terça-feira, 7 de junho de 2011

Carta do Tulio

Santiago, Chile. Agosto de 73

Mamãe, mamãe Marieta, Seniro e demais, como vai você?

Aqui nós vamos vivendo como podemos. A situação vem se tornando cada vez mais difícil. Há uma crise econômica bastante séria, com uma inflação cada vez maior. O Chile está sendo boicotado tanto externamente como internamente. Esta situação, patrocinada pela direita, vem se desenvolvendo e com perspectivas de gerar uma crise política.

Alguns setores já estão se articulando para tentarem uma saída através de um golpe militar. Bem, se juntarmos a tudo isto a falta de alimentos e a dificuldade de consgui-los, faz com que não possamos ter segurança total para os próximos meses. Guerra civil e uma perspectiva que se comenta em cada esquina, em cada diário, em cada boca de chileno.

Para aumentar nossos problemas, acabamos por perder nossa empregada e o difícil agora é conseguir uma com a mesma confiança que tínhamos na que perdemos.Tive que pedir alguns dias de folga no trabalho para superar as dificuldades. Tomando em conta que Naná está em época de provas na universidade e que não pode perder o semestre, para não atrasar ainda mais sua formatura, e que não pretendemos que ela abandone os estudos, decidimos discutir bastante e resolver algumas coisas.

Uma delas foi a de mandar provisoriamente Flavinha para o Brasil. Ela irá com a mãe de Naná que veio passar alguns dias aqui e vai aproveitar a viagem para fazer um exame num mianjioma (não sei se é o nome é este mesmo) que tem na cara. Vai ser examinada por médicos em S. Paulo e que são autoridades no assunto. O tempo de permanência de Flavinha no Brasil será determinado pelo tratamento e pela melhora da situação aqui no Chile.

Nós não queremos nos afastar dela, já conseguimos superar uma fase difícil, que foi criá-la até um ano, e se vamos nos separar nesta fase é porque racionalmente vimos e pesamos as dificuldades que ela poderia passar, tanto materiais, como assistenciais. Mamãe Marieta e Tania se ofereceram para cuidá-la. Vou discutir com Naná e ver o que podemos fazer. No momento atual vai ficar com a mãe de Naná, o que vai ser facilitado inclusive pela estada dela no Chile e irá levá-la pessoalmente para o Brasil.

No mais, Flavinha está bem, um pouco resfriada, mas bastante esperta, embora não esteja andando ainda, muito mais por culpa nossa que não conseguimos um sapatinho apropriado para ela, já que possui bastante equilíbrio e poderia estar andando. Fala bastante, embora numa língua que ninguém compreende. Fala papá, mamá, tchau, e outras besteiras. Papá e mamá ela fala mas parece que não compreende totalmente o significado.

Com respeito ao envio de coisas, pode parar de enviar fósforo e cigarro. O principal é mandar arroz e pasta de dente e como passaremos a comer a maior parte das vezes fora de casa, não necessitaremos mais de outras coisas. Qualquer necessidade mandaremos dizer. Eu vou telefonar para casa de mamãe Marieta no dia 6 de setembro, como combinei com ela. Aguardem.

Tania me telefonou e foi para mim uma grande alegria já que não ouvia sua voz há muito tempo. Parece que está bem e já me deu seu endereço em S. Paulo. Mamãe, soube que você fez uma plástica. Como está passando? Ficou bem.Mamãe Marieta, como vai a clínica e S. Conrado?Seniro, como vai o Flamengo e as peladas?

Um beijo, do Tulio.

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Essa foi a última carta que Tulio Quintiliano escreveu, antes de ser executado no Chile, quando do golpe de Pinochet. Tulio era brasileiro e exilara-se no Chile depois do aumento da repressão política da ditadura brasileira. Partilhamos do mesmo nome e de algumas cositas más.

Um comentário:

Carlos Nicola disse...

Muito bom! Fiquei curioso.