quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre a Marcha da Maconha, Sobre Drogas

Sim, tenho um interesse escuso e vou declarar aqui: meu interesse é que os direitos individuais sejam defendidos nessa merda de país, em que crenças e dogmas religiosos se sobrepõem às leis. Nunca fumei maconha, nunca cheirei cocaína, nunca injetei nada em meu sistema sanguíneo a não ser para tomar vacina. Porém já deu no saco viver em um país em que impera a discriminação, o preconceito e essa mentalidade absurda de se intrometer na vida dos outros, seja proibindo o direito exclusivo da mulher gestante ao aborto, seja proibindo o direito da pessoa a sua própria eutanásia, seja discriminando contra pessoas com orientação sexual e religiosa contrária aos "valores" (diga-se de passagem IMORAIS) do cristianismo. Esse país é uma piada de muito mal gosto.

Comentário de uma leitora referente à pergunta do jornal Estadão: "Após a decisão do STF, próximo passo é legalizar as drogas?"


Faço das palavras dessa leitora, as minhas. Também nunca usei nenhum tipo de droga e, para começar, gostaria de chamar atenção para todo o peso desse termo, droga. Quem pode definir o que é de fato uma droga? Eu acho miojo uma droga, sabonete líquido também, assim como religiosidade e alienação. Quase me esqueci: sanduíche com alho frito. Puta droga! Mas isso sou...eu.

E sempre me relacionei com pessoas que usam frequentemente algum tipo de droga. Apesar disso, nunca quis de fato usar alguma droga. Por motivos diversos: conhecidos que acabaram se dando mal depois de algum tempo de uso, uma necessidade maior de entusiasmo no real, uma vontade de fazer coisas bacanas de corpo inteiro, sem a necessidade de algo que pudesse me deixar mais "confortável" - como o álcool institucionalmente deixa as pessoas mais livres para encararem seus desejos; e isso é inclusive estimulado a todo momento.

O debate em torno da proibição ou não do uso de drogas camufla um outro debate que diz respeito, essencialmente, às relações sociais dominantes no mundo de hoje. Por que tantas pessoas usam drogas potencialmente letais, como heroína ou crack? Quem são essas pessoas? No caso do crack, a que classe social pertencem? Qual é sua estrutura familiar, seu acesso a oportunidades e a informações? Que tipo de vida levam? Acima de tudo, a que se resume hoje o valor da vida? O valor de viver, de existir, a troca entre cada ser humano? Ela existe de uma maneira satisfatória na maioria das relações que travamos no trabalho, em casa, com amigos, com namorados, paqueras, ficantes? E se não existe: por quê não existe?

Por outro lado, como explicar um dado sintomático da hipocrisia reinante no debate sobre drogas como o fato de os EUA serem o maior país consumidor do mundo e, incrivelmente, todas essas toneladas dos mais variados tipos de droga entrarem por suas fronteiras quando sabemos se tratar de uma das fronteiras mais vigiadas do mundo, aonde centenas de mexicanos são pegos e deportados todos os meses?

Se o debate sobre uso de drogas for para ser levado a sério, que comecemos por esclarecer esses fatos: a indústria do tráfico é uma multinacional das melhores equipadas, envolvendo centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro, trabalhadores explorados em latifúndios como os do Mato Grosso do Sul, engravatados nos Senados e nas Câmaras de muitos países - peço desculpas por ignorar por completo aqueles que insistem em acreditar que "líderes" do tráfico vivem com seus celulares milagrosos em prisões no interior de São Paulo ou em moradias precárias no morro - empresários e executivos que cuidam muito bem de toda a rede de distribuição e transporte de sua mercadoria. Porque é isso, o termo que devemos usar, para como sempre não fugir do macro, é mercadoria.

Enquanto isso, o debate reinante é a criminalização maniqueísta do consumidor, que, levado de maneira tão leviana, chega à brilhante conclusão de que a culpa pelas mortes inocentes no morro é de quem consome drogas. Consumidores existem e sempre existiram ao longo da história da humanidade. O que não se quer - e não se pode - enxergar é o fato de que há interesses lucrativos muito maiores do que a vida de desassistidos e marginalizados no morro. E é muito mais fácil encontrar um bode espiatório do que se chegar à real questão.

Manter a criminalização das drogas é interessante. Jogar a culpa em quem consome, livrando toda uma estrutura de poder que não vai perder seus clientes - que vão continuar existindo aos montes - é mais uma tática do jogo.

2 comentários:

Alice Agnelli disse...

Faço das palavras desse cara fantástico, as minhas.

Fontes disse...

Palavras, de fato.