segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A minha educação

Há tempos que quero escrever sobre educação. A educação que tive em colégios privados de classe média alta do interior de São Paulo. Não pretendo fazer uma crítica pontual a um colégio ou outro; antes, a todo um clima, um sistema do que se pretende enxergar como educação no interior. Éramos todos devidamente educados para o consenso. Nas aulas de redação, poderíamos ter que escrever sobre cidades de médio porte supostamente bem sucedidas economicamente, sobre a definição de amizade, sobre globalização e diversidade cultural ou apenas sobre os jovens de hoje. Como de prache, éramos chamados a discutir. Leia-se: os mesmos alunos dissertarem sobre suas opiniões tão esperadas quanto mediadas por reportagens especiais da revista Veja. Vez ou outra, saia-se do eixo. Surgia um ruído: para logo ser posta devidamente a ordem, seja por meio do ceticismo - "sempre foi assim"; "é assim"; "mas como você vai mudar?!" - seja por meio do desinteresse gerado pelo consenso. - É assim, besteira teimar em pensar. Tudo bem, tudo bem, você pensa assim e eu penso assado. Cada um na sua.


Espera aí: como assim cada um na sua? A aula, que já não era em semi-circulo, acaba com produções individuais que serão entregues e pronto? É essa a grande discussão sobre criminalidade no Brasil ou sobre o aborto? Todos permanecem calados. E aqueles poucos que ousaram participar e esboçar uma tentativa de opinião encerram-se encimesmados.


Eu adorava minha professora de redação. Éramos muito próximos e sua personalidade e amizade certamente me marcaram muito mais do que a de dezenas de pessoas com quem ali convivia há anos. Não se trata, novamente, de algo pontual. Não indiviualizo o problema em sua pessoa. Trata-se de um modus; de uma educação.

Hoje, me pego pensando: por que falar do quanto se bebe ou se bebeu em um fim de semana se sempre achei um saco esse fetichismo todo? Por que pergunto se fulana ou ciclana namora, com quem gosta de falar de namorados, se não me interessa a vida dos outros? Por que, por Deus, vez ou outra me pego irritantemente perguntando para algum sujeito mal-humorado se ele assistiu ao último jogo de futebol de seu time, sendo que nunca gostei do esporte? Mais: por que quando estou aqui por vezes deixo minha opinião política ou pessoal de lado, seja ela qual for, quando converso com alguém de que gosto e sei que discorda de mim? Por que fujo do embate? Porque, no interior, muitas vezes diversidade se guarda com aqueles com quem se compartilha visões. Diversidade, se guarda em casa - com os familiares ou os íntimos. É para um seleto time que nos mostramos a nós mesmos. Isso quando nos mostramos por completo. E não falo de mistérios do homem e de cada um; falo de opinião. Se somos favoráveis à pena de morte e por quê, se não assistimos tal programa de TV que têm picos de audiência e por que, qual cantor de sucesso não gostamos, que tipo de comportamento dominante da moda evitamos. Diversidade não é alimentada; diversidade pode ser mal-vista. Ou, simplesmente, não é nada. É posta de lado pela indiferença ou pela omissão. Porque pede-se por consenso. E finge-se. Muito. Não estamos prontos a estar abertos. A ouvir, a dizer e a pensar: não temos resposta para tudo.

Um comentário:

Clara disse...

muito isso tulio... muito bom o texto.