quinta-feira, 26 de maio de 2011

No Rio e na infância

Caminhávamos pela praia.

Era o final de tarde e o sol, fraco, estava amarelo e a brisa, úmida e com areia, remexia seus cabelos duros e salgados. Frisados. Pessoas andarilhavam pelos lados; felizes, com suas crianças, olhares amistosos e vontades atiçadas - sentindo-se bem. À frente, o lançamento de um livro, poucos senhores e algumas senhoras se deslocando no espaço amplo à beira-mar.

À revelia, as montanhas, o clima, o cheiro de um Rio que resiste e que retoma a infância, os sonhos e as sensações. Àquelas, antigas, dos garotos de havaiana, bicicleta e sotaque forte; a mesma das meninas, desenvoltas, espertas, tão cariocas.

Uma gota escorre pelo peito e é interrompida pela corrente no pescoço.

Sobretudo, ali, no meio escondidas, as minhas sensações. Bem guardadas, devidamente lapidadas e ousadas, sentidas, sempre, internamente. E intensamente.

Noites bem dormidas em férias tão bem aproveitadas ao calor da manhã e a rapidez de lanches mal comidos. Sempre, entremeios, o obscuro. As discussões até tarde da noite; já não aguentava mais e, quando o gato se aconchegava em sua cama, íamos dormir. Tantas certezas com a vontade de me amalgamar à praia, à calçada carioca, de viver a mpb, a bossa e a preguiça.

É sobre girar e dar as mãos que estamos falando aqui. Ou andar, na praia e ao vento. Ao som. Firme, teimoso, mas belo. Lento, que é para durar na memória e não nos deixar na vontade.

E sim, isso não é fragilidade, nem vulnerabilidade. É memória e é onda, que vem grande, quase nos ultrapassa, mas se fura, assim, como quem coloca o dedo no açucar.

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