domingo, 2 de janeiro de 2011

Hanami

Todos a bordo, voo 2345, saída do patriarca, pai de três filhos, trabalhador ordeiro, sem dotes domésticos em geral, sem apelo estético ou prazer artístico. Ponto de chegada: dúvida. Hesitação, desafio e medo. Por que não mudanças? Ou autoconhecimento?

É assim que me sinto logo depois de assistir a Hanami-Cerejeiras em Flor. O caminhar de Rudi, desnorteado depois da perda repentina de sua mulher Trudi, é algo de fascinante em sua escuridão. Ou, talvez seja mais oportuno dizer, em toda sua sombra - palavra utilizada para descrever o Butoh, dança típica japonesa que desempenha um papel importante nas vidas de Trudi e, depois, de Rudi.

O Butoh e o Japão, por si só, já são impactantes. Dançarinos de Butoh, brancos como fantasmas, com os olhos pretos e os lábios vermelhos, parecem estar em permanente agonia. O intrigante é constatar que, apesar do horror e do choque à primeira vista, algo é estranhamente atraente no Butoh. O que me repele, me atrai.

Da mesma forma, Tóquio, com sua mutidão em todos os lugares, parece um bocado assustadora. É muita gente, muito concreto, pouquíssimo espaço. O mundo parece estar próximo ao fim. Li outro dia em uma revista que as pessoas chegam até a usar máscaras nas ruas- daquelas que previnem ondas de gripe - só para se protegerem dos males da poluição local. Não que nós paulistanos estejamos bem...

De qualquer forma, é pela sensibilidade, abertura e ousadia do casal de idosos central que o filme vale a pena ser visto. Em contraponto a uma geração quase que senil, obcecada pelo trabalho, por dinheiro e modernidade - tal qual muito se promete e muito se compra por aí - esses velhinhos nos lembram o quanto a vida pode ser bela.