quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A revolução

"Feurbach quis explicar a 'alienação religiosa', ou seja, o fato de que homens reais, sensíveis, representem a perfeição em um outro mundo suprasensível(com uma projeção de seres e de situações imaginárias com 'qualidades essenciais' propriamente humanas - em particular, o laço comunitário entre as pessoas ou o laço de amor que une os seres humanos). Tomando consciência desse engano, os homens seriam capazes de se reapropriar de sua essência alienada em Deus e na religião e assim poderiam viver verdadeiramente a fraternidade nesta terra.

Depois de Feurbach, filósofos críticos(entre os quais, Marx) quiseram estender o mesmo esquema a outros fenômenos de abstração e de 'depossessão' da existência humana, em particular aqueles relacionados à esfera política, isolada da sociedade, como uma comunidade ideal onde os homens seriam livres e iguais. Mas, nos diz Marx nas 'Teses para Feurbach', a verdadeira razão dessa projeção não é uma ilusão da consciência, um efeito da imaginação individual: é a cisão ou divisão que reina na sociedade, são os conflitos práticos que opõem os homens uns aos outros, os quais o céu da religião ou da política ordinária lhes propõe soluções miraculosas.




Eles não poderão sair verdadeiramente dessa situação sem uma transformação de ordem prática, abolindo a dependência de muitos homens em relação a outros. Não é portanto a filosofia que acabará com a alienação(pois a filosofia não foi senão o comentário, ou a tradução, dos ideais de reconciliação da religião e da política ordinária), mas sim a revolução, cujas condições residem na existência material dos indivíduos e em suas relações sociais."

Étienne Balibar, "La philosophie de Marx".


Só um comentário: de acordo com Marx, a teoria se verifica na prática e a única condição para conhecer o mundo é transformando-o, de maneira a balizar a teoria em sua essência prática. Descontextualizando o trecho, o qual gostei muito, fiquei com a impressão de que poderia haver um engano no sentido de se pensar que o que importa é somente a ação prática imediata - leitura bastante equivocada e infelizmente muito recorrende em vários grupos políticos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um sentimento

Éramos célebres líricos
Éramos sãos
Lúcidos céticos
Cínicos não
Músicos práticos
Só de canção
Nada didáticos
Nem na intenção
Tímidos típicos
Sem solução
Davam-nos rótulos
Todos em vão
Éramos únicos
Na geração
Éramos nós dessa vez

Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação

Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão

Fomos serenos num mundo veloz
Nunca entendemos então por que nós
Só mais ou menos

Marcelo Janeci / Luiz Tatit

http://www.youtube.com/watch?v=l9skm8ye4t0

sábado, 10 de dezembro de 2011

Um bilhete para o futuro

Há pouco, estávamos ainda deitados. Seus olhos de lince, fechados, pareciam mirar-me por detrás das pálpebras bem cerradas. Aqueles cinco minutos, sentados na cama, a contemplar de um lado a porcelana vazia de um antigo cinzeiro cremado na Tunísia e seus desenhos desenvoltos e entralaçados e, de outro, a grande janela respingada, eram bastante confortantes.

Pude sair, atravessar a rua ao ajeitar o cachecól felpudo, tapando-me a boca, enquanto pisava nos ladrilhos desencaixados aos solovancos e, finalmente, sentir a espessura da minha baguete ao apertá-la por entre meus dedos.

Mais: pude cheirar o futuro. Corri para seus olhos e amarrei-me em mãos apertadas de um toque sincero. Fechando os olhos, lentamente, respirava aliviado. Aquilo, de peito quente e sonho calmo, no número 42 da rua Montmartre, poderia ser chamado nosso.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Do porque gosto tanto de Vicky Cristina Barcelona

Já há mais de três anos de sua estréia e depois de tê-lo reassistido um bocado de vezes, Vicky Cristina Barcelona, assim como outros grandes filmes recentes pelos quais tenho muito carinho - como Volver, Biutiful ou Má Educação - ainda causa muito impacto sobre mim.

E esse impacto, o qual eu pude felizmente vivenciar concretamente quando tive a oportunidade de conhecer Barcelona e alguns dos locais aonde o filme foi filmado, é algo que venho processando com cuidado e prazer nos últimos tempos e por isso a vontade de compartilhá-lo aqui no blog.

O que mais me agrada em Vicky Cristina é o que eu decidi chamar de densidade despretensiosa. Sua reflexão sobre os dilemas e experiências e limites da ordem da vida privada, a meu ver, consegue ser extremamente ousada, sem correr o risco de se tornar caricata. Sua intensidade não é fetichizada ou inversossímil; sua poesia e sensualidade não são arrogantes.


Acima de tudo: suas certezas e seus encontros, um termo de que gosto muito, seja consigo mesmo, ou com os outros, são assumidamente transitórios - sem no entanto tornarem-se descartáveis. Um grande banho de água fria em muitas das opressões que vivenciamos de quando em quando!

Outro dia, em uma das disciplinas que curso aqui em Paris, o excelente professor que me dá aulas lançou a máxima que eu desconhecia: "a politização da vida privada", uma das bandeiras da revolução feminista e sexual francesa dos anos 70. É exatamente isto que encontro em Vicky Cristina: o reconhecimento de uma busca por condições outras de vivências afetivas e sexuais, muito sinceras, em um sentido de abertura a experiências, mas também de tolerância a limites, isto é, de reflexão intensa e ousada sobre a maneira como nos relacionamos conosco mesmo e com as pessoas ao nosso redor.


"Meu corpo é meu" - Hoje, segue a pergunta: Será mesmo?

Duas cenas em questão me chamam atenção nesse sentido. A primeira se refere ao momento em que Cristina conta a seus amigos tradicionais e, por que não, moralistas e conservadores, sobre seu envolvimento com Maria Helena e o início da relação a três com Juan Antônio.


Optando pela narrativa em flashback, Woody Allen parece deixar claro a naturalidade e a obviedade com que sua história é contada: o grande fato não é a "aventura" de Cristina com um pintor e sua ex-mulher - abordagem a qual poderia ser toscamente a opção de mais de 95% dos diretores de cinema - mas sim a recusa à medíocridade de uma vida pautada em pressupostos alienados e opressores de algo absolutamente não debatido, mesmo pela esquerda, que é a nossa vida privada e sexual. Daí a pertinência da máxima francesa.

A segunda cena é aquela em que, depois de bons meses vivendo com Maria Helena e Juan Antônio, Cristina, para quem é muito claro o que não deseja, mas pouco óbvio aquilo que, de fato, está em busca, resolve contar para seus companheiros sua decisão de terminar a relação.

A maneira com que Cristina reconhece a felicidade e a qualidade do encontro daqueles meses mas, no entanto, explica que já não se sente contemplada por aquela relação, e na mesma medida, a resposta de Juan Antônio, ao simplesmente agradecer pela possibilidade daquelas vivências, me parecem de uma beleza incrível.

E uso o termo beleza porque há muito de libertário, de fato, em tudo isso. Liberdade e intensidade, na teoria e na prática de nossas vidas pessoais, é definitivamente o que me encanta não apenas nessas passagens, mas no filme de modo geral.

Superando os limites de uma polaridade desinteressante entre moralismo e liberdade sexual plena (?) - fica o questionamento, sempre - acredito que a grande sagacidade é de se admitir buscas, limites e fins para, dessa forma, se chegar a algum nível mínimo de autenticidade e de liberdade em nossas explorações e subversões pessoais, sentimentais e sexuais.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Exprimindo as entranhas

Para ouvir isso, antes de mais nada:

http://www.youtube.com/watch?v=yuIFpvUOuQw

Um jeito de me exprimir. Sinto que tenho tanto a dizer, mas nesses últimos dias, tenho tido dificuldade em me expressar. As cores me emudecem.

Lago - Jardim de Luxemburgo, Paris


Gaivotinha - Jardim de Luxemburgo, Paris


Flores - Jardim de Luxemburgo, Paris


Detalhe de paredes - Sainte Chapelle, Paris

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Politização da vida privada

"A politização da vida privada".

Máxima do Maio 68...Bem pertinente.

Para trazer à tona a discussão sobre questões de ordem do privado, das relações sociais, das angústias subjetivas. Ainda na escuridão, infelizmente...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dois sexos?

Admitamos por um instante a estabilidade de dois sexos: não podemos deduzir que a construção de "homens" diga respeito exclusivamente a corpos masculinos e nem que corpos femininos se traduzam em "mulheres". No mais, mesmo se a morfologia e a constituição dos corpos parecem confirmar a existência de dois e somente dois sexos (o que refutaremos mais tarde), nada nos autoriza a pensar que os gêneros deveriam também se limitar a um par.

Judith Butler - Problema no Gênero: feminismo e subversão da identidade

domingo, 30 de outubro de 2011

PM - Pinturas no Museu

Telas que me emocionaram. Um dia gostoso em Paris com muito barulho em São Paulo. Computador, ligando dois mundos. Ansiedade e leveza juntas em dois mundos, em dois Tulios.

Miró - exeburante e ousado, bem psicodélico, bem alucinante, bem vivo.

Sonia Delaunay - supremacia das cores, pensando também na gemeotria de círculos.

Kandinsky - Parece quase infantil; bem lúdico.

Kupka - o meu favorito! Não conhecia a obra e é simplesmente genial, de uma presença absurda!

domingo, 2 de outubro de 2011

Maio de 68 - Uma Paris livre

Manifestação do maio de 68

Uma das mais de vinte barricadas feitas pelos estudantes


"A exaltação sobe de instante a instante. Das janelas, bandeiras vermelhas aparecem. Das sacadas, os jovens jogam flores vermelhas. Nós respondemos sutilmente: "A burguesia está conosco!". Estamos descontraídos, nenhum policial está à vista. É uma manifestação como nenhum de nós jamais vivera antes. É qualitativamente outra. O delírio ideológico tradicional está dissolvido. Não é uma multidão, agora trata-se de um corpo só. Nós não temos medo da sua ousadia porque nós estamos certos de sua lucidez. Estamos exultantes, mas na verdades nem um pouco surpresos. No fundo, é tudo muito normal: nós temos razão e nosso combate é justo. Tudo o que reivindicamos nos é devido.

Nós não sabemos mais nem ao menos aonde estamos. É tão exageradamente humano! As lágrimas surgem em nossos olhos antes mesmos que o gás lacrimogênio tenha sido disparado. Nisso vai tanto de cada um, em toda sua simplicidade, em toda sua natureza, que nós temos dificuldade de rotular essa cena. Revolta? Revolução?

[...] Aqui há vida. Aqui, somente vivendo, nós deslocamos a autoridade para as ruas [..] nós massacramos o poder do dinheiro em uma Paris livre."

Fonte: Mai 68.

Por dias, enfrentamentos com a polícia parisiense de dia....

...e de noite, atrás das barricadas

Nas faculdades: "Muito mais, a vida"

Assembléia geral do Movimento de 68 na Sorbonne ocupada

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Maio de 68 - "É proibido proibir"


"Entretanto, é verdade, nós somos culpados de lhes fazer ter medo, de ter sonhado uma imaginação no poder e de ter reivindicado um mundo mais justo e mais solidário. Nós somos culpados de ter desejado lançar uma questão a qual vocês jamais souberam responder até hoje. 'É proibido proibir'. [...] Eu proibo o proibir mesmo reconhecendo a impossibilidade de proibir o proibido, mesmo sabendo que no fundo de cada indivíduo, o mistério do proibido se recoloca sobre nossa vontade de decifrá-lo lentamente, mas passionalmente e à loucura de nossos desejos mais profundos. A irrupção do desejo e da ironia no espaço político foi talvez o fato mais revolucionário dessa época"

"E eu?
Eu amei essa revolução. Loucura, contentamento e prazer. Revolta lúdica e delirante. Tenho diante de mim um trabalho de Sísifo: como contar, descrever, explicar a meu filho esse momento passado da minha história?"

Daniel Cohn-Bendit, líder estudantil francês, de origem alemã, um dos principais articuladores do maio de 1968 francês. Artigo pro livro "Mai 68", sobre a revolução que começou com os estudantes franceses ocupando universidades como Sorbonne e Nanterre, lançando barricadas nas ruas, agitando e unindo-se ao movimento operário - culminando com greves gerais de trabalhadores e ocupações de fábricas por todo o país.

Durante mais de um mês, a França parou. E tudo começou nas salas de aula - emocionante. No entanto, nem tudo foram flores. Para animar quem acha difícil ter esperanças, o título de um manifesto feito por estudantes da cidade de Strabourg, na fronteira da França com a Alemanha, no começo das manifestações:

"Da miséria do meio estudantil: considerado sobre seus aspectos econômicos, políticos, psicológicos, sexuais e principalmente intelectuais"


Pensemos um pouco. Quantas não foram e não são as probições, as mais banais e sutis e mesquinhas, a que fomos e somos submetidos todos esses anos em espaços pilares da sociedade, das casas às escolas às vilas e feiras?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Por que não assisto novela

Chego em casa. Um pouco lento, um pouco desejoso de só me sentar no sofá. Depois de meses a fio desligada, eis que a TV dá sinal de vida. Aonde? Na novela das nove que acaba de estreiar.

Em menos de dois blocos, sou relembrado do por que não assisto TV - e de como sinto raiva de telenovelas.

Uma "mulata brasileira" toma banho de mangueira semi-nua no quintal de sua humilde casa em uma "favela"; semi-pornô, a negra - uma das únicas - em seu lugar cativo do imaginário branco elitista por excelência: fetiche dos machões casados com as senhoras brancas. Porque elas sim são boas de sexo e sensuais! Mesmo quando empregadas domésticas, não negam a sexualidade da raça, não é mesmo?

Mais um bloco e a madame, siliconada e com roupas decotadas, expõe o corpo-objeto enxuto para seus cinquentinha. Em pouco mais de um minuto, destila todos os preconceitos de classe possíveis de serem pensados: essa "gente", os pobres, não merecem a menor tolerância! Bando de imprestáveis sem classe!

Bem-vestido e bem animado, mordomo segue a madame para lá e para cá; passinhos curtos, bicos, caras e bocas. Voz engraçada. Uma figura; ah, quase se esquece, o rapaz não é um palhaço, é gay! E dizem que se envolve com algum dos figurões hetéros da história. Olha quanta modernidade na Globo?!

Desligo a TV e venho escrever; perdi o sono.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

É urgente

É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho

É urgente que as pessoas não se escondam
por detrás das outras pessoas
das ideias das outras pessoas
dos muros espessos do medo...

É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol
É urgente assumir a verdade *

É urgente viver,
para o bem e para o mal
na entrega e na sinceridade

É urgente tomar decisões
E é urgente ser feliz

*Manuela Amaral

sábado, 20 de agosto de 2011

Educação - parte 1

Apesar de estudar em uma universidade pública e de fazer parte já há alguns anos do movimento estudantil, por alguma casualidade até então nunca tinha de fato me aprofundado em números e estatísticas relativos ao debate sobre educação no nosso país. No entanto, lendo a tese de alguns colegas para o último CONUNE - Congresso da União Nacional dos Estudantes - eis que fiquei bastante assustado com alguns dados que tomei conhecimento.

Comecemos pelo Prouni. Para quem não está tão a par assim, o que seria o Prouni? Criado no governo Lula, depois de identificada a limitação em ser bem sucedido do FIES - que é o programa de financiamento estatal lançado no governo FHC para que estudantes de baixa renda pudessem financiar seus estudos em instituições de ensino superior privadas - o Prouni surge seguindo a mesma linha da Lei Rouanet: isenção fiscal para universidades privadas concederem vagas para estudantes de baixa renda aprovados em seus vestibulares. Essa era a política de FHC, essa foi a política de Lula e essa continua sendo a política de Dilma: entregar para o setor privado a responsabilidade sobre a educação do nosso país. Nada menos neoliberal.

Primeiro dado chocante: segundo o site oficial do MEC, em 2005, o montante que essas empresas da educação não pagaram de impostos ao governo federal foi de 105 milhões de reais. Leia-se: o governo deixou de investir em educação pública, gratuita e de qualidade o valor de 105 milhões de reais. Impressionado com a quantia, resolvi procurar qual é o custo de um aluno na USP e, a partir desse dado, calcular quantas vagas poderiam ser criadas na USP com a quantia reservada para o Prouni. De acordo com o site da Associação dos Docentes da USP (Adusp), o custo de um aluno na USP é de 10 mil reais ao ano. Calculando uma média de 5 anos de graduação por aluno, teríamos um valor de 50 mil reais por estudante.

105.000.000 : 50.000 = 2100 vagas poderiam ter sido criadas na USP

A princípio pode parecer pouco. O equivalente a 35 salas completas no curso de Jornalismo da ECA ou a quase 4 salas com 560 alunos cada no curso de Direito da SanFran. Pouco, mas o que está em jogo é exatamente o cerne da questão que é escamoteado: o que se entende, o que se deseja, o que propõem a ser a educação brasileira. E é aí que entramos no aspecto ideológico e político do debate.

Rapidamente poderia-se justificar o Prouni dizendo que o projeto cria um número maior de vagas do que as 2100 vagas potencialmente criadas na USP. Poderia-se justificar também que, como as instituições privadas já estão por aí aos montes e que, como para quem nunca estudou, essa é uma necessidade imediata, o Prouni pode ser considerado um bom paliativo.

Bem, aí entremos com o segundo dado chocante: em 1994, de acordo com o MEC, os estudantes das instituições privadas de ensino superior, equivaliam a 58, 4% do total de estudantes do país. Com o fim do governo FHC em 2002, esse montante era de 69,2%. Em 2009, no fim do governo Lula, esse número passou para 74,4%. Claramente o que se nota é que a partir do momento em que a política pública estatal brasileira de educação passou a ser financiar a educação dos jovens no setor privado, o que vimos foi a expansão das instituições privadas e o declínio e sucateamento das instituições públicas.

Trata-se de uma escolha. Uma escolha que fortalece grupos dominantes do "setor" de educação - como Unip, Estácio de Sá, etc - e enfraquece o patrimônio público e coletivo. O Estado não só não garante educação de qualidade, pública e gratuita para todos, como incentiva o setor privado a cumprir, à sua maneira e de acordo com seus interesses, a maior parte da educação nacional.

A questão é: educação medida somente em números de produção de vagas? Educação tratada como um paliativo para quê?

Educação em universidade particular, já sabemos qual é. Aquela que forma profissionais. Que se esvazia e se omite do debate e formação críticos, que se vê enjaulada na manutenção de uma sociedade mercadológica supostamente "atemporal", que não oferece nenhum tipo de assistência estudantil como bandeijões, residência ou bolsa-auxílio para que estudos sejam de fato efetuados, que é tecnicista e positivista. Educação mercadoria - o que, em grande parte da universidade pública já não é tão diferente, dadas as fundações, os estágios cada vez mais cedo, a pesquisa servindo aos interesses do mercado, etc.

Continua.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Uma flor rompe no filme

Não consigo achar melhor imagem para Pecado da Carne do que a poesia de Drummond: uma flor que rompe o asfalto. E, diga-se de passagem, que imagem esta, não?

Bem, é em uma comunidade de judeus ultra-ortodoxos de Jerusalém aonde estamos e Ezri, jovem e muito caloroso, sem ter para onde ir, acaba indo parar no açougue de Aarão. Este, casado, fiél dedicado, carrancudo. Infeliz. Desde sua barba pesada e seus gestos contidos a seus olhares desconfiados, tudo nos indica algum grau de insatisfação consigo mesmo.

Como sempre, a vida traz boas novas. Sem muitas palavras, com movimentos singelos e com um tempo que demora a passar, os dois acabam por se aproximar. E não é que a fatídica carne - sobre a qual Aarão e os demais fiéis tanto tergiversavam, sempre a culpabilizando e elevando as glórias humanas para os terrenos celestes - pode render prazeres possíveis e acessíveis para esses dois homens?

É com uma fotografia líndissima, uma direção super precisa e atores muito convincentes que esse filme israelense nos mostra o quanto o ser humano, suas contradições e sua complexidade podem nos surpreender no mais inóspito e improvável dos ambientes. E, acima de tudo, quão grande é o poder e a pressão das construções sociais criadas por ninguém menos do que nós, humanos.



É de entristecer o fato deste grande encontro estar fadado ao fracasso da sociedade em aceitar o que é verdadeiro, mas não igual; o fato de, muitas vezes, ser tão difícil de se assumir a narrativa das nossas próprias vidas, independente do local aonde vivemos e das pessoas que estão ao nosso redor; a dificuldade de se entender como a humanidade pode ser tão cruel - e tão medíocre - ainda hoje.

De qualquer forma, o filme nos dá pistas para pensar sobre a felicidade que está ao nosso alcance - para além da realidade material e a dificuldade imposta pelo mundo em que vivemos. Recomendo fortemente o filme.

Só mais uma coisa: é sempre inquietante ver o papel reservado para as mulheres nessas comunidades religiosas patriarcais. Totalmente reprimidas sexualmente, tidas como objetos sexuais frígidos, meros bibelôs. De indignar. Agora, outra coisa: qual a dificuldade de um pai de família ou uma mãe de família, a uma certa altura da vida, se envolver com alguém do mesmo sexo? Realmente não compreendo essa separação que as pessoas fazem entre pat/maternidade e sexualidade.

O que se vive, se vive e nada pode invalidar o que é/foi bem vivido. Fico pensando daqui a uns 50 anos, se ainda veremos esse debate nos filmes.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Os fins, os meios e a passagem

Definitivamente, descobri - ou reafirmei - que tenho dificuldade de lidar com o fim das coisas.

O fim das férias, o fim de uma viagem, o fim de um trabalho, o fim de um sentimento, o fim de um ano letivo. O fim de um ano. E, na verdade, nem acho que o fim em si seja a grande dificuldade, afinal, sou sempre eu quem busca por mudanças que significam o fim de algo. Quem as deseja, quem as traça de longe e as executa - mesmo que com pesar - sou sempre eu.

E tenho essa certeza: é preciso continuar andando. Depois de três cidades, mais de 8 casas, sinto que não são grandes as raízes materiais - nem nunca desejaria que fossem. Mas, como sempre, as pessoas. E a rotina. As pessoas com quem se convive, os hábitos, os sentimentos que vem acompanhados da certeza de se frequentar um lugar ou de sentir o perfume de alguém. Os cheiros, as ansiedades do que representou uma determinada fase da vida: isso me deixa nostálgico no trato com os fins.

E, por mais que continuar andando seja geralmente encarado de maneira positiva e até mesmo estimulante, andar significa também arcar com o peso de se arriscar. De sair de uma zona de conforto - deliberadamente podendo não encontrá-la depois - e ver-se empenhado na construção de outra.

É, realmente isso. A aventura do desconhecido - que só é possível e grande porque conta com a solidez daquilo que se sabe, se vive e se orgulha. Todos precisamos esquentar o peito e, no fim, sempre tendo a achar que o que se constrói é sempre o que mais importa; para além das mudanças. Exatamente porque o que fica é o que permite as mudanças. Ficar e partir, permanecer e mudar, se aventurar e construir.

Bem dialético...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Apenas, isso

Pelos corredores e sob o fino carpete que revestia o andar, eram seus passos os mais escutados durante o dia. Querido!, Querida! – exclamava como de costume a todos os outros funcionários da empresa. Suas mãos eram afáveis; quando não apertavam o braço daqueles com quem falava, estavam a alisar as costas ou as mãos das pessoas.

Eram muitos sorrisos, muitas piadas. Intimidade? Até com a quitandeira da esquina, imigrante coreana que apenas balbuciava palavras em um português incompreensível. Sabia de tudo: era a grande confidente das tramas amorosas, a entusiasta eufórica das aventuras sexuais, a conselheira dos impasses problemáticos de todos. De si, dava com a cabeça: Nada de novo!, ou Trabalhando!.

Naquela noite, no entanto, antes que pudesse virar a cabeça, já era possível pressentir que o teto de vidro havia por fim revelado suas fissuras. Em seus olhos, a expressão primeira da verdade, do não camuflar-se, do espaço aberto que, ao invés de demandar tantas informações aos outros, apenas importava-se em demonstrar sua ânsia: lágrimas e mais lágrimas.

Era difícil e era duro. Sabe, lidar com si. Não precisávamos dizer nada; partimos para o abraço. Nem tão quente, nem tão frio. Apenas, isso.

Talvez ela tenha se sentido melhor.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre a Marcha da Maconha, Sobre Drogas

Sim, tenho um interesse escuso e vou declarar aqui: meu interesse é que os direitos individuais sejam defendidos nessa merda de país, em que crenças e dogmas religiosos se sobrepõem às leis. Nunca fumei maconha, nunca cheirei cocaína, nunca injetei nada em meu sistema sanguíneo a não ser para tomar vacina. Porém já deu no saco viver em um país em que impera a discriminação, o preconceito e essa mentalidade absurda de se intrometer na vida dos outros, seja proibindo o direito exclusivo da mulher gestante ao aborto, seja proibindo o direito da pessoa a sua própria eutanásia, seja discriminando contra pessoas com orientação sexual e religiosa contrária aos "valores" (diga-se de passagem IMORAIS) do cristianismo. Esse país é uma piada de muito mal gosto.

Comentário de uma leitora referente à pergunta do jornal Estadão: "Após a decisão do STF, próximo passo é legalizar as drogas?"


Faço das palavras dessa leitora, as minhas. Também nunca usei nenhum tipo de droga e, para começar, gostaria de chamar atenção para todo o peso desse termo, droga. Quem pode definir o que é de fato uma droga? Eu acho miojo uma droga, sabonete líquido também, assim como religiosidade e alienação. Quase me esqueci: sanduíche com alho frito. Puta droga! Mas isso sou...eu.

E sempre me relacionei com pessoas que usam frequentemente algum tipo de droga. Apesar disso, nunca quis de fato usar alguma droga. Por motivos diversos: conhecidos que acabaram se dando mal depois de algum tempo de uso, uma necessidade maior de entusiasmo no real, uma vontade de fazer coisas bacanas de corpo inteiro, sem a necessidade de algo que pudesse me deixar mais "confortável" - como o álcool institucionalmente deixa as pessoas mais livres para encararem seus desejos; e isso é inclusive estimulado a todo momento.

O debate em torno da proibição ou não do uso de drogas camufla um outro debate que diz respeito, essencialmente, às relações sociais dominantes no mundo de hoje. Por que tantas pessoas usam drogas potencialmente letais, como heroína ou crack? Quem são essas pessoas? No caso do crack, a que classe social pertencem? Qual é sua estrutura familiar, seu acesso a oportunidades e a informações? Que tipo de vida levam? Acima de tudo, a que se resume hoje o valor da vida? O valor de viver, de existir, a troca entre cada ser humano? Ela existe de uma maneira satisfatória na maioria das relações que travamos no trabalho, em casa, com amigos, com namorados, paqueras, ficantes? E se não existe: por quê não existe?

Por outro lado, como explicar um dado sintomático da hipocrisia reinante no debate sobre drogas como o fato de os EUA serem o maior país consumidor do mundo e, incrivelmente, todas essas toneladas dos mais variados tipos de droga entrarem por suas fronteiras quando sabemos se tratar de uma das fronteiras mais vigiadas do mundo, aonde centenas de mexicanos são pegos e deportados todos os meses?

Se o debate sobre uso de drogas for para ser levado a sério, que comecemos por esclarecer esses fatos: a indústria do tráfico é uma multinacional das melhores equipadas, envolvendo centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro, trabalhadores explorados em latifúndios como os do Mato Grosso do Sul, engravatados nos Senados e nas Câmaras de muitos países - peço desculpas por ignorar por completo aqueles que insistem em acreditar que "líderes" do tráfico vivem com seus celulares milagrosos em prisões no interior de São Paulo ou em moradias precárias no morro - empresários e executivos que cuidam muito bem de toda a rede de distribuição e transporte de sua mercadoria. Porque é isso, o termo que devemos usar, para como sempre não fugir do macro, é mercadoria.

Enquanto isso, o debate reinante é a criminalização maniqueísta do consumidor, que, levado de maneira tão leviana, chega à brilhante conclusão de que a culpa pelas mortes inocentes no morro é de quem consome drogas. Consumidores existem e sempre existiram ao longo da história da humanidade. O que não se quer - e não se pode - enxergar é o fato de que há interesses lucrativos muito maiores do que a vida de desassistidos e marginalizados no morro. E é muito mais fácil encontrar um bode espiatório do que se chegar à real questão.

Manter a criminalização das drogas é interessante. Jogar a culpa em quem consome, livrando toda uma estrutura de poder que não vai perder seus clientes - que vão continuar existindo aos montes - é mais uma tática do jogo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Segunda carta

Paris, 25 de agosto de 1975

Caro seu Otávio


Aqui estou eu de volta de férias - um pouco feita a negócios e outro pouco à guisa de descanso; Portugal é realmente um país maravilhoso - é incrível a semelhança com o nosso Brasil! A gente se sente muito à vontade num clima geral muito pouco europeu-desenvolvido. Foi bastante proveitosa essa viagem - além de ter conversado muito com Paulo, deu pra resolver uma série de coisas.


Em primeiro lugar e o mais importante foi eu ter me decidido a não ir morar por lá. Explico: hoje o que está condicionando todas as minhas decisões é a vinda da Estela e a possibilidade de mantê-la comigo. Em sendo assim, se pelo lado econômico Portugal apresenta possibilidades concretas - não haveriam grandes problemas em conseguir uma vaga como professora de Sociologia ou mesmo Economia em uma universidade portuguesa, o clima geral em que vive o país não é o mais indicado para se pensar em termos de começar vida nova.
[A Revolução dos Cravos em Portugal acabara de dar fim à ditadura de Salazar]

Por esse motivo, hoje, 2ª feira, inicia-se vida nova aqui mesmo em Paris. Isso representa concretamente procurar emprego, depois disso conseguir uma casa e esperar ansiosamente a chegada de Estela. É uma pena que aqui na França não exista possibilidade nenhuma de a partir de agora já me lançar num emprego mais condizente com os estudos feitos [...] Estou pensando então num emprego qualquer que me permita ter Estela em 1º lugar e se possível e na medida do possível meter bronca na escola. [...]
É por causa disso que decidi ficar em Paris e enfrentar essa terra que tem muito de hostil.[...]

Não sei se algum dia vou me arrepender pela decisão tomada e assumida ou se algum dia a própria Estela vai me julgar por isso - só sei que tudo isso faz parte do jogo da vida - e viver muitas vezes é perigoso - o negócio é não se acovardar perante a vida e creio que você sabe disso muito melhor do que eu. Tô assumindo minha vida, na qual Estela faz e é parte principal integrante.

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Todos os nomes citados são fictícios. Essa é uma carta das entranhas - de sentimentos, dores e sensações. Novamente um relato de exilados políticos durante a ditadura do Brasil. Pertence a algo que deve e poderá ser maior algum dia - em algum projeto de futuro. No entanto, é inevitável não achá-la bonita; principalmente o último parágrafo. Por isso a necessidade de compartilhá-la aqui, nesse cantinho. Quem quiser saber mais, vamos pro bar!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Carta do Tulio

Santiago, Chile. Agosto de 73

Mamãe, mamãe Marieta, Seniro e demais, como vai você?

Aqui nós vamos vivendo como podemos. A situação vem se tornando cada vez mais difícil. Há uma crise econômica bastante séria, com uma inflação cada vez maior. O Chile está sendo boicotado tanto externamente como internamente. Esta situação, patrocinada pela direita, vem se desenvolvendo e com perspectivas de gerar uma crise política.

Alguns setores já estão se articulando para tentarem uma saída através de um golpe militar. Bem, se juntarmos a tudo isto a falta de alimentos e a dificuldade de consgui-los, faz com que não possamos ter segurança total para os próximos meses. Guerra civil e uma perspectiva que se comenta em cada esquina, em cada diário, em cada boca de chileno.

Para aumentar nossos problemas, acabamos por perder nossa empregada e o difícil agora é conseguir uma com a mesma confiança que tínhamos na que perdemos.Tive que pedir alguns dias de folga no trabalho para superar as dificuldades. Tomando em conta que Naná está em época de provas na universidade e que não pode perder o semestre, para não atrasar ainda mais sua formatura, e que não pretendemos que ela abandone os estudos, decidimos discutir bastante e resolver algumas coisas.

Uma delas foi a de mandar provisoriamente Flavinha para o Brasil. Ela irá com a mãe de Naná que veio passar alguns dias aqui e vai aproveitar a viagem para fazer um exame num mianjioma (não sei se é o nome é este mesmo) que tem na cara. Vai ser examinada por médicos em S. Paulo e que são autoridades no assunto. O tempo de permanência de Flavinha no Brasil será determinado pelo tratamento e pela melhora da situação aqui no Chile.

Nós não queremos nos afastar dela, já conseguimos superar uma fase difícil, que foi criá-la até um ano, e se vamos nos separar nesta fase é porque racionalmente vimos e pesamos as dificuldades que ela poderia passar, tanto materiais, como assistenciais. Mamãe Marieta e Tania se ofereceram para cuidá-la. Vou discutir com Naná e ver o que podemos fazer. No momento atual vai ficar com a mãe de Naná, o que vai ser facilitado inclusive pela estada dela no Chile e irá levá-la pessoalmente para o Brasil.

No mais, Flavinha está bem, um pouco resfriada, mas bastante esperta, embora não esteja andando ainda, muito mais por culpa nossa que não conseguimos um sapatinho apropriado para ela, já que possui bastante equilíbrio e poderia estar andando. Fala bastante, embora numa língua que ninguém compreende. Fala papá, mamá, tchau, e outras besteiras. Papá e mamá ela fala mas parece que não compreende totalmente o significado.

Com respeito ao envio de coisas, pode parar de enviar fósforo e cigarro. O principal é mandar arroz e pasta de dente e como passaremos a comer a maior parte das vezes fora de casa, não necessitaremos mais de outras coisas. Qualquer necessidade mandaremos dizer. Eu vou telefonar para casa de mamãe Marieta no dia 6 de setembro, como combinei com ela. Aguardem.

Tania me telefonou e foi para mim uma grande alegria já que não ouvia sua voz há muito tempo. Parece que está bem e já me deu seu endereço em S. Paulo. Mamãe, soube que você fez uma plástica. Como está passando? Ficou bem.Mamãe Marieta, como vai a clínica e S. Conrado?Seniro, como vai o Flamengo e as peladas?

Um beijo, do Tulio.

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Essa foi a última carta que Tulio Quintiliano escreveu, antes de ser executado no Chile, quando do golpe de Pinochet. Tulio era brasileiro e exilara-se no Chile depois do aumento da repressão política da ditadura brasileira. Partilhamos do mesmo nome e de algumas cositas más.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

No Rio e na infância

Caminhávamos pela praia.

Era o final de tarde e o sol, fraco, estava amarelo e a brisa, úmida e com areia, remexia seus cabelos duros e salgados. Frisados. Pessoas andarilhavam pelos lados; felizes, com suas crianças, olhares amistosos e vontades atiçadas - sentindo-se bem. À frente, o lançamento de um livro, poucos senhores e algumas senhoras se deslocando no espaço amplo à beira-mar.

À revelia, as montanhas, o clima, o cheiro de um Rio que resiste e que retoma a infância, os sonhos e as sensações. Àquelas, antigas, dos garotos de havaiana, bicicleta e sotaque forte; a mesma das meninas, desenvoltas, espertas, tão cariocas.

Uma gota escorre pelo peito e é interrompida pela corrente no pescoço.

Sobretudo, ali, no meio escondidas, as minhas sensações. Bem guardadas, devidamente lapidadas e ousadas, sentidas, sempre, internamente. E intensamente.

Noites bem dormidas em férias tão bem aproveitadas ao calor da manhã e a rapidez de lanches mal comidos. Sempre, entremeios, o obscuro. As discussões até tarde da noite; já não aguentava mais e, quando o gato se aconchegava em sua cama, íamos dormir. Tantas certezas com a vontade de me amalgamar à praia, à calçada carioca, de viver a mpb, a bossa e a preguiça.

É sobre girar e dar as mãos que estamos falando aqui. Ou andar, na praia e ao vento. Ao som. Firme, teimoso, mas belo. Lento, que é para durar na memória e não nos deixar na vontade.

E sim, isso não é fragilidade, nem vulnerabilidade. É memória e é onda, que vem grande, quase nos ultrapassa, mas se fura, assim, como quem coloca o dedo no açucar.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Abra um parênteses, não esqueça

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta

O tríplice mistério do "stop"
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola

O mistério do Planeta - Novos Baianos

Estávamos um pouco altos – não sei se de bebida ou de excitação. De tamanho, com certeza. Nos expandiamos enquanto flutuavamos. Dançavamos, davamos piruetas, batiamos o pé com força no chão; antes, sorrisos de dentes esboçados e olhos semi-cerrados. A música tocava e as cotoveladas eram constantes. Os outros não entendiam – também pudera, ponha sua mão no gelo.

Na sala, lotada como nunca, olhares perdidos e suspeitos, conversas paralelas e segredos de sete chaves. Todos com sete vidas, assim como os gatos – para serem devidamente repetidos e nunca morrerem.Que rezem as lendas! E pensar por todos que passaram por ali e na gente que quase que se esquece que vai embora – ai meu Deus...

A uma certa altura, começam as declarações de amor: de como somos felizes, de como nos gostamos, de como estamos e somos parte de algo tão maior! E, se tudo der certo, tão longínquo. Do tamanho do fôlego de uma vida. Será?

Outro dia pensei: “não quero me lembrar da faculdade como a melhor fase da minha vida”. E não quero mesmo. Talvez isso tenha tudo a ver com toda a emoção de ontem – vangloriamos e nos lembramos com saudades de todos esses momentos de prazer como uma quebra. Como se, sim, depois da faculdade, você estivesse devidamente fadado à labuta pesarosa.

“É bom trabalhar o quanto antes, para se ver como a vida é dura”. É preciso trabalhar e é preciso sobreviver. Mas, não soa maluca uma sociedade em que o saudosismo é exaltado e a sentença de um futuro sofrível, reconhecidamente sofrível, é a máxima que nos guia? “Aproveite”, dizem com maus olhos. Ou com olhos de desdém.

Pois é, para mim, é como em Novos Baianos: trata-se de um encontro. De deixar e receber um tanto. Encontro com a vida, com você e principalmente com o outro. E há quem nunca vá entender; o que é mais triste, não para eles, mas talvez para nós. Porque já dizia Drummond, só quem vive à gauche sabe da liberdade e da dificuldade de se ser quem se é.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A dor e o tijolo

Em um de seus melhores momentos, Reencontrando a Felicidade traça uma belíssima reflexão sobre a relação entre a dor e a passagem do tempo - o qual descobriremos ser o grande trunfo do filme ao cabo de seus noventa minutos de duração.

Diz a mãe de Becca (Nicole Kidman): “em algum ponto, torna-se suportável [a dor]”. E assim ela explica para sua filha - que ainda sofre a dor da perda recente do filho de quatro anos - que, inevitavelmente, a dor, assim como as lembranças e todas outras sortes de sentimentos de grande magnitude, é como um tijolo. Ele sempre estará em seu bolso e, se por um lado pode e irá certamente pesar de quando em quando, é ele também quem nos propicia um sentimento intenso de estar vivo. De existência que fustiga o coração e machuca a pele. E pode ser que seja bom e que seja preciso, muitas vezes, sentir-se mal para sentir-se vivo.

Do mais, o que fica em nossa cabeça é a força de um segundo transformador; para o bem e para o mal, a força que nos revela aquilo que preferencialmente poderia permanecer esquecido. Bacana também pensar em como a vida nos coloca a todo momento em situações e deslocamentos estranhos; não sabemos nem como, nem porque, mas vamos vivendo e percorrendo locais que não poderíamos imaginar vivenciarmos um dia.

Dessas duas pessoas em transição, fora do eixo, fica a mensagem bonita: o olhar que sabe-se e conhece-se e que, mesmo sem externalizar palavras, nos revela uma segurança e um sentimento capaz de transcender as piores das situações.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Espiral ao som de Beatles

Estavámos em uma espiral. As cores, em tons de rosa misturado com roxo e branco, giravam e faziam tudo aquilo parecer uma grande catarse - talvez fosse. Ao som de Beatles, Here Comes The Sun, tudo realmente parecia estar all right.

O céu azul, a menina que se debulhava em lágrimas por um amor perdido, as pessoas sentadas em um espaço público já degradado. O nóia em minha frente se remexendo - e exibindo as costelas desossadas, a pele negra mal-tratada.

De qualquer forma, era da espiral e de sua descrição que não poderia esquecer-se. Aí então ficou tarde, era domingo e o sono batia forte. Foi então que, do auge de cansaço que evita até banhos, surgiu a força; em forma de música e emails. Em forma de luta - seria melhor sempre usar esse substantivo. Orgulhara-se, arrepiara-se e foi até capaz de derramar uma lágrima.

-Também, tantas palavras bonitas. E tanta força.

Exato. E a espiral que não arrefece; ela e seus lábios carnudos. E a semana veio para melhorar. Com suor, algumas gotas bem abaixo da nuca, assim, atrás do cabelo; era grande o sol de outono dos últimos dias. Muito bem. Com Strawberry Fields Forever tudo ficou melhor, mais próximo e mais distante: on devrait parler en français?

Ainda não - fiquemos com o português e esperemos pelo melhor até julho. O melhor do lixo da semana que vem. Ansiedade. De resto, a sensação; os banhos dela, seus óculos embaçados; seus gritos esganiçados. A casa e nós três; sensíveis.

Andar pela Paulista, passar pela vó, estremecer. Lembrar-se da espiral e sorrir.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O estado de graça de Clarice


Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão leve. É uma lucidez de quem não advinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se. (Água Viva)




Sabe-se.

sábado, 2 de abril de 2011

Aleksandr Ródtchenko: revolução na fotografia

Vou resumir: para acostumar as pessoas a ver a partir de novos pontos de vista, é essencial tirar fotos de objetos familiares, cotidianos, a partir de perspectivas e posições completamente inesperadas. Novos assuntos têm que ser fotografados de vários pontos, de modo a representar o assunto completamente
Alexandr Rodchenko, 1928, Caminhos para a fotografia contemporânea


Em um estreito corredor de paredes vermelho-sangue e iluminação abafada, um pequeno sinal pendurado em um quadro de vidro nos alerta: “Da Moscou mercantil a Moscou socialista”. A seguir, misturadas a recortes de jornais e revistas, colagens e documentos, é possível observar imagens realmente capazes de materializar o clima dos primeiros anos que levaram a Rússia, de país czarista e pobre, à potência socialista emergente do século XX. Trata-se da exposição em cartaz na Pinacoteca do Estado Aleksandr Ródtchenko: revolução na fotografia, homenagem a um dos maiores fotógrafos mundiais e o pai da imersão da vanguarda construtivista na fotografia.


O entusiasmo dos primeiros anos da revolução socialista é sobretudo registrado através do cotidiano dos trabalhadores, das inúmeras obras – com destaque para uma série de fotografias que revelam detalhes da construção do canal que liga o mar Báltico ao mar Branco - da exaltação às manifestações públicas e às praças sempre cheias de gente. Para além de sua ousadia na forma, que abusa de ângulos diagonais, de fotos de baixo para cima e de cima para baixo, o grande trunfo da exposição é realmente nos remeter a uma época e a um clima inimagináveis para alguém nascido e crescido no ocidente capitalista.


Apesar do esforço e cansaço de fotografias de mulheres trabalhadoras, de homens carregando grandes toras de madeira ou descendo de andaimes, é curioso contemplar a exaltação do homem comum nos trabalhos da primeira fase de Ródtchenko e se perguntar: mas como é possível praças sempre tão cheias? Em especial, ao se deparar com a capa de uma antiga revista soviética, Soviet Life, é de se perguntar: calma, o que estaria nas páginas de uma revista de massas socialista? O que pensava daquilo uma mulher que carrega o filho no colo enquanto sobe um grande lance de escadas? Sobretudo, somos tomados pelas divagações.


Com o espaço público sempre tão lotado, será que logo depois do almoço, antes de uma cochilada gostosa, era um costume levantar-se da mesa, pegar uma bicicleta e ir em direção à praça vermelha, mesmo sem saber do que se trata, e reunir-se na próxima manifestação ou encontro coletivo? Como se completava o espaço de tempo entre uma manhã e uma noite em um país em plena convulsão socialista?


Terminada a euforia dos primeiros anos, é com apreensão e um progressivo mal-estar que assistimos o trabalho de Ródtchenko passar a registrar eventos especiais de massa, desfiles com garotas vestindo shorts curtos e segurando bandeiras, demonstrações do numeroso exército vermelho que acompanhavam a crescente militarização do país. A partir desta segunda fase, vemos um gigante já estabelecido e é com ar de enrijecimento e frustração que podemos captar a atmosfera dos últimos trabalhos do fotógrafo como grande mestre da fotografia russa – com o advento do stalinismo, Ródtchenko, como Marc Chagall e outros grandes artistas russos, passa a sofrer perseguições, é privado do direito de participar de exposições e é expulso do sindicato dos artistas russos. Diante de tal condição, acaba doente e as últimas fotografias que compõe a exposição da Pinacoteca nos dão conta do resultado da perseguição stalinista: imagens solitárias e frias do inverno na região da Karélia. Vale a pena ressaltar, para espanto de quem não possa comparecer à exposição, a data dessas últimas fotografias: apenas 1933.


Em seu diário, Ródtchenko deixou o registro de sua frustração com a arte política da antiga URSS: “Arte é serviço para o povo, mas o povo está sendo levado sabe Deus para onde. Eu quero levar o povo à arte, não usar a arte para levá-lo a lugar algum. Terei nascido muito cedo ou tarde demais? A arte deve estar separada da política”.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A minha educação

Há tempos que quero escrever sobre educação. A educação que tive em colégios privados de classe média alta do interior de São Paulo. Não pretendo fazer uma crítica pontual a um colégio ou outro; antes, a todo um clima, um sistema do que se pretende enxergar como educação no interior. Éramos todos devidamente educados para o consenso. Nas aulas de redação, poderíamos ter que escrever sobre cidades de médio porte supostamente bem sucedidas economicamente, sobre a definição de amizade, sobre globalização e diversidade cultural ou apenas sobre os jovens de hoje. Como de prache, éramos chamados a discutir. Leia-se: os mesmos alunos dissertarem sobre suas opiniões tão esperadas quanto mediadas por reportagens especiais da revista Veja. Vez ou outra, saia-se do eixo. Surgia um ruído: para logo ser posta devidamente a ordem, seja por meio do ceticismo - "sempre foi assim"; "é assim"; "mas como você vai mudar?!" - seja por meio do desinteresse gerado pelo consenso. - É assim, besteira teimar em pensar. Tudo bem, tudo bem, você pensa assim e eu penso assado. Cada um na sua.


Espera aí: como assim cada um na sua? A aula, que já não era em semi-circulo, acaba com produções individuais que serão entregues e pronto? É essa a grande discussão sobre criminalidade no Brasil ou sobre o aborto? Todos permanecem calados. E aqueles poucos que ousaram participar e esboçar uma tentativa de opinião encerram-se encimesmados.


Eu adorava minha professora de redação. Éramos muito próximos e sua personalidade e amizade certamente me marcaram muito mais do que a de dezenas de pessoas com quem ali convivia há anos. Não se trata, novamente, de algo pontual. Não indiviualizo o problema em sua pessoa. Trata-se de um modus; de uma educação.

Hoje, me pego pensando: por que falar do quanto se bebe ou se bebeu em um fim de semana se sempre achei um saco esse fetichismo todo? Por que pergunto se fulana ou ciclana namora, com quem gosta de falar de namorados, se não me interessa a vida dos outros? Por que, por Deus, vez ou outra me pego irritantemente perguntando para algum sujeito mal-humorado se ele assistiu ao último jogo de futebol de seu time, sendo que nunca gostei do esporte? Mais: por que quando estou aqui por vezes deixo minha opinião política ou pessoal de lado, seja ela qual for, quando converso com alguém de que gosto e sei que discorda de mim? Por que fujo do embate? Porque, no interior, muitas vezes diversidade se guarda com aqueles com quem se compartilha visões. Diversidade, se guarda em casa - com os familiares ou os íntimos. É para um seleto time que nos mostramos a nós mesmos. Isso quando nos mostramos por completo. E não falo de mistérios do homem e de cada um; falo de opinião. Se somos favoráveis à pena de morte e por quê, se não assistimos tal programa de TV que têm picos de audiência e por que, qual cantor de sucesso não gostamos, que tipo de comportamento dominante da moda evitamos. Diversidade não é alimentada; diversidade pode ser mal-vista. Ou, simplesmente, não é nada. É posta de lado pela indiferença ou pela omissão. Porque pede-se por consenso. E finge-se. Muito. Não estamos prontos a estar abertos. A ouvir, a dizer e a pensar: não temos resposta para tudo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dia de inverno

Ainda ventava lá fora. Ela colhia plantas em sua horta, enquanto a brisa gelada batia-lhe o rosto e fazia tremer algumas mechas soltas de seu cabelo. Era o inverno e a sensação de vestir mais de uma blusa e lançar-se ao relento lhe fazia prazer. O cheiro do mato recém molhado também era estimulante - assim como o céu, cinza, em um ambiente pálido e vagaroso.

A ausência de perspectivas para o dia também não era incômodo, desta vez. Desfrutava de um daqueles dias em que tudo está bem e seguro. A tarde que caía cedia espaço para a incerteza da noite. Aspirava o ar gélido e o frio adentrava seus pulmões, tal qual o encanto da tarde era preenchido pela inexatidão da noite.

Respirava aliviada porque, dali a pouco, voltaria para dentro e então encostaria suas bochechas sob bochechas mornas, roçaria sua barba por fazer e aspiraria perfume em vez do
ar frio. Assim, tocando de leve cabelos seus. Acontecesse o que fosse lá fora, para sempre existiria dentro; conhecido, seguro, quente. Nem mais, nem menos. Apenas isso.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Tenso

Acabo de ler uma matéria sobre o novo filme do Fernando Meirelles, o 360º. O filme parece ter uma temática bacana, basicamente sobre relações humanas em diversos país; mais um filme "caldeirão cultural", como Babel ou Crazy, mas mais leve, acredito. Até aí, tudo bem.

O que me irrita é o diretor reconhecer sua não contribuição ao cinema nacional, escalar a Maria Flor e mais um outro carinha da Malhação como os únicos brasileiros a atuarem no filme e depois vir me falar que adora rodar no Brasil, que adora trabalhar com brasileiros. Poxa! Tantos atores bons sofrendo pra sobreviver de arte - a-r-t-e - dando a cara à tapa em milhares de apresentações ousadas, sem verba, sem divulgação nenhuma. Eu conheço vários no CAC. É uma sacanagem, sabe. Você escolhe ser ator quase que sabendo das dificuldades que vai encontrar se quiser ser um pouco mais criterioso nas escolhas de seus papéis. Isso para aqueles que realmente vão em frente com o seu sonho...Os que não vão, bom, esses são muitos no Brasil.

Aí me vem um puta cineasta de qualidade reconhecer sua falta de esforços e ainda me contratar atores medíocres pra atuar em seus filmes internacionais...Ah é, já ia me esquecendo, ele se conforta com o fato de estar abrindo o mercado externo para brasileiros...Puta que o pariu, né!

Fico pensando na Argentina, ferrada economicamente, com uma puta inflação, mas com o cinema cada vez mais forte, mais ousado, mais original.

Tenso.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cisne Biutiful

Visceralidade. Essa é a palavra que melhor define Cisne Negro, com Natalie Portman e direção do Darren Aronofsky. Tá, isso todo mundo já deve estar careca de saber. Mas o importante é: Cisne Negro nos leva a pensar em quão visceral pode ser uma experiência humana quando desejamos, sentimos paixão, por algo de verdade. É intenso e é desesperador. O limite entre determinação e caos. Gosto muito de imaginar situações que envolvam esse limiar.


E nada melhor do que a arte - no caso do filme, o Ballet - para expressar essa entrega toda...E uma amiga me disse: "é isso aí, todos os artistas que foram tão viscerais desse jeito não estão ou não ficaram muito tempo nesse plano durante o seu auge..." Será?! Sinto pena da bailarina do filme, por toda aquela repressão, aquele moralismo, por uma falta de racionalização, pela imbecilidade da competição - que insiste em existir e em encher o saco. Pelo prazer que se esvai em meio ao não pensar. Mas me encanta a força com que o filme foi dirigido, a intensidade do trabalho de atores, bailarinos e diretor. Todas as cenas filmadas tão perto do palco, a audácia da câmera que treme o tempo todo. Um baita trabalho!

Falando em intensidade, falemos de Biutiful. Um puta filme responsa! Tenso. Como pede um verdadeiro filme de Iñarritu. E isso é o incrível em sua obra: sua fidelidade a seus ideais, que aparecem em um roteiro bem construído, em personagens bem desenvolvidas, em sequências belíssimas e totalmente significativas de imagens e sons. É um cinema muito sinestésico. E Javier Bardem, caramba! Saí do cinema com um só desejo: encontrar algo que me propicie tamanha paixão e entrega na minha vida profissional. Acho que só o cinema ou a arte mesmo! É fora de sério...Biutiful consagra a obra de Iñarritu, todos os signos estão lá. Muito bem preservados, muito mais bem-acabados.

Só mais um comentário: como a crítica pode ser tão rasa a ponto de encerrar suas palavras em uma análise tão rasteira que individualiza a história do protagonista Uxbal como o mais importante do filme? Não enxergar todas as relações sociais e econômicas no macro do filme é uma opção absurda. Pra quem viu o filme: pensem nas sequências de imagens de chaminés soltando fumaça e não é preciso se esforçar muito para sacar a que elas dizem respeito.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Bastidores...de novo.

Eu gostaria de poder escrever bem sobre aqueles que amamos. E gostaria que esse post pudesse trazer de volta a vontade de escrever de antes - tão ávida, tão impositiva, tão angustiantemente libertadora depois de feita. Pois é, crescemos e mudamos. E como explicar as mudanças naquilo que outrora achávamos tão elementariamente nossos?

Pois é, acho que a escrita tinha essa função para mim, assim como o teatro me fazia pulsar. E o cinema me emocionava. Me fascinavam as outras vidas, os outros lugares, o brilho e a decadência. E, depois, claro, a minha vida. O que penso agora é, para além da vontade de escrever constantemente - que ainda possuo, mas, agora, de maneira mais privada - para onde foram algumas personas que passaram por minha vida.

Esse é o caso do Fábio, grande professor de inglês e amigo que tive há uns quatro anos quase. Fábio largou tudo: foi conhecer o mundo. Estados Unidos, Itália, Grécia, Croacia, França, Portugal, Chile, Argentina, Peru, Caribe. E sei lá mais o que. Do Fábio agora só me restam fotos. Sabe-se lá para onde foi e como está. E, apesar de olhar feliz para as suas fotos no Facebook ou no Orkut - sim, ele está conhecendo o mundo, olha que coisa formidável para se fazer antes dos 30! - não posso evitar as saudades esmagadoras. E pior: a nostalgia. Como eu odeio esse sentimento! Esse negócio de você conhecer as pessoas, ter uma fase incrivelmente inspirante e positiva ao lado delas e, de repente, ver-se há anos sem contato com elas.

Um professor da USP uma vez me disse: "o infinito só é infinito porque é finito". Dito e feito - infinito no finito.

É como uma tia da infância que, na verdade, era apenas uma amiga dos meus pais que eu chamava de tia. Hoje me lembro dela, com muitas saudades. Se sei onde está, o que come, com quem vive, o que foi feito do seu apartamento tão aconchegante ou como são gastas suas energias que eram tão invejáveis? Pois é, a resposta é não. E isso dói. Ai, vida, viu. Pare de mudar ou faça-me acostumar com você e suas partidas.

Maria Rita, pra terminar:

domingo, 2 de janeiro de 2011

Hanami

Todos a bordo, voo 2345, saída do patriarca, pai de três filhos, trabalhador ordeiro, sem dotes domésticos em geral, sem apelo estético ou prazer artístico. Ponto de chegada: dúvida. Hesitação, desafio e medo. Por que não mudanças? Ou autoconhecimento?

É assim que me sinto logo depois de assistir a Hanami-Cerejeiras em Flor. O caminhar de Rudi, desnorteado depois da perda repentina de sua mulher Trudi, é algo de fascinante em sua escuridão. Ou, talvez seja mais oportuno dizer, em toda sua sombra - palavra utilizada para descrever o Butoh, dança típica japonesa que desempenha um papel importante nas vidas de Trudi e, depois, de Rudi.

O Butoh e o Japão, por si só, já são impactantes. Dançarinos de Butoh, brancos como fantasmas, com os olhos pretos e os lábios vermelhos, parecem estar em permanente agonia. O intrigante é constatar que, apesar do horror e do choque à primeira vista, algo é estranhamente atraente no Butoh. O que me repele, me atrai.

Da mesma forma, Tóquio, com sua mutidão em todos os lugares, parece um bocado assustadora. É muita gente, muito concreto, pouquíssimo espaço. O mundo parece estar próximo ao fim. Li outro dia em uma revista que as pessoas chegam até a usar máscaras nas ruas- daquelas que previnem ondas de gripe - só para se protegerem dos males da poluição local. Não que nós paulistanos estejamos bem...

De qualquer forma, é pela sensibilidade, abertura e ousadia do casal de idosos central que o filme vale a pena ser visto. Em contraponto a uma geração quase que senil, obcecada pelo trabalho, por dinheiro e modernidade - tal qual muito se promete e muito se compra por aí - esses velhinhos nos lembram o quanto a vida pode ser bela.