sábado, 2 de abril de 2011

Aleksandr Ródtchenko: revolução na fotografia

Vou resumir: para acostumar as pessoas a ver a partir de novos pontos de vista, é essencial tirar fotos de objetos familiares, cotidianos, a partir de perspectivas e posições completamente inesperadas. Novos assuntos têm que ser fotografados de vários pontos, de modo a representar o assunto completamente
Alexandr Rodchenko, 1928, Caminhos para a fotografia contemporânea


Em um estreito corredor de paredes vermelho-sangue e iluminação abafada, um pequeno sinal pendurado em um quadro de vidro nos alerta: “Da Moscou mercantil a Moscou socialista”. A seguir, misturadas a recortes de jornais e revistas, colagens e documentos, é possível observar imagens realmente capazes de materializar o clima dos primeiros anos que levaram a Rússia, de país czarista e pobre, à potência socialista emergente do século XX. Trata-se da exposição em cartaz na Pinacoteca do Estado Aleksandr Ródtchenko: revolução na fotografia, homenagem a um dos maiores fotógrafos mundiais e o pai da imersão da vanguarda construtivista na fotografia.


O entusiasmo dos primeiros anos da revolução socialista é sobretudo registrado através do cotidiano dos trabalhadores, das inúmeras obras – com destaque para uma série de fotografias que revelam detalhes da construção do canal que liga o mar Báltico ao mar Branco - da exaltação às manifestações públicas e às praças sempre cheias de gente. Para além de sua ousadia na forma, que abusa de ângulos diagonais, de fotos de baixo para cima e de cima para baixo, o grande trunfo da exposição é realmente nos remeter a uma época e a um clima inimagináveis para alguém nascido e crescido no ocidente capitalista.


Apesar do esforço e cansaço de fotografias de mulheres trabalhadoras, de homens carregando grandes toras de madeira ou descendo de andaimes, é curioso contemplar a exaltação do homem comum nos trabalhos da primeira fase de Ródtchenko e se perguntar: mas como é possível praças sempre tão cheias? Em especial, ao se deparar com a capa de uma antiga revista soviética, Soviet Life, é de se perguntar: calma, o que estaria nas páginas de uma revista de massas socialista? O que pensava daquilo uma mulher que carrega o filho no colo enquanto sobe um grande lance de escadas? Sobretudo, somos tomados pelas divagações.


Com o espaço público sempre tão lotado, será que logo depois do almoço, antes de uma cochilada gostosa, era um costume levantar-se da mesa, pegar uma bicicleta e ir em direção à praça vermelha, mesmo sem saber do que se trata, e reunir-se na próxima manifestação ou encontro coletivo? Como se completava o espaço de tempo entre uma manhã e uma noite em um país em plena convulsão socialista?


Terminada a euforia dos primeiros anos, é com apreensão e um progressivo mal-estar que assistimos o trabalho de Ródtchenko passar a registrar eventos especiais de massa, desfiles com garotas vestindo shorts curtos e segurando bandeiras, demonstrações do numeroso exército vermelho que acompanhavam a crescente militarização do país. A partir desta segunda fase, vemos um gigante já estabelecido e é com ar de enrijecimento e frustração que podemos captar a atmosfera dos últimos trabalhos do fotógrafo como grande mestre da fotografia russa – com o advento do stalinismo, Ródtchenko, como Marc Chagall e outros grandes artistas russos, passa a sofrer perseguições, é privado do direito de participar de exposições e é expulso do sindicato dos artistas russos. Diante de tal condição, acaba doente e as últimas fotografias que compõe a exposição da Pinacoteca nos dão conta do resultado da perseguição stalinista: imagens solitárias e frias do inverno na região da Karélia. Vale a pena ressaltar, para espanto de quem não possa comparecer à exposição, a data dessas últimas fotografias: apenas 1933.


Em seu diário, Ródtchenko deixou o registro de sua frustração com a arte política da antiga URSS: “Arte é serviço para o povo, mas o povo está sendo levado sabe Deus para onde. Eu quero levar o povo à arte, não usar a arte para levá-lo a lugar algum. Terei nascido muito cedo ou tarde demais? A arte deve estar separada da política”.

Um comentário:

Carlos Nicola disse...

Muito bom! Interessante essa última frase entrando em contato com o fechamento do Manfifesto escrito por Trosky e Breton:

O que queremos:
a indepedência da arte - para a revolução
a revolução - para a liberação definitiva da arte