domingo, 18 de julho de 2010

Nelson e A Serpente


Hoje assisti a uma montagem da última peça escrita por Nelson Rodrigues, A Serpente. Já tinha assistido a algumas montagens do autor antes - Senhora dos Afogados, Valsa Nº6, a qual gostei muito e A Falecida - todas as vezes aqui em Prudente. É engraçado porque há algo no teatro feito aqui na cidade que me parece evocar bastante Nelson Rodrigues.

É sempre intrigante e inquietante assistir a uma montagem teatral desafiadora, como já prefigura qualquer montagem de Nelson. Em especial desta vez, entrar em um galpão mal-iluminado, silenciar por longos e ansiosos minutos e sentir-se parte atuante ao decorrer do espetáculo, dada a formação escolhida para o cenário, foi desde o ínicio uma experiência excitante. Curiosa.

Não sei se de fato inovadora, mas essa tendência das últimas peças a que tenho assistido de colocar o espectador propositadamente cara a cara com os atores, em uma dinâmica de tornar quem assiste quase que parte da narrativa, é bastante interessante. Somos obrigados a nos concentrar. Somos envolvidos, com constrangimento e hesitação que logo se misturam a um desejo de viver o que é visto. De estar lá, ao lado desses personagens reais.

O universo de Nelson me incita e me provoca ruídos. Gosto de sua ousadia, gosto de sua irrupção e volúpia justas; mas me incomoda talvez algo em sua abordagem do sexo e das relações amorosas. Algo como um zumbido que não consigo reconhecer direito. Reconheço o seu valor, mas sinto algo que me soa exagerado, quase naturalista, às vezes. Não sei - nenhum problema com o naturalismo; é algo subjetivo.
Fico com medo de criticar, ao não conhecer mais elementos de sua obra, mas, de qualquer forma, sendo sincero, é essa a impressão com que saio do teatro após assistir as repetidas montagens de sua obra.
Algo como uma sexualidade exacerbada que, na verdade, sempre me traz a impressão de não ser vivida apaixonadamente. Uma sexualidade de culpa na fruição. Algo parecido, a ver, em muito, com um certo masoquismo. Não me agrada, acho que por isso. Prazer, dor e morte não estão necessariamente atados. Não deveriam estar, pelo menos.
*essa foto é de uma montagem de A Serpente com a Débora Falabella

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