segunda-feira, 13 de junho de 2011

Segunda carta

Paris, 25 de agosto de 1975

Caro seu Otávio


Aqui estou eu de volta de férias - um pouco feita a negócios e outro pouco à guisa de descanso; Portugal é realmente um país maravilhoso - é incrível a semelhança com o nosso Brasil! A gente se sente muito à vontade num clima geral muito pouco europeu-desenvolvido. Foi bastante proveitosa essa viagem - além de ter conversado muito com Paulo, deu pra resolver uma série de coisas.


Em primeiro lugar e o mais importante foi eu ter me decidido a não ir morar por lá. Explico: hoje o que está condicionando todas as minhas decisões é a vinda da Estela e a possibilidade de mantê-la comigo. Em sendo assim, se pelo lado econômico Portugal apresenta possibilidades concretas - não haveriam grandes problemas em conseguir uma vaga como professora de Sociologia ou mesmo Economia em uma universidade portuguesa, o clima geral em que vive o país não é o mais indicado para se pensar em termos de começar vida nova.
[A Revolução dos Cravos em Portugal acabara de dar fim à ditadura de Salazar]

Por esse motivo, hoje, 2ª feira, inicia-se vida nova aqui mesmo em Paris. Isso representa concretamente procurar emprego, depois disso conseguir uma casa e esperar ansiosamente a chegada de Estela. É uma pena que aqui na França não exista possibilidade nenhuma de a partir de agora já me lançar num emprego mais condizente com os estudos feitos [...] Estou pensando então num emprego qualquer que me permita ter Estela em 1º lugar e se possível e na medida do possível meter bronca na escola. [...]
É por causa disso que decidi ficar em Paris e enfrentar essa terra que tem muito de hostil.[...]

Não sei se algum dia vou me arrepender pela decisão tomada e assumida ou se algum dia a própria Estela vai me julgar por isso - só sei que tudo isso faz parte do jogo da vida - e viver muitas vezes é perigoso - o negócio é não se acovardar perante a vida e creio que você sabe disso muito melhor do que eu. Tô assumindo minha vida, na qual Estela faz e é parte principal integrante.

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Todos os nomes citados são fictícios. Essa é uma carta das entranhas - de sentimentos, dores e sensações. Novamente um relato de exilados políticos durante a ditadura do Brasil. Pertence a algo que deve e poderá ser maior algum dia - em algum projeto de futuro. No entanto, é inevitável não achá-la bonita; principalmente o último parágrafo. Por isso a necessidade de compartilhá-la aqui, nesse cantinho. Quem quiser saber mais, vamos pro bar!

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