terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sobre migrar

"Migrar é uma situação criativa. Mas dolorosa. Toda uma literatura trata da relação entre criatividade e sofrimento. Quem abandona a pátria sofre. Porque mil fios são amputados, é como se uma intervenção cirúrgica fosse feita. Quando fui expulso de Praga, vivenciei o colapso do universo. É que confundi o meu íntimo com o espaço lá fora. Sofri as dores dos fios amputados. Mas depois comecei a me dar conta de que tais dores não eram a da operação cirúrgica, mas de parto. Dei-me conta de que os fios cortados me tinham alimentado e que estava sendo projetado para a liberdade, a qual se manifesta pela inversão da pergunta "livre de quê" em "livre para fazer o quê". E assim somos todos os migrantes: seres tomados de vertigem"

Vilém Flusser

domingo, 3 de outubro de 2010

Comer, rezar e amar

Comer, rezar e amar poderia ser muito melhor. O que não é grande novidade quando se trata de adaptações cinematográficas de best-sellers. Ou de best-sellers em si. De um jeito ou de outro, o fato de uma pessoa escolher cair no mundo em busca de algumas respostas é atraente o suficiente para o filme possuir uma ótima razão de ser. E contar com uma boa dose de encantamento sob seus espectadores.

Ao longo de sua trajetória não são poucos os momentos em que simpatizamos com o longa. O ponto fraco é, no entanto, o seu roteiro. Demasiadamente comprido e com diálogos e atuações que não salvam locações maravilhosas e reflexões instigantes. Vale ressaltar a busca de Liz - que realmente existe e é casada com um brasileiro após um ano viajando por Itália, Índia e Indonésia - por sua verdadeira identidade, pelo prazer em viver, tomar decisões, ter pulso e, acima de tudo, encontrar um equilíbrio verdadeiro entre amor, consciência e espírito. Algo por vezes difícil de se combinar.


Fico tocado, ao longo de sua busca, com a necessidade que algumas pessoas possuem de conhecer, de destrinchar curiosidades, modos de vida, personalidades, histórias. De se encontrar encontrando o outro e de selar raízes após se afastar delas. A estabilidade realmente muitas vezes me parece um teto de vidro. Pelo menos até os quase 40, eu costumo dizer. Há tanto para se viver, para se conhecer, para aprender. Só mesmo estando disposto e aberto. Caso contrário, pode-se viajar, andar léguas e, como muitas pessoas que conhecemos, não enxergar nada.

Algo que me instiga também é o quão gratificante se torna provar para nós mesmos que somos capazes de estar sozinhos e bem. De vivenciar experiências incríveis sem, no entanto, nos tornarmos demasiadamente individualistas. Pois é exatamente o contrário do individualismo. Cotidianamente, há situações na vida que exigem de nós mesmos um conhecimento individual muito grande. Um prazer em ser e vivenciar experiências solitárias. E que forma melhor do que viver com intensidade esses momentos senão passando algum tempo consigo mesmo? Viagens são ótimas para isso. É quando você pensa, se articula, se conhece. Tudo isso conhecendo o mundo e o outro - por isso desde já algo bem distinto de um individualismo ou não entrega.