os cincos querendo-se ouvir e contar com prazer. Foi-se a tarde, veio a noite e continuamos aonde estavámos. Naquela sala, de pés e sofás no chão, vermelho e desenhos na parede, tudo, sempre, noir. Artístico, epifânico, inteligente. Característico.

Pensei em uma cozinha, uma tarde de verão gostoso, duas crianças correndo, duas pessoas se amando, depois de tantas viagens, tantas experiências enriquecedoras e diferenciadas - ao redor do mundo. Uma paz quarentona.

Volto à realidade. Falamos sobre ciclos, sobre crises, sobre frustrações com o semestre passado. Difícil. Mas, como sempre, da crise e do fundo do poço saem as soluções mágicas e inevitáveis da vida: a reciclagem de sempre, para quem quer. Saber o que não se gosta, já é meio caminho andado, diria Woody Allen. Pois é, tendo a acreditar que sim.

Volto agora, ou melhor, daqui a alguns dias - depois de uma parada mais do que necessária - e penso: a produção é o segredo. A arte, a beleza, o ideal da reflexão que traz uma prática saudável e livre para evoluir. É isso, sem mais segredos.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Nosso Amor de Ontem


O Nosso Amor de Ontem, filme de Sydney Pollack de 1973, com Robert Redford e Barbra Streisand (ao lado) me intriga e me faz muito sentido - de um modo triste, diga-se de passagem. Se bem que um tanto estereotipado, o filme trata dos dilemas de um relacionamento entre uma garota militante de esquerda e um garoto bon vivant, mas bem intencionado, que estudam na mesma Universidade. Katie se sente atraída e logo se apaixona por Hubbell, que apesar de não participar de nenhum tipo de organização coletiva, não deixa de guardar sua admiração por aqueles que se manifestam a favor de uma causa.

E causas a defender era o que não faltava na época em que o filme se passa: o pós-segunda guerra mundial nos EUA. Katie faz campanhas contra a ditadura de Franco na Espanha, a favor do desarmamento nuclear, pela liberdade de expressão. Tudo isso não a impede, no entanto, de se apaixonar e de se afastar do centro de sua pró-atividade, Nova Iorque, para viver uma vida distante de seus ideais ao lado de Hubbell na Califórnia.

E viver essa vida significa conviver e ter amizade com pessoas com valores e hábitos totalmente diferentes, abdicar de pontuações políticas mais críticas, em resumo, se acostumar com a maneira como se diverte, se pensa e se vive de uma maneira hegemônica mais convencional - quando não conservadora. Eis que, quem surpreende é quem menos se espera, o amor. É possível largar sonhos e ideais tão internamente arraigados por alguém que se ama? Antes, será que o amor supera vidas ideologicamente diferentes?

Hubbell, que certamente é estimulado diariamente por Katie a escrever, a refletir e a questionar antigos hábitos de vida e ciclos de amizade, não percebe que, ao contrário de sua companheira, que o respeita e se dispôs a mudar de vida para viver ao seu lado, abdicando de sua antiga rotina nova-iorquina, algumas atitudes tomadas com relação aos ideais e posicionamentos de Katie são capazes de cercear justamente o que ela tem de melhor: sua personalidade. Não se trata de se juntar à mulher em suas atividades; antes, trata-se de respeitar este que é um dos traços de sua personalidade, sua atividade política e cidadã.

Para apimentar a discussão, vale o questionamento: se os papéis se invertessem e Katie fosse o homem da relação, será que esse dilema teria todo esse peso? Será que ela teria de optar entre a atividade política e ficar ao lado de sua mulher? Vale a reflexão.

O filmes traz muitas perguntas importantes e angustiantes à mente. O lugar de quem acredita e luta por uma causa em um mundo certamente cheio de problemas, a paixão por uma atividade transformadora - seja em um coletivo organizado, seja em uma profissão - a possibilidade de relacionamento entre pessoas com referências tão diferentes. Os limites do estímulo mútuo e o início da subjugação de um ao outro. O fim e o relembrar.

Não que, obviamente, esse tipo de relacionamento seja muito especialmente diferente de todos os outros. São apenas outros tipos de conflitos quando o assunto é o relacionar-se de duas pessoas, sempre tão complexo. E maravilhoso, é bom não esquecer.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Atividade e satisfação

Por sorte, dois filmes bons. E totalmente diferentes. Do mais, a mesma certeza: a busca pela satisfação nas atividades em que desempenhamos na vida. Grandes atividades. Lecionar e dançar. E é realmente essa a ordem do dia: satisfação e paixão. Lembro de Almodóvar em Má Educação.

A outra é um Woody Allen dos bons. Sincero, de direção e narrativa simples. Mas profundo em sua sutileza. Para todos aqueles que estão muito certos do que fazem e do que querem, é recomendável, assistam a esse filme. Deixem-se sentir, sofrer, se entregar ao sentimento. No mais, deixem-se viver. Essa é a mensagem principal do filme. Se não está tudo bem, ótimo. Que venha a crise!

Momento de decisão não é mais um daqueles filmes manjados sobre ballet ou dança. Tá certo que o suposto conflito entre vida pessoal e a dança por horas parece demasiado dispensável. E não conflituoso, ao fim. Mas o filme todo é apaixonante. Ame a dança, ou deixe-a. Taí a foto do Mikhail Baryshnikov, bailarino russo famoso no mundo inteiro, que fez um papel no filme.

domingo, 18 de julho de 2010

Nelson e A Serpente


Hoje assisti a uma montagem da última peça escrita por Nelson Rodrigues, A Serpente. Já tinha assistido a algumas montagens do autor antes - Senhora dos Afogados, Valsa Nº6, a qual gostei muito e A Falecida - todas as vezes aqui em Prudente. É engraçado porque há algo no teatro feito aqui na cidade que me parece evocar bastante Nelson Rodrigues.

É sempre intrigante e inquietante assistir a uma montagem teatral desafiadora, como já prefigura qualquer montagem de Nelson. Em especial desta vez, entrar em um galpão mal-iluminado, silenciar por longos e ansiosos minutos e sentir-se parte atuante ao decorrer do espetáculo, dada a formação escolhida para o cenário, foi desde o ínicio uma experiência excitante. Curiosa.

Não sei se de fato inovadora, mas essa tendência das últimas peças a que tenho assistido de colocar o espectador propositadamente cara a cara com os atores, em uma dinâmica de tornar quem assiste quase que parte da narrativa, é bastante interessante. Somos obrigados a nos concentrar. Somos envolvidos, com constrangimento e hesitação que logo se misturam a um desejo de viver o que é visto. De estar lá, ao lado desses personagens reais.

O universo de Nelson me incita e me provoca ruídos. Gosto de sua ousadia, gosto de sua irrupção e volúpia justas; mas me incomoda talvez algo em sua abordagem do sexo e das relações amorosas. Algo como um zumbido que não consigo reconhecer direito. Reconheço o seu valor, mas sinto algo que me soa exagerado, quase naturalista, às vezes. Não sei - nenhum problema com o naturalismo; é algo subjetivo.
Fico com medo de criticar, ao não conhecer mais elementos de sua obra, mas, de qualquer forma, sendo sincero, é essa a impressão com que saio do teatro após assistir as repetidas montagens de sua obra.
Algo como uma sexualidade exacerbada que, na verdade, sempre me traz a impressão de não ser vivida apaixonadamente. Uma sexualidade de culpa na fruição. Algo parecido, a ver, em muito, com um certo masoquismo. Não me agrada, acho que por isso. Prazer, dor e morte não estão necessariamente atados. Não deveriam estar, pelo menos.
*essa foto é de uma montagem de A Serpente com a Débora Falabella

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Repaginado

Aê, novos Bastidores no ar!

Mais solto, mais atualizado - ah, santas impressões, prometo que a rotina não vai lhes sufocar! - mais colorido. E com mais Bastidores Alheios, se tudo der certo.

Veremos!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O segredo dos outros

Sempre pensara no segredo dos outros. O que não lhe revelam, o que fingem, o que escamoteiam. Sabe-se lá porque. Às vezes, nem motivos poderia haver - e sabia disso. Mesmo assim, de quando em quando e, na maior parte dos casos, das vezes que encontrava alguma figura de seu passado incerto, se perguntava se não havia algo sendo escondido.

A rotina, os vícios, os efeitos aparentes: tudo poderia parecer extremamente normal. Assim quem fala o pretende. Mas seria de fato normal? Rotineiro, ordeiro?

Estranho. Uma coisa lhe parecia certa: essa era a sua sensação de insegurança se materializando na fala dos outros. E não seria nem um pouco surpreendente que esse sentimento surgisse, mesmo que agora totalmente descabido, com quem pouco significa hoje. Mas que antes, talvez houvesse uma sombra de excitação em torno dessas figuras. Engraçado, olhar e não enxergar nada - apenas sentir uma sombrinha daquela impressão que um dia fora assim tão grande.

Tão grande que quase não deixava espaço para si mesmo. Infantil, de crescimento, de aceitação.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Primeiro filme: Educação

A suposta necessidade de se ter de escolher entre os estudos e a diversão, como se quem estudasse não se divertisse ou como se existisse o tipo certo de diversão para o tipo certo de pessoa - o resto, meu amigo, não serve. A velha homogeneização de sempre. A rigidez de um sistema de ensino que nos faz quase detestar os estudos; uma moral tão sólida e hipócrita que por vezes nos torna pequenos. E sem forças.

No entanto, a lição de Jenny ainda é bonita. E verossímil. É ela quem decide viver de uma hora para outra e, a seu próprio custo, pagar para ver aonde seus sonhos a levariam. Por sorte, consegue escapar de um futuro conservador e apostar no que mais a caracterizaria: a sua ousadia em tentar o novo frente ao cristalizado. Quebrando a cara, vamos longe. Ou, parafraseando Felipe Abreu, da Originais Reprovados 2009: muitas vezes, de olhos fechados, enxergamos mais.